Trumpmania

Demagogia a caminho da Casa Branca?

Quem ainda não ouviu falar de Donald Trump, o bilionário do sector imobiliário e celebridade da televisão que se prepara para ser provavelmente o candidato republicano às presidenciais nos EUA? Trump é, sobretudo, um entertainer, um homem que sabe o que tem de fazer para cativar a atenção da audiência.

Acontece que, neste caso,a plateia que o vê é o eleitorado norte-americano e o objectivo do espectáculo é a sua eleição. Ele é um produto da degradação da política norte-americana e, mais especificamente, da radicalização de um partido republicano que já não controla as suas bases. Criam uma representação distópica da realidade, incutindo medo e desconfiança, mas são incapazes de apresentar soluções para as mesmas, sendo por isso reféns do seu próprio radicalismo.

É nesse tipo de ambiente, à saída de uma crise económica e com uns media totalmente subjugados à força das redes sociais, que se geram as condições necessárias para o aparecimento de uma criatura política como Trump. É a antítese do establishment de Washington.
É o político que não é político, vem do mundo empresarial e tem uma língua afiada. Trump é um fenómeno alavancado pela Internet e pelas redes sociais.

O seu nome está quase sempre presente nas pesquisas relacionadas com a política e as presidenciais norte-americanas e uma rápida análise no Google Trends revela que o interesse em Trump apresenta uma tendência sempre crescente nos últimos anos e muito mais acentuada do que em qualquer outro candidato.

Evolução das pesquisas dos 4 principais candidatos relativa ao máximo da pesquisa de cada um
Evolução das pesquisas dos 4 principais candidatos relativa ao máximo da pesquisa de cada um

Quando se olha para as pesquisas relacionadas, enquanto para os outros candidatos grande parte das pesquisas envolvem os adversários e o partido pelo qual concorrem, Trump destaca-se com pesquisas associadas à sua riqueza, património, Twitter e esposa. A classe média que sofreu com a crise económica, mas sobretudo os trabalhadores brancos mais pobres que se vêem em trabalhos precários, vêem-no como um self-made man, alguém que está em total controlo da sua vida e idolatram-no por isso. Quando surge num comício, ele está a vender um produto, a marca Trump.

Investigar o tipo de retórica usado permite perceber por que razão o que diz pode ser tão apelativo. É narcisista, mas transmite presunção com uma autenticidade tal que persuade as pessoas que o ouvem a pensar nessa vaidade como algo fundamental na recuperação da grandeza da América (daí o slogan de campanha “Make America great again”). Mas vamos por partes:

      1. “Don’t” – é um dos verbos mais empregues. O uso de frases negativas é recorrente e está quase sempre associado a dois sujeitos: ‘’We” e “They”. O primeiro refere-se ao país e serve para destacar o suposto estado de fragilidade em que se encontra face a um mundo exterior mais feroz e competitivo. Serve para contrapor com a grandiosidade dos EUA dos anos 80 e 90, quando o país vivia um crescimento económico galopante e saboreava o pós-2ª Guerra Mundial e o colapsar da União Soviética.É vulgar encontrar frases que dão uma imagem de subjugação do país perante outras entidades, sejam elas países como a China, que desvaloriza a moeda para fazer concorrência desleal, como a Rússia, que tem como líder Vladimir Putin, uma figura forte que governa com mão de aço, obtendo sempre o que quer, em oposição à lassidão de Obama, ou como o Irão, que negoceia acordos nucleares e nas costas explora a credulidade do Ocidente para continuar a desenvolver armas nucleares; sejam elas movimentos ou fenómenos como a imigração e a incapacidade de controlar as fronteiras, e  o terrorismo.Todas estas questões são legítimas na sua génese e não devem ser por isso desconsideradas, mas Trump pega nelas e exagera certos aspectos para gerar indignação, receio e desconfiança. “We don’t know”, “We don’t have” são elementos que repete até à exaustão. Toda esta vulnerabilidade não existe por acaso e é preciso usar o segundo sujeito como o agente do mal. “They” refere-se não só aos democratas, mas a Washington (incluindo os seus adversários republicanos nas presidenciais) que se tornou um ícone da corrupção, incompetência e inércia da política norte-americana. Trump aproveita-se da imagem já presente para cavalgar a maré de descontentamento que o povo americano sente relativamente aos seus representantes.São “eles” os culpados, os senadores e deputados que prometem mundos e fundos, mas mal chegados a Washington parecem apanhados pela apatia e amarrados aos interesses de lobbys. Trump apresenta-se como alguém livre dessas correntes. O argumento do “sou rico, sou independente e por isso não preciso de tomar acções moralmente reprováveis” cai muito bem entre as pessoas que estão fartas do clientelismo de Washington.
      2. “Very, very” e “great” – A adjectivação para Trump baseia-se no abuso do superlativo absoluto analítico. “Very simple,hard,proud,sad,weak,upset…” são exemplos do que povoa os seus textos. Faz uso sempre de adjectivos simples, muitas vezes monossilábicos e quase sempre acompanhados de um ou mais “very” que acentuam o adjectivo. Um dos adjectivos mais usados é “great”, o qual costuma estar ligado à sua pessoa.

3. A linguagem do povo – Trump não tem um discurso adornado com palavras caras. Comunica as suas ideias em frases normalmente simples e curtas. Por vezes nem chega a terminar um determinado raciocínio. É capaz de interromper aquilo que está a dizer para fazer um comentário depreciativo sobre alguém, ou congratular-se pelo seu próprio sucesso.

Este ziguezague constante passa uma imagem de uma certa proximidade. Há até coreografias com o público. “Quem vai construir aquele muro?” grita Trump e respondem-lhe de volta “México!” ou quando Trump se vira para os jornalistas a cobrir o evento e os insulta, sendo acompanhado por vaias do público, são exemplos da comunhão que Trump e os seus apoiantes fervorosos partilham.

Conhecem todos os soundbites e repetem-nos, sendo sempre acompanhados pelo sorriso e encorajamento de Trump, que alimenta esta posição de intolerância.

4. “I’m” e “success” – Já apresentou a vítima, os americanos, e o culpado, os políticos, e descreveu o cenário distópico em que vivem. O que falta? O salvador que vai criar empregos para todos, acabar com a imigração e o terrorismo, resolver os problemas do Médio Oriente, e colocar China e Rússia no seu devido lugar.

As duas palavras andam entrelaçadas ao longo de todas as suas intervenções a tal ponto que se torna impossível dissociá-las. Trump é um nome forte e que se junta bem à forma agressiva como fala. Mesmo que lhe apontem falhas no raciocínio, nunca vacila e torna-se mais hostil. Se alguém tenta contrariá-lo, foge ao assunto e rapidamente ostraciza o indivíduo.

Ele consegue sobreviver à sua ignorância, porque logo no instante a seguir ataca quem lhe fez a acusação. Depois disso, a imagem que fica é a incapacidade de quem o acusou de lhe responder de volta. Isto, porque raros são os jornalistas ou personalidades que estão dispostos ou sequer habituados a descer ao mesmo registo dele.

5. “Ad-e tudo” – Exemplos de ad hominem não faltam: seja um jornalista como uma deficiência motora que escreveu um artigo sobre o 11 de setembro e negou que houvesse muçulmanos a festejarem nos terraços dos prédios em Nova Jérsia, seja um rival republicano como Jeb Bush, que acusou de ser um miúdo mimado e estúpido.

Invariavelmente, o plano é este: se criticam as suas posições, furta-se ao confronto de ideias e passa para o insulto, adjectivando o seu opositor de marioneta, aborrecido, fraco ou, em último caso, acusa-o de deturpar as suas palavras, mandando-o reler/ouvir o que dissera.

Ad populum é também frequente. Quando quer dar força às suas ideias, inventa ou refere sondagens em que supostamente a maioria das pessoas concorda com ele. Se a maioria concorda, então só pode ser verdade. O que, reduzido ao extremo, se torna simplesmente em “votem em mim, porque eu sou popular. Porque sou popular? Porque defendo coisas populares”.

Trump sabe aquilo que as pessoas querem ouvir e depois, com a sua aptidão de vendedor, coloca um laço por cima e apresenta-lhes isso mesmo. Sem explicações, sem planos. O produto é apenas a promessa.

Ad baculum é também uma das suas favoritas. Qualquer discussão que não se resolva por ad hominem acaba com Trump a ameaçar através de coerção (física ou, por exemplo, através de processos em tribunal) o seu opositor. Dá uma oportunidade para projectar a sua força e parecer dominante num confronto que era inicialmente ideológico.

Ad verecundiam, por último, é parte integrante da forma de estar de Trump. Fala como se fosse uma autoridade inquestionável no mundo dos negócios e isso lhe desse capacidade para falar sobre tudo. Estamos a falar de alguém ao nível de um deus na terra. Os argumentos de autoridade surgem frequentemente e facilitam-lhe muito o trabalho.

Se ele for bem sucedido em apresentar uma imagem de sucesso e infalibilidade, então basta-lhe depois fazer afirmações sem qualquer necessidade de as sustentar. “Acreditem em mim”, “Eu digo-vos isto”, são exemplos da estrutura base que usa para este tipo de falácia.

Quando Trump diz que será “o melhor presidente criador de empregos que Deus já criou. Eu digo-vos isto” e depois é interrompido por aplausos entusiásticos, todo o trabalho que empregou na criação da marca apresenta os seus resultados. Se isto fosse dito por outro rival republicano teria o mesmo impacto? Muito provavelmente não, seria visto como uma fraca tentativa de conseguir votos.

Trump é uma personagem dos tempos e não é algo exclusivo do outro lado do Atlântico. É um sintoma da incapacidade dos políticos e da própria democracia em responder às necessidades dos seus cidadãos e ao mesmo tempo adaptar-se a um mundo globalizado que é muito diferente daquele em que as nações ocidentais se formaram. A ascensão surpresa de Trump diz-nos também quão incapazes somos de prever o futuro e, ainda mais, de reagir às mudanças, sendo prontamente engolidos pela avalanche de acontecimentos. Muito provavelmente Trump não será o próximo presidente dos EUA, mas ficará para a história como um “palhaço” do circo televisivo foi capaz de, por alguns momentos, acreditar que era possível sentar-se numa das cadeiras mais importantes do mundo.

This Glorious No Age

Após um hiato, os Youthless voltam à carga.

This Glorious No Age é o primeiro LP do duo, sucedendo aos Eps Telemachy e Monsta. Trata-se de um registo fervilhante, camadas e camadas de densos instrumentais sobrepondo-se em lancinante tensão. É um disco onde a banda mostra que o ruído, tal como as palavras, não deve ser gasto em vão.

 

Meses antes [a entrevista pode ser lida em http://diferencial.tecnico.ulisboa.pt/2016/01/13/youthless-e-a-evasao-pela-arte/],numa tarde ressacada de Outubro, Alex (voz e bateria) havia-me exposto parte do conceito artístico subjacente ao álbum:

“Retrata as minhas experiências pessoais de uma forma não filtrada. Não é arte didáctica, porque não tenho nem o direito, nem o conhecimento para apontar uma direcção. Não é um lamento ou uma lição, mas creio que tem uma componente social implícita, como toda a arte. É uma obra contemplativa, que descreve a viagem desde o mundo pré-eléctrico até ao caos tecnológico moderno. “

De facto, This Glorious No Age apresenta-nos uma experiência itinerante , impressões vigilantes da desordem quotidiana. Ao longo de faixas como “Sail On” e “High Places”, expõe-nos uma realidade que sempre vimos, mas em que não reparámos.

O álbum funde momentos catárticos e tumultuosos (de que “Skull and Bones” e “Lightning Bolt” são exemplos) com interlúdios ominosos, de synths em aflitivo desvario (em “Pale Horse”, por instância, a internet faz-se som, e presenciamos o transe sónico do ultra-moderno).

this gloriousAo riff distorcido e estrepitante de “New Wave Suicide” opõem-se as vezes reminiscentes do plano onírico, em “Silver Apples”, e ao refrão cristalino de “High Places o pranto pungente de “Holy Ghost”.

 

“Só agora estamos a sentir as ramificações da invenção da electricidade, pois a tecnologia superou a capacidade de assimilação psíquica do ser humano. Este disco é a minha observação resignada desta montanha russa de eventos babélicos.” Eventos estes que, afirmara, “não importa definir como bons ou maus. É mais importante compreender que catalogar ou adjectivar. Trata-se de um álbum muito influenciado por Marshall McLuhan.[um dos fundadores da teoria dos Media e quem cunhou os termos global village e the medium is the message]”.

 A composição assume a sua maior expressividade em malhas como os singles “Golden Spoon” e “Attention”. No primeiro, reverberações primárias alertam a hecatombe. A bateria pujante dá o mote, acompanhando o refrão que não resistimos a cantarolar, em concordância com o fim inevitável. É um hit que não foge, contudo, á matriz ruidosa que os caracteriza. Os breaks tombam em massa, antecipando o feedback, término animalesco de veia noise à No Age (duo americano).

De realçar, ainda, “Black Keys White Lights”, onde fazem do barulho, belo. Nesta música, os coros infantis (os próprios filhos do baixista Sab foram os ilustres convidados) vaticinam a transformação premente, em irónica afronta.

“O meio eléctrico descentraliza tudo, dá espaço e credibilidade a todas as vozes e perspectivas e, por isso, desaglomera o poder”, frisara Alex. “A desilusão colectiva com a política irrompe. A verdade é relativizada. Vivemos numa era onde a informação mudou a natureza das coisas.”.YouthlessTGNA

 

É com esta estratificação ideológica em mente que, em “Lucky Dragons” – canção belíssima que encerra o projecto – saltamos no vazio, após a quebra súbita na muralha sónica.

Lúcidos mas não menos alienados, convencemo-nos de que as horas se gastam. Resta-nos contar minutos e desfrutar de bandas como esta.

Afinal, por muito que o recado fatídico incomode, quando os mensageiros são desta qualidade, merecem ser poupados.

 

 

–Single “Golden Spoon”: https://www.youtube.com/watch?v=PkSWyuhrYGQ

–Os Youthless tocam dia 8 de Julho no Optimus Alive.

 

 

Gil Gonçalves

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Architecture Trials: Joshua Florquin

Joshua Florquin is an Architect, graduated in 2008 from Sint-Lucas Architectuur, having spent an year on Erasmus in Roma Tre University as well. He moved to Paris afterwards, where he worked for a few architecture offices like Architecture Studio, Local Architecture Network – a young office, very socially involved, which he still talks about very enthusiastically – and H2O, before founding his own office in 2014.

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In recent times he received some attention over his design of the barbershop Les Dada East, inspired by the ecological policies of the store. On a Sunday morning, we chatted over his methodology and architecture education in our modern but not very sustainable societies.

What are your major concerns when designing?

Personally, I try to design with a social and psychological approach. I think Architecture can’t only be a pragmatic discipline that answers to functional and economic problems, it should also be a discipline that absorbs social, economic, political and cultural changes of humans and their environment and then achieve solutions that are innovative and can stand the test of trend and time. When starting a project I start with the context: urban, architectural and with particular focus on the user. How a specific building can influence the interaction with its user in a positive and functional way. I would say this method is important in my work.

As someone who is now directly responsible for his own projects, and also as a former student, what do you think might be missing, or might be at fault, in contemporary architecture teaching?

I don’t like to criticize, mainly because I think it’s not my place. If I have to answer I’ll say that you have to find a balance, even in education.

Some schools that are very academic and technical, such as the Politecnico di Milano where I met other students during my stay in Italy, were, in my opinion, rather focused on construction techniques. When you’re an engineer or an architect that aspires to build immediately those abilities can definitely be useful.

Sint-Lucas in Gent for example, where I studied, is a school that focuses a lot on concepts. It was the main criteria to present a project. With well funded thoughts on why you were making certain design decisions. I was very glad with this pedagogic approach. In my opinion, and this is of course related to my education, I think it’s important that they give students freedom to come up with new ideas that might even seem strange to us now, but that can be innovative in the future.

It’s necessary to have a technical background, but in my opinion that is secondary. Techniques are evolving very quickly in construction. You learn while working on projects on a professional level. When you’re a student I think it’s more important to develop the brain in a way that capacitates you to develop new ideas who can change the way we live and use space. Nonetheless, technique is very important and that’s why I advocate a strong collaboration between architects and engineers.

I would say that, ultimately, when studying, you should ask yourself what is important to you: whether you aspire to construct immediately with academic technical knowledge, or whether you aspire to come up with new ideas and collaborate with other engineers to achieve those concepts. It’s about finding a balance between those options and knowing what you want to achieve in the future.

Since you started working by yourself you’ve made a fair amount of projects and also got a fair amount of recognition with your Les Dada East. Can you tell us a little bit about how you started?

In 2014 I started with apartments and interior design. It’s true that Les Dada East became quite iconic because it ended up having a lot of attention online and also on magazines in China, South America and now in Europe [on its way to be published now in Architecture Digest]. Maybe it’s the project that got the most attention because I did some PR for it, and for the others I didn’t. I guess it became an important project for me simply because it’s quite appealing and I’m quite happy with it.

Who are your major influences?

That’s actually a hard question because of course an architect likes to say he has no style, and I would like to say that too, but that’s not true because we all have a style and are influenced by other architects.

If I have to say some architects that influence me I’ll go way back and say a big one like Frank Lloyd Wright just because I like integrating nature in my designs. It’s not really true that he influenced me because in the end my architecture is very different from his, but I like his ideas. All architecture that integrates the user and its contexts appeals to me.

I don’t like architects like Calatrava, for example, because of how they do these formalistic approaches or how they repeat themselves. I don’t like styles you recognize every time, that don’t change. That kind of building is an object, it’s not a building that lives in its context.

 

Entrevista – Roberta Medina

A entrevista que se segue é da autoria de Inês Mataloto e Gil Gonçalves, e foi feita no âmbito da comemoração dos 30 anos de existência do Rock in Rio. A Roberta Medina, Vice-Presidente Executiva do Rock in Rio, partilha um pouco do que tem sido a história deste festival de música.

Rock-in-Rio

 

  1. Este ano, o Rock in Rio celebra 30 anos de existência. Quais considera terem sido os pontos mais marcantes de todo o processo de desenvolvimento do festival até agora?

Realizar a primeira edição do evento no Brasil, “contra tudo e contra todos”, e reunir 1.380.000 pessoas em dez dias de música e em paz. Conseguir pôr o Brasil no mapa do entretenimento mundial. Ser o primeiro festival de música organizado do mundo e tornar-se uma referência internacional. Os três minutos de silêncio Por Um Mundo Melhor em 2001, que tiveram impacto em 90 milhões de pessoas ao mesmo tempo através dos meios de comunicação. A estreia do evento em Portugal, provando que o sonho da internacionalização era viável. A estreia nos Estados Unidos, levando novidade na forma de fazer e na oferta do evento, mesmo para um mercado tão forte na área do entretenimento como o americano.

 

  1. Roberto Medina criou, celebremente, o festival após uma discussão com a esposa, onde esta o espicaçou dizendo que “não tinha ainda feito nada de realmente grande no seu país”. Três décadas corridas, o que ainda vos motiva, não só a voltar ao Brasil como a expandir fronteiras e palcos?

O que nos motiva é o facto de criarmos um movimento global Por Um Mundo Melhor. É usarmos a música como plataforma para mobilizar pessoas por todo o mundo por uma mesma causa. Nós sentimos o poder das pessoas unidas a cada espectáculo, sentimos que aqueles milhares de pessoas cantam juntas. Queremos fazer com que essa força seja usada para construirmos, juntos, uma sociedade mais harmónica.

 

  1. Como surgiu a ideia do Rock in Rio e como foi todo o processo de preparação para a primeira edição?

O Rock in Rio surgiu de uma visão do Roberto. Como o próprio costuma dizer, o Rock in Rio é que o procurou, e não o Roberto que o procurou a ele. O Roberto estava descontente com o país e, depois de anos de ditadura militar, ele queria fazer algo realmente impactante capaz de unir várias tribos para mostrar uma juventude forte, com liberdade de expressão. E queria também promover o Rio de Janeiro como destino turístico a nível internacional, já que nesta altura o Brasil não era um destino apetecível.

Mas depois de desenhar a ideia, rapidamente começou a perceber as dificuldades em executar a mesma! Na época, era muito complicado levar para o Brasil qualquer banda internacional porque custava o dobro do que levá-la a qualquer outra parte do mundo; o país não estava sequer preparado para um evento desta dimensão e não existiam infra-estruturas; os bilhetes custavam pouco e para financiar um projeto desta envergadura o Roberto sabia que era preciso angariar patrocinadores, o que era impensável nesta altura. Durante quase 70 dias o Roberto não foi bem-sucedido em nenhuma das suas abordagens. Teve que bater em muitas portas e levar muitos “nãos”. Foi então que se lembrou de usar uma última cartada, chamada Frank Sinatra. O Roberto tinha trazido o artista para atuar no Brasil e eles criaram uma relação, pelo que resolveu pedir a sua ajuda para conseguir promover um encontro com os grandes players do showbiz, para conseguir apresentar o Rock in Rio a agentes e artistas e cativá-los. A estratégia funcionou e, no dia seguinte, já diversos jornais divulgavam o evento!

O passo seguinte foi pensar em como conseguir investimento e atrair o público e foi aí que chegou ao conhecimento do Roberto que a Brahma, cervejaria, na altura cliente da agência dele (Artplan), queria aproximar-se mais do público jovem. E, como publicitário, o Roberto acabou por fundir as duas coisas e conseguiu, não só investimento para montar o Rock in Rio, como respondeu com o maior dos sucessos ao briefing da Brahma, que acabou por lançar uma nova cerveja e experimentá-la perante o público de mais de um milhão de pessoas!

 

  1. De que forma a legenda atribuída em 2001 (Por Um Mundo Melhor) ainda se reflecte nos ideais do festival?

Com o projeto “Por um Mundo Melhor” o evento assumiu o compromisso de ser mais do que música e entretenimento, passando a usar o seu mediatismo e a capacidade de mobilizar massas para sensibilizar as pessoas na construção de um mundo melhor. Isso passa por assumirmos causas sociais ou ambientais a cada edição, contribuindo ativamente com elas, e, acima de tudo, com vários exemplos que podemos dar através das nossas ações e escolhas.

Já investimos, desde 2001, juntamente com os nossos parceiros, mais de 24 milhões de euros em causas diversas; em 2006, o Rock in Rio compensou, pela primeira vez, a sua pegada carbónica, o que permitiu, em 2008, implementar um manual de boas práticas com vista à redução da pegada carbónica que, por sua vez, em 2010, evolui para um plano de sustentabilidade, integrando questões sociais e económicas. O Rock in Rio é, também, o único evento com a certificação na ISO 20121 – EVENTOS SUSTENTÁVEIS, desde 2013.

Na prática, todas estas ações resultaram em fatos concretos como: os resíduos produzidos tiveram, até ao momento, uma taxa média de reciclagem de 71%; até 2016 termos plantado cerca de 300 mil árvores; instalamos 760 painéis solares que geram rendimento permanentemente para projetos sociais através da Sic Esperança; doámos 15.632 refeições; compensámos as emissões de CO2 do evento, entre muitos outros resultados a nível nacional e internacional. Ou seja, para além das ações no recinto aliadas às preocupações de redução da pegada carbónica, reciclagem dos resíduos produzidos, entre outras, mantemos o nosso compromisso de contribuir para uma comunidade mais justa e equilibrada e apostamos na compensação dos nossos impactos e em potenciar os impactos positivos. Esta visão tem vindo a crescer e é um compromisso que faz parte do ADN da marca e do evento que é hoje internacional, tornando este compromisso também ele global, nunca esquecendo a nossa ação local a cada edição.

Agora estamos a lançar o Amazonia Live, o primeiro projeto transversal a todos os países onde o Rock in Rio está, e que se vai estender por mais de uma edição, até 2019. Com este projeto, o Rock in Rio compromete-se a plantar 1 milhão de árvores na Amazónia, o “pulmão do mundo”, mas tem como objetivo atingir os 3 milhões e, para isso, vai motivar parceiros e fãs a abraçar esta causa sob o mote “Mais do que Árvores, Vamos Plantar Esperança”. A Amazónia foi a zona escolhida porque tem impacto em todo o mundo uma vez que abriga a mais importante reserva de biodiversidade do mundo, tendo um papel fundamental na redução do impacto do aquecimento global.

 

  1. O Rock in Rio desde as suas origens que agrega multidões recordistas, tendo tido um enorme impacto nos amantes de música de todo o mundo. E a sua recepção pelos próprios músicos como foi? O que sente ao ouvir estrelas como James Taylor apontarem o festival como um momento transformador e singular?

É muito emocionante, é a prova concreta do poder transformador da música e do poder das pessoas unidas por um mesmo objetivo, força essa que atinge não só quem assiste mas quem faz. Antes do primeiro Rock in Rio só havia o Woodstock, e este tornou-se uma referência para muitos dos grandes músicos que estão em tournées hoje em dia, tendo sido o sonho de meninos que estavam a começar suas carreiras e que desejavam um dia tocar naquele palco. Ouvimos isso de artistas como os Metallica, 30 seconds to Mars e muitos outros.

 

  1. O festival foi palco de momentos tão díspares e caricatos como disparos de canhões, travessias de moto e beijos. É a imprevisibilidade o factor transversal à música ao vivo, que nunca a envelhece ou entedia? 

É a vontade de fazer as pessoas felizes! Nas 12 horas de festa que se vive na Cidade do Rock, em dias de evento, a nossa principal preocupação é para com as pessoas, com o seu bem-estar e o seu conforto. E é o facto de conseguirmos, num clima de enorme festa, fazer as pessoas conviverem umas com as outras, num clima de união e felicidade, que torna este evento único. A vibração que se vive na Cidade do Rock é demasiado forte para, algum dia, entediar!

 

  1. O que distingue o Rock in Rio Lisboa dos restantes?

Com certeza o Parque da Bela Vista, que é um ambiente natural único para acolher os milhares de pessoas que vão para curtir as 12h de festa em cada dia de evento. Outra diferença é o público português, que recebe os artistas de forma intensa e vibrante, além de ter um comportamento exemplar. A atmosfera do Rock in Rio Lisboa é muito especial, o clima que se vive na Cidade do Rock é o palco perfeito para fazer desta experiência algo ainda mais feliz e inesquecível.

 

  1. Qual a edição de que mais gostou? Porquê?

2012 foi uma edição que me comoveu muito porque o país estava num clima muito deprimido por causa da crise e o que se viveu dentro da Cidade do Rock foi exatamente o contrário. O Parque da Bela Vista tornou-se uma bolha de alegria que serviu para recarregar as energias e renovar a esperança de quem passou por ali e dos milhares de pessoas que acompanharam o evento pela televisão. Isso faz com que o nosso trabalho tenha um valor ainda mais especial.

 

  1. Qual o concerto a que mais gostou de assistir?

Ao longo de tantas edições é difícil escolher um só concerto. Afinal, já passaram pela Cidade do Rock cerca de 1.500 artistas. Mas houve um concerto que me marcou recentemente: o dos Queen com Adam Lambert, na edição de 2015 no Rio de Janeiro. Quando eles puseram um público imenso a cantar “Love of My Life”, em 1985, eu era muito nova e não assisti a esse momento mas ouço falar dele há 30 anos! Em  2015, eles voltaram e foi muito emocionante ver as pessoas a levarem as suas famílias para relembrar aquele momento. E agora eu também já tenho o “meu” Love of my Life! (risos)

 

  1. Qual a música que mais a comoveu?

Primeiros erros do Capital Inicial e Circo de Feras do Xutos & Pontapés.

 

  1. O que podemos esperar do Rock in Rio no futuro?

Enquanto marca, ser cada vez mais global e mobilizadora de pessoas em prol de um mundo melhor. Enquanto evento, continuar a liderar o nosso segmento no que cabe à entrega de qualidade, à inovação, à qualidade das infra-estruturas, das atrações e do line up world class que entregamos sempre ao público.

 

  1. O festival sempre se caracterizou por trazer os maiores nomes, os criadores de hits e tendências. Porque não apostar também em grupos menos conhecidos, divulgando-os de forma única?

Um dos aspetos diferenciadores do Rock in Rio desde sua primeira edição foi sempre misturar estilos musicais e talentos de renome com outros menos conhecidos. Pelo perfil do público do evento, a presença de grandes nomes tem que ser sempre maior. O Palco Vodafone, por exemplo, tem precisamente o objetivo de trazer para o evento artistas de um segmento mais restrito, o da música alternativa. Uma das grandes oportunidades neste caso é justamente dar a conhecer estes talentos – alguns já com grande notoriedade no seu segmento – para um público mais massivo.

Fizemos isso quando fomos um dos primeiros festivais a dedicar um palco à música electrónica, em 2001, quando ela ainda atingia apenas um segmento de nicho. O mesmo aconteceu no caso do Palco Raízes com a World Music em duas edições do evento, o Hot Stage que foi dedicado aos novos talentos em 2008, o Sunset que continua a promover encontros únicos de artistas de renome com novos talentos.

No Palco Vodafone, este ano, vamos voltar a receber grandes nomes internacionais como os irreverentes e eletrizantes Black Lips, o trio canadiano Metz, os brasileiros do rock psicadélico Boogarins, as espanholas Hinds e até uma das maiores revelações dos últimos tempos, os Real Estate. E a nível nacional, marcarão presença nomes como Keep Razors Sharp, Sensible Soccers, Capitão Fausto e até o conhecido por uma capacidade de produção surpreendente, B Fachada. Para além destes nomes, a opening slot deste palco ficará a cargo da Vodafone Wild Card – novos talentos na música portuguesa.

 

  1. Pela altura desta edição de 2016, os alunos do Técnico ainda estarão submersos em trabalho. Convença-os a largar os estudos pela música.

Faz uma pausa nos estudos e vem recarregar as energias no Rock in Rio-Lisboa! Festa, festa e festa, é isso que vamos oferecer a todos os que passarem pela Cidade do Rock nos cinco dias de evento. Desde o Palco Mundo ao Palco Vodafone, passando pela Eletrónica, com a novidade das pool parties, e pela Rock Street e Street Dance, o maior evento de música e entretenimento do mundo vai ter atuações únicas de artistas de topo, com hits que vão fazer toda a gente cantar e dançar da primeira à última música. E estamos prontos para vos receber numa Cidade do Rock ainda mais bonita, com muitas atividades e muita música boa!