Piscinas encerradas por tempo indeterminado

Este artigo é uma republicação da edição impressa de Novembro de 2015.

“Reabertura é um prejuízo que não podemos suportar até arranjar investimento para renovar as instalações” esclarece Rodrigo Barbosa, presidente da AEIST. O funcionamento e manutenção das piscinas são um prejuízo que a AE afirma não poder suportar neste momento e acrescenta que, sem soluções que viabilizem a abertura da piscina e sem um plano de marketing para atrair pessoas, as coisas não podem rearrancar.

Ao que consta, o mapa de utilização da piscina na posse da AE parece indicar que esta carece de utilização; um argumento adicional para o encerramento das mesmas. Rodrigo Barbosa explica que a concorrência é grande e que, ainda por cima, o comprimento da piscina (24,9 metros) fica 10 centímetros aquém do mandatório para poder albergar provas desportivas oficiais. Ainda assim, convém relembrar que, parte dos utentes, aqueles que tinham comprado entrada nas piscinas e delas não puderam usufruir, ainda não viu reembolsado o dinheiro usado na compra.

O último suspiro do complexo aquático deu-se aquando da visita da Direcção Geral de Saúde, em meados de Fevereiro de 2015. A inspecção acusou a necessidade de obras avultadas num futuro muito próximo, sem as quais a piscina não poderia continuar aberta. Perante a possibilidade de evitar algum do prejuízo que advém do seu funcionamento e antecipando o inevitável encerramento, a direcção da AEIST de 2014/2015 optou por, de forma inesperada para os utentes, encerrar o complexo.

Já no ano lectivo de 2015/2016, a nova direcção da AEIST, após concluir que não dispunha das verbas necessárias para a renovação dos equipamentos da piscina, contactou o Conselho de Gestão (CG) expondo o problema. A possibilidade de encerrar definitivamente as instalações e dar uma nova utilização ao espaço, que chegou a estar em cima da mesa, parece não agradar ao CG. Rogério Colaço, Professor e Vice-Presidente do IST, recorda os tempos em que ainda se faziam praxes na piscina e sublinha o valor histórico e tradicional do complexo aquático do Técnico, um dos poucos no país situado dentro de uma Universidade. Complexo esse que serviu durante muitos anos as necessidades dos seus estudantes e se tornou parte da memória do nosso Instituto. O Vice-Presidente esclarece que “até ao final do ano, o Técnico vai tentar perceber o que se pode fazer da piscina” e, referindo-se à utilização do espaço para outros fins, pediu à associação “que não torne já o processo irreversível”. Até ao final deste ano lectivo, o CG vai explorar alternativas para obter financiamento, entre elas tentar encaixar financeiramente o problema no orçamento da Universidade de Lisboa.

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A piscina passa assim a integrar o lote das instalações que não foram poupadas pela tão infame crise que assolou as universidades do nosso país. A estrutura está velhinha e precisa de obras de remodelação. Não será de admirar, tendo em conta que já lá se nadava na década de 40! Mas atenção, banhos só no Verão. No Inverno os custos do aquecimento eram incomportáveis e as instalações encerravam. Por força da necessidade, ou talvez apenas por agilidade de pensamento, não tardou até que alguém sugerisse utilizar o espaço, sazonalmente desocupado, para outros fins. Foi quando o Técnico adquiriu um estrado de madeira para cobrir a área da piscina, que se transformou numa sala polivalente onde chegaram a decorrer assembleias de alunos, reuniões informais e até mesmo exames! Num trabalho intitulado “Dinâmicas Estudantis, Mónica Maurício, reúne relatos de antigos estudantes que contam como algumas provas, coincidindo com a data de uma importante reunião da NATO realizada no campus, tiveram de decorrer em mesas e cadeiras improvisadas, em cima do dito estrado. Tudo porque simplesmente não havia salas disponíveis.

Entretanto, prevê-se que o hiato se prolongue indefinidamente, uma vez que, ainda que Poseidon decida encher de novo o Grande Tanque do Técnico, e tal pode nunca mais vir a acontecer, ainda é preciso fazer-se as ditas obras.

É caso para olhar para o passado e talvez colocar a questão: onde anda o estrado de madeira?

Entrevista Rodrigo do Ó – Presidente Cessante da AEIST

Entrevista ao Presidente cessante da AEIST, em Abril de 2016

 

Uma das principais decisões da direção da AEIST este ano foi publicar na Assembleia Geral de Alunos (AGA) o valor do passivo da AEIST, 415.000€. Qual é o contexto desta dívida? Há quanto tempo começou a ser contraída?

Apesar de termos tido uma perspetiva totalmente diferente da tida anteriormente, eu consigo compreender que, em ocasiões passadas, não se tenha exposto abertamente esta situação, visto ser chocante e fraturante termos chegado a este ponto. No entanto, achámos, tendo em conta o passivo existente, que os estudantes iam compreender pelo menos o porquê da associação não conseguir fazer o mesmo tipo de atividades que fazia antigamente.

Não consigo precisar quando é que esta dívida começou a ser contraída, em grande parte porque foi gerida durante muito tempo. Houve bastante tempo para agir, contudo, era, e é, precisa abertura por parte das várias direções para se perceber que há mudanças a fazer e tendo mandatos tão curtos, de um ano ou dois, torna-se difícil realizar mudanças profundas. Se se for gerindo, vai-se acumulando sempre mais, embora tenham ocorrido flutuações entre crescimento e mitigação de dívida. Para estas flutuações terminarem seria necessária, durante uma série de anos, a existência de uma política, não digo de contingência, mas de responsabilidade e sustentabilidade. Acho que a maneira real como se tem de olhar para uma associação de estudantes é, por um lado, numa perspectiva empresarial e, por outro, numa perspectiva de associação. E a parte empresarial, com todas as actividades correntes, tem de ser no mínimo sustentável e, preferencialmente, lucrativa, de modo a financiar a perspetiva da associação.

 

-Na estrutura da AEIST o Conselho Fiscal (CF), que supostamente deve confirmar e dar o seu parecer sobre os relatórios de contas, não resultou. Não se deveria ponderar uma correção da estrutura da AEIST? Porque é o CF não foi eficaz ao longo deste tempo?

O que eu penso é que não deve haver um acerto à estrutura mas sim um acerto de mentalidades, mais concretamente de como nós gerimos a situação. Analisando a situação de forma simples, o CF recebe o plano de actividades e orçamento no início do ano e, no fim, pede o relatório das respetivas atividades e despesas. No entanto, há muitas medidas tomadas que não têm necessariamente repercussões imediatamente visíveis. Desta forma, há coisas que podem passar despercebidas ao CF ou à direção.

Uma sugestão que deixo aqui, para aqueles que vierem a seguir, é a realização de relatórios de contas trimestrais, de modo a melhor se compreender a evolução durante os mandatos.

 

Outro problema que também pode ser identificado é que, sendo o CF eleito democraticamente, ser recorrente existirem listas com candidaturas paralelas à presidência e aos órgãos de controlo, o que pode retirar alguma imparcialidade ao CF. Não há também a possibilidade de alterar a forma de eleição? Elegendo o cargo num regime menos transitório ou com imparcialidade mais definida, recorrendo, por exemplo, ao Conselho de Gestão do Técnico (CG)?

Antes de responder, discordo completamente que o CG tenha algo a ver com a AEIST e acho que tem de ser uma máxima, que algumas vezes tem sido esquecida, o facto de a AEIST ser completamente independente do CG para que, assim, possa defender bem os direitos dos alunos.

Quanto à questão das candidaturas paralelas, não acho que isso seja necessariamente um problema, pois não implica que não exista profissionalismo. De facto, a minha lista de CF foi constituída por pessoas que já tinham pertencido a mandatos anteriores, enquanto a minha lista de direção era composta por 95% de pessoas novas, não foi uma lista de continuidade. A candidatura para o CF era constituída por pessoas do mandato anterior e de outras abrangências do técnico, com perspetiva de querer nesse órgão pessoas que não tivessem problemas em questionar-me. Não quer isto dizer que não aconteça tomar-se uma decisão errada, visto estarmos tão envolvidos no meio em que estamos a trabalhar.

Sim, essa responsabilidade também não é só de quem se está a candidatar mas, deve ser responsabilidade dos alunos ou da estrutura democrática…

Sim, se houvessem mais listas, mas isto remete para outro problema que é a participação dos estudantes na vida associativa ou governativa, que é mais preocupante.

 

Continuando no âmbito financeiro da AEIST, na AGA deste ano foram referidos os balanços dos 2 últimos anos letivos, sendo estes negativos, de 150 mil euros em 2014 e 40 mil euros em 2015. Este ano, já se consegue dizer se em Maio o balanço será positivo?

Existiram várias nuances em 2014 devido ao projecto Copypoint, que teve um investimento grande, mas não foi essa a única razão. Estamos a falar de uma situação de crise económica e a AEIST é sustentada por apoios do IPDJ, da CML e do Técnico, que também tiveram as suas estruturas reduzidas e cujos apoios foram cortados. Julgo ter sido uma das nossas principais vulnerabilidades.

Enquanto o ano não acabar efectivamente, não te posso avançar se vamos ter lucro ou não, nem te consigo adiantar valores. Mas posso avançar-te que ainda estamos com resultado positivo e abatemos 20% do nosso passivo, o que já é bastante bom. Nesta cadência, ainda vamos demorar 4 anos até estarmos completamente sustentáveis.

 

A piscina da AEIST, tinha sido encerrada em fevereiro de 2015, o vosso plano é reabilitar a piscina fazendo uma parceria com o técnico? Qual é esse plano?

A piscina foi encerrada na altura por uma questão de segurança, mas foi nos entregue no inicio do mandato já com capacidade  de ser aberta, a decisão de não a abrir foi minha. Mesmo na altura em que a piscina funcionava em pleno, tínhamos prejuízos mensais a rondar os 6 mil euros. As dimensões da piscina tornaram-se uma limitação, só tem 4 pistas de 25 metros de comprimento, e tornam-na inviável, porque a piscina costumava estar cheia. Como não é possível expandir a piscina e abriu muita concorrência recentemente à nossa volta, que pratica preços muitos baixos, é difícil mantermos o nosso género de mercado. A hipótese alternativa, que seria renovar um pavilhão de 1937 para condições exuberantes, para se poderem aplicar preços mais altos, implicaria uma exuberância de dinheiro também, que não é oportuna.

Depois de tomada esta decisão, surgiu a necessidade de revermos o que podemos fazer com a piscina, tivemos reuniões com o CG do Técnico e com a reitoria da Universidade de Lisboa. Há várias possibilidades a ser discutidas e vamos analisar em breve, com arquitetos indicados pelo Técnico e com o vice-presidente da Gestão de Espaços do IST, outros usos possíveis para o pavilhão.

 

Outro assunto, apresentado no plano de actividades da vossa candidatura e também no discurso de tomada de posse, é o vosso objectivo de “mudar o paradigma de desinteresse da nossa geração”, como aproximar a AEIST dos alunos. Como avalias o teu trabalho, ou como é a tua antevisão de como consegues acabar o ano, relativamente a este assunto?

A mudança do paradigma de desinteresse não é um processo que se resolva de um ano para o outro. Não há uma alavanca mágica que se possa puxar para resolver o problema.

Considero que tem havido mais abertura este ano, pelo menos dentro dos membros da AEIST e dentro da própria direção, à qual até dei um pequeno mote para que fossem capazes de saberem eles próprios, por convivência, quais são os problemas dos alunos do técnico e não se fecharem no edifício da associação, ao inverso do que se via no passado. Eu não consegui sair tantas vezes como queria, mas uns “sacanas” ainda conseguiram umas fotografias minhas a estudar no Aquário [Risos], porque é verdade, eu estudo. Não tenho muito tempo para o fazer, mas estudo.

Contudo, é complicado a AEIST credibilizar-se perante os alunos se não consegue ter noção dos seus problemas, o que só consegue com contacto permanente. É um traço comum haver muitas queixas entre colegas, mas não é vulgar entenderem que se levarem essa queixa à associação o resultado pode ser diferente e que não cai em ouvidos moucos. O problema é este distanciamento entre o aluno, os seus problemas e a associação como estrutura. Acho que se as pessoas compreenderem melhor a Associação dos Estudantes acabará por haver uma maior afluência a esta, com a intenção de ajudar os outros.

 

A direção atual foi eleita com cerca de 700 votos, numa faculdade de 12.000 alunos, o que demonstra que não há essa concretização de interesse. Onde é que isso pode ser corrigido? Mas, em consciência de que é difícil ser a AEIST a ter de se corrigir sozinha, sendo só um lado da questão. Qual é o sentido de resolução do problema?

Isto é parte de um problema muito maior que não podemos ver como algo específico do Técnico, pois atinge a nossa geração a nível nacional. É um panorama de descrédito dos jovens nas estruturas representativas e governativas. Não acreditam que sejam capazes de realmente os representar ou ajudar a resolver problemas; o que vem desde cima: governo, autarquias, por aí a baixo. O que acontece é, em concordância com essa perspectiva que já têm de outras instituições, olham para a associação da mesma forma.

Mas na nossa perspectiva interna, cabe-nos a nós tentar fechar este gap, encontrarmos os problemas dos alunos, demonstrar-lhes que os conseguimos resolver e que não caiu do céu. Várias vezes a AEIST resolve problemas em conjunto com o Técnico, no entanto, é o Técnico quem lança a notícia de como foi corrigido e de como vai passar a funcionar, o que agrada os alunos, mas depois ficam com a ideia que a resolução foi ação exclusiva do CG, quando foi a AEIST a pressionar e a queixar-se das situações. Não nos damos a conhecer como queríamos.

MAAT: O Museu com telhados de cerâmica

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15 horas, cinco de outubro: dia da celebração da implantação da república. É dia dessa instituição aclamada por uns e censurada por outros – o Feriado. Sob um sol abrasador, acumula-se, à porta do MAAT, uma multidão. A pausa a meio da semana e a gratuitidade contribuíram para isso.

A ânsia de conhecer o novo museu da cidade é grande. Há pessoas a ignorar a organização improvisada das filas e ouvem-se alguns gritos e impropérios. Cá fora, sobre a calçada, o sol queima e nem os jornais gratuitos do MAAT valem como um bom tapa-sol. Para muitos, quase todos, a espera vale(rá) a pena.
Passados 35 minutos, a espera acaba. 4 anos e 20 milhões de euros depois, a hora chega.

Chegamos ao foyer e olhamos em redor. Um feixe de pessoas entra, ininterruptamente, pela porta. Vemos, do outro lado, um muro. Aproximamo-nos.  Sob os nossos pés, ao longo de uma parede curva que se fecha numa elipse, desdobra-se a primeira sala do MAAT. Impressionante.

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A Sala Oval, o maior espaço do museu.

Lá em baixo, uma rede cobre os quase 4 mil metros quadrados da sala, e sob ela grandes tapetes arrumados como livros. E bolas. Há crianças, velhos e adultos, os primeiros correm atrás das bolas e os segundos e terceiros vigiam-nas ou simplesmente deitam-se sobre os livros.

É a primeira instalação in-site do MAAT. Pynchon Park. Da artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster – e é quase tudo o que há do museu. À volta, há uma video room e uma project room. Mas mal se notam.
Soube a pouco.

Mas se é verdade que um bom livro não se consegue julgar pela capa, o MAAT é o corolário do inverso – um bom edifício cujo interior não lhe faz jus. É um facto.  Impressiona pela forma e pela sua inclusão na cidade. Diríamos, ao contrário do costume, que o espaço foi feito para aquele edifício.

O imenso terraço é uma alucinação. Uma simples protuberância na marginal. Iluminado por todos os lados (a luz, essa, é a rodos!) conta com o revestimento em cerâmica para ajudar à festa.

“O nosso lugar é nos dois lados da luz”. Sim, mas da artificial!

À entrada do MAAT está escrito algo como “O nosso lugar é nos dois lados da luz”, pode até ser verdade, mas, do lado de dentro, a luz que vem de fora não entra. Apenas a energia da EDP serve para iluminar os espaços. Embora não o sintamos, estamos numa cave. Alta, ampla e muito iluminada. Não é em si um incómodo e muito menos será um problema, isto permite escurecer a sala por completo e fazer, por exemplo, projeções localizadas – a instalação de Foerster tira já partido disto.

Do MAAT muito e muitos esperavam – 60.000 pessoas, são raras em Portugal as inaugurações de espaços como este – alguns terão saído desiludidos, outros encantados, alguns até indiferentes. Mas com as obras do edifício a estarem concluídas apenas em 2017, muito ainda está por fazer e mostrar. Então, voltaremos a escrever…

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À entrada do MAAT, visitantes acumulavam-se à medida que a tarde ia chegando ao fim.

As imagens que acompanham este artigo foram tiradas por mim e a galeria de imagens a preto e branco pelo Gonçalo Ferreira

 

Agenda Cultural para Outubro

MÚSICA_
(6) Prof Jam – Copenhagen. Após uma temporada em Londres, ProfJam organizou um Get Together para dizer a toda a gente que está de volta a Lisboa. Para fãs de rap português e curiosos.(8) Nu Sta Djunto Benefit Show – Disgraça. Concerto de música alternativa (punk, post-hardcore e experimental) para caridade, encabeçado por Treehouses 2290.

(21) ¡Matinée Monc! – “A monc é uma collectiva de pessoal que faz cenas em conjunto. E para mostrar esses projectos ao pessoal vai ser feita esta matinée!” Com Império Pacífico e um Morning Coffee às 12h, o espectáculo promete.

FESTIVAIS_
(de 6 a 9) OUT.FEST Diversos locais no Barreiro. O Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro, um festival de vanguarda que apresenta músicos experimentais de todos os cantos do hemisfério. Inclui workshops com os arrtistas e visitas à cidade.

(de 24 a 30) Jameson Urban Routes – MusicBox. Festival indoors no familiar espaço do MusicBox que conta com a presença de Sensible Soccers e MUITOS outros.

CONFERÊNCIAS_
(4 de outubro) Música e Ciência – Culturgest. Iluminismo, romantismo e eletromagnetismo (sécs. XVIII e XIX) – razão e emoção, entre Mozart e Maxwell, em busca da felicidade e das leis da natureza.

(11 de outubro) Música e Ciência – Culturgest. Realidade, abstração e espiritualidade. Do infinitamente pequeno ao infinitamente grande (sécs. XX e XXI) – os caminhos de Schoenberg, Einstein, Heisenberg e Stockhausen.

TEATRO_
(de 13 a 15) O que é que o pai não te contou da Guerra? – Teatro São Luís(de 13 a 29) Comedia.Paradiso – Teatro São Luís

(de 14 a 16) No dia em que os cães se revoltaram – Teatro São Luís

(até 22 de outubro) O Rio – Teatro da Politécnica

(até 9) Música – Teatro da Cornucópia

(até 9) O pato SelvagemTeatro Nacional D. Maria II

(até 30) Constelações Teatro Aberto

(de 7 a 9) Mastodonte Teatro Nacional D. Maria II

(de 13 a 29 de outubro) A beleza, pequena conferênciaTeatro Nacional D. Maria II

(20 de Outubro a 18 de Dezembro) O Terrorista Elegante – Teatro A Comuna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Curada por Matilde Outeiro e Francisco Carvalho.

Estórias do Indieota Festaval

No berço do Montijo surgiu o Indieota: um festival puramente alternativo projectado pelo Luís D’Alva Teixeira, um rapaz com a ideia de trazer e reunir as bandas que aprazem a um fiel nicho da população. De 9 a 11 de Setembro passaram pelo TimeOut Bar e pelo Bot’Abaixo bandas que representam o contexto underground do distrito de Lisboa e arredores. Desde bandas locais como Postcards from Wonderland até nomes mais sonantes como Pista; o festival animou-se ao longo de três dias.

indieotaDia 9 começou com um anúncio agridoce: Mighty Sands não iriam tocar. Para os substituir? Cave Story que, já presentes como Eternal Champions, tiveram a graciosidade de actuar também sob o nome do projecto principal. As reacções foram mistas, mas o festival prosseguiu com optimismo.

As actuações de destaque do dia foram diversas. This Attic’s Home, o projecto solo de Alex Domingos, cantautor local, presenteou-nos com uma íntima (e ansiosa) demonstração de vulnerabilidade nas suas canções entoadas com um timbre “Dylanesco”. Outra surpresa agradável foi Odyssey Os Argonautas, outfit psicadélico lisboeta, que nos levaram numa jornada sensorial por uma versão possível do deserto da Arábia.

A jóia da coroa do primeirodo Indieota Festaval, no entanto, estava sem dúvida entre linhas de uma Cave Story. Os filhos das Caldas, meninos dos olhos do indie português, subiram ao palco: foi um deleite ver todos os rostos na sala do TimeOut iluminados com os seus quando se apresentaram como “banda de rock profissional”. O concerto começa descerimoniosamente com ‘Cleaner’; a audiência recita, de pulmões cheios e em coro, os versos cíclicos de ‘Richman’ e dança em êxtase ao som de ‘Southern Hype’. ‘Prime Time’, do novo EP ‘Garden Exit’ é uma nova favorita do público, que aplaude em antecipação ao ouvir as quatro notas iniciais.  Apresentam uma faixa nova, sem revelar o título; uma música da repetitivadade característica do”quase-krautrock” da banda e que foi muito bem recebida. Falta o resto do álbum!  Um precalço relacionado com crowdsurfing interrompe o concerto por momentos, mas depressa recomeçam com ‘Hair’, melancólica, de explosão emocional, pontuada por solos de guitarra esquizofrénicos e provocadores. O concertotermina ao som de ‘Fantasy Football’ e a banda despede-se tão depressa quanto chegou.

No segundo dia os repórteres ficaram na conversa fiada até ouvirem os sons de Morning Coffee pelo canto do ouvido. Este concerto transmitiu uma energia única, será pelo trompete, pela desorganização aparente dos instrumentos ou do peito do vocalista exposto, renegando a t-shirt? Não sabemos, mas foi um som bem elaborado. Por vezes escapavam para o seu registo mais melancólico, instrumental – abusando do trompete ou do baixo – não tiveram medo de se expor através da melodia.

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Morning Coffee no TimeOut Bar

Ditch Days começaram algo apreensivos. As poucas pessoas presentes pareciam pouco; talvez lhes tenha passado este pensamento na mente. No entanto logo que se puseram confortáveis tocaram o seu som. A guitarra complexa, emboramuito semelhante a outras bandas que por ali passaram. Mas no geral a música era catchy: atiravaos ouvintes à viagem lenta pelamelodia e agarrava-os de volta com os seus solos impressionantes. ‘Melbourne’ foi tocado perto do fim, puxando a sua veia do dream pop e atraindo a audiência para a sua música mais em voga. No fim uma voz do público ressoa “Toca lá mais uma, vocês são do caralho!”. Ditch Days acabam com uma bateria a la Green Day, seguida do seu piano característico, em conjunto com a guitarra a emitir um solo imundo que pontuou o concerto que roubaria o protagonismo do dia.

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Ditch Days no TimeOut Bar

Grand sun, vindos de Alfragide, vieram animar outras bandas sem receio. António nos teclados mostrou-se à vontade para comunicar entre as músicas que tocava profusamente. Impressionaram pelo arranjo sonoro, os teclados que sempre estiverem fortes integraram-se com a bateria que muito capaz de seguir qualquer registo musical. Em ‘Lev Yashin’ e ‘Ludovic’ notaram-se mais as notas do baixo, lowkey noutras músicas. Tocaram ‘Timekeeper’ como sempre: um começo de piano e bateria que embriaga os ouvintes no seu ritmo. Segue-se o grito da guitarra que junta todos os instrumentos. Despedem-se do Montijo com um concerto que revela a sua evolução ao longo deste ano.

Quando chegámos ao terceiro dia já interiorizávamos o Indieota de forma diferente. Nem espaço, nem as bandas nem o festival no todo representava o mesmo. Nesse sentido o festival cresceu como uma ideia no fundo da mente o que é sempre positivo porque a personalidade de um festival é o que faz as pessoas voltar. Contudo, o Indieota teve os seus problemas. A falta de organização em horários, de atenção dada às bandas, ou o facto de não apelar a uma população indecisa com o seu passe geral de cinco euros.

Cada pequeno pormenor pesou; isso viu-se na pessoa para quem este festival representava o culminar de trabalho e sacrífico, o Luís Teixeira. O que retemos do festival não foram as coisas más que eram evidentes mas aquilo que o Indieota tornou possível e que não é realçado o suficiente: expressão. Ver uma banda como Postcards from Wonderland não é um deleite melódico mas ver três jovens a divertirem-se como nunca, dando a uma audiência uma janela parao seu mundo privado é aquilo que o Indieota representa. É por ver cervejas a serem pagas pelo público, por haver meia dúzia de almas na pista a dançarem com toda a sua vitalidade pela música que fomos ao Indieota e é daí que vem o afecto pelo festival.

 

Co-autoria de Francisco Azevedo e Francisco Carvalho