Old Jerusalem e o “aceitar das coisas como as coisas são”

São quase dez da noite e Francisco Silva (Old Jerusalem) não consegue encontrar o seu carro. Sigo-o, percorrendo em debandada todos os pisos do parque subterrâneo, na esperança de recuperar a viatura estacionada há muitas horas, no começo de um extenuante dia de contacto com a imprensa.

O músico portuense recapitula metodicamente a sua viagem prévia, jornada que só terminará já de madrugada quando regressar à sua cidade natal, e se preparar para mais um dia de trabalho enquanto economista. Quando, finalmente, a nossa procura é lograda, oferece-me simpaticamente um CD. Fica, assim, provado que mesmo para quem se move dentro de um horário e de uma profissão tão constringentes, há espaço mental para gostos paralelos, desvelos e esquecimentos.

 

Largas horas antes, encontramo-nos num café, no Cais do Sodré. Lá dentro, o ambiente luminoso e acolhedor contrasta com o fim de tarde de inverno; as vozes e conversas rechaçam o frio, espantando o doce negrume que se abate sobre Lisboa. Francisco está sentado ao centro, alheio a estas transformações que envolvem a sala, lendo Patti Smith e aguardando estoicamente a enésima (e última) entrevista do dia. Aqui, como na génese do seu projecto artístico, cimentado a passos curtos e ao longo de mais de uma década, parece cómodo e pragmático.

De facto, é a aceitação do rumo natural das coisas – e não a sua imposição – que pautam o seu estabelecimento enquanto músico profissional, como explica: “Não sou uma pessoa movida por ambições desmesuradas, as coisas acabaram por se direcionar neste sentido”. Sentido, este, marcado pela edição de seis álbuns, vários EPs e pela conquista de ampla admiração por parte da crítica.oj foto 2

 

Oriundo do Porto, desde cedo revelou um espírito com tanto de curioso quanto de diletante. Aos catorze anos, e ainda sem saber tocar qualquer instrumento, previu a composição futura de um disco. Essa promessa tinha, como adianta, mais de caricato que de profético, uma vez que só durante o seu décimo segundo ano de escolaridade, aprofundou o estudo de guitarra no Conservatório, ao mesmo tempo que prosseguia a área de Economia. Esta desmultiplicação temática vir-se-ia a revelar uma constante na vida de Francisco.

A Economia, que inicialmente era “um frete e uma rede de segurança financeira” acabou por se revelar um prazer. Por outro lado, “o que escrever canções implica é diametralmente distinto do que o que essa ciência requer, são mundos diferentes e que se desconhecem, mas que redundam numa base humana comum, o que torna a sua exploração tão interessante.”

Após a envolvência em projectos efémeros como o de uma “banda metal rudimentar” e um conjunto pop, decidiu gravar uma demo com material emprestado. O registo chegou aos ouvidos de Rodrigo Cardoso, membro dos Alla Pollaca, que começava a editora independente Bor Land. Dentro em pouco, os dois músicos procederam a uma parceria, bem como ao lançamento do EP dividido, Alla & Old. Alcançava-se, assim, a atenção dos media especializados e um sonho de adolescência.

Seguiu-se, em 2003, o álbum de estreia: April. Tido como um dos melhores álbuns do ano pela Blitz, apresenta um registo intimista com influências folk, uma beleza insustentável aberta em versos bem pensados.

Old Jerusalem, nome escolhido por causa de uma canção de Will Oldham, rapidamente se tornou num songwriter reputado, de qualidade lírica inegável. As palavras, e os que estas aportam, são uma prioridade, como explica entusiasticamente: “Não descanso enquanto não resolvo uma má linha. Há momentos em que comprometo o espaço sonoro para não enlutar a letra.”

Peço-lhe para desvelar o seu método de composição, proposta a que acede sem veleidades: “Dos sons, à palavra, à rima, à estrofe. A história é a ponte entra as rimas descobertas; a música é o mote, acolchoando a lírica que surge de brincadeira.”

Trata-se de um processo criativo pessoal que o músico, cabelos grisalhos e olhos cansados, sob lentes espessas, perscruta absorto: “É impossível distanciar-me de tal forma que ache as músicas muito boas. Não consigo auto convencer-me do impacto que a minha música possa vir a ter. Contudo, o processo justifica-se a si mesmo: a incapacidade da percepção total do seu conteúdo não o torna menos aprazível.”

Mais uma vez o autor encara com naturalidade a sua obra e o retorno que esta suscita: “Já me pacifiquei com a impossibilidade de prever matematicamente a atenção e a resposta do público.” E acrescenta: “O móbil não é o auto convencimento de grandeza! Há que respeitar o público e a forma como este interioriza o meu trabalho.”oj foto

 

A conversa dispersa-se por entre os meandros do elo criador-crítica. Francisco revela-se um interlocutor nato, dinâmico na sua contemplação vigilante do que o rodeia. Por entre golos de chá, perde-se a atenção às horas, mas ganha-se um melhor entendimento sobre um dos mais singulares cantautores portugueses dos últimos tempos: “A interacção entre produtores e consumidores de música deve assentar num respeito mútuo, pesando, contudo, mais as opções do artista. É um jogo onde o público e o padrão vigente não devem ser constrições. Em última instância, apesar de o critério de apreciação ser o do público, o artista é que manda e deve ter liberdade absoluta.”

No seu caso, o livre arbítrio levou-o A Rose is a Rose is a Rose, o seu trabalho mais recente, e que foi baptizado na sequência de uma frase de Gertrude Stein, remetendo para o “princípio da Identidade e o aceitar das coisas como as coisas são.”

Trata-se do sexto LP de Old Jerusalem e dá continuidade ao labor já iniciado, de forma coerente. Efectivamente, a ideia de Old Jerusalem é relativamente fechada e hermética : “Tem margem de manobra, mas contém uma essência que se deve manter.”

Excepção feita para a nova “colaboração âncora” de Filipe Melo que, ao tocar piano e orquestrações, “trouxe cores que não estavam na minha palete”, bem como as participações inauditas de Nelson Cascais, no contrabaixo, Petra Pais, na voz, entre outras.

Cria-se, desta forma, um álbum mais expansivo, percorrendo um vasto espectro sonoro, sempre orgânico e manejado com mestria. Francisco cunhou aqui “um espaço que deve condensar algo maior, com a fé que o ouvinte tenha experiências similares que tapem os buracos.” Respeita-se a natureza das coisas, o seu ritmo e moldes, “abnegando face ao alheio.”oj foto 3

 

Mais que confrontação, contemplação, num registo que pretende ser um olhar resignado sobre o mundo e o que o move. Pergunto-lhe se, face à situação política (à data, Marcelo Rebelo de Sousa assumia a Presidência da República), tem planos para explicitar uma mensagem política em temas futuros. Convicto, nega o intuito, tecendo paralelos com as raízes do folk, influência mais audível em Old Jerusalem: “O folk de outrora ambicionava uma maior intervenção social, a que o crescimento do género e da indústria tiraram congruência e genuinidade. Acho mais benéfico que cada um pense por si. Até porque tentar romantizar problemas políticos pode inibir a sua solução pragmática, colocando-a num patamar abstracto e impessoal. Os chavões de massas costumam ser falsos, prefiro uma comunicação mais íntima.”

Um diálogo pessoal, com um público que lhe é próximo, a retomar já neste mês de Abril (dia 8 no Maus Hábitos, no Porto, e dia 16 no Teatro Gil Vicente, em Barcelos).

 

Findo o nosso tempo, dirigimo-nos para o exterior do café. Por entre o breu, grupos encaminham-se em rebuliço para alguns dos bares e salas de concertos mais badalados da capital. Não posso deixar de me interrogar se Francisco aspira alcançar uma audiência mais abrangente. Seguro, confidencia, passos acelerados sobre a Rua cor de rosa: “Gostava que a minha música chegasse a muita gente, mas não me moldo a esse propósito. Ainda assim, não quero descambar num acto narcísico: edito para que me queiram ouvir e enquanto me quiserem ouvir!”.

Nós cá o esperaremos, ano após ano.

 

Gil Gonçalves

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico

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