Socialismos

O pensamento crítico do capitalismo.

fidelA palavra ‘socialismo’ tem tido significados diferentes ao longo dos últimos três séculos. Actualmente, Bernie Sanders diz-se socialista e é reconhecido como tal. Hugo Chavez referia-se a si mesmo como sendo um socialista. O actual governo francês é constituído, maioritariamente, por membros do partido socialista. A União Soviética foi a ‘União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A República Popular da China autointitula-se socialista. Castro é um socialista. Todos estes exemplos parecem gerar confusão sobre o que é afinal o socialismo. Isto acontece porque não há um socialismo no singular. Existem, à volta do mundo, diferentes tipos de socialismo, que foram interpretados de maneiras diferentes por cada cultura, à medida que a ideia inicial se foi diluindo atrás do capitalismo.

No séc.XVIII deu-se uma revolução violenta e surgiu o capitalismo. Este sistema veio acabar com as relações servo-contratuais, do feudalismo, e trazer a ideia de que ninguém tem um lugar fixo na sociedade: as pessoas partem do mesmo lugar numa sociedade livre e igualitária. Não há um foco na sociedade, mas no indivíduo, propondo a celebração do individualismo. Esta revolução, que trouxe as promessas de ‘liberdade, igualdade, fraternidade’, atingiu a sua expressão máxima na revolução francesa de 1789. Em 1850, meio século após a revolução, as pessoas começaram a aperceber-se que as promessas não se concretizavam. A substituir o servo e o senhor feudal apareceu o capitalista e o proletário. A sociedade não estava a convergir para a igualdade, mas a divergir, surgindo assim os primeiros críticos do capitalismo, que se intitularam ‘socialistas’.

Socialismo é um movimento que precede Karl Marx e, como tal, a ideia de que Marx criou o socialismo é falsa. No entanto, tornou-se uma figura muito importante para o movimento, pois representa a tradição de pensamento e a acção anti-capitalista mais importante desde então. Durante os 120 anos após a morte de Karl Marx, o marxismo espalhou-se por todo o mundo. Ao propagar-se por tantas culturas diferentes, em diversos níveis de desenvolvimento histórico-económico, é natural que se tenham criado conceitos diferentes de socialismo e capitalismo. Os manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels idealizam uma alternativa ao sistema capitalista. Dizem que para alcançar a igualdade no sistema económico, é necessário que as pessoas que tomam as decisões em cada área de trabalho sejam os trabalhadores da mesma. Este sistema económico pretende pôr fim aos pequenos grupos de pessoas no topo, que têm todo o poder e o usam para recolher a maioria das recompensas dos meios de produção. Foi até esta ideia que o trabalho original de Marx chegou.

bernie_bernie_0De forma a alcançar este objectivo seria necessário retirar da posse dos capitalistas privados os meios de produção. Na história da Humanidade nunca houve uma mudança radical do sistema económico
pacífica e este movimento estava consciente disso. Durante a maioria do século XIX este movimento esteve
dividido sobre como
executar esta transição. Enquanto a parte mais radical defendia que esta transição tinha de ser executada da mesma forma que a capitalista, ou seja, com um movimento socialista revolucionário, a outra parte queria tornar-se parlamentar e candidatar-se a governo, ou seja, um movimento socialista evolucionário. No entanto, ambos concordavam que a maneira de fazer a transição do sistema económico passava por apoderarem-se do Estado. Após tê-lo no seu controlo, seria necessário usar o seu poder para fazer a transição e transformação da área de trabalho. É necessário frisar que, nesta ideologia, o estado é apenas o meio para chegar ao socialismo (rearranjar a sociedade e sistema económico) e não o objectivo final.

Nos dias de hoje este conceito inicial de socialismo é mantido por grupos/partidos marxistas e os partidos socialistas não rejeitam o sistema capitalista, mas defendem que o Capitalista principal deve ser o estado e não indivíduos privados.

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Texto: Beatriz Coelho

Tomada de posse dos novos órgãos da AEIST

Após as últimas eleições para a AEIST, assistiu-se no dia 14 de novembro à cerimónia de tomada de posse dos novos órgãos sociais. Nesta intervieram o presidente cessante Rodrigo do Ó, o presidente do IST Prof. Arlindo Oliveira e, finalmente, o novo Presidente da AEIST João Silva.

Começou com uma intervenção do presidente cessante Rodrigo Do Ó, na qual reflectiu sobre o ano e meio em que esteve à frente da AEIST. Destacou o facto de se ter tratado de uma equipa composta por pessoas que nunca tinham ocupado cargos na AEIST até àquele momento, tendo como principal objectivo a implementação de uma gestão financeira responsável. Ainda que, aos seus olhos, os primeiros seis meses tenham sido atribulados, destaca o trabalho realizado: a produção própria de folhas de teste, o fecho das piscinas e a realização de eventos como o Arraial do Técnico, que foram bem sucedidos e constituíram exercícios financeiros positivos. Um dos pontos que, segundo o presidente cessante, marca o anterior mandato é a alteração dos estatutos do aluno através de debates, uma campanha intensa e um referendo final no qual participaram 2400 alunos, tendo sido aprovada a alteração. A acabar, voltou-se mais para o panorama internacional, onde criticou a onda de xenofobia, racismo e isolacionismo intensificada pelos últimos eventos, tais como o Brexit e as eleições nos EUA. A nível nacional, afirmou que é importante pressionar os governos e políticos para produzir alterações ao nível do ensino, remodelando disciplinas como Formação Cívica para educar as crianças sobre os valores da democracia e estendendo programas deste género ao resto da população, e lutar por uma economia que não coloque em causa o ambiente e ao mesmo tempo fomente a criação de emprego não precário.

De seguida falou o presidente do Técnico, professor Arlindo Oliveira, que apontou alguns dos pontos mais importantes em que a AEIST, do seu ponto de vista, se deve focar. Primeiro, o alheamento dos alunos pelas causas políticas e sociais. É fundamental atraí-los e encorajar uma participação mais activa, acabando com a falta de representatividade de toda a comunidade no debate de ideias e problemas que por agora é apenas feito pelas elites. Como segundo ponto, refere ainda que a AEIST não pode estar apenas focada em fazer bons eventos como o Arraial do Técnico. É fundamental que se adapte aos novos tempos, onde as novas tecnologias levam a alterações da relevância e utilidade de funções que a AE costumava exercer. Olhando para o mandato anterior, elogiou a capacidade demonstrada em sanear o grave problema financeiro da AEIST, manifestando disponibilidade para trabalhar em conjunto para decidir como dar bom uso ao património desta, mais concretamente, às piscinas fechadas, mas também a outros espaços inutilizados.

Por fim, João Silva, o novo presidente da AEIST, prometeu continuar o projecto iniciado pela direcção anterior, fazendo uma gestão eficiente e responsável dos recursos e defendendo ao mesmo tempo os interesses dos alunos. Um ponto que destacou que tem de ser prontamente resolvido é a falta de espaços de estudo, alavancando que é necessário aproveitar melhor os espaços existentes, bem como procurar novas opções. Defende um diálogo e colaboração com os diversos grupos de estudantes, prometendo fazer do Fórum AEIST uma realidade durante o seu mandato para tornar esta cooperação mais eficaz. Falou também da necessidade da AEIST se aproximar das residências de estudantes e das suas comissões. Para finalizar, prometeu que a AEIST continuará a ter um papel preponderante no movimento associativo estudantil a nível nacional.


Texto: Miguel Martinho

Grande Entrevista: Arlindo Oliveira

Esta é a versão, na íntegra, da entrevista publicada na edição impressa de Novembro de 2016


Ao fundo do corredor do Conselho de Gestão, o professor Arlindo Oliveira, Presidente do Técnico, recebeu-nos no seu gabinete para uma entrevista descontraída e sem formalidades. Nesta conversa pragmática e de “engenheiros” foram discutidos vários temas relevantes aos alunos e comunidade académica, desde o processo de transição do aluno para o ensino superior até aos desafios futuros do Técnico. No fim, ainda houve fotografias, em que a confiança do professor nos dotes do Gonçalo o levou a dizer “vê lá se me apanhas aí mais direito, que eu estou um bocado torto”.


Arlindo Oliveira
Arlindo Oliveira

Diferencial: Quais foram as razões que o levaram a decidir-se por um curso nesta instituição? Sabia que era isto que queria?

Alindo Oliveira: Já sabia, eu gostava muito de computadores, na altura usava um ZX Spectrum, portanto
na altura foi muito fácil escolher engenharia Electrotécnica e de Computadores.

Durante a sua vida estudantil chegou a participar em associações ou grupos de estudantes?

Não tive uma vida muita activa nos grupos de estudantes, porque também comecei a trabalhar cedo. Entrei no 3º ano para o laboratório no INESC e a partir daí fiz actividades de investigação e desenvolvimento. Na altura também jogava xadrez, que me ocupava um bocado do resto do tempo. Devo ter ido a algumas actividades, mas não estive directamente envolvido. Também na altura não havia tantos núcleos com há agora.

Que tipo de hobbies gosta de praticar no tempo livre?

Eu não tenho assim muito tempo livre, mas jogo ténis e paddle quando posso. Faço jogging uma vez por outra e ski no inverno, quando posso. Já não jogo xadrez, mas quando era novo jogava muito a sério. Agora, volta e meia faço uma perninha no xadrez.

A entrada para o ensino superior é um momento marcante na vida de um estudante. Acha que as escolas secundárias são eficazes nesse processo de transição?

Não sei se as escolas secundárias ajudam muito. Por exemplo, na das minhas filhas os alunos tiveram a oportunidade de visitar universidades, mas acho que é difícil para muitos jovens saber o que que querem quando estão no 12º ano. Eu não sei o que é que podiam fazer para além de algumas alterações.

[O processo de transição] depende muito de os jovens terem ideias definidas e hoje em dia se calhar têm cada vez menos.

Arlindo Oliveira

Por exemplo, a cadeira de Informática podia ter uma componente maior de programação, os laboratórios podiam incluir um pouco de electrónica, mas expor os alunos a outras disciplinas é mais difícil. Estou a pensar em Engenharia Civil, por exemplo. Depende muito de os jovens terem ideias definidas e hoje em dia se calhar têm cada vez menos.

E quanto ao papel do Técnico neste processo?

Acho que aqui eles aprendem rapidamente. Ao fim de um semestre já perceberam bem o que é o curso, não totalmente, porque ainda têm uma carga grande de Matemática e Física, mas existem pelo menos uma ou duas disciplinas no primeiro ano que dão uma boa ideia do que os alunos vão estudar no futuro. Além disso, têm alguma liberdade para mudar (de curso).

Se a chegada à universidade é um ponto fulcral na vida de um estudante, outro é a saída deste meio e a entrada no mercado de trabalho. Como encarou essa fase?

Na altura entrava-se para a carreira de docente como assistente, logo quando se acabava a licenciatura até. Eu na altura tinha-me candidatado para assistente, tinha sido um dos melhores alunos do meu curso, e decidi seguir a carreira académica, que implica o doutoramento. Quis fazer o doutoramento nos EUA, concorri a algumas universidades, entrei numas e não entrei noutras, e acabei depois por ir para Berkeley. Na altura não tive grande dúvida, porque também já estava na carreira académica.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Manuel Heitor considerou a Praxe uma “prática fascizante” e apelou tanto aos dirigentes académicos como aos representantes dos alunos que acabassem com a Praxe, substituindo-a por actividades com vista à integração do aluno na comunidade académica. Qual é a posição do Técnico em relação a este tema?

Concordo com o ministro no que respeita aos casos em que a Praxe é de alguma maneira humilhante, feita de forma a baixar a auto-estima dos alunos. Eu acho que a recepção aos alunos tal como é feita no Técnico, que foge muito a esse tipo de Praxe humilhante, tem os seus lados positivos, embora por vezes se excedam um bocado. São todos jovens…

Acho que a recepção feita no Técnico é uma coisa positiva de que a maior parte dos alunos gosta, e aqueles que não gostam não têm qualquer pressão para participar.

Arlindo Oliveira

Eu tive duas filhas que entraram aqui e até gostaram dessas cerimónias de recepção. Acho que a recepção feita no Técnico é uma coisa positiva de que a maior parte dos alunos gosta, e aqueles que não gostam não têm qualquer pressão para participar.

Quais são as áreas da Engenharia que acha que se estão a expandir actualmente?

Acho que a área da interface entre as tecnologias de informação e comunicação, electrónica, informática, biomédica e biologia, física e nanotecnologia vai ter um grande desenvolvimento nas próximas décadas. Assiste-se também neste momento a um grande interesse noutras áreas que não estão muito relacionadas com esta, nomeadamente as áreas do espaço e da energia e ambiente. Todas estas áreas têm relações com outras como a Engenharia Mecânica, que está a ter grandes desenvolvimentos, um bocado por força da electrónica e da computação.

Este ano lectivo é marcado por uma alteração de paradigma ao nível das médias de entrada. Isto representa uma aposta dos jovens na instituição e a fé de que uma formação nestas Engenharias constitui uma mais-valia. Como vai responder o Técnico a este crescente nível de exigência e expectativa?

Havia já uma tendência, a média dos nossos cursos (Engenharia Aeroespacial e Física Tecnológica) estava a subir e a de Medicina a descer devagar. Há também outros cursos do Técnico, como Matemática e Engenharia Biomédica, que ficaram com médias muito altas. Isso mostra que a Engenharia é uma disciplina atraente neste momento para os jovens e que existe também algum desânimo com a Medicina. É verdade que coloca uma maior responsabilidade, mas temos vindo a crescer e isto já tem muitos anos. Tenho a certeza de que continuaremos a ter cursos com médias muito altas e com alunos muito bons.

Qual é a sua perspectiva relativamente às novas tendências de e-learning face a um ensino mais tradicional?

Acho que relativamente a essas tendências, onde se incluem os MOOCs (Massive Online Open Courses), se tenha exagerado um bocado na velocidade e no impacto com que vão entrar no ensino superior. Nós olhamos à volta para o MIT, CMU, Berkeley, etc., e continua a haver muitas aulas no formato clássico, embora haja já algumas nesse formato. Não é uma coisa que acontece de um momento para o outro, tal como não acontece que toda a gente deixa de vir à universidade e são só MOOCs para todos.

Não faz muito sentido termos uma aula teórica a ser dada por um professor e gravar a aula inteira, quando os alunos podem ver um vídeo de um professor muito mais interessante e resolver exercícios em casa.

No entanto, não acontecendo de um momento para o outro, acho que é uma tendência que nós temos de seguir, porque, com tudo o que há na Web e ao nível de aplicações móveis, com as imensas maneiras que há de aprender agora, não faz muito sentido termos uma aula teórica a ser dada por um professor e gravar a aula inteira, quando os alunos podem ver um vídeo de um professor muito mais interessante e resolver exercícios em casa. Acho que nos temos de adaptar progressivamente. Não há justificação para haver más aulas, as aulas deviam ser todas boas, mas se não há condições para que todas sejam boas, se calhar mais vale que estas sejam vistas em casa e que na universidade sejam mais interactivas. Também obriga à alteração dos hábitos dos alunos, que não estão habituados a vir para cá já com o material preparado. Nós vamos agora lançar alguns MOOCs e isto é um passo nessa direcção.

Então esse foi o único passo dado até agora nesse sentido?

Não foi o único, há algumas cadeiras que estão a funcionar em regimes alternativos, mais experimentais, pelo menos no Taguspark.

Uma realidade que afecta grande parte dos estudantes do Técnico é a dificuldade em encontrar um espaço para estudar e trabalhar. É público que há em vista a construção do Técnico Learning Center na antiga gare do Arco do Cego, mas esse é um projecto a longo prazo…

Não é muito a longo prazo, nós queremos iniciar a construção no princípio de 2017 e acabar em menos de dois anos. Neste momento, temos tudo preparado para lançar o concurso este ano. Acho que vai ser um espaço que poderá funcionar em adição a este (Espaço24). Há outros espaços que nós estamos a tentar recuperar para dar melhores condições aos alunos.

Arlindo Oliveira
Arlindo Oliveira

A que espaços se refere?

Estamos a pensar qual é a melhor função a dar à piscina, que neste momento está fechada e que provavelmente não vale a pena recuperar.

Existem algumas salas e infraestruturas que apenas podem ser acedidas por alunos de cursos que pertencem a certos departamentos, o que leva a que os alunos tenham uma experiência diferente em termos de qualidade. O que acha desta situação?

A gestão de espaços no Técnico é uma das coisas mais difíceis. Existem de facto alguns cursos mais pequenos que conseguem gerir um pouco melhor os seus espaços e ter algumas salas. Não sei se elas estão completamente reservadas para eles. A nossa ideia é criar boas condições para todos e também pretendemos fazer outra coisa: criar espaços onde os alunos de diferentes cursos estejam juntos para aprenderem uns com os outros, trocarem experiências, fazerem projectos. O Learning Center, além do Espaço24, vai ter espaços para este tipo de colaboração. Aquilo que posso dizer é que também não vale a pena ir piorar as condições de alguns cursos que se calhar têm as condições que todos os cursos deviam ter. A minha esperança é que melhorando as condições globais se elimine um bocado essa assimetria que eu até aceito que haja.

No passado referiu que existia uma disparidade brutal ao nível do salário de um engenheiro no primeiro emprego entre estados da UE. Acha que está a aumentar?

Até pode ser que esteja estável, mas continua a ser grande. Falamos de um factor de 2 ou 3 para a Alemanha e 5 para a Suíça. Os salários em Portugal não têm aumentado e isso causa uma pressão competitiva que é difícil para Portugal, porque há muitos engenheiros que decidem ir para esses países e isso constitui uma preocupação. No entanto, para os engenheiros que não querem sair do país, é um factor competitivo importante. Há muitas empresas a quererem estabelecer-se aqui porque a mão-de-obra de engenharia é mais barata. Ainda agora cheguei de Silicon Valley, onde há várias empresas portuguesas que têm lá o CEO e o departamento de vendas, enquanto toda a equipa de engenharia está em Portugal, nomeadamente em Lisboa e no Porto. Lá, um engenheiro custa à volta de 150 m€ anuais, aqui se for 50 m€ por ano já é um bom salário. Há coisas boas e coisas más.

Tendo em conta o papel das instituições de ensino superior no desenvolvimento da sociedade, o que podem fazer para combater esta realidade e melhorar as perspectivas profissionais dos engenheiros que pretendam trabalhar em Portugal?

Eu tenho andado a pensar bastante nisso. Porque é que em Portugal um engenheiro ganha menos do que na Alemanha ou em Silicon Valley? Porque estas outras sociedades como um todo são mais ricas. Ou seja, um engenheiro lá ganha mais, mas o mesmo é verdade para um professor, por exemplo. Apesar de tudo, o salário de um engenheiro em Portugal não é mau comparado com o salário médio nacional.

Para aumentar a riqueza geral do país é preciso exportarmos mais e isso implica que tenhamos mais tecnologia (…) O grande valor acrescentado está nas empresas tecnológicas.

Arlindo Oliveira

Porque é que este não é mais alto? Não se pode aumentar por decreto como querem os sindicatos. Para aumentar a riqueza geral do país é preciso exportarmos mais e isso implica que tenhamos mais tecnologia, porque neste momento o que se exporta são produtos de metalurgia, biotecnologia, agricultura e pouco mais. O grande valor acrescentado está nas empresas tecnológicas. É necessário criar empresas que exportem mais. Isto é uma coisa que não tem corrido bem, nas últimas décadas não temos crescido quase nada. Penso que neste momento há alguns bons indícios, temos muitas startups, temos empresas de natureza tecnológica já com alguma dimensão. Também temos algumas preocupações, o sistema bancário está muito mal, o sistema industrial também não está como devia estar, mas nós não temos nenhuma mágica.

Passemos à questão da autonomia das universidades. No último orçamento de estado, as universidades ganharam alguma autonomia…

Quase nada, aquilo foi uma coisa muito pequena…

Então diga-me como tem visto a relação entre universidades e o estado.

Nós não temos mais autonomia, o Estado dá-nos um orçamento de 50 M€ e depois não nos deixam fazer nada com esse dinheiro. Não podemos contratar e, quando se compra qualquer coisa, tem de se ir à eSPap (Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública). Dêem o dinheiro que têm, não é muito, o país é pobrezinho, tudo bem. Mas não nos chateiem, deixem-nos gerir esse dinheiro.

O Estado dá-nos um orçamento um orçamento de 50 M€ e depois não nos deixam fazer nada com esse dinheiro (…) Dêem o dinheiro que têm, não é muito, o país é pobrezinho, tudo bem. Mas não nos chateiem, deixem-nos gerir esse dinheiro.

Arlindo Oliveira

Porque existe essa desconfiança?

Porque outros serviços do Estado têm de ser muito bem controlados. Nesses serviços, se se meterem mais pessoas depois tem de se meter lá o dinheiro para pagá-las. As universidades não são assim, não recebem pelas pessoas que têm, recebem pelos alunos que formam. Devem ter total liberdade de fazer o que querem com o dinheiro, naturalmente fazendo concursos públicos para as posições de pessoal, etc. É uma coisa difícil de mudar, porque o Estado continua a olhar para as universidades como repartições públicas. A semana passada estava a ouvir o presidente de Cambridge a dizer que há duas coisas que a universidade precisa: public trust, ou seja, que as pessoas confiem na universidade, e isso já vimos que as universidades e o Técnico, em particular, têm. Depois, de autonomia. O public trust nós conseguimos, a autonomia só quando os legisladores mudarem.

Há duas coisas que a universidade precisa: public trust, ou seja, que as pessoas confiem na universidade (…) e autonomia. [A primeira] nós conseguimos, a autonomia só quando os legisladores mudarem.

Arlindo Oliveira

Qual é a direcção que o Técnico deve tomar nos próximos 10 anos?

Estamos a tentar reforçar as ligações com a sociedade e com as empresas. Temos o programa de Parcerias Empresariais que está agora a ser criado com a comunidade Alumni. Queremos em geral reforçar a transferência de tecnologia e a capacidade de criar empresas e startups. Também queremos internacionalizar mais o corpo docente e os alunos, eventualmente evoluindo para um ensino cada vez mais em inglês ao nível do 2º e 3º ciclos. Há obviamente o desafio orçamental, onde vamos continuar a lutar por outras fontes de financiamento.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico


Texto: Miguel Martinho

Fotografia: Gonçalo Ferreira

Entrevista João Silva – Candidato à Presidência da AEIST

O Diferencial entrevistou a três dias das eleições João Silva, o único candidato à Presidência da AEIST.

João Silva é o actual Coordenador de Gestão e Serviços da AEIST e cabeça da Lista E,  figurando assim uma proposta para a continuidade da lista que finda o mandato.

 

Em seguimento da entrevista com o Presidente cessante, na qual foi admitido que tem de haver uma política de sustentabilidade e responsabilidade orçamental, qual é o vosso plano orçamental para o próximo ano?

Primeiro, é preciso dizer que a dívida foi abatida em 20% neste mandato, o que significa que já temos uma folga um pouco maior do que a do mandato anterior.  Isto não significa que podemos fazer tudo o que quisermos, o objectivo é ir pagando com responsabilidade os planos de pagamento que estão em dia e que têm de ser pagos, fazendo face às despesas que temos. No entanto queremos sempre, e dentro das possibilidades, melhorar ao máximo todas as condições que temos enquanto associação e todos os serviços que fornecemos aos alunos. Como exemplo, posso dizer que a situação dos microondas é uma das situações que estamos a analisar, até para rever o nosso espaço de alimentação, e que estamos a tentar que seja melhorada sem gastos, através de uma parceria ou patrocínio. No entanto, se chegarmos ao caso em que temos de gastar dinheiro, será em prol dos alunos e é o que faremos. Temos de ter noção que não podemos fazer nada megalómano, porque estamos sempre numa posição complicada.

 

Tens em mente algum valor ou percentagem do passivo que tencionam abater até ao final do mandato?   

Nesse campo não temos uma percentagem definida, simplesmente porque não sabemos que coisas podem vir a acontecer no futuro. No entanto, querendo continuar nesse caminho [de sustentabilidade e responsabilidade], talvez a meta dos 20% fosse uma boa meta a atingir.

 

Relativamente à Piscina da AEIST, esta foi encerrada e a última informação publicada foi que estavam a decorrer conversas entre o Conselho de Gestão (CG) e a AEIST. Vai haver algum investimento? Tencionam abrir o espaço novamente este ano? Qual é o uso que tencionam dar ao espaço?

 

A piscina, como foi referido na entrevista ao Rodrigo, para voltar a abrir enquanto piscina, teria de ter obras muito profundas e isso é um investimento que a Associação não consegue fazer. Toda a canalização teria de ser substituída. Além disso, a piscina não é rentável no seu funcionamento normal. Temos de ter em conta que à volta temos concorrência, com melhores condições e preços competitivos. Nem a piscina no seu máximo funcionamento seria rentável para a AE.

Sim, o que está em causa é se a piscina voltará a ser usada como piscina ou se esse plano foi completamente abandonado, a longo ou a curto prazo. A forma de utilização do espaço está indefinida. Com este novo mandato, qual é a tua decisão ou plano para a piscina?

Na minha perspectiva, a perspectiva de quem acompanhou este mandato [como Coordenador de Gestão e Serviços], a piscina enquanto piscina, no Técnico, é uma coisa que tem os dias contados. Como tal, o objectivo seria transformar aquele espaço noutro equipamento com funcionalidade diferente. No entanto, é um investimento que a AE não consegue fazer neste momento. Existem as tais conversações com o CG para saber o que podemos fazer e, neste momento, estamos à espera que o CG avance. Já apresentámos o nosso projecto.

Em que consiste esse projecto?

Implica uma remodelação do espaço da piscina no sentido de ficarmos com um centro de estudos, com algumas salas para os Núcleos e espaço de salas de reunião para as Secções Autónomas.

 

No vosso programa, na rubrica de Administração, há um plano para “Incremento de Recursos na Secção de Folhas” (SF). Em que consiste esse plano?

A SF funciona como venda de sebentas e fotocópias, e o objectivo é aumentar o portfólio de material que se pode vender. Têm decorrido algumas conversas com empresas para podermos vender material informático e computadores, e já temos actividade aberta nas Finanças para que isso aconteça. Pretendemos ainda aumentar o portfólio de material escolar e de escritório para que os alunos tenham uma oferta mais variada.

 

Qual é o sentido da tua candidatura?

Acho que nem vale a pena estar a referir o passado da mais antiga e maior associação de estudantes do País, o que acarreta uma grande responsabilidade. O meu objectivo primário é melhorar a situação em que a AE se encontra, relativamente ao seu passivo, através de uma política de responsabilidade e de gestão consciente. Além disso, espero conseguir que os alunos se aproximem da AE. Noto que há uma grande distância entre os alunos e a AEIST e quero que, durante este mandato, haja abertura para que os alunos se dirijam à AE por todo e qualquer problema que tenham, pois a AE é o orgão que os deve representar e defender.

A proposta do Fórum AEIST serve para complementar esse sentido? É suposto ser aberto aos vários Núcleos e Grupos de estudantes? É suposto ser uma plataforma entre Núcleos ou entre Núcleos e a AEIST?

O Fórum AEIST é uma proposta que já vem de há muito tempo e ainda não pôde ser realizada. Para isso queremos ter uma plataforma de diálogo mais próxima e mais rápida, de modo a que os Núcleos possam, por exemplo, reservar salas directamente com a Associação, visto que actualmente não podem. Queremos ter uma relação próxima com os Núcleos e queremos que a relação com os mesmos seja formalizada, e desta forma será mais fácil. Queremos estar a trabalhar com os Núcleos agora, e pode acontecer que uma próxima direcção não tenha essa filosofia e não queira trabalhar nessa forma. Queremos protocolar as relações entre as duas partes, com um espírito de vantagem para os dois lados.


Entrevista: João Santos