Há algo de novo no Reino da Dinamarca

 

Há algo de novo no Reino da Dinamarca.

Lust For Youth são post-punk dançável. São electrónica cerebral com devaneios amorosos. São reverberações sombrias vindas de um lugar com tanto de inóspito, quanto de íntimo. E são ainda algo mais, apenas explicável na mundividência daqueles que, no sábado à noite, se deslocaram ao Musicbox para ouvir este trio nórdico.

Criado pelo sueco Hannes Norrvide, o projecto, com laivos de synthpop, destaca-se pela forma como concilia a linha lo-fi e gótica com uma estética romântica e rítmica. Oriundo de Gothenburgo, o músico vive agora em Copenhaga, lar de outras bandas como Iceage, Lower e Halshung, e faz-se acompanhar por Loke Rahbek e Malthe Fischer.

Juntos inserem-se num lote de bandas dinamarquesas, com cada vez maior dispersão, assente numa arquitectura sónica frígida, os seus traços cortantes e distanciados. Inclusos na selva de betão da capital, abrem portas ao mundo e ao abismo. É a lírica depurada e niilista que os marca, cravada numa matriz instrumental intimidante e soturna. Os músicos (adolescentes na sua maioria) parecem defender que fomos enganados, e que, no final de contas, talvez a Escandinávia não seja a região mais feliz do mundo.

Afinal, há sombras na terra do Sol da meia noite.

 

A abertura da noite ficou a cargo dos First Hate. Sintetizadores inquietantes e voz lúgubre marcam este duo, também proveniente da capital danesa. A aura de informáticos a quem colocaram um microfone nas mãos e uma tour mundial à porta, não foi, contudo, suficiente para gerar grande comoção na sala ainda por encher. Ainda assim, fazendo do inusitado cool, provaram, mais uma vez, que miúdos estranhos nem sempre dançam sozinhos.

 

Era já perto da meia-noite, quando os Lust For Youth subiram ao palco.

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O público dividia-se entre uma maioria curiosa, em silenciosa expectativa, e um pequeno lote de fãs, frenéticos e empolgados.

A banda, que já passara tanto por Lisboa, como pelo Porto, apresentou-se coesa e compenetrada. Hannes enfrentava o público num misto de displicência e de um auto-controlo, que não deixava de ser palpitante. Rosto pueril, maçãs do rosto emaciadas, num trejeito à Morrissey, e pose desprendida compunham a restante personagem cénica. Ladeavam-no o guitarrista de anorak e capucho (canhões de fumo até nórdicos arrepiam) e o teclista, incógnito por detrás do estandarte da banda.

Os temas ecoaram pelas paredes sólidas da sala que, com as suas luzes esbatidas e clima austero, se tornou no local ideal para receber o grupo. As composições foram intoxicantes, densas e com a melancolia por batuta.

O vocalista, qual Ian Curtis homoerótico, tecia vitrais para uma alma dolente. A sua magreza obscena e sinuosa, expunha os caminhos labirínticos de um coração oblíquo. Como testemunhara em Junho de 2014 à Wondering Sound, era ele “no bem e no mal, tanto apaixonado como pungente” o mote das canções. Mergulhou-se, assim, no vazio, assistindo à apologia de que o amor é bom (s)e fodido.

Ao longo de cerca de 45 minutos, os três elementos tocaram músicas do seu último álbum Compassion (incluindo uma interpretação especialmente tocante de “Sudden Ambitions” ), bem como malhas antigas ( “Illume”, “Running” e, naquele que foi o momento da noite, “New Boys”).

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Em geral, os Lust For Youth conseguiram imprimir a sua forma e estilo. O concerto pedia, contudo, mais variedade na setlist, bem como uma sala mais cheia, para escutar estes temas que cheiravam a amor e cigarros.

E a noites de insónia, logo esquecidas.

Ao contrário desta.

 

Texto: Gil Gonçalves

Fotos: Tomás Monteiro

 

[Este artigo não segue o acordo ortográfico]

Old Jerusalem e o “aceitar das coisas como as coisas são”

São quase dez da noite e Francisco Silva (Old Jerusalem) não consegue encontrar o seu carro. Sigo-o, percorrendo em debandada todos os pisos do parque subterrâneo, na esperança de recuperar a viatura estacionada há muitas horas, no começo de um extenuante dia de contacto com a imprensa.

O músico portuense recapitula metodicamente a sua viagem prévia, jornada que só terminará já de madrugada quando regressar à sua cidade natal, e se preparar para mais um dia de trabalho enquanto economista. Quando, finalmente, a nossa procura é lograda, oferece-me simpaticamente um CD. Fica, assim, provado que mesmo para quem se move dentro de um horário e de uma profissão tão constringentes, há espaço mental para gostos paralelos, desvelos e esquecimentos.

 

Largas horas antes, encontramo-nos num café, no Cais do Sodré. Lá dentro, o ambiente luminoso e acolhedor contrasta com o fim de tarde de inverno; as vozes e conversas rechaçam o frio, espantando o doce negrume que se abate sobre Lisboa. Francisco está sentado ao centro, alheio a estas transformações que envolvem a sala, lendo Patti Smith e aguardando estoicamente a enésima (e última) entrevista do dia. Aqui, como na génese do seu projecto artístico, cimentado a passos curtos e ao longo de mais de uma década, parece cómodo e pragmático.

De facto, é a aceitação do rumo natural das coisas – e não a sua imposição – que pautam o seu estabelecimento enquanto músico profissional, como explica: “Não sou uma pessoa movida por ambições desmesuradas, as coisas acabaram por se direcionar neste sentido”. Sentido, este, marcado pela edição de seis álbuns, vários EPs e pela conquista de ampla admiração por parte da crítica.oj foto 2

 

Oriundo do Porto, desde cedo revelou um espírito com tanto de curioso quanto de diletante. Aos catorze anos, e ainda sem saber tocar qualquer instrumento, previu a composição futura de um disco. Essa promessa tinha, como adianta, mais de caricato que de profético, uma vez que só durante o seu décimo segundo ano de escolaridade, aprofundou o estudo de guitarra no Conservatório, ao mesmo tempo que prosseguia a área de Economia. Esta desmultiplicação temática vir-se-ia a revelar uma constante na vida de Francisco.

A Economia, que inicialmente era “um frete e uma rede de segurança financeira” acabou por se revelar um prazer. Por outro lado, “o que escrever canções implica é diametralmente distinto do que o que essa ciência requer, são mundos diferentes e que se desconhecem, mas que redundam numa base humana comum, o que torna a sua exploração tão interessante.”

Após a envolvência em projectos efémeros como o de uma “banda metal rudimentar” e um conjunto pop, decidiu gravar uma demo com material emprestado. O registo chegou aos ouvidos de Rodrigo Cardoso, membro dos Alla Pollaca, que começava a editora independente Bor Land. Dentro em pouco, os dois músicos procederam a uma parceria, bem como ao lançamento do EP dividido, Alla & Old. Alcançava-se, assim, a atenção dos media especializados e um sonho de adolescência.

Seguiu-se, em 2003, o álbum de estreia: April. Tido como um dos melhores álbuns do ano pela Blitz, apresenta um registo intimista com influências folk, uma beleza insustentável aberta em versos bem pensados.

Old Jerusalem, nome escolhido por causa de uma canção de Will Oldham, rapidamente se tornou num songwriter reputado, de qualidade lírica inegável. As palavras, e os que estas aportam, são uma prioridade, como explica entusiasticamente: “Não descanso enquanto não resolvo uma má linha. Há momentos em que comprometo o espaço sonoro para não enlutar a letra.”

Peço-lhe para desvelar o seu método de composição, proposta a que acede sem veleidades: “Dos sons, à palavra, à rima, à estrofe. A história é a ponte entra as rimas descobertas; a música é o mote, acolchoando a lírica que surge de brincadeira.”

Trata-se de um processo criativo pessoal que o músico, cabelos grisalhos e olhos cansados, sob lentes espessas, perscruta absorto: “É impossível distanciar-me de tal forma que ache as músicas muito boas. Não consigo auto convencer-me do impacto que a minha música possa vir a ter. Contudo, o processo justifica-se a si mesmo: a incapacidade da percepção total do seu conteúdo não o torna menos aprazível.”

Mais uma vez o autor encara com naturalidade a sua obra e o retorno que esta suscita: “Já me pacifiquei com a impossibilidade de prever matematicamente a atenção e a resposta do público.” E acrescenta: “O móbil não é o auto convencimento de grandeza! Há que respeitar o público e a forma como este interioriza o meu trabalho.”oj foto

 

A conversa dispersa-se por entre os meandros do elo criador-crítica. Francisco revela-se um interlocutor nato, dinâmico na sua contemplação vigilante do que o rodeia. Por entre golos de chá, perde-se a atenção às horas, mas ganha-se um melhor entendimento sobre um dos mais singulares cantautores portugueses dos últimos tempos: “A interacção entre produtores e consumidores de música deve assentar num respeito mútuo, pesando, contudo, mais as opções do artista. É um jogo onde o público e o padrão vigente não devem ser constrições. Em última instância, apesar de o critério de apreciação ser o do público, o artista é que manda e deve ter liberdade absoluta.”

No seu caso, o livre arbítrio levou-o A Rose is a Rose is a Rose, o seu trabalho mais recente, e que foi baptizado na sequência de uma frase de Gertrude Stein, remetendo para o “princípio da Identidade e o aceitar das coisas como as coisas são.”

Trata-se do sexto LP de Old Jerusalem e dá continuidade ao labor já iniciado, de forma coerente. Efectivamente, a ideia de Old Jerusalem é relativamente fechada e hermética : “Tem margem de manobra, mas contém uma essência que se deve manter.”

Excepção feita para a nova “colaboração âncora” de Filipe Melo que, ao tocar piano e orquestrações, “trouxe cores que não estavam na minha palete”, bem como as participações inauditas de Nelson Cascais, no contrabaixo, Petra Pais, na voz, entre outras.

Cria-se, desta forma, um álbum mais expansivo, percorrendo um vasto espectro sonoro, sempre orgânico e manejado com mestria. Francisco cunhou aqui “um espaço que deve condensar algo maior, com a fé que o ouvinte tenha experiências similares que tapem os buracos.” Respeita-se a natureza das coisas, o seu ritmo e moldes, “abnegando face ao alheio.”oj foto 3

 

Mais que confrontação, contemplação, num registo que pretende ser um olhar resignado sobre o mundo e o que o move. Pergunto-lhe se, face à situação política (à data, Marcelo Rebelo de Sousa assumia a Presidência da República), tem planos para explicitar uma mensagem política em temas futuros. Convicto, nega o intuito, tecendo paralelos com as raízes do folk, influência mais audível em Old Jerusalem: “O folk de outrora ambicionava uma maior intervenção social, a que o crescimento do género e da indústria tiraram congruência e genuinidade. Acho mais benéfico que cada um pense por si. Até porque tentar romantizar problemas políticos pode inibir a sua solução pragmática, colocando-a num patamar abstracto e impessoal. Os chavões de massas costumam ser falsos, prefiro uma comunicação mais íntima.”

Um diálogo pessoal, com um público que lhe é próximo, a retomar já neste mês de Abril (dia 8 no Maus Hábitos, no Porto, e dia 16 no Teatro Gil Vicente, em Barcelos).

 

Findo o nosso tempo, dirigimo-nos para o exterior do café. Por entre o breu, grupos encaminham-se em rebuliço para alguns dos bares e salas de concertos mais badalados da capital. Não posso deixar de me interrogar se Francisco aspira alcançar uma audiência mais abrangente. Seguro, confidencia, passos acelerados sobre a Rua cor de rosa: “Gostava que a minha música chegasse a muita gente, mas não me moldo a esse propósito. Ainda assim, não quero descambar num acto narcísico: edito para que me queiram ouvir e enquanto me quiserem ouvir!”.

Nós cá o esperaremos, ano após ano.

 

Gil Gonçalves

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico

Tay – A experiência que a Microsoft se arrepende de ter feito

No passado dia 23 de Março, a Microsoft lançou um novo serviço, de nome Tay. Tay é uma experiência na área da inteligência artificial.

tay

Tay é uma aplicação que teria como finalidade melhorar o serviço ao cliente no serviço de reconhecimento de voz da Microsoft. Numa fase experimental, Tay também interage com utilizadores do Twitter. E foi precisamente isso que correu mal.

O serviço lê tweets dos utilizadores e responde de acordo com os seus conhecimentos, usando algoritmos de inteligência artificial que lhe permitem emular o comportamento de uma rapariga “teenager”. Ou pelo menos era essa a ideia.
Tudo começou da melhor forma: os primeiros tweets passavam mensagens inofensivas como “olá mundo!”, “os humanos são fixes” ou “porque é que não é #DiaNacionalDosCachorros todos os dias?”.

hello_world  taySuperCool

Óptimo. Isto da inteligência artificial é giro. O que é que podería correr mal? Tay foi desenhada para aprender com o comportamento dos outros cibernautas – comportamento esse que nem sempre é o mais politicamente correcto. Não tardou até que Tay começasse a aprender calões e insultos genéricos. E, umas horas depois, foi lançada a primeira “bomba”:

tay-hitler

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Depois de mensagens antisemitas e impersonações do terrorista, perdão, candidato Donald Trump, a Microsoft parou o serviço temporariamente.

tay-byeO serviço demorou cerca de 24 horas a ser desligado e, por essa altura, o mal já estava feito. A Microsoft já se pronunciou sobre esta ocorrência, que descreve como um ataque por parte de “trolls”.

É curioso perceber o mecanismo que levou Tay a adoptar frases politicamente incorrectas. Os “trolls” não se limitaram a escrever frases para Tay repetir – o que fizeram foi um passo para além disso. Pensa-se que os “trolls” conseguiram guiar Tay para ler alguns recursos específicos na Internet que continham mensagens ofensivas.

Ficamos expectantes pelo regresso de Tay. Isto se a Microsoft tiver coragem para a ligar outra vez!