Autoria: Rita Santos, MEFT (IST)

Apenas com um movimento social coeso conseguiremos mitigar os efeitos da crise climática. Embora ações de desobediência civil possam impressionar negativamente alguns, possivelmente afastando-os ainda mais da união de que tanto necessitamos, também precisamos de despertar os que connosco concordam mas ainda não passaram à ação. Muito mais célere do que o nosso ritmo atual de combate às alterações climáticas é o tempo a dissipar-se. Por este motivo, não podemos mais temer amedrontar alguns com atitudes mais desafiantes que tomemos: o movimento climático tem décadas de existência e ainda carecemos de medidas que realmente solucionem a crise atual, não apenas que aliviem os seus sintomas.

A disrupção do business as usual (termo que designa a ilusão de normalidade perante um cenário real de crise) é agora mais do que nunca necessária. “Retornando” de uma crise sanitária ainda não resolvida que levou à imposição de medidas severas, vendem-nos diariamente um cenário de ficção, em que o problema está a ser combatido e com sucesso, e em que agora devemos restaurar tudo o que estava para trás, a suposta “normalidade”.

Esta falsa sensação de normalidade, enquanto nos encontramos também na iminência de uma outra crise estritamente ligada à crise pandémica (a crise climática), só poderá ser quebrada com fortes armas, pois os seus alicerces estão assentes num sistema bem instaurado nas nossas sociedades. Este sistema é incapaz de oferecer soluções aos problemas climáticos, pois é, ele próprio, baseado na exploração infindável de recursos naturais não renováveis e na obtenção de lucro (que se pretende sempre crescente) extraído destes.


Uma destas fortes armas, que se revelou frutífera ao longo de muitos anos de História, é precisamente a desobediência civil. Quando uns saem da sua zona de conforto, acordam os que, levando a cabo a sua vida normal, com eles se deparam. De facto, a desobediência civil tem como propósito último alertar os decisores políticos para a necessidade de mudança, mostrando que as pessoas se encontram descontentes com as políticas atuais; mas também leva muitos a questionar o curso das coisas, a questionar o porquê da resignação que sentimos, da impotência e da conformidade com que vivemos enquanto decidem o nosso presente e futuro.


Foi com isto em mente que no passado dia 5 de outubro, juntando-me a cerca de uma centena de ativistas pelo clima, me deitei na rotunda do Marquês de Pombal.

Isto é absurdo! Deitar-me numa rotunda é absurdo, esperar que as forças policiais transportem o meu corpo para fora da via pública é absurdo, mas a situação em que estamos é mais ainda. É pena. É pena que, após anos de inação climática e de falta de medidas concretas, eu (e outras centenas) nos encontremos sem outra opção sem ser lutar por todas as vias que encontremos. E uma das maneiras que eu encontrei foi, num fim de semana prolongado, juntar-me aos demais ativistas, prendendo os meus braços aos braços dos que comigo lutavam, com recurso a tubos e mosquetões (a chamada técnica sleeping dragon, muito usada em protestos pacíficos não-violentos), interrompendo a circulação do Marquês de Pombal por mais de uma hora.

Para problemas complexos, as soluções são, naturalmente, de igual forma complexas. As alterações climáticas são um problema existencial sem precedentes na história da humanidade. E, com isto, teremos o quanto antes de cessar a inércia governamental, implementar medidas sem precedentes, romper com o sistema que se alimenta da exploração do planeta e assegurar a proteção das pessoas.

Precisamos de tudo e de todos, independentemente de ideologias: um movimento forte, que cause pressão sobre as decisões políticas, mas apartidário e independente. O associativismo é de especial relevo em momentos de crise como o de hoje: juntem-se aos amigos, aos desconhecidos, aos coletivos climáticos, aos núcleos universitários pelo clima, aos protestos e organizemo-nos.

Não nos deixemos enganar por falsas soluções, nem por paninhos na testa. O planeta está a arder e os ecossistemas a colapsar. Não poderemos abandonar a corrida pela salvação do clima para conversar com os que na berma sempre apontarão defeitos. Precisamos do maior número de corredores; mas uma solução em que todos corremos, e à mesma velocidade, é utópica, e trabalhar para alcançá-a é perder tempo e aproxima-nos do fim. Isso não deverá cessar a nossa luta, luta essa que deverá ser intensa e radical até que vejamos a mudança necessária no horizonte.

E mais: deveremos lutar sobretudo pelos que não podem correr: os que, explorados, não possuem meios nem possibilidades para tecer considerações sobre as alterações climáticas e a necessidade de ação; e pelos mais vulneráveis, que diariamente sofrem consequências diretas das ações daqueles que são historicamente mais responsáveis pela crise climática.

O que a alguns se pode assemelhar a uma aproximação a “radicalismos” é, em última instância, um grito pela democracia, pela justiça, pela proteção das pessoas e pela garantia de um futuro digno, ditado pela urgência climática, num cenário de ficção em que, ilusoriamente, fazemos de tudo para regressar ao normal.

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