Um quarto forrado a bandas magnéticas


Já se passou mais de uma década desde que o meu pai e eu fomos ao banco. D
epois de uma agradável conversa sobre depósitos periódicos de quantias inocentes, abrimos uma conta poupança com o meu nome 

Hoje tenho sete contas bancárias. Sete.  Não sou rico nem tenho nenhum fetiche com cartões de débito.  Deixem-me explicar.

A primeira já foi mencionada, e dessa não falarei mais. Direi apenas que o banco pertencia ao grande senhor dono disto tudo: o excelentíssimo senhor  Ricardo Salgado. Agora tem um novo nome, mas ainda o único banco que realmente me presta serviços bancários.

A segunda conta está representada num cartão com a minha cara de há oito anos atrás, mas que ainda é aceite em exames e frequências no pavilhão Central. Falo portanto do cartão de estudante oficial do Instituto Superior Técnico, emitido pelo Santander. Já houve reclamações, mas a fotografia ainda não foi mudada, e jamais será.

A terceira dá-me acesso a rissóis alegadamente feitos com camarão e banhados em rios de óleo de palma, ou animal,  ou sei lá o que será aquela clara manhosa. Quando acordo em comunhão com o planeta, lá peço uma sola de sapato vegana ou outro macrobiótico ecologicamente sustentável, que por sinal, não desaponta tanto. Falo do cartão da Caixa, que figura a cara dum grande português que terá perdido com o Salazar.

A quarta surgiu duma intenção louvável, motivação para uma experiência universitária completa: com fotocópias à Lagardère, alugueres de campos de futebol e ténis, arraiais, aplicações do método de Stanislavski, porventura até inscrições em aulas de cha cha cha – de forma a  contrariar o fluxo de interacções quase  exclusivamente masculinas que se dá no pavilhão de Informática. Aqui o responsável é o BPI, parceiro da  Associação de Estudantes.

A quinta também apareceu no dia em que me matriculei.  Seduziu-me como um desconto considerável no passe do comboio durante os primeiros três meses. Seria financeiramente irresponsável recusar. Escusado será dizer que também nunca fiz qualquer levantamento, depósito, pagamento ou transferência com o IBAN por eles atribuído.  

    A sexta e a sétima não tenho a certeza se de facto existem, mas suspeito que sim. Isto porque a quantidade de cartões de débito que chegam pelo correio a substituir os antigos que, por alguma razão desconhecida por parte das entidades bancárias, nunca foram activados, sugere um número maior que aquele que possuo nos logs. À falta de melhor razão, apareceram de forma semelhante à minha primeira tatuagem: num pacote de batatas fritas da Matutano. Se esta minha aparente atracção por bancos tivesse entrado no domínio público mais cedo, teria com certeza sido referido como possível sucessor de Santana na Santa Casa.

Isto parece tudo muito idiota. Porque razão não me dirijo às respectivas sucursais para me livrar deste fardo que agora não custa nada,  mas que qualquer dia custará?

O que se passa lá dentro está fora da minha compreensão. Se a minha ida tem como objectivo a resolução de uma matéria financeiro-administrativa, como a anulação do meu contracto,  são precisos poucos minutos para uma drástica mudança da minha meta, que agora se prende na libertação deste vil aborrecimento perpetuado por um funcionário do submundo apenas capaz de expelir siglas e acrónimos acompanhados por  pontos percentuais incompreensíveis. Nunca saí mais esclarecido do que entrei, lembro-me apenas de assinar um monte de papéis no caminho fora dali. A perspectiva de me encontrar de novo numa situação destas dá-me voltas ao estômago. Até Julho, tenho dois cúmes para escalar: o primeiro é a conclusão das cadeiras a que estou inscrito. O segundo… desse nem quero pensar.

Texto por Francisco Ravara

 

Sobre tampos

Na Torre Sul, estive à procura duma cabina de casa-de-banho em que não precisasse de fazer um agachamento de quinze minutos para fazer cocó. Quinze minutos parece excessivo, mas como a cada ano que passa incrementa-se um minuto no ritual, temo que qualquer dia tenha de criar uma folha de Excel ou sacar uma app de gestão de tempo para poder exercer o serviço em paz e continuar um membro funcional da sociedade simultaneamente . Desisti à segunda tentativa. Resignei-me. Tive que tirar a t-shirt porque a contracção das coxas e da parede abdominal produz suor pelo tronco inteiro. Apercebi-me que não tinha trancado a porta do cubículo. A qualquer momento, podiam-me encontrar todo nu do joelho para cima, a fazer um ângulo de cento e poucos graus sobre uma sanita sem tampo,  enquanto limpava a junção dos glúteos com um movimento mecânico e embaraçosamente rápido. Tranquei a porta.

    Suspeito que a falta de fundos para comprar e depois assemblar tampos de sanitas às sanitas esteja a esconder uma motivação mais obscura a que muitos chamariam de teoria de conspiração. Permitam-me elaborar. A direção do Instituto Superior Técnico, órgão que com certeza deve regular todas estas situações de manutenção de casas de banho, apercebeu-se de que a maioria dos corpos que se passeiam pelo campus têm como único objectivo transportar as suas respectivas cabeças para os diversos laboratórios, auditórios e salas de aulas onde elas são requisitadas. São nuvens neuróticas que arrastam um corpo estranho numa eterna projecção de consciência. Tal facto é depois comprovado pelas skinny legs dentro das skinny jeans que acabam brutalmente num 44 da Geox, ou qualquer outra marca que produza calçado de montanha em série. Ora, a inexistência de tampos de sanita pressupõe que, das duas uma, ou se fabrique um hábito de emular um tampo de porcelana à custa de papel higiénico, ou aquele agachamento muito giro que já foi mencionado.

    A solução óptima parece ser a do agachamento, é mais rápida e dispensa lamentações interiores enquanto se desenrola o rolo. Reduz tempo no habitual escalonamento fecal, e a cereja no topo do bolo claro, o fortalecimento muscular que outrora não teriam. Acabamos com alunos mais saudáveis, e alunos mais saudáveis, como sabemos, têm maior aproveitamento escolar e emocional e tudo.

À primeira vista, parece uma medida aceitável, semelhante àquela taxa do açúcar de refrigerante. Mas saltam logo dois problemas aparentes. O primeiro é um subproduto da actividade física: a subida de temperatura e o aparecimento de odores desagradáveis nas salas de estudos e auditórios. O segundo é o mais vital e de uma importância pouco demonstrável por palavras. O acto de expelir dejectos é geralmente acompanhado por uma actividade reflexiva especialmente sincera no dia de um Homo Sapiens. O relaxamento do esfíncter é acompanhado por uma momentânea supressão de sinapses desencadeadas por egos, super-egos e fantasmas residentes no subconsciente. O córtex pré-frontal subitamente apresenta-se no seu auge e o dia torna-se claro como a água. Para muitos, este acontecimento é ainda mais preponderante que a mais célebre “reflexão de chuveiro”. A privação de tais parâmetros inerentes àquilo que significa ser senhor de si próprio é, portanto, um ultraje, uma ofensa … é patético. Quero tampos, quero tampas. Porcelana, nada de plás..stá bem, qualquer coisa. Mas tampos, tampos para que vos quero.

Texto por Francisco Ravara