Autoria: Luís Henrique Tavares, MA (IST)

«As crianças alfa vestem-se de cinzento. Elas trabalham muito mais do que nós, porque são formidavelmente inteligentes. De facto, estou muito contente por ser beta, pois não trabalho tanto. E, depois, somos muito superiores aos gamas e aos deltas. Os gamas são patetas. Vestem-se todos de verde, e as crianças delta vestem-se de caqui. Oh, não, não quero brincar com as crianças delta. E os epsilões são ainda piores. São tão estúpidos que nem sabem…»

O diretor pôs o interruptor na primeira posição. A voz calou-se. Apenas o seu longínquo fantasma continuou a murmurar debaixo dos oitenta travesseiros.

– Ouvirão isto repetido ainda quarenta ou cinquenta vezes antes de acordarem; depois de novo na quinta-feira, e sábado igualmente. Cento e vinte vezes, três vezes por semana, durante trinta meses. Em seguida, passarão para uma lição mais avançada.

O clima aqueceu no fim de mais um gélido janeiro. Uma centelha incendiou a discussão sobre a avaliação em tempos de pandemia, estendendo-se depois à relação dos alunos com os órgãos académicos e ao ensino em geral. Porém, volvidas algumas semanas, as labaredas transformaram-se em brasas, e as brasas em cinzas, temendo eu que o vento varra o que pouco resta desse fogo.

Aproxima-se mais um semestre atípico. A sua preparação levanta mais uma vez a discussão sobre os métodos de avaliação. No entanto, preocupa-me que todo o nosso esforço se centre neste pequeno (importante, claro) detalhe do nosso percurso académico. Os momentos de avaliação devem ser espelho do método de ensino, e sobre este, sim, devemos realmente refletir.

A realização de exames com consulta tem sido prática de alguns docentes com a transição do regime presencial para o online. Vejo com bons olhos a adoção deste método, dissipador da nebulosa suspeição que tem recaído sobre os alunos com a avaliação à distância. Contudo, este método não é somente uma ótima solução para estes tempos passageiros. Pode, e deve ser, visto como uma prática de futuro, de valorização do ensino e dos momentos de avaliação.

Muitos de nós, alunos e docentes, estamos habituados a um ensino esponja: absorver a matéria, espremê-la nos exames. É esta a prática generalizada do básico ao superior. Passamos o semestre a absorver dezenas de exercícios-tipo que despejamos em exames-tipo com problemas retirados de bancos de questões-tipo. O estudo para os exames raramente vai além da memorização de passo-a-passos. Não queremos (não nos incentivam) a perceber realmente a substância, a razão de determinado método. Se somos confrontados com um problema diferente, trememos, congelamos, e acusamos o docente de nos ter dificultado a vida, de querer ver a pauta cheia de chumbos. Somos como as crianças do “Admirável Mundo Novo”: ouvimos cento e vinte vezes a mesma coisa e no futuro só saberemos executar repetidamente a mesma tarefa. E a instituição que nos acolhe não passa de um “Centro de Incubação e Condicionamento”.

Um rapazinho, adormecido sobre o lado direito, o braço fora da cama, a mão pendendo molemente. Saindo de uma abertura redonda e gradeada da face de uma caixa, uma voz fala docemente:

– O Nilo é o rio mais comprido de África e, em comprimento, o segundo de todos os rios do mundo…

Ao pequeno-almoço da manhã seguinte:

– Tommy – diz alguém – sabes qual é o maior rio de África?

Sinais negativos de cabeça.

– Mas não te lembras de alguma coisa que começa assim: O Nilo é o…?

– O – Nilo – é – o – rio – mais – comprido – de – África – e – em – comprimento – o – segundo – de – todos – os – rios – do – mundo…

– Ora aí está! Diz-me agora qual é o rio mais comprido de África?

Os olhos estão vagos.

– Não sei.

– Mas é o Nilo, Tommy!

– O – Nilo – é – o – rio – mais – comprido – de – África – e – em – comprimento…

– Então qual é o rio mais comprido, Tommy?

Tommy desfaz-se em lágrimas.

– Não sei – choraminga 

Foi essa choraminguice, explicou-lhes claramente o director, que desencorajou os primeiros investigadores. (…) Não se pode aprender uma ciência sem saber do que ela trata.

Como é que os exames com consulta valorizam o ensino? Porque põem de parte a componente de memorização e valorizam o raciocínio. Um aluno tem de realmente entender a matéria para ter sucesso nestes exames. E o professor tem de desafiar os alunos, pôr à prova a sua capacidade criativa e de adaptação a situações singulares. Que engenheiros e arquitetos queremos ser no futuro, quando nos puserem à frente problemas que não se encontram em sebentas e manuais? No exercício da nossa profissão teremos sempre todos os recursos à disposição, e será o sucesso com que enfrentamos o desconhecido que distinguirá um bom profissional de um mediano (claro que não deixo de sentir admiração por um certo docente que dimensionou uma viga no meio do Alentejo escrevendo no chão com um galho, mas serão raras, senão inexistentes, as situações em que não teremos um computador ou toda uma biblioteca à mão).

É certo que tudo isto assusta tanto alunos como professores. É mais fácil memorizar conteúdos que compreendê-los. É mais fácil debitar exercícios-tipo que explicar os mecanismos que compõem as nossas ciências. É mais fácil confiar em passo-a-passos que na nossa mente. É mais fácil repetir problemas que confrontar os alunos com verdadeiros desafios.

Quem queremos ser? Bernard Marx, que sempre insatisfeito questionou o sistema em vigor, ou um dos milhões de alfas, betas, gamas, deltas e epsilões que não passam de autómatos programados para a execução de uma só tarefa. Aproveitemos este momento ímpar para recentrar o ensino naquilo que é realmente importante, para exigirmos uma aprendizagem íntegra e profunda, para pedirmos avaliações que efetivamente nos coloquem à prova. Não digo que o nível de exigência está baixo. Sei o que custa (todos sabemos o que custa) resistir ao duro percurso que fazemos nesta instituição. Digo, sim, que o princípio está errado e que merece ser revisto do ponto de vista da avaliação, mas também, e sobretudo, do método de ensino. 

A pandemia levantou muitas questões. O novo Modelo de Ensino e Práticas Pedagógicas que entrará em vigor no próximo ano é uma oportunidade para lhes dar resposta. Capacitemo-nos de forma a sermos excelentes engenheiros e arquitetos, capazes de olhar sem temor para qualquer desafio que o mundo novo que se abre à nossa frente nos possa colocar.

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