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Sobre tampos

Na Torre Sul, estive à procura duma cabina de casa-de-banho em que não precisasse de fazer um agachamento de quinze minutos para fazer cocó. Quinze minutos parece excessivo, mas como a cada ano que passa incrementa-se um minuto no ritual, temo que qualquer dia tenha de criar uma folha de Excel ou sacar uma app de gestão de tempo para poder exercer o serviço em paz e continuar um membro funcional da sociedade simultaneamente . Desisti à segunda tentativa. Resignei-me. Tive que tirar a t-shirt porque a contracção das coxas e da parede abdominal produz suor pelo tronco inteiro. Apercebi-me que não tinha trancado a porta do cubículo. A qualquer momento, podiam-me encontrar todo nu do joelho para cima, a fazer um ângulo de cento e poucos graus sobre uma sanita sem tampo,  enquanto limpava a junção dos glúteos com um movimento mecânico e embaraçosamente rápido. Tranquei a porta.

    Suspeito que a falta de fundos para comprar e depois assemblar tampos de sanitas às sanitas esteja a esconder uma motivação mais obscura a que muitos chamariam de teoria de conspiração. Permitam-me elaborar. A direção do Instituto Superior Técnico, órgão que com certeza deve regular todas estas situações de manutenção de casas de banho, apercebeu-se de que a maioria dos corpos que se passeiam pelo campus têm como único objectivo transportar as suas respectivas cabeças para os diversos laboratórios, auditórios e salas de aulas onde elas são requisitadas. São nuvens neuróticas que arrastam um corpo estranho numa eterna projecção de consciência. Tal facto é depois comprovado pelas skinny legs dentro das skinny jeans que acabam brutalmente num 44 da Geox, ou qualquer outra marca que produza calçado de montanha em série. Ora, a inexistência de tampos de sanita pressupõe que, das duas uma, ou se fabrique um hábito de emular um tampo de porcelana à custa de papel higiénico, ou aquele agachamento muito giro que já foi mencionado.

    A solução óptima parece ser a do agachamento, é mais rápida e dispensa lamentações interiores enquanto se desenrola o rolo. Reduz tempo no habitual escalonamento fecal, e a cereja no topo do bolo claro, o fortalecimento muscular que outrora não teriam. Acabamos com alunos mais saudáveis, e alunos mais saudáveis, como sabemos, têm maior aproveitamento escolar e emocional e tudo.

À primeira vista, parece uma medida aceitável, semelhante àquela taxa do açúcar de refrigerante. Mas saltam logo dois problemas aparentes. O primeiro é um subproduto da actividade física: a subida de temperatura e o aparecimento de odores desagradáveis nas salas de estudos e auditórios. O segundo é o mais vital e de uma importância pouco demonstrável por palavras. O acto de expelir dejectos é geralmente acompanhado por uma actividade reflexiva especialmente sincera no dia de um Homo Sapiens. O relaxamento do esfíncter é acompanhado por uma momentânea supressão de sinapses desencadeadas por egos, super-egos e fantasmas residentes no subconsciente. O córtex pré-frontal subitamente apresenta-se no seu auge e o dia torna-se claro como a água. Para muitos, este acontecimento é ainda mais preponderante que a mais célebre “reflexão de chuveiro”. A privação de tais parâmetros inerentes àquilo que significa ser senhor de si próprio é, portanto, um ultraje, uma ofensa … é patético. Quero tampos, quero tampas. Porcelana, nada de plás..stá bem, qualquer coisa. Mas tampos, tampos para que vos quero.

Texto por Francisco Ravara

 

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