Desde os Estados Unidos da América até à Europa, a direita nacionalista ganha voz e reúne apoiantes, tendo uma relevância sucessivamente maior a cada eleição que passa. Em Portugal, tem estado associada a André Ventura, fundador do partido Chega!, agora candidato às presidenciais.   

Autoria: Inês Dias, MEMec (IST)

Ao longo da última década, a presença de partidos de direita e, principalmente, de extrema direita, tem vindo a ser cada vez mais proeminente nas democracias do planeta, com políticos que apregoam ideais nacionalistas e discriminatórios a conseguirem chegar ao poder, como Donald Trump, nos Estados Unidos da América; Jair Bolsonaro, no Brasil, ou com partidos como o Reagrupamento Nacional, liderado por Marine Le Pen, a ameaçarem chegar a uma maioria em França. Em Portugal, o Chega tem ganho cada vez mais fama, com André Ventura, líder do partido, a aumentar a percentagem de votos a cada sondagem para as próximas presidenciais, no dia 24 de janeiro. Para as legislativas, o partido Chega encontra-se em terceiro lugar em termos de intenção de voto, de acordo com a última sondagem da Intercampus [1]

Os ideais da direita mais conservadora encontram-se em crescimento: há cada vez mais um desprezo pelo politicamente correto, pelo igualitarismo, dando lugar a discursos que apelam a uma hierarquia social, com a crença na superioridade de algumas características em detrimento de outras. Esta crença leva, inicialmente, a uma intenção de restringir direitos a determinados grupos sociais, cuja apologia é aproveitada (como se viu ao longo da História) para introduzir uma normalidade na limitação da liberdade individual, que acaba por ser extrapolada para a população no geral, dando lugar a um regime de autoritarismo: o fascismo [2]. Esta ideologia política é uma memória recente em Portugal, onde vigorou até 1974.

No entanto, os discursos políticos apregoam apenas uma parte destes ideais. Em concreto, apregoam apenas a porção que possa ser conivente com o populismo. André Ventura, por exemplo, político e ex-comentador desportivo da CMTV, é um mestre em transpor uma típica conversa de café de um país, em parte, racista (que, apregoa, não o é) para os media nacionais e, até, propor alterações na legislação, de modo a que esta seja mais concordante com a xenofobia contra a sua etnia de eleição, a cigana. Claro, não significa que esteja imposto um limite ao seu preconceito: este é transversal a qualquer minoria.

Apesar de todas as acusações que o rodeiam, a popularidade de André Ventura continua em crescimento: o seu dom para a oratória, aliado a entrevistas mal dirigidas, atrai cada vez mais eleitores. Na última entrevista que deu para a RTP1, no âmbito das presidenciais, foi ridicularizada a ilusão do jornalismo ao dar lugar a um discurso de incitação ao preconceito: com as interrupções constantes, não foi dada oportunidade à maior característica do populismo vigorar, a contradição. Ao dar voz ao que se quer ouvir, André Ventura cai, muitas vezes, em incoerências, abafadas por jornalistas que cederam à tentação de o rotular como um louco e, na tentativa de defender a democracia, cuja satisfação já está em queda, só a enterraram. 

Ventura fez uma estreia incrivelmente terrível nos debates, onde demonstrou a sua experiência como comentador desportivo, ao não permitir que nenhuma interrupção afetasse o seu discurso. João Ferreira, por outro lado, conseguiu acompanhar, mesmo sem a evidente experiência de argumentação emotiva, o que culminou num debate em que os dois tinham tanto para dizer que não se discerniram palavras de ruído. Felizmente, num dos debates que se sucedeu, com Marcelo Rebelo de Sousa, já houve um maior controlo, o que permitiu, de facto, compreender a moral de cada um. Apesar de ambos os candidatos se posicionarem como de direita no espectro político, Marcelo Rebelo de Sousa evita o populismo, ao demonstrar defender a igualdade entre cidadãos e condenar um regime presidencialista, proposto por André Ventura, por poder levar, como já se verificou na história de Portugal, ao fascismo.

Mesmo tendo em conta o perigo da privação de direitos humanos associado a um regime autoritário, que poderia advir da vitória nas eleições de um político extremista, este movimento continua a persuadir eleitores. O descontentamento geral com o sistema em vigor, fruto de uma desolação com a elite política e de uma situação económica precária, potencia o apoio da ideologia populista e de direita. Ao culpabilizar minorias e o próprio sistema, há uma massagem à autoestima individual, visto que a responsabilidade é alheia ao próprio, o que resulta numa hierarquização (ilusória) na qual cada indivíduo está acima dos restantes. No entanto, este género de incentivo à autoestima é bastante frágil, o que estimula o aparecimento de extremismos, de maneira a conseguir alimentar um ego cada vez mais sedento de superioridade e de desresponsabilização. Na verdade, apenas se procura um líder que dê voz aos pensamentos mais negros, que seriam suprimidos pela moral ou, se não chegasse a tanto, pelo aceitável de comentar quando se respeita minimamente o direito geral à existência [3].

A desolação com a elite política leva, ainda, ao surgimento do voto de protesto, que segue as simples diretrizes: escolhe-se quem aparenta ser mais antissistema (normalmente, um populista disfarçado de político de direita, na esperança que tenha visibilidade suficiente para alertar a classe política do seu laxismo e da sua ambição desmesurada por poder), mas sem que ganhe a maioria absoluta. O grande senão neste tipo de protesto é que cada voto confere poder, não interessa se era apenas uma forma de demonstrar insatisfação ou se, realmente, André Ventura, por exemplo, era espelho dos seus ideais. Com a difusão da desconfiança na classe política, um voto de protesto pode até dar lugar a um presidente eleito, visto que cada voto conta de igual forma e a popularidade da democracia está, contrariamente à da direita populista, em queda.

Deste modo, é necessário que nas próximas eleições (e em todas), haja o exercício do direito ao voto, de uma forma consciente, que assegure a continuidade da democracia e da liberdade, permitindo achatar a curva do populismo.

[1] Sondagem legislativas. Chega passa a terceira força e Bloco cai (visitado a 30 de dezembro de 2020)

[2] Depois da pandemia, o autoritarismo? Os sinais de alerta para 2021 (visitado a 28 de dezembro de 2020)

[3] Um olhar exploratório sobre o partido Chega (visitado a 2 de janeiro de 2021)

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