O regresso das lâmpadas incandescentes

As antigas lâmpadas incandescentes, as primeiras a iluminar as casas em todo o mundo, podem vir a sofrer, após séculos inalteradas, uma modificação. Na última década têm tido tendência a, cada vez mais, desaparecer do mercado e serem substituídas pelas lâmpadas fluorescentes e de LED, devido ao seu problema de serem extremamente ineficientes, quando comparadas com as últimas. As lâmpadas tradicionais conseguem apenas eficiências na ordem dos 3%. O seu funcionamento resume-se ao aquecimento de um filamento de tungsténio, que, a uma certa temperatura, emite radiação. O inconveniente neste processo é que o filamento emite num espetro muito alargado de radiação quando comparado com o que conseguimos observar, sendo que, 95% dessa energia é desperdiçada. Maior parte do desperdício ocorre na gama dos infravermelhos, que é, geralmente, percecionado pelo elevado aquecimento do vidro que estas lâmpadas sofrem enquanto ligadas.

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Figura – Espetro de emissão da lâmpada e gama vísivel.
Uma equipa de investigadores do MIT – Massachusetts Institute of Technologies, abordou o tema de outra maneira que, possivelmente, irá fazer renascer as lâmpadas de filamento de tungsténio. Dado o problema de elevado espalhamento espetral da lâmpada, os cientistas decidiram fazer um tipo de reciclagem dessa mesma energia através de um tipo de cristal fotónico no invólucro que permitirá com que essa energia seja emitida novamente para o filamento e este, reabsorvendo-a, irá usá-la para emitir no comprimento de onda desejado. Os cristais fotónicos são estruturas que funcionam essencialmente como isoladores de radiação eletromagnética. Estas lâmpadas podem  teoricamente, até agora, chegar a eficiências luminosas de até 40%. Estas eficiências são obtidas como a relação entre os comprimentos de ondas que o aparelho emite e aqueles que nos são realmente úteis. Como comparação, as lâmpadas de LED atuais têm à volta de 15%. O primeiro ensaio da equipa, com o intuito de provar a teoria, chegou apenas perto dos 7%, mas todos estão confiantes de que nos próximos tempos haverá grandes melhorias e chegarão muito perto da eficiência teórica.

André Miguel Carvalho

Referências:
https://en.wikipedia.org/wiki/Photonic_crystal
http://news.mit.edu/2016/nanophotonic-incandescent-light-bulbs-0111
http://www.nature.com/nnano/journal/vaop/ncurrent/full/nnano.2015.309.html
http://electronicdesign.com/components/leds-line-replace-residential-incandescent-bulbs
GFDL 1.2, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=829146

Bento Jesus Caraça, o diplomata do conhecimento humano

Bento Caraça, nascido em Vila Viçosa no ano de 1901, é um dos mais proeminentes pensadores portugueses do século XX. De família de poucas posses, viu os seus estudos serem possibilitados graças à sua “protetora” D. Jerónima, proprietária da herdade na qual trabalhavam os pais. Em 1918, entra em Economia no Instituto Superior de Ciências Económicas (atual ISEG), após ter concluído com distinção o curso liceal. No ano seguinte é-lhe dada a oportunidade de se estabelecer como professor assistente no departamento de Álgebra Superior e Geometria Analítica, chegando  a professor catedrático do mesmo estabelecimento onze anos depois, em 1929. Caraça é rapidamente apreciado em larga escala pelos alunos de todo o instituto, provavelmente devido à sua paixão e entrega ao ensino e aos métodos inovadores que aplicava para transmitir o conhecimento. Isto apesar de ser conhecido também pela sua enorme exigência e rigor.
Num texto publicado em 1933 numa conferência da Mocidade Livre (uma associação recém-criada na altura) e intitulado A Cultura Integral do Indivíduo, Bento fala dos problemas que a Europa atravessava na época e que ainda iria, porventura, atravessar. Deixando sempre um sinal de esperança,de que toda aquela “turbulência” iria sucumbir e que uma vida melhor se avistava para todos. Nesse mesmo documento procurou definir em que consistia um homem culto.

“O que é o homem culto? É aquele que:
    -Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
    – Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
    – Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida”
Bento Jesus Caraça, Maio 1939

Apesar de neste tipo de matéria não haver certo nem errado, visto que cada pessoa é livre de ter a sua definição de conceitos tão vastos e incertos como este o é, não deixo escapar esta hipótese para concordar e assumi-la como minha também.
O homem culto não deve ser aquele que, muitas vezes confundido com o sábio, é um foco enorme de centralização de conhecimento e que, normalmente, a tem como a única e verdadeira fonte de saber. Bento Jesus tenta, aqui, que nos afastemos desses dogmas, dessas verdades incautas. Ao termos bem determinada a nossa posição no cosmos, conseguimos chegar facilmente ao oposto do sábio e assumir uma postura semelhante à de Sócrates: “Só sei que nada sei”.
Para se ser alguém culto falta primeiramente ser isso mesmo, alguém. Alguém no sentido de se ser um ser humano. Além de descobrir, ou tomar conhecimento, da sua posição exterior, é fundamental, também, tomar consciência da sua posição interior. Isto é, de que maneira o indivíduo se revela a ele próprio. Somente após tomarmos plena consciência de quem somos e da nossa própria dignidade, conseguimos verdadeiramente conduzir os nossos atos para a finalidade do bem comum e da solidariedade. Ao sentirmos plenamente os efeitos das ações exteriores a nós, conseguimos transpor as consequências das mesmas nos outros.
bentodejesuscaracaO último ponto da definição de Caraça sobre o homem culto tenta responder, muito modesta e graciosamente, à mítica questão: Qual o sentido da vida? Mas não deixemos esta definição ser um fim em si próprio. A mesma é tão aberta quanto a própria questão.  O indivíduo culto é aquele que tem consciência de que para melhorar o mundo tem, primeiramente, de melhorar ele próprio. O aperfeiçoamento individual foi o que nos permitiu, enquanto espécie, chegar onde chegámos hoje. Esta última condição assenta profundamente nas duas anteriores a ela. Decorre que, apenas após tomarmos conhecimento de nós próprios e do nosso lugar no universo, podemos almejar o aperfeiçoamento, porque apenas a partir dessas condições temos o ponto de partida para tentar atingir o máximo de nós próprios.
Em 1941, cria a Biblioteca Cosmos, uma coleção de livros sobre as mais variadas áreas do saber, que, além do baixo custo de aquisição, estava estruturada de uma forma que pudesse ser compreendida pela generalidade dos portugueses que fossem literados. Neste mesmo ano também, edita o livro Os Conceitos Fundamentais da Matemática. Livro esse que iria ficar marcado como sendo, provavelmente, a obra-prima de Bento Jesus. No prefácio o autor descreve dois modos distintos de como devemos encarar as ciências e a matemática no decorrer da vida:

“A Ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspecto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente – descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições.”
Bento Jesus Caraça, Junho 1941

Estas duas faces da mesma moeda, o conhecimento científico, como Bento Caraça nos apresenta, são exatamente isso. Tal qual dois pólos magnéticos, sempre que há um Norte há um Sul. Julgo ser díficil dissociar completamente as duas ideias. Reparemos no estado avançado, pelo menos em termos cronológicos e de dimensão de conhecimento produzido, em que a ciência se encontra. É um feito gigantesco alguém, por grande génio que seja, tomar a segunda via apresentada e conseguir, isto é, enquanto é vivo e capaz disso, acrescentar conhecimento a uma certa área. A dimensão civilizacional à qual chegámos, não nos permite ter tempo para encarar a ciência pela via poética, por muito que gostássemos. Podemos sim, enveredar por este caminho esporadicamente, por um tema que nos fascine particularmente. Esse caso, acho inclusivamente, que deve ser encorajado. Questionar certas áreas do saber que nos causam maior confusão e por tal, talvez também, admiração.

Este grande cientista não se limitava a causas dentro do seu espectro académico, como é sabido. Na década de trinta, juntamente com outros intelectuais da época, adere à Liga contra a Guerra e o Fascismo. Este tipo de associações, contando ainda com as ligações que tinha ao partido comunista português, PCP, valeram-lhe a desconfiança e perseguições por parte do estado. Apoiou a SPA, Sociedade Protetora dos Animais, por exemplo. A qual se manifestava contra as touradas e espetáculos tauromáquicos.
A 10 de setembro de 1946, é instaurado um processo disciplinar contra Bento Caraça por parte do Ministério da Educação por antipatriotismo. Pouco tempo depois é-lhe forçado o resigno da cátedra no Instituto onde lecionava. A falta desse rendimento complica a situação económica que vive com a sua esposa Cândida Gaspar e o seu filho, João Caraça. Cândida vê-se também ela perseguida pelo regime. Bento decide dar lições particulares em sua casa para trazer algum sustento para o lar. É interrogado e preso pela PIDE nesse mesmo ano. É posteriormente colocado em prisão domiciliária devido ao seu deteriorado estado de saúde. Acaba por falecer em sua casa a 25 de junho de 1948.

Aqui procurou-se relembrar um dos maiores pensadores portugueses que promoveu a emancipação da maioria da população através da cultura e do conhecimento. Bento Jesus Caraça acreditava genuinamente que o conhecimento era a arma de libertação de um povo. Um povo educado e culto jamais pode ser subvertido por regimes opressores da liberdade de pensamento e de opinião.

(Escrito com o Novo Acordo Ortográfico)

André Miguel Carvalho

Referências:
http://www.jc.iffarroupilha.edu.br/site/midias/arquivos/201210131571687conceitos_fundamentais_da_matematica%5B1%5D.pdf

Helena Neves. Bento De Jesus Caraça. Cultura E Emancipação, Um Problema Ainda Do Nosso Tempo.

http://www.dorl.pcp.pt/images/SocialismoCientifico/texto_bjcara%E7a.pdf