Autoria: Vicente Garção, MEBiom (IST)

Quem ganhará a eleição nos EUA? Podemos confiar nas sondagens? Estará Donald Trump disposto a sacrificar a democracia para ser eleito para um segundo mandato como líder do mundo livre? Com uma pandemia devastadora, uma economia global à beira do precipício e uma emergência climática relegada para segundo plano, a parada não poderia estar mais alta.

Com a eleição geral nos EUA de dia 3 de novembro no horizonte, o interesse nas mesmas avança a um ritmo estonteante pelo mundo inteiro. Como sempre, estas geram sempre especulação internacional sobre quem será o próximo “líder do mundo livre”, posição que tem sido cada vez mais desvalorizada pelas ações da atual administração Trump. Tentarei dar aos leitores uma ideia de como funciona o sistema eleitoral, o que esperar da eleição de dia 3 e esclarecer a pergunta que está na mente de muitos no mundo inteiro: ganhará Trump um segundo mandato? 

Tentarei também expor a possibilidade de Trump, que tem repetidamente negado uma transferência pacífica do poder [1], tentar contestar os resultados no caso de perder a eleição, e manter-se na presidência contra a vontade do povo Americano.

Como é eleito o presidente dos EUA?

Nos EUA, como alguns leitores devem já saber, as eleições não são decididas pelo voto popular a nível nacional, mas sim a nível estatal – como se podem relembrar, Hillary Clinton ganhou o voto popular por cerca de 2.9 milhões de votos e perdeu as eleições [2]. Não foi a primeira vez que isto aconteceu, tendo já ocorrido em 3 ocasiões, nomeadamente nas eleições de 1876, 1888 e 2000, altura em que Al Gore ganhou o voto popular mas George W. Bush foi eleito presidente[3]. O vencedor é determinado pelo Colégio Eleitoral, uma assembleia composta por representantes de cada um dos estados. Cada estado elege um número de representantes aproximadamente proporcional à sua população. O candidato que obtenha uma pluralidade dos votos nesse estado obtém todos os seus representantes – este método chama-se Winner Takes All – “o vencedor leva tudo”. Quem obtiver mais de metade dos 538 eleitores do colégio eleitoral – 270 votos eleitorais – é eleito presidente. Ou seja, o objetivo de uma campanha presidencial é ganhar um certo número de estados para chegar aos 270 votos, e por isso centra-se geralmente apenas nos swing states, estados nos quais a eleição se encontra renhida. As sondagens a nível estatal são, portanto, as mais importantes.

O que é que as sondagens indicam? 

Neste momento a resposta a esta questão é bastante clara: as sondagens, tanto a nível nacional como estatal, indicam uma vitória conclusiva de Joe Biden sobre Donald Trump. O falhanço da administração Trump em lidar com a pandemia da COVID-19 e a sua incapacidade para solucionar as crescentes tensões raciais permitiram a Joe Biden estar neste momento 9 pontos percentuais à frente de Trump a nível nacional, 52%-43%, de acordo com o agregado de sondagens do site FiveThirtyEight.com [4], um site altamente prestigiado de análise política com base em estatística e análise de dados. A vantagem de Biden a nível nacional traduz-se também numa vitória convincente no colégio eleitoral, com 87 votos acima da meta dos 270, como podemos verificar neste mapa. 

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Figura 1 – Mapa eleitoral elaborado de acordo com o agregado de sondagens do site fivethirtyeight.com no dia 30 de Outubro. As cores representam estados em que a vantagem do candidato democrata (azul) ou republicano (vermelho) é superior a 10% (azul/vermelho escuro), entre 10% e 5% (azul/vermelho claro) e inferior a 5% (azul bebé/cor-de-rosa). Nebraska (NE) e Maine (ME) atribuem os seus votos eleitorais por distrito congressional. Esta divisão está representada aqui por linhas diagonais nesses estados.

No entanto, será que as sondagens são fiáveis? Não é verdade que em 2016 todos achavam que Hillary Clinton ia ganhar, e as sondagens afinal estavam erradas? A realidade é um pouco mais complexa [5]. Apesar de o resultado a nível nacional (vitória de 2% de Hillary Clinton) ter sido bastante semelhante à média das sondagens nacionais (+3% para Clinton), a nível estatal o erro médio das sondagens foi de 5%, maioritariamente a favor de Donald Trump.

Se aplicarmos este erro às sondagens atuais, ficaríamos com o seguinte mapa: 

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Figura 2 – Mapa eleitoral elaborado de acordo com o agregado de sondagens do site fivethirtyeight.com no dia 30 de Outubro, ajustado para o erro das sondagens em 2016. 

Biden continua à frente, sendo que a margem no colégio eleitoral diminui para 65 votos acima dos 270. Esta continua a ser uma margem relativamente segura, contudo, nos estados de Arizona (AZ), Pensilvânia (PA), Wisconsin (WI) e Flórida (FL), que valem 70 votos em conjunto, a margem de vitória de Joe Biden seria significativamente menor.

A questão premente é, portanto, perceber porque erraram as sondagens no passado, e se pode isso estar a acontecer novamente.

Será que as sondagens são confiáveis? 

O erro das sondagens não foi generalizado no país inteiro, foi maioritariamente localizado nos estados do Rust Belt. Esta região engloba principalmente os estados Michigan (MI), Wisconsin (WI), Ohio (OH) e Pensilvânia (PA). Estes estados votaram todos a favor de Donald Trump, apesar de as sondagens terem indicado que todos menos Ohio votariam a favor de Hillary Clinton, e terem votado a favor de Obama em 2008. Consequentemente, foram estes os estados decisivos na eleição de 2016.

Esta região contém uma proporção elevada de eleitores brancos sem educação superior – um bloco de eleitores que votou desproporcionalmente a favor de Trump, por 66%-29%, ao invés de eleitores com educação de ensino superior que apoiaram Clinton[6]. Em 2016, as sondagens não tomaram em conta que haveria uma disparidade tão elevada entre eleitores com diferentes níveis de educação, e como consequência não compensaram o facto da maioria das pessoas que participam em sondagens terem geralmente educação de ensino superior, desse modo desvalorizando o potencial de Donald Trump, nesta região em particular.

O mesmo não se afigura necessariamente em 2020, visto que muitas das sondagens já corrigiram esse erro. Para além disso, Biden tem demonstrado ganhos neste bloco eleitoral. Como tal, não há razão clara para não confiar em sondagens – estas têm apresentado resultados muito próximos da realidade na vasta maioria de eleições Americanas nos últimos anos.

(Para quem quiser ler mais a fundo sobre sondagens e a sua legitimidade sugiro a leitura deste artigo: FiveThirtyEight – The Polls Are All Right)[7].

Outra questão que distingue esta eleição da de 2016 é o facto haver um baixo número de eleitores indecisos.

Em 2016, ambos os candidatos tinham um baixo nível popularidade no eleitorado, o que tornou essa eleição muito mais volátil. Nas últimas sondagens em 2016, havia uma percentagem de quase 10% de eleitores indecisos, cuja maioria decidiu nos últimos dias apoiar Trump. 

Este ano, como já mencionei, Biden mantém uma vantagem nas intenções de voto de 52%-43%, ou seja, há apenas 5% de eleitores indecisos (ou que tencionam apoiar um partido pequeno), um número inferior à margem de Joe Biden nas sondagens, o que indica uma eleição menos volátil e mais segura para o candidato democrata.

Biden tem uma vantagem substancial – de acordo com o modelo estatístico do FiveThirtyEight, tem 90% de probabilidade de ganhar (a 30 de Outubro) [8] – sensivelmente a probabilidade de o leitor escrever preferencialmente com a mão direita. Mas quem é que não conhece inúmeras pessoas que escrevem com a mão esquerda? O facto de Biden estar à frente por apenas 5% na Pensilvânia [9], estado que deve determinar quem chega ao número mágico de 270 votos se a eleição se tornar mais renhida, deve preocupar a campanha Biden – a eleição ainda não está decidida, e não há dúvida que Trump ainda pode ganhar.

No entanto, é possível que não saibamos resultado logo na noite de dia 3.

Quando saberemos o resultado?

Devido à atual pandemia, a maioria dos estados facilitou o acesso ao voto por correspondência. Como tal, cerca de 85 milhões de eleitores já votaram (a 30 de Outubro) [10]. Isto é, cerca de 60% do número total de eleitores que participou na eleição de 2016, já votou em 2020.

Devido a este volume de votos por correspondência superior ao normal, a rapidez com que os resultados serão obtidos e anunciados dependerá das leis e procedimentos individuais de cada estado [11].

No caso de estados que tenham por hábito o voto por correspondência, antecipa-se que a obtenção de um resultado demore mais de uma semana.

Isto deverá acontecer principalmente nos estados do Rust Belt, que serão os mais decisivos se a eleição estiver mais renhida do que aparenta estar. Neste caso o resultado poderá depender de estados como a Pensilvânia e haverá uma grande possibilidade de só sabermos quem ganha semanas depois. 

Por outro lado, em swing states como a Flórida, Geórgia, Arizona, Texas e Carolina do Norte, espera-se que mesmo com um elevado número de votos por correspondência a contagem seja feita rapidamente, muito provavelmente no próprio dia 3 de novembro.

Se algum destes estados votar a favor de Biden, particularmente Flórida, Texas, Geórgia ou Carolina do Norte, saberemos no dia 3 que, matematicamente, haverá uma enorme probabilidade de Biden ganhar a eleição [12]. 

Aconselho o leitor a prestar atenção a estes estados, se acompanhar a noite eleitoral em direto. A Flórida é provavelmente o estado mais importante na noite eleitoral, visto que se Biden vencer os seus 29 votos eleitorais, a sua derrota afigura-se praticamente impossível. As urnas fecham às 23h de Portugal. É, contudo, essencial frisar que o volume substancial de votos por correspondência alterará significativamente a contagem na maioria dos estados, e é importante que se considere apenas que um dos candidatos venceu num estado, quando tal for anunciado oficialmente.

Se Trump perder, será que ele aceitará o resultado, ou tentará contestá-lo? 

Que poder terá Trump nessa situação? 

Donald Trump tem afirmado (falsamente) que os votos por correspondência levam a fraude eleitoral a larga escala, e que tenciona parar a contagem destes votos após dia 3 de novembro através de processos judiciais [13]. A estratégia política de Trump prende-se com o facto de existir uma disparidade na intenção de voto de quem vota por correspondência – desproporcionalmente apoiantes de Joe Biden – e quem votará presencialmente no dia da eleição – desproporcionalmente apoiantes de Donald Trump.

Visto que os votos presenciais são por norma contados mais rapidamente, Trump aparentará ter uma vantagem significativa em vários estados, particularmente no Rust Belt.

Se os votos por correspondência forem todos contados e não houver interferência por parte de Trump através dos tribunais, observar-se-á uma enorme mudança na semana após a eleição: o que aparentará ser uma vitória de Trump mostrar-se-á uma aparente vitória de Biden, à medida que os votos por correspondência são contados. Este fenómeno é denominado “Red Mirage” e “Blue Shift” – a “Miragem Vermelha” corresponde à aparente vitória do partido Republicano de Trump na noite da eleição, e a “Mudança Azul” corresponde à recuperação por parte do partido Democrata de Biden [14].

Daí Trump querer parar a contagem, usando como desculpa o facto destes votos serem “fraudulentos”, o que é, mais uma vez, simplesmente falso [15]. Certamente levará o caso ao Supremo Tribunal, onde tem uma maioria de juízes conservadores que estariam inclinados a decidir a favor de Trump. Isto só poderá funcionar numa situação em que a eleição seja mais renhida do que aparenta estar agora, em que Trump ganha a Flórida, Geórgia, Texas, Carolina do Norte e Arizona no dia 3, dependendo então a eleição dos estados do Rust Belt que contam os votos por correspondência mais lentamente. De qualquer modo, é muito provável que se não houver uma vitória clara de Biden, Trump declarará vitória no dia 3.

Mesmo que isto aconteça, nada garante que, mesmo com um Supremo Tribunal favorável, Trump consiga parar a contagem dos votos, assegurando a sua vitória, visto que necessitaria de um argumento jurídico válido para parar a contagem. Alguns leitores saberão que algo semelhante já aconteceu: em 2000, a eleição de Gore ou Bush dependia da Flórida, que aparentava ter votado a favor de Bush por uma margem mínima, e, consequentemente, por lei necessitava de uma recontagem. O Supremo Tribunal interveio, evitando a conclusão deste processo, e dando a vitória a George W. Bush.

É necessário frisar que este não é o cenário mais provável, visto que a eleição necessitaria de estar muito mais renhida para ser possível – a eleição de 2000 foi decidida por menos de 600 votos. Mas face à possibilidade de Trump tentar o que só pode ser considerado um golpe antidemocrático e fascista, é importante estar atento.

Esta eleição é de enorme importância a nível global. Trump contribuiu, nos últimos 4 anos, para a deterioração das relações internacionais dos EUA, permitiu e incentivou os ataques à ciência, atrasou a resposta global à emergência climática e, pela sua inação, causou a morte desnecessária de 230 mil pessoas devido à COVID-19. Para o mundo, não podia ser mais clara a diferença entre os dois candidatos. Uma vitória de Trump significaria uma viragem para tempos ainda mais sombrios do que os que vivemos hoje.

Felizmente, tanto quanto é possível discernir, a sorte não está do lado de Trump. É inequívoco que Joe Biden tem uma vantagem grande, maior do que qualquer candidato desde Bill Clinton em 1996 [16]. Pelo bem do povo americano e de todos nós, espero não estar errado. 

Fica aqui a minha previsão:

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Referências

[1] [Online]. Available: bbc.com/news/election-us-2020-54274115.
[2] [Online]. Available: edition.cnn.com/2016/12/21/politics/donald-trump-hillary-clinton-popular-vote-final-count/index.html.
[3] [Online]. Available: britannica.com/event/Bush-v-Gore.
[4] [Online]. Available: projects.fivethirtyeight.com/polls/president-general/national/ .
[5] [Online]. Available: youtube.com/watch?v=TambSayfCOE.
[6] [Online]. Available: edition.cnn.com/election/2016/results/exit-polls.
[7] [Online]. Available: https://fivethirtyeight.com/features/the-polls-are-all-right/ .
[8] [Online]. Available: projects.fivethirtyeight.com/2020-election-forecast/.
[9] [Online]. Available: https://projects.fivethirtyeight.com/polls/president-general/pennsylvania/ .
[10] [Online]. Available: uk.reuters.com/article/us-usa-election-early-voting/early-u-s-vote-surpasses-85-million-texas-exceeds-2016-turnout-idUSKBN27F247.
[11] [Online]. Available: https://projects.fivethirtyeight.com/election-results-timing/.
[12] [Online]. Available: https://projects.fivethirtyeight.com/trump-biden-election-map/?cid=abcnews.
[13] [Online]. Available: theatlantic.com/magazine/archive/2020/11/what-if-trump-refuses-concede/616424/.
[14] [Online]. Available: https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/08/brace-blue-shift/615097/.
[15] [Online]. Available: youtube.com/watch?v=l-nEHkgm_Gk.
[16] [Online]. Available: newsweek.com/joe-bidens-polling-lead-over-trump-largest-since-bill-clintons-re-election-1996-1534916.

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