O Pequeno Buda quer trazer a meditação às universidades

Tomás Mello Breyner, também conhecido por Pequeno Buda, foi um dos oradores do TEDxISTAlameda e encontrou na meditação um método para aprender a viver em harmonia com as cirscunstâncias da vida. Tem a sua própria escola de yoga e é responsável por um projecto que pretende implementar a meditação diárias nas escolas.

Pela tua talk, ficámos com a ideia de que tens uma visão “naturalista” da religião. Defines-te como panteísta ou simplesmente pensas na natureza como uma manifestação do divino?

Eu penso no divino como um todo, não só como a natureza; mas a natureza também pode ser um todo. Para mim tudo é divino – tudo o que está dentro de nós e à nossa volta -, Deus está em todo o lado. Não me identifico com nenhuma religião e identifico-me com todas. Gosto um pouco de todas, porque acho que todas falam exactamente o mesmo. Depois existem as guerras porque alguns dizem “O meu Deus é melhor”, “Com o meu chegas lá mais rápido do que com o teu”, etc.

 

Ficámos curiosos quando disseste que devíamos aceitar (a palavra utilizada foi até embrace) as coisas que nos acontecem, independentemente de serem boas ou más. Como é que se pode lidar e aceitar de forma “passiva” as coisas más que nos acontecem?

Eu gosto de acreditar que tudo é bom. Quando digo bom, não entro no dualismo bom/mau; as coisas são o que são. O que para uma pessoa é mau, para outra pode ser bom, o que nos leva logo a concluir que as coisas não são boas nem más por si só. Se tu classificas uma coisa como boa, e outra pessoa classifica essa mesma coisa como má, quem é que tem razão? As experiências são apenas experiências que existem. Depois a classificação entre bom ou mau já é uma coisa mental que parte de nós, mas, na sua verdadeira essência, as coisas não são boas nem más; são apenas coisas.

 

Trabalhas principalmente com crianças. O facto de haver uma certa ingenuidade da parte delas e, portanto, inconsciência relativamente a este dualismo bom/mau, é uma mais-valia?

Nós não vamos tão a fundo com as crianças, apenas as tentamos trazer para o momento presente. As crianças costumam estar bastante agitadas – o que está, em parte, relacionado com a era digital em que vivemos – e, depois, quando se tentam concentrar, é um problema, o que dificulta a tarefa dos professores. Assim, o que nós tentamos fazer é resgatar as crianças para o momento presente e fazer com que elas percebam que têm de se concentrar, que é bom estar concentrado. Depois a parte da meditação que conecta com o coração e com a essência não é muito abordada. Por vezes falamos um pouco sobre o coração, mas nunca sobre Deus, religião ou filosofias deste género do bem e do mal.

 

Como é que reagem as crianças quando meditam pela primeira vez?

É muito engraçado! Nós trabalhamos com crianças pequenas e, tudo o que é novo para elas, é relativamente fácil. Elas adoram! É um momento no qual elas dizem que se sentem mais calmas e mais felizes. Já tivemos feedbacks super engraçados, como “É o tempo para o coração respirar”. Elas pedem aos professores para fazer meditação antes dos testes. De certa forma, parece que as crianças sabem que precisam destes exercícios; sabem que estão super agitadas e isto é bom para elas. É fantástico ver como as crianças alinham nisto!

 

E os professores também alinham, ou é mais difícil convencer os professores do que convencer as crianças?

É! O nosso desafio é esse mesmo: convencer os adultos de que as crianças têm de fazer 5 minutos de meditação. Por exemplo, professores de Matemática e professores de Ciências não estão muito para aí virados, então às vezes não fazem. Às escolas que aderem ao projecto, nós pedimos mesmo que façam todos os dias; nem que seja só tocar numa taça tibetana, que faz um sonzinho “plim”, e deixá-las em silêncio. As crianças precisam de aprender a estar em silêncio, porque elas estão completamente agitadas de um lado para outro, cada vez mais. No fundo, é normal as crianças estarem agitadas, berrarem, etc; mas, quando se chega a um extremo, já não é tão normal. Nós tentamos resgatá-las para a calma, para que elas consigam estar mais concentradas na sala de aula e, consequentemente, o processo de aprendizagem seja mais fácil.

A meditação também pode ser uma mais-valia em casos clínicos?

Sim. Para crianças que sofrem de autismo, por exemplo, a meditação é uma grande ajuda. É mais difícil para elas fazerem-no – por exemplo, fechar os olhos muitas vezes é difícil -, mas nós tentamos dar uma força e explicar que é importante. Há várias técnicas para as ajudar. Claro que nós não vimos pregar que a meditação é a salvação e que podemos parar de tomar medicação – não, nós queremos incluir a meditação aos poucos! Estamos só a plantar uma semente.

Achas que a meditação poderia ser útil aos estudantes universitários?

Sem dúvida. Nós estamos a pensar em começar a vir também às universidades. Neste momento também já estou a trabalhar com alunos da Oeiras International School – que vão ter os exames finais exames do secundário no final deste ano lectivo -, a qual me contratou para ir todas as semanas à escola fazer sessões com os alunos. Nas universidades é igual: quando nos acalmamos, as nossas ideias arrumam-se; quando estamos em stress, as nossas ideias dispersam-se.

Na tua talk, falaste ainda sobre o teu problema auditivo. O problema resolveu-se?

Não, continuo com o problema; a minha visão da situação é que mudou. Eu continuo a ouvir o zumbido e ouço mal, mas aceitei a minha condição – é assim que eu sou. Às vezes posso não ouvir bem, mas, em vez de ficar chateado comigo mesmo, aceito-me. Se me cortassem uma perna, também não ficaria à espera que a perna me crescesse, teria de aceitar a minha condição. É assim que eu sou e vivo feliz.

E-mail: tomasmbreyner@gmail.com

Site: tomasmellobreyner.com

FOCUS: Música, tecnologia e ensino foram os principais focos do TEDxISTAlameda 2017

A terceira edição do TEDxISTAlameda decorreu este sábado, 8 de Abril, no Salão Nobre do Instituto Superior Técnico. Às dez e meia, o movimento no Pavilhão Central já fazia prever um dia bastante dinâmico e recheado de actividades. No átrio, encontrava-se uma piscina de bolas facultada pela GFI, dentro da qual os participantes eram convidados a resolver anagramas, habilitando-se assim a ganhar diversos prémios. “FOCUS” foi o tema escolhido para a edição deste anos, pelo que, à medida que os participantes iam chegando, eram incentivados, logo à entrada do Pavilhão Central, a escreverem nos seus cartões de identificação aquilo em que estavam focados.

Les Crazy Coconuts;

Poucos minutos depois das onze, os Les Crazy Coconuts abriram as hostes da edição 2017 do TEDxISTAlameda. A voz de Gil Jerónimo e a bateria de Tiago Domingues aliaram-se ao imprevisível e surpreendente sapateado de Adriana Juliano para fazerem levantar das cadeiras um público que se adivinhava entusiástico, mas que ainda se encontrava adormecido.

20 minutos de actuação pura e dura, com palmas à mistura, chegaram para despertar a audiência. Foi então que chegou a vez de subir ao palco a primeira oradora do dia. 

Com o seu ‘trans-humanismo’ (H+) e ‘humanismo científico’, Daniela Ribeiro, deslumbrou a plateia com as suas obras plásticas, que têm nas componentes eletrónicas usadas a sua principal fonte de matéria prima.   Seguiram-se diversas talks com temáticas heterogéneas. De seguida, um colega da casa – o Francisco Moreira de Azevedo – avançou com uma análise incisiva ao sistema de avaliação. Uma boa educação é aquela que garante que todos progridam, veiculou-nos. E foi sem pés de lã que, citando Michael Athans (1), apontou o dedo ao IST, –  MIT students excel in independent thinking and problem-solving, while IST students are “spoon-fed”.

Francisco Azevedo;

Foi notório o destaque dado aos temas do ensino e da educação. Para além do Francisco – vencedor do Speaker Contest – foram também convidados João Couvaneiro, distinguido pela Varkey Foundation como um dos 50 melhores professores do mundo e Filipe Jeremias, fundador do projeto ERES – projecto educativo inovador em Leça da Palmeira.
Mas já lá vamos.
Pausa para almoço: 2 horas de networking à sombra de uma tasca de tacos voaram – as horas, não os tacos. Pelo menos foi essa a perceção. Ou seria do excesso de dopamina como Joe Paton nos explicou mais tarde?

Tomás Mello Breyner, também conhecido por “pequeno buda”;

De regresso ao Salão Nobre, o “pequeno buda” Tomás Mello Breyner, fechou os olhos à plateia e fê-la, literalmente, sentir a respiração. Falou-nos do problema de saúde que atravessou no final da adolescência, e a forma como o yoga e a meditação o ajudaram a ultrapassar essa crise – “Eu sou como sou, aprendi a viver com a minha condição. Se me arrancassem uma perna, habituar-me-ia a viver sem ela”.  Mencionou ainda a importância desta prática no ensino e a forma como a mesma pode ser uma mais-valia desde a infância.

João Couvaneiro;

Depois do yoga, o foco voltou para a educação. João Couvaneiro trouxe-nos a sua “School in the box”, e explicou-nos como uma escola pode, literalmente, caber numa caixa. Elucidou-nos da importância de as escolas formarem cidadãos, produtores e, mais que isso, criadores.
Em suma, pessoas felizes.
Como seria de esperar, dada a casa anfitriã em questão, houve ainda espaço para a tecnologia – desde a inteligência artificial como potencial criadora de música, passando pela bitcoin e acabando no mecanismo da visão e tomada de decisões. Os engenheiros e futuros engenheiros da plateia tiveram material suficiente para saciar a sua sede tecnológica.

Mistah Isaac;

O dia contou com mais um momento musical promovido por Mistah Isaac que fez as meninas presentes na sala palpitar. Surpreendeu tudo e todos com “Maria”, uma linda ode às tantas Mariamas guineenses que, com a colonização, foram rebaptizadas de Maria. O rapper, músico e poeta angolano radicado em Portugal desde os 11 anos, aproveitou ainda para declamar dois poemas, marcados por uma forte visão crítica à sociedade.
Com o público a chorar por mais, Mistah abandonou o palco e deu o lugar a Filipe Jeremias. O arquitecto de construções que passou a ser ‘arquitecto de pessoas’ lançou as perguntas sobre o ensino que ninguém soube responder “Porque tem uma aula 50 minutos?”, “Porque aprendemos todos da mesma maneira, se somos todos diferentes?”. Se as duas primeiras coisas que aprendemos a fazer são andar e falar, porque é que a primeira coisa que ouvimos na sala de aula é “Cala-te e senta-te!”. Sintomas de um sistema de ensino com alunos do séc. XXI, que são ensinados por professores do séc.XX, com métodos de ensino do séc. XIX baseados numa cartilha filosófica do séc. XVII. Ficou lançado o debate.

“FOCUS” foi o tema escolhido para a 3ª edição do TEDxISTAlameda;

O evento estava estruturado em três partes, entre as quais os participantes tiveram tempo para conviver e para tentar resolver o desafio lançado pela organização, o qual era constituído por 10 enigmas espalhados pelo Pavilhão Central. Se, inicialmente, “FOCUS” nos parecia vago, os comentários positivos dos participantes à saída do evento tornaram nítido que esta edição do TEDxISTAlameda conseguiu de facto captar o foco das cerca de 100 pessoas que decidiram passar este sábado solarengo no Instituto Superior Técnico.

– Afonso Anjos e Inês Mataloto

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico.

 

 

Entrevista – Roberta Medina

A entrevista que se segue é da autoria de Inês Mataloto e Gil Gonçalves, e foi feita no âmbito da comemoração dos 30 anos de existência do Rock in Rio. A Roberta Medina, Vice-Presidente Executiva do Rock in Rio, partilha um pouco do que tem sido a história deste festival de música.

Rock-in-Rio

 

  1. Este ano, o Rock in Rio celebra 30 anos de existência. Quais considera terem sido os pontos mais marcantes de todo o processo de desenvolvimento do festival até agora?

Realizar a primeira edição do evento no Brasil, “contra tudo e contra todos”, e reunir 1.380.000 pessoas em dez dias de música e em paz. Conseguir pôr o Brasil no mapa do entretenimento mundial. Ser o primeiro festival de música organizado do mundo e tornar-se uma referência internacional. Os três minutos de silêncio Por Um Mundo Melhor em 2001, que tiveram impacto em 90 milhões de pessoas ao mesmo tempo através dos meios de comunicação. A estreia do evento em Portugal, provando que o sonho da internacionalização era viável. A estreia nos Estados Unidos, levando novidade na forma de fazer e na oferta do evento, mesmo para um mercado tão forte na área do entretenimento como o americano.

 

  1. Roberto Medina criou, celebremente, o festival após uma discussão com a esposa, onde esta o espicaçou dizendo que “não tinha ainda feito nada de realmente grande no seu país”. Três décadas corridas, o que ainda vos motiva, não só a voltar ao Brasil como a expandir fronteiras e palcos?

O que nos motiva é o facto de criarmos um movimento global Por Um Mundo Melhor. É usarmos a música como plataforma para mobilizar pessoas por todo o mundo por uma mesma causa. Nós sentimos o poder das pessoas unidas a cada espectáculo, sentimos que aqueles milhares de pessoas cantam juntas. Queremos fazer com que essa força seja usada para construirmos, juntos, uma sociedade mais harmónica.

 

  1. Como surgiu a ideia do Rock in Rio e como foi todo o processo de preparação para a primeira edição?

O Rock in Rio surgiu de uma visão do Roberto. Como o próprio costuma dizer, o Rock in Rio é que o procurou, e não o Roberto que o procurou a ele. O Roberto estava descontente com o país e, depois de anos de ditadura militar, ele queria fazer algo realmente impactante capaz de unir várias tribos para mostrar uma juventude forte, com liberdade de expressão. E queria também promover o Rio de Janeiro como destino turístico a nível internacional, já que nesta altura o Brasil não era um destino apetecível.

Mas depois de desenhar a ideia, rapidamente começou a perceber as dificuldades em executar a mesma! Na época, era muito complicado levar para o Brasil qualquer banda internacional porque custava o dobro do que levá-la a qualquer outra parte do mundo; o país não estava sequer preparado para um evento desta dimensão e não existiam infra-estruturas; os bilhetes custavam pouco e para financiar um projeto desta envergadura o Roberto sabia que era preciso angariar patrocinadores, o que era impensável nesta altura. Durante quase 70 dias o Roberto não foi bem-sucedido em nenhuma das suas abordagens. Teve que bater em muitas portas e levar muitos “nãos”. Foi então que se lembrou de usar uma última cartada, chamada Frank Sinatra. O Roberto tinha trazido o artista para atuar no Brasil e eles criaram uma relação, pelo que resolveu pedir a sua ajuda para conseguir promover um encontro com os grandes players do showbiz, para conseguir apresentar o Rock in Rio a agentes e artistas e cativá-los. A estratégia funcionou e, no dia seguinte, já diversos jornais divulgavam o evento!

O passo seguinte foi pensar em como conseguir investimento e atrair o público e foi aí que chegou ao conhecimento do Roberto que a Brahma, cervejaria, na altura cliente da agência dele (Artplan), queria aproximar-se mais do público jovem. E, como publicitário, o Roberto acabou por fundir as duas coisas e conseguiu, não só investimento para montar o Rock in Rio, como respondeu com o maior dos sucessos ao briefing da Brahma, que acabou por lançar uma nova cerveja e experimentá-la perante o público de mais de um milhão de pessoas!

 

  1. De que forma a legenda atribuída em 2001 (Por Um Mundo Melhor) ainda se reflecte nos ideais do festival?

Com o projeto “Por um Mundo Melhor” o evento assumiu o compromisso de ser mais do que música e entretenimento, passando a usar o seu mediatismo e a capacidade de mobilizar massas para sensibilizar as pessoas na construção de um mundo melhor. Isso passa por assumirmos causas sociais ou ambientais a cada edição, contribuindo ativamente com elas, e, acima de tudo, com vários exemplos que podemos dar através das nossas ações e escolhas.

Já investimos, desde 2001, juntamente com os nossos parceiros, mais de 24 milhões de euros em causas diversas; em 2006, o Rock in Rio compensou, pela primeira vez, a sua pegada carbónica, o que permitiu, em 2008, implementar um manual de boas práticas com vista à redução da pegada carbónica que, por sua vez, em 2010, evolui para um plano de sustentabilidade, integrando questões sociais e económicas. O Rock in Rio é, também, o único evento com a certificação na ISO 20121 – EVENTOS SUSTENTÁVEIS, desde 2013.

Na prática, todas estas ações resultaram em fatos concretos como: os resíduos produzidos tiveram, até ao momento, uma taxa média de reciclagem de 71%; até 2016 termos plantado cerca de 300 mil árvores; instalamos 760 painéis solares que geram rendimento permanentemente para projetos sociais através da Sic Esperança; doámos 15.632 refeições; compensámos as emissões de CO2 do evento, entre muitos outros resultados a nível nacional e internacional. Ou seja, para além das ações no recinto aliadas às preocupações de redução da pegada carbónica, reciclagem dos resíduos produzidos, entre outras, mantemos o nosso compromisso de contribuir para uma comunidade mais justa e equilibrada e apostamos na compensação dos nossos impactos e em potenciar os impactos positivos. Esta visão tem vindo a crescer e é um compromisso que faz parte do ADN da marca e do evento que é hoje internacional, tornando este compromisso também ele global, nunca esquecendo a nossa ação local a cada edição.

Agora estamos a lançar o Amazonia Live, o primeiro projeto transversal a todos os países onde o Rock in Rio está, e que se vai estender por mais de uma edição, até 2019. Com este projeto, o Rock in Rio compromete-se a plantar 1 milhão de árvores na Amazónia, o “pulmão do mundo”, mas tem como objetivo atingir os 3 milhões e, para isso, vai motivar parceiros e fãs a abraçar esta causa sob o mote “Mais do que Árvores, Vamos Plantar Esperança”. A Amazónia foi a zona escolhida porque tem impacto em todo o mundo uma vez que abriga a mais importante reserva de biodiversidade do mundo, tendo um papel fundamental na redução do impacto do aquecimento global.

 

  1. O Rock in Rio desde as suas origens que agrega multidões recordistas, tendo tido um enorme impacto nos amantes de música de todo o mundo. E a sua recepção pelos próprios músicos como foi? O que sente ao ouvir estrelas como James Taylor apontarem o festival como um momento transformador e singular?

É muito emocionante, é a prova concreta do poder transformador da música e do poder das pessoas unidas por um mesmo objetivo, força essa que atinge não só quem assiste mas quem faz. Antes do primeiro Rock in Rio só havia o Woodstock, e este tornou-se uma referência para muitos dos grandes músicos que estão em tournées hoje em dia, tendo sido o sonho de meninos que estavam a começar suas carreiras e que desejavam um dia tocar naquele palco. Ouvimos isso de artistas como os Metallica, 30 seconds to Mars e muitos outros.

 

  1. O festival foi palco de momentos tão díspares e caricatos como disparos de canhões, travessias de moto e beijos. É a imprevisibilidade o factor transversal à música ao vivo, que nunca a envelhece ou entedia? 

É a vontade de fazer as pessoas felizes! Nas 12 horas de festa que se vive na Cidade do Rock, em dias de evento, a nossa principal preocupação é para com as pessoas, com o seu bem-estar e o seu conforto. E é o facto de conseguirmos, num clima de enorme festa, fazer as pessoas conviverem umas com as outras, num clima de união e felicidade, que torna este evento único. A vibração que se vive na Cidade do Rock é demasiado forte para, algum dia, entediar!

 

  1. O que distingue o Rock in Rio Lisboa dos restantes?

Com certeza o Parque da Bela Vista, que é um ambiente natural único para acolher os milhares de pessoas que vão para curtir as 12h de festa em cada dia de evento. Outra diferença é o público português, que recebe os artistas de forma intensa e vibrante, além de ter um comportamento exemplar. A atmosfera do Rock in Rio Lisboa é muito especial, o clima que se vive na Cidade do Rock é o palco perfeito para fazer desta experiência algo ainda mais feliz e inesquecível.

 

  1. Qual a edição de que mais gostou? Porquê?

2012 foi uma edição que me comoveu muito porque o país estava num clima muito deprimido por causa da crise e o que se viveu dentro da Cidade do Rock foi exatamente o contrário. O Parque da Bela Vista tornou-se uma bolha de alegria que serviu para recarregar as energias e renovar a esperança de quem passou por ali e dos milhares de pessoas que acompanharam o evento pela televisão. Isso faz com que o nosso trabalho tenha um valor ainda mais especial.

 

  1. Qual o concerto a que mais gostou de assistir?

Ao longo de tantas edições é difícil escolher um só concerto. Afinal, já passaram pela Cidade do Rock cerca de 1.500 artistas. Mas houve um concerto que me marcou recentemente: o dos Queen com Adam Lambert, na edição de 2015 no Rio de Janeiro. Quando eles puseram um público imenso a cantar “Love of My Life”, em 1985, eu era muito nova e não assisti a esse momento mas ouço falar dele há 30 anos! Em  2015, eles voltaram e foi muito emocionante ver as pessoas a levarem as suas famílias para relembrar aquele momento. E agora eu também já tenho o “meu” Love of my Life! (risos)

 

  1. Qual a música que mais a comoveu?

Primeiros erros do Capital Inicial e Circo de Feras do Xutos & Pontapés.

 

  1. O que podemos esperar do Rock in Rio no futuro?

Enquanto marca, ser cada vez mais global e mobilizadora de pessoas em prol de um mundo melhor. Enquanto evento, continuar a liderar o nosso segmento no que cabe à entrega de qualidade, à inovação, à qualidade das infra-estruturas, das atrações e do line up world class que entregamos sempre ao público.

 

  1. O festival sempre se caracterizou por trazer os maiores nomes, os criadores de hits e tendências. Porque não apostar também em grupos menos conhecidos, divulgando-os de forma única?

Um dos aspetos diferenciadores do Rock in Rio desde sua primeira edição foi sempre misturar estilos musicais e talentos de renome com outros menos conhecidos. Pelo perfil do público do evento, a presença de grandes nomes tem que ser sempre maior. O Palco Vodafone, por exemplo, tem precisamente o objetivo de trazer para o evento artistas de um segmento mais restrito, o da música alternativa. Uma das grandes oportunidades neste caso é justamente dar a conhecer estes talentos – alguns já com grande notoriedade no seu segmento – para um público mais massivo.

Fizemos isso quando fomos um dos primeiros festivais a dedicar um palco à música electrónica, em 2001, quando ela ainda atingia apenas um segmento de nicho. O mesmo aconteceu no caso do Palco Raízes com a World Music em duas edições do evento, o Hot Stage que foi dedicado aos novos talentos em 2008, o Sunset que continua a promover encontros únicos de artistas de renome com novos talentos.

No Palco Vodafone, este ano, vamos voltar a receber grandes nomes internacionais como os irreverentes e eletrizantes Black Lips, o trio canadiano Metz, os brasileiros do rock psicadélico Boogarins, as espanholas Hinds e até uma das maiores revelações dos últimos tempos, os Real Estate. E a nível nacional, marcarão presença nomes como Keep Razors Sharp, Sensible Soccers, Capitão Fausto e até o conhecido por uma capacidade de produção surpreendente, B Fachada. Para além destes nomes, a opening slot deste palco ficará a cargo da Vodafone Wild Card – novos talentos na música portuguesa.

 

  1. Pela altura desta edição de 2016, os alunos do Técnico ainda estarão submersos em trabalho. Convença-os a largar os estudos pela música.

Faz uma pausa nos estudos e vem recarregar as energias no Rock in Rio-Lisboa! Festa, festa e festa, é isso que vamos oferecer a todos os que passarem pela Cidade do Rock nos cinco dias de evento. Desde o Palco Mundo ao Palco Vodafone, passando pela Eletrónica, com a novidade das pool parties, e pela Rock Street e Street Dance, o maior evento de música e entretenimento do mundo vai ter atuações únicas de artistas de topo, com hits que vão fazer toda a gente cantar e dançar da primeira à última música. E estamos prontos para vos receber numa Cidade do Rock ainda mais bonita, com muitas atividades e muita música boa!

Arte expressiva como protesto

Petr Pavlensky é um activista Russo que desafia as normas do governo através do que considera arte e do que os seus opositores consideram loucura. Algumas das suas obras anteriores levaram-no a agir sobre o seu próprio corpo de formas que se apresentam como verdadeiros desafios aos limites humanos. Em 2012 coseu os lábios como protesto a favor da banda punk rock feminista Pussy Riot, da qual três raparigas foram presas após um concerto improvisado e não autorizado na Catedral de Cristo Salvador de Moscovo. Quando Pavlensky apareceu com os lábios cosidos na Catedral de Kazan, em São Petersburgo, a polícia chamou uma ambulância e o artista foi sujeito a exames psiquiátricos, que o diagnosticaram saudável. Em 2013, no Dia da Polícia no seu país, Pavlensky pregou os testículos à calçada em frente ao Mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha, em Moscovo. “Um artista nu, a olhar para os seus testículos cravados na calçada, é uma metáfora da apatia, indiferença política, e do fatalismo da sociedade Russa”, afirmou o artista à imprensa. Em 2014 cortou uma parte do lóbulo da orelha, como protesto ao que considera ser o regresso dos métodos soviéticos à Rússia actual. No mesmo ano, vandalizou a ponte Malo-Konyushennyi, no centro de São Petersburgo, em homenagem aos protestos contra o Maidan, um movimento socio-político de apelo à aproximação da Ucrânia com a Europa ocidental.

Pyotr PavlenskyFixation, 2013.

Por mais controversos que sejam os métodos de Pavslensky, a sua linha de pensamento consegue demover muitos dos que consigo contactam, como Pavel Yasman, um dos investigadores responsáveis pela acusação do artista no caso de vandalização da ponte, que acabou por abandonar o caso e por se voluntariar como advogado do activista Russo. O extremismo nas suas performances permite que as mensagens não passem de uma forma simplista. O conteúdo é transmitido, mas a severidade e importância de cada tema é igualmente manifestada.

Hoje em dia podemos dizer claramente que as estruturas de poder convertem as pessoas, de forma sistemática, em borregos que oferecem uma obediência quase animal. Infelizmente, a grande maioria confirma esta teoria e obedece, seguindo o instinto animal do medo”, lamenta Pavslensky. Em declaração à imprensa, o artista ressalva ainda a importância da internet enquanto veículo de transporte de uma outra perspectiva da realidade política e espera que a fluidez de informação seja suficiente para fazer chegar a sua mensagem à sociedade.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

Feliz Natal!

1 de Dezembro! Festeja-se a Restauração da Independência. O povo português, autónomo, deixa-se envolver pela sua própria atmosfera natalícia. Há luzes na rua, pinheiros enfeitados, presépios compostos e Pais Natais fotogénicos. O aroma do lume da lareira confunde-se com o odor do consumismo. Oferecer uma recordação fica sempre bem: a provável inutilidade do objecto oferecido é desculpada pela afecção do gesto. Ficam a faltar o bolo rei, as filhoses, os sonhos e as rabanadas que, juntamente com o arroz doce, tapam o buraco no dente que o bacalhau e o peru deixaram passar. As lojas estão cheias um mês, a mesa uma semana, a casa dois dias. É nesses dois dias que esquecemos a correria quotidiana e vivemos como se aquele conforto familiar fosse tudo o que temos. E à nossa volta, o que se passa?

Joyeux Noel! Em França, há quem aproveite o dia 25 para fazer a chamada reconciliação de Natal, que consiste em ir até à casa de alguém com quem se está chateado para fazer as pazes. Podemos dizer, portanto, que o manjar natalício dos Franceses inclui o orgulho.

Vrolijk Kerstfeest! Na Holanda, os presentes são entregues no dia de São Nicolau, 5 de Dezembro. Neste mesmo dia, ocorre a festa de Zwarte Piet (“Pedro Preto”), que seria o ajudante negro do Pai Natal. Para celebrar a data, algumas pessoas saem à rua com a cara pintada de preto, lábios vermelhos e peruca black power, o que é por vezes considerado racista. No dia 25 festeja-se o nascimento de Jesus e acendem-se velas na árvore de Natal.

Fröhliche Weihnachten! Na Aústria, nem tudo se resume em amor, família e presentes. No dia 5 de dezembro, os Austríacos celebram a existência do Krampus, uma espécie de demónio que puniria as crianças más. Na data, as pessoas saem às ruas mascaradas de diabo.

Merry Christmas! Em Inglaterra, o peru também tem a honra de liderar enquanto prato principal. Como sobremesa, contudo, é o Christmas Puddin que se destaca. Trata-se de um bolo composto por 16 ingredientes, entre frutas cristalizadas e cerveja preta, que é feito meses ou até um ano antes de ser consumido. Tradicionalmente, os ingredientes são misturados por todos os membros da família, como símbolo da sua união. Antigamente colocava-se uma moeda de ferro no bolo e cada membro da família pedia um desejo. Aquele que encontrasse a moeda, tinha o seu desejo concretizado. A tradição mantém-se, mas é usada uma moeda de chocolate.

Nos Estados Unidos, o conforto da lareira é também particularmente apreciado nesta época. A pensar naqueles que não têm lareira em casa, uma estação de televisão passou a transmitir o lume de uma lareira durante 24 horas. A tradição já dura há mais de 40 anos, o que nos pode levar a questionar se há realmente quem veja utilidade no canal. De uma coisa tenho a certeza, não há lareira, verdadeira ou virtual, que aconchegue a tristeza que sinto no momento em que me consciencializo que o meu aniversário nunca será festejado de forma tão diversificada como o de Jesus.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

Pele artificial com tacto e possível revestimento de próteses

No dia 15 de Outubro foi publicado na revista Science um artigo referente a uma pesquisa conduzida na Universidade de Stanford, California, que permitiu o desenvolvimento de sensores com potencial para devolver parte do tacto aos utilitários de próteses.

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O recurso a circuitos orgânicos flexíveis e a sensores de pressão permite reproduzir a geração de sinais sensoriais semelhantes aos da pele, os quais são transmitidos para as células cerebrais através de uma técnica de optogenética, baseada em conhecimentos de Óptica e de Genética. Os sensores piramidais de nanocarbono, eficazes na detecção e direccionamento de campos eléctricos de objectos próximos, são colocados sobre um circuito eletrónico impresso, que transforma a corrente variável numa série de impulsos. Recorre-se então a células previamente modificadas no sentido de as tornar sensíveis a determinadas frequências de luz, que “ligam” e “desligam” as células e que, consequentemente, controlam o funcionamento dos processos pelos quais as mesmas são responsáveis. Os investigadores conseguiram, por exemplo, converter a pressão estática que é exercida por um objeto sobre a pele, em sinais digitais comparáveis aos diferentes graus de resistência mecânica que a pele humana é capaz de detectar. Zhenan Bao, Engenheira Química da Universidade de Stanford e autora do artigo, afirma que “os sensores são muito finos, flexíveis, e também elásticos, pelo que uma pessoa poderia montar um sensor na pele e usá-lo para detectar sinais vitais como os batimentos cardíacos e a pressão arterial”.

Embora já fossem conhecidos alguns materiais bastante sensíveis, o sinal sensorial resultante não era interpretado pelas células nervosas. Assim, esta tecnologia, ainda em desenvolvimento, apresenta-se como uma ferramenta potencialmente viável na produção de pele artificial para cobertura de próteses, o que, a concretizar-se, resulta numa mais-valia para aqueles que vivem com um “membro fantasma”.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

Video e artigo da Universidade de Stanford a explicar estes sensores (em Inglês):

Fontes:

Impressões digitais revelam o consumo de cocaína

Investigadores britânicos da Universidade de Surrey desenvolveram um método rápido e não invasivo para detectar o consumo de cocaína. A metabolização desta droga conduz à formação de benzoilecgonina e a metilecgonina, substâncias que podem ser libertadas em pequenas quantidades no suor, o que permite a sua detecção nas impressões digitais. Durante a fase experimental, os investigadores recorreram a um espectrómetro de massa, que detecta substâncias a partir da medição da massa atómica e da análise da estrutura molecular. Num artigo publicado na Analyst, revista científica da British Royal Chemistry Society, os investigadores sugerem que o teste pode ser tão eficaz quanto um teste tradicional de análise ao sangue ou à urina, com a vantagem de que os elementos químicos desaparecem mais rapidamente do suor, pelo que um resultado positivo revela que o indivíduo analisado está sob o efeito de drogas no momento do teste. Para além disto, este método torna-se mais fidedigno por preservar a identidade dos suspeitos, ao contrário dos testes tradicionais. A controvérsia parece recair no facto de o equipamento necessário apresentar um tamanho semelhante ao de uma máquina de lavar roupa, e custar cerca de 1,9 milhões de libras esterlinas, o que equivale a 2,7 milhões de euros.

O método continua em investigação e poderão ser necessários alguns anos até que o mesmo seja entregue às autoridades. Melanie Bailey, co-autora da pesquisa e professora de Ciência Forense e Analítica da Universidade de Surrey, acredita no potencial do projecto, uma vez que existem produtos no mercado que poderão colmatar os problemas associados ao custo e dimensões, tornando o teste portável e exequível.

 

Inês Mataloto

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

Mecânico e Rei por Skype

ImageCéphas Bansah, rei de Hohoe.

Céphas Bansah é mecânico na Alemanha e rei de Hohoe, um reino tradicional no Gana. Vive em Ludwigshafen, na Alemanha, e governa os seus cerca de trezentos mil súbditos por telefone, fax, e-mail e Skype.

ImageCéphas Bansah é dono de uma oficina de mecânica na Alemanha.

Em 1992, com a morte do seu avô, Bansah foi coroado. Apesar de, hierarquicamente, levar apenas o bronze, antecedido pelo pai e pelo mais velho dos 75 irmãos, o facto de os detentores do ouro e da prata serem canhotos excluiu-os da liga, uma vez que o canhotismo é considerado sinónimo de desonestidade entre os membros da étnia Ewe. Nesta altura, o novo rei estava a terminar o curso de Técnico de Mecânica na Alemanha, onde decidiu continuar. “Eu tinha duas razões pelas quais queria vir para a Alemanha: em primeiro lugar, o meu interesse em seguir uma carreira para usar e reforçar a experiência adquirida com os meus estudos e, em segundo lugar, para ganhar uma visão sobre as “típicas” atitudes alemãs – o sentido inflexível do dever, disciplina, diligência e ambição.” – Afirma o rei, que acredita conseguir mais contactos, parceiras e doações para o seu reino em território germânico. Para governar a mais de seis mil quilómetros de distância, começou por combinar comunicações regulares via fax com cerca de oito visitas a cada ano. Com o Skype, cortou o número de presenças ao meio. “Uso o Skype para falar com meu irmão e com e meu povo e para saber como estão a ir as coisas, se são precisas mais pontes, mais escolas, como estão as obras…”, diz.

ImagePonte construída em Hohoe, graças a parcerias com empresários alemães.

Céphas Bansah tem ainda uma plataforma de doações online, onde pretende amealhar dinheiro para construir uma escola técnica em Hohoe, onde se ministre o ensino de marcenaria, mecânica e indústria têxtil, de modo a incentivar a prática de actividades técnicas e artesanais. Segundo o rei, os têxteis são a principal prioridade por serem destinados às mulheres, as quais merecem especial atenção do governante uma vez que, estando no seio de uma sociedade adepta da poligamia, podem ser abandonadas a qualquer momento. Os 75 irmãos do rei, por exemplo, são filhos de 12 mulheres diferentes.

Para além de rei e mecânico, é conhecido como entertainer e músico, aparecendo diversas vezes nos média, numa tentativa de apelar ao interesse nos seus projectos. Tem estado em muitos programas de televisão por quase todas as estações germânicas, bem como em vários shows nacionais e internacionais, onde publicita lembranças como bolsas e óculos escuros com a sua fotografia. “Há muitas mulheres que gostam de mim, então elas compram”, afirma.

Inês Mataloto

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico