A morte é injusta

A morte é injusta. Por vezes avisa à chegada, até com avanço, por outras nem ao próprio avisa. A morte é injusta, diz-se, porque ninguém merece morrer de tal forma. Diz-se que é injusto morrer apesar de ser para aquilo que todos nós caminhamos: é o mais natural da vida. Morrer é juntar os conceitos de entropia e probabilidade num contexto palpável. Contudo, vemos sempre a morte como algo metafísico, algo que nos transcende e do qual nada concluímos. Não. A morte é bastante física, é directa, não é sarcástica ou obscura.

Por vezes nem pensamos no que é morrer. O que a morte significa é que algo, isso sim metafísico, desaparece do nosso corpo. Como assim o nosso pedaço de carne não está mais habitado por aquilo que fazia de nós nós mesmos? Qual é a diferença, porque não abre a pessoa os olhos para outro dia? A morte é injusta porque, apesar de tudo, não é natural, não é de todo como eu disse, não é nada como eu disse. A morte é uma traição do corpo, uma vingança impessoal das leis da natureza por usarmos um meio pelo qual vivemos. Contudo, o que se perde na morte? Porque não podemos nós pegar no corpo do morto e dar um choque, mexer os químicos, pôr a máquina toda a funcionar de volta?

Para mim e outros tantos, esta pergunta assombra e toma conta do nosso pensamento quando menos desejamos, quase que num oportunismo sádico. A forma como lidamos com este problema divide mundos e culturas. Alguns apoiam-se numa perspetiva intrínseca, uma certeza própria que lhes traz segurança nesses momentos. Outros recorrem a uma justificação extrínseca que se aproveita de um medo partilhado, que prolífera na falta de capacidade de lidar com uma realidade universal, e que lhes traz segurança na forma de uma promessa póstuma.

Acima de tudo, o que mais assusta é o facto de termos dentro de nós algo que ninguém sabe o que é, que não é palpável, que não existe e apenas notamos a sua grande e penosa ausência quando morremos. É por estas razões que não se diz que a morte é injusta, diz-se que a vida é injusta.

Estórias do Indieota Festaval

No berço do Montijo surgiu o Indieota: um festival puramente alternativo projectado pelo Luís D’Alva Teixeira, um rapaz com a ideia de trazer e reunir as bandas que aprazem a um fiel nicho da população. De 9 a 11 de Setembro passaram pelo TimeOut Bar e pelo Bot’Abaixo bandas que representam o contexto underground do distrito de Lisboa e arredores. Desde bandas locais como Postcards from Wonderland até nomes mais sonantes como Pista; o festival animou-se ao longo de três dias.

indieotaDia 9 começou com um anúncio agridoce: Mighty Sands não iriam tocar. Para os substituir? Cave Story que, já presentes como Eternal Champions, tiveram a graciosidade de actuar também sob o nome do projecto principal. As reacções foram mistas, mas o festival prosseguiu com optimismo.

As actuações de destaque do dia foram diversas. This Attic’s Home, o projecto solo de Alex Domingos, cantautor local, presenteou-nos com uma íntima (e ansiosa) demonstração de vulnerabilidade nas suas canções entoadas com um timbre “Dylanesco”. Outra surpresa agradável foi Odyssey Os Argonautas, outfit psicadélico lisboeta, que nos levaram numa jornada sensorial por uma versão possível do deserto da Arábia.

A jóia da coroa do primeirodo Indieota Festaval, no entanto, estava sem dúvida entre linhas de uma Cave Story. Os filhos das Caldas, meninos dos olhos do indie português, subiram ao palco: foi um deleite ver todos os rostos na sala do TimeOut iluminados com os seus quando se apresentaram como “banda de rock profissional”. O concerto começa descerimoniosamente com ‘Cleaner’; a audiência recita, de pulmões cheios e em coro, os versos cíclicos de ‘Richman’ e dança em êxtase ao som de ‘Southern Hype’. ‘Prime Time’, do novo EP ‘Garden Exit’ é uma nova favorita do público, que aplaude em antecipação ao ouvir as quatro notas iniciais.  Apresentam uma faixa nova, sem revelar o título; uma música da repetitivadade característica do”quase-krautrock” da banda e que foi muito bem recebida. Falta o resto do álbum!  Um precalço relacionado com crowdsurfing interrompe o concerto por momentos, mas depressa recomeçam com ‘Hair’, melancólica, de explosão emocional, pontuada por solos de guitarra esquizofrénicos e provocadores. O concertotermina ao som de ‘Fantasy Football’ e a banda despede-se tão depressa quanto chegou.

No segundo dia os repórteres ficaram na conversa fiada até ouvirem os sons de Morning Coffee pelo canto do ouvido. Este concerto transmitiu uma energia única, será pelo trompete, pela desorganização aparente dos instrumentos ou do peito do vocalista exposto, renegando a t-shirt? Não sabemos, mas foi um som bem elaborado. Por vezes escapavam para o seu registo mais melancólico, instrumental – abusando do trompete ou do baixo – não tiveram medo de se expor através da melodia.

morning-coffe-timeout
Morning Coffee no TimeOut Bar

Ditch Days começaram algo apreensivos. As poucas pessoas presentes pareciam pouco; talvez lhes tenha passado este pensamento na mente. No entanto logo que se puseram confortáveis tocaram o seu som. A guitarra complexa, emboramuito semelhante a outras bandas que por ali passaram. Mas no geral a música era catchy: atiravaos ouvintes à viagem lenta pelamelodia e agarrava-os de volta com os seus solos impressionantes. ‘Melbourne’ foi tocado perto do fim, puxando a sua veia do dream pop e atraindo a audiência para a sua música mais em voga. No fim uma voz do público ressoa “Toca lá mais uma, vocês são do caralho!”. Ditch Days acabam com uma bateria a la Green Day, seguida do seu piano característico, em conjunto com a guitarra a emitir um solo imundo que pontuou o concerto que roubaria o protagonismo do dia.

ditch-days
Ditch Days no TimeOut Bar

Grand sun, vindos de Alfragide, vieram animar outras bandas sem receio. António nos teclados mostrou-se à vontade para comunicar entre as músicas que tocava profusamente. Impressionaram pelo arranjo sonoro, os teclados que sempre estiverem fortes integraram-se com a bateria que muito capaz de seguir qualquer registo musical. Em ‘Lev Yashin’ e ‘Ludovic’ notaram-se mais as notas do baixo, lowkey noutras músicas. Tocaram ‘Timekeeper’ como sempre: um começo de piano e bateria que embriaga os ouvintes no seu ritmo. Segue-se o grito da guitarra que junta todos os instrumentos. Despedem-se do Montijo com um concerto que revela a sua evolução ao longo deste ano.

Quando chegámos ao terceiro dia já interiorizávamos o Indieota de forma diferente. Nem espaço, nem as bandas nem o festival no todo representava o mesmo. Nesse sentido o festival cresceu como uma ideia no fundo da mente o que é sempre positivo porque a personalidade de um festival é o que faz as pessoas voltar. Contudo, o Indieota teve os seus problemas. A falta de organização em horários, de atenção dada às bandas, ou o facto de não apelar a uma população indecisa com o seu passe geral de cinco euros.

Cada pequeno pormenor pesou; isso viu-se na pessoa para quem este festival representava o culminar de trabalho e sacrífico, o Luís Teixeira. O que retemos do festival não foram as coisas más que eram evidentes mas aquilo que o Indieota tornou possível e que não é realçado o suficiente: expressão. Ver uma banda como Postcards from Wonderland não é um deleite melódico mas ver três jovens a divertirem-se como nunca, dando a uma audiência uma janela parao seu mundo privado é aquilo que o Indieota representa. É por ver cervejas a serem pagas pelo público, por haver meia dúzia de almas na pista a dançarem com toda a sua vitalidade pela música que fomos ao Indieota e é daí que vem o afecto pelo festival.

 

Co-autoria de Francisco Azevedo e Francisco Carvalho

Ida a Marte: uma necessidade humana ou científica?

Seguindo o desenvolvimento da exploração espacial em específico em Marte, com o robot Curiosity, será o próximo passo uma viagem tripulada a marte?

 

Após o sucesso do robot Curiosity as publicações nos media intensificam-se sobre uma potencial viagem tripulada a Marte, mas ainda há muito trabalho por fazer até chegar a esse ponto, ou será que não? Várias questões como os desafios de uma ida a Marte, as tecnologias a desenvolver, os obstáculos políticos entre outros foram abordadas pelo presidente da Mars Society na sua palestra que decorreu em Julho de 2014. Ninguém trabalhou mais numa possível ida a marte do que Robert Zubrin, que desenvolveu vários projectos sobre o tema desde a década de noventa e é isso mesmo que aborda na sua palestra. Abordo adiante os seus argumentos tentando simultaneamente fazer a ponte entre a perspectiva de um cientista sobre a escala da importância de uma ida a Marte e a sua importância relativa humana.

 

O porquê de ir a Marte

De um ponto de vista científico existem três razões principais que abordo. Uma fundamental é o facto de uma viagem a Marte poder permitir encontrar registos de vida extintos (fosseis). A própria existência de fosseis pode provar que a vida é um desenvolvimento natural da química, ou seja, que dados certas condições como existência de água, temperatura e outros elementos químicos, a criação de vida deriva necessariamente dessas condições e é um fenómeno universal. Caso não se encontrem isso pode ser uma prova contra essa mesma teoria e indicar que a criação de vida pode ter factores aleatórios e que pia16239_c-hpfeatnão existe uma ligação directa entre as condições necessárias e a criação de vida. Estas conclusões têm uma relevância extrema em termos humanos. Caso haja fosseis e possamos comprovar a teoria que a criação de vida é realizada como descrita acima podemos inferir que existem outras (possivelmente imensas) formas de vida espalhadas pelo universo. Contudo, se estiverem todas as condições presentes mas não encontremos nenhum registo fóssil temos um argumento de peso na perspectiva do humano e a terra como seres únicos a habitar um planeta no universo. Esta situação não terá conclusão até ao momento em que consigamos investigar em solo marciano. Até lá partilhamos o sentimento expresso na frase de Arthur C. Clarke, escritor de ficção científica “Existem duas possibilidades: ou estamos sozinhos no universo ou não estamos. Qualquer uma delas é igualmente terrificante”.

Analisando a segunda razão, podemos também reflectir sobre o estatuto humano no universo. Um dos propósitos de ir a Marte é para perfurar o seu solo. Perfurar o seu solo poderá permitir que encontremos seres subaquáticos vivos num ecossistema que possamos analisar e comparar. Comparar em que termos pergunta? Comparar em termos de estructura bioquímica, comparar em termos de crescimento e replicação celular. Podemos analisar esses seres vivos em todos os seus aspectos e muito provavelmente, caso existam, seríamos surpreendidos pela sua forma e comportamento em ambientes minimamente distintos dos da Terra. Esta razão é igualmente relevante no ponto de vista humano mas num sentido bastante diferente. Todos os organismos na terra usam os mesmos conjuntos de aminoácidos, os mesmos métodos de replicação e transporte de informação (DNA e RNA). Será que toda a vida no universo é assim ou somos nós apenas um exemplo específico? Será que o homem é a medida do universo ou existe uma maior diversidade? Esta é uma pergunta milenar que tem um impacto enorme na definição do humano. Exemplos como a teoria do geocentrismo (que defende que a terra está no centro do universo) demonstram que o humano tende a considerar-se o exemplo mestre na sua existência quando não dispõe de meios para demonstrar o contrário. Esta é uma forte razão que apoia uma ida a Marte.

Por último existem duas razões que se ligam que mostram o potencial póstumo de uma ida a Marte. A primeira é uma pequena análise das consequências socias. A exploração espacial foi marcante na época dos anos sessenta e setenta não só pelo seu sucesso mas também pela motivação para enfrentar novos desafios. É importante que se derrube novos desafios também pelo seu impacto nas novas gerações e pelo interesse que desperta nas massas. Um interesse colectivo das massas gera um maior desenvolvimento em todos os sectores envolvidos e isso nota-se ao analisar o orçamento da NASA na altura das missões Apolo em comparação com hoje em dia. É claro que um desenvolvimento mais rápido de um sector leva a mais descobertas desenvolvendo um ciclo benéfico de crescimento.

Concluo com olhar sobre as consequências num futuro longínquo. A exploração sempre foi um acto marcante do homem que deriva da sua curiosidade. Enquanto humanidade superámos objectivos como a exploração e conexão de todo o globo terrestre através de diversos meios, isto é uma realidade actual e bastante recente dada a escala da existência humana. Uma exploração com a ambição de uma viagem tripulada a Marte é um acto que marcará a história da humanidade como seres vivos capazes de explorar o universo e dominar a natureza. Não só isso mas também porque acontecimentos como estes mudam a sociedade ao expandir a nossa perspectiva do universo e isso tem um impacto na memória das pessoas, tal como diz Robert Zubrin “They will remember what we do to make their civilization possible”, a sua civilização em todos os seus sentidos: desde o quotidiano até às perguntas eternas sobre o universo