Entrevista ao “Truques da Imprensa Portuguesa”

No seguimento do artigo sobre o jornalismo na nova era, convidámos as pessoas responsáveis pela página “Truques da Imprensa Portuguesa” para uma entrevista sobre as suas perspectivas relativamente aos desafios da imprensa e, como não podia deixar de ser, abordámos também o projecto que têm vindo a desenvolver, o crescimento da comunidade de seguidores e as polémicas e quezílias que se criaram com alguma parte da comunicação social portuguesa.

 

Antes de discutirmos mais a fundo os desafios que o jornalismo enfrenta actualmente, gostaria de começar por vos perguntar, estando fora do mundo do jornalismo, o que é um jornalista e qual o papel que este deve desempenhar?

A nossa perspectiva é a perspectiva de leitor, de público, construída de forma relativamente empírica. Nós achamos que o jornalismo, em geral, e o papel do jornalista, em particular, é fundamental, porque é o intermédio entre a realidade e o público, constitui-se como uma charneira entre aquilo que acontece e aquilo que é dado a conhecer sobre uma dada realidade – por isso mesmo é tão importante que seja criticado, reflectido e revisto, e é isso que nós tentamos fazer.

 

De onde surgiu a decisão de criar este projecto? De um juízo de que existe um desvirtuamento do jornalismo português?

Não, nós temos uma visão crítica em relação ao estado do jornalismo, mas não temos uma perspectiva catastrofista sobre o mesmo. É verdade que o mundo do trabalho no jornalismo enfrenta problemas muito grandes, o modelo de negócio de empresas de comunicação social enfrenta desafios enormes, há muita gente a discutir e a reflectir sobre isso, e há problemas muito específicos que estão a ser colocados nesta altura. Nós temos referido, de forma sistemática, quais são esses problemas: o problema das fontes, da pressão, da quantidade de trabalho, da necessidade de publicar cada vez mais rapidamente. Enfim, há um mar de problemas que nós procuramos explicar e demonstrar sempre através de exemplos concretos, essa é a nossa filosofia.

 

Uma crítica que costumam apontar frequentemente nos vossos posts, é o facto de existir um certo consenso entre jornalistas em colocar a responsabilidade da dificuldade em fazer bom jornalismo nas redes sociais e em apontá-las como um antro de notícias falsas…

Não é bem isso que dizemos. Existe a perspectiva por parte de alguns jornalistas, e começa a cultivar-se essa ideia, de que as redes sociais são um problema, são um inimigo do jornalismo. Isso não é necessariamente assim, não acho que exista uma espécie de dicotomia, de guerra, entre o jornalismo que defende a verdade e as redes sociais que defendem a mentira. Ora, se as redes sociais são espaços onde, de facto, prolifera muita mentira e muitas notícias falsas, sendo as eleições norte-americanas um bom exemplo disso, são também um espaço de muita crítica, que permitiram o surgimento de novos protagonistas e onde toda a gente pode dar a sua opinião de forma relativamente igual, não havendo propriamente um exercício de controlo sobre quem pode ou é capaz de o fazer. O intermédio da imprensa muitas vezes estabelece quem tem acesso a esse espaço de visibilidade pública – quem são os opinion makers, quem são os protagonistas – e as redes sociais eliminam isso. Do nosso ponto de vista é bom, é uma vantagem.

 

Mas um jornalista, que há dez ou vinte anos, tinha um monopólio da informação, vê-se agora condicionado pelo facto de qualquer pessoa poder ser um “jornalista” e divulgar as notícias de uma forma muito mais rápida do que um meio de comunicação tradicional…

Mas nós discordamos desse processo. Achamos que aquilo que pertence ao mundo do jornalismo deve continuar a ser exclusivo do mundo do jornalismo, não pretendemos disputar, com a página que temos, o seu universo. Se alguém tenta substituir, isso não faz sentido, é uma profissão que requer instrumentos, seja do ponto de vista formal, seja do ponto de vista intelectual. O jornalismo deve ser respeitado e deixado aos jornalistas. As redes sociais, por si, são uma estrutura, que pode ser utilizada para o bem ou para o mal, aliás como a própria imprensa, que não é inerentemente boa. As redes sociais são uma estrutura onde existe tudo, porque é onde estão todas as pessoas de todos os tipos. Essa correlação directa entre as redes sociais e as notícias falsas, para nós, é errada e desonesta do ponto de vista intelectual.

 

Se grande parte do público recorre às redes sociais para receber notícias, o controlo e a visibilidade que os media têm acaba por se diluir um pouco na amálgama de informação da rede social. Essa descaracterização e omnipresença das redes sociais não se vai reflectir numa transformação do comportamento dos media tradicionais?

Compreendemos que isso é um grande desafio e que deve ser feita uma reflexão urgente, mas esta não deve ser feita por nós. Agora, nós achamos que este desafio não deve levar os jornais ao clickbait, porque isso só funciona a curto prazo. No fundo, o clickbait pode enganar o público nos próximos tempos, dias, meses, anos, e conduzir a mais venda de publicidade, mas lentamente vai desgastando a credibilidade da imprensa tradicional, que é o seu principal capital. Se abdicam deste capital, então é inevitável que mais ou menos lentamente se acabem por destruir enquanto projecto de jornalismo.

 

Mas uma empresa de comunicação social, enquanto negócio, não pode esquecer quais as características do público para quem comunica. Se o público tem mais interesse em notícias sensacionalistas, em notícias que se foquem no futebol ou no mundo das celebridades, existirá uma tentativa de dirigir a sua linha editorial para que seja mais atractiva para essa parte mais significativa do público…

Sim, mas isso é uma questão de ética profissional. Não significa que a comunicação social tenha de capitular perante isso. Não acreditamos que é um mau público que faz uma má imprensa. É uma má imprensa que faz um mau público e um mau público que faz uma má imprensa. É uma situação de circularidade. O Correio da Manhã tem uma grande tiragem não só porque há muitos leitores a comprar, mas também porque há muitos leitores pouco informados para aceitarem algumas coisas do Correio da Manhã, porque existe o Correio da Manhã a fazê-las. É um processo em simultâneo.

 

O que acham da comunidade que se formou à volta da página e do seu crescimento?

Nós achamos que é interessante e que de certo modo veio dar razão às nossas críticas. A página é assumidamente um espaço de crítica e de subjectivação. Não queremos dar informação, não nos queremos substituir ao jornalismo. Se a comunidade cresce, significa que há gente a achar relevante esse espaço de crítica.

 

Relativamente a algumas críticas que têm saído por parte da imprensa em relação à vossa página- sendo o exemplo mais recente o caso com o Ricardo Costa, jornalista do Expresso- o que transparece é uma reacção algo corporativista da comunicação social que não parece ser capaz de encaixar críticas feitas ao meio, e isso é algo que me incomoda, porque numa situação em que a crítica é dirigida à comunicação social, sendo ela própria responsável por informar e servir de plataforma para fomentar a discussão e opinião, pode dar-se o caso de ser parcial em situações que a envolvam…

Sim, quem é o árbitro nessas situações? Não te consigo dizer. Acho que tem de ser o público. Penso que há, de facto, uma reacção corporativista à nossa pagina. Há muita crítica muito pouco fundamentada. O caso do Ricardo Costa é um exemplo… é capaz de ter feito muitos tweets sobre nós, mas o que encontras nos tweets são só críticas ad hominem e intimidação. Não há nada de concreto. Nós estamos totalmente disponíveis para discutir factos concretos sobre os nossos posts e críticas, e isso às vezes acontece. Se fores ver os comentários, há muita gente que dá posições opostas e nós tentamos dar visibilidade a esse debate. Da parte dos jornalistas, pelo menos de alguns, até porque há muitos a elogiar a página e o trabalho feito, há mais dedicação à destruição da credibilidade e simpatia da página junto do público.

 

O que acham da qualidade do jornalismo em Portugal? Pensam que o vosso trabalho tem dado frutos no sentido de a melhorar?

Relativamente à qualidade do jornalismo, pensamos que a maior parte dos jornalistas faz um bom trabalho, diário e silencioso, e podemos vê-lo quando abrimos os jornais. Havendo problemas, é necessário destacá-los e discuti-los. No que toca aos frutos do nosso trabalho, nós preferimos deixar essa questão ao público. Queremos acreditar que sim, até porque isso se traduz numa correcção de notícias em resultado da publicação de posts da página. Isso já nos deixa satisfeitos. Se é uma transformação estrutural ou mais de fundo, isso deixamos para os seguidores e leitores.

 

Consideram que existe um condicionamento do jornalismo português devido a pressões políticas e de grupos económicos? Veja-se o caso angolano, em que boa parte da imprensa portuguesa se manifesta de forma silenciosa sobre acontecimentos que sejam negativos para o actual executivo angolano.

Nós preferimos falar sobre assuntos em concreto. A questão angolana é bastante importante. Nós acompanhámos o caso de Luaty Beirão e verificámos que existia um padrão. Os jornais com capitais angolanos passaram o caso para segundo, terceiro planos, ou às vezes nem isso… quando era um assunto com interesse, do espaço da lusofonia, que tem interesse para o público português. Agora, nós não fazemos esse tipo de acusações, porque não nos cabe a nós nem temos meios para provar essa influência, mas fazemos uma crítica e damos essa informação aos nossos seguidores para reflectirem sobre estas questões da imprensa.

 

Por que razão se preferem manter no anonimato?

A questão do anonimato não é uma questão fechada, mantém-se em aberto. O anonimato tem a ver em primeiro lugar com a protecção da nossa privacidade, temos vidas privadas que nada têm a ver com o jornalismo, nem somos figuras públicas, e isso podia ser colocado em causa. Ao estarmos a aprofundar temas sobre um poder fundamental da democracia, a imprensa, muitas vezes secundarizado ou esquecido, nós sabemos que a nossa posição nos fragiliza imenso, até porque já recebemos várias ameaças. Em segundo lugar, nós acreditamos que o anonimato é uma questão fundamental, porque funcionamos como gestores de conteúdos, uma vez que cerca de 95% dos nossos posts advêm de sugestões dos nossos seguidores. Que sentido faz assumirmos a autoria de uma coisa quando somos apenas coordenadores de um projecto?

 

Porém, a questão do anonimato não permite defender, por exemplo, de acusações sobre afiliações partidárias e pode gerar alguma desconfiança…

Sabemos que traria algumas vantagens não permanecer no anonimato. Permitir-nos-ia destruir essas acusações. Mas repara no seguinte, nós não pedimos a ninguém para confiar em nós. Não fazemos ameaças a jornalistas, nem é frequente referirmos nomes de jornalistas. É muito pontual e sempre de forma justificada. Não é um anonimato que esconda um crime ou vergonha. Mas tem, claro, as suas desvantagens. A nossa identidade, para o valor das nossas opiniões, é absolutamente irrelevante. Se as nossas críticas forem mal fundamentadas ou mal dirigidas, elas podem ser expostas e criticadas na mesma, independentemente de quem somos.

Por uma senhora União Europeia mais produzida

Ainda é possível acreditar nesta jovem(?) de 60 anos?

BURKAMP, Dieter (Hrsg.). Zehn "Neue" für Europa - The Ten "New" Europeans. Bielefeld: Kerber, 2004. 119 S. ISBN 3-936646-87-2.
BURKAMP, Dieter. Zehn “Neue” für Europa – The Ten “New” Europeans

O projecto, que começou como um pretexto para evitar novos conflitos entre os países europeus e fugir à atracção das superpotências americana e soviética, e que depois se transformou no maior e mais complexo plano de cooperação económica, social e financeira alguma vez realizado entre múltiplas nações, fez em Março 60 anos. Uma história sexagenária marcada por prosperidade, expansão, desistências e crises – crises económicas, de soberania e de identidade. O seu definhamento e morte já foram profetizados várias vezes durante o início deste século (que só conta ainda com 17 anos…) pelas mais diversas figuras, tanto do outro lado do Atlântico, como ao nível dos próprios estados-membros europeus, e até mesmo por personalidades russas, africanas e asiáticas. Porém, à parte de conjecturas que se estendem desde opiniões pessimistas a whishful thinking, cabe aos europeus decidir o destino desta união, pesando os prós e os contras desta relação.

Ora como falamos de pessoas, a avaliação deste projecto não é feita em moldes puramente racionais e desapaixonados, pelo que a experiência pessoal, a posição dos políticos a nível nacional e a forma como a União é retratada pelos órgãos de comunicação social desempenham um papel relevante na percepção que cada um tem sobre a União. É, por isso, fundamental que exista uma estratégia que promova a imagem do projecto e leve uma mensagem clara e inequívoca sobre os benefícios da União. A questão que se coloca é se esta estratégia tem sido implementada e se tem sido eficiente.
As ideias de pátria, nação e terra são facilmente assimiladas por qualquer um, sendo possível construir à volta delas uma identidade que representa uma comunidade com certas características e valores culturais, à qual é possível estabelecer uma relação afectiva e de pertença. Quando se fala da terra onde se nasceu e cresceu, quando em eventos desportivos como o europeu e o mundial de futebol, e os Jogos Olímpicos, Portugal é representado por equipas ou por atletas individuais; e quando ao nível da arte se é reconhecido lá fora por, por exemplo, o fado e o cante alentejano, fala-se de uma identidade comum. No que toca à União Europeia (UE), esta percepção de pertença a uma comunidade maior do que a nação não existe. A relação é muito menos afectiva e em vários casos é vista de uma perspectiva puramente interesseira por parte dos estados (o exemplo mais claro é o Reino Unido). Não existindo essa relação, a União está mais susceptível ao clima económico. Em alturas de crise e de pouco ou nenhum crescimento económico, é fácil para os políticos cavalgar as ondas de descontentamento e, com discursos eurocépticos e nacionalistas, colocar as culpas na elite burocrática de Bruxelas e propor a saída da UE como a solução dos seus problemas.

Muitas vezes, a UE não é capaz de arrebatar as capas dos jornais nem ganhar destaque nos órgãos de comunicação social. Legislação, por mais importante que seja, deliberações da Comissão Europeia e questões debatidas no Parlamento Europeu (PE) passam ao lado de grande parte dos cidadãos. Existe pouco conhecimento quanto às funções que cada instituição europeia desempenha, a forma como as pessoas são escolhidas para os cargos, o que são e quem são os membros do PE, como é que os partidos políticos nacionais se encontram organizados em famílias políticas distintas no PE, etc. A actuação da UE é subtil e a imagem que se faz passar é aquela que é muitas vezes definida pelos políticos e comunicação social nacionais. Burocracia, regulação excessiva, perda de soberania, governação franco-alemã, elites europeias altamente remuneradas – tudo isto são chavões que constam das críticas, mais ou menos válidas, que se apontam à União. Críticas que vão construindo e cimentando a percepção do cidadão comum sobre a mesma. E relativamente às suas conquistas e trabalho feito? Se não for a UE a falar, quem falará sobre os fundos para a agricultura, para o desenvolvimento tecnológico e científico, a partilha de conhecimento e de pessoas entre universidades e centros de investigação espalhados pela Europa, os projectos de intercâmbio cultural, programas de mobilização como o Erasmus, o Interrail (só para dar alguns exemplos)?

Os tempos são diferentes e exigem formas diferentes de comunicação. Num mundo onde somos constantemente bombardeados com informação nas mais diversas plataformas, é importante marcar uma posição e enviar uma mensagem clara que se eleve acima do ruído. A União tem de mostrar de uma forma vincada, directa e pessoal aos cidadãos europeus aquilo que vale. Os extremistas, nacionalistas e terroristas há muito que aprenderam a fazer uso da comunicação como a principal arma. Se a União não souber usar esta ferramenta de forma eficaz, não receberá os méritos do seu esforço e será olhada com desconfiança e enfadonho, como muitas vezes sucederá no fim do Erasmus: o estudante preenche um inquérito com n perguntas sobre a sua experiência e a ideia que fica no fim é a já tão familiar noção da burocracia europeia, e não um sentimento de partilha e de pertença a um projecto que já conta com 60 anos.

Tomada de posse dos novos órgãos da AEIST

Após as últimas eleições para a AEIST, assistiu-se no dia 14 de novembro à cerimónia de tomada de posse dos novos órgãos sociais. Nesta intervieram o presidente cessante Rodrigo do Ó, o presidente do IST Prof. Arlindo Oliveira e, finalmente, o novo Presidente da AEIST João Silva.

Começou com uma intervenção do presidente cessante Rodrigo Do Ó, na qual reflectiu sobre o ano e meio em que esteve à frente da AEIST. Destacou o facto de se ter tratado de uma equipa composta por pessoas que nunca tinham ocupado cargos na AEIST até àquele momento, tendo como principal objectivo a implementação de uma gestão financeira responsável. Ainda que, aos seus olhos, os primeiros seis meses tenham sido atribulados, destaca o trabalho realizado: a produção própria de folhas de teste, o fecho das piscinas e a realização de eventos como o Arraial do Técnico, que foram bem sucedidos e constituíram exercícios financeiros positivos. Um dos pontos que, segundo o presidente cessante, marca o anterior mandato é a alteração dos estatutos do aluno através de debates, uma campanha intensa e um referendo final no qual participaram 2400 alunos, tendo sido aprovada a alteração. A acabar, voltou-se mais para o panorama internacional, onde criticou a onda de xenofobia, racismo e isolacionismo intensificada pelos últimos eventos, tais como o Brexit e as eleições nos EUA. A nível nacional, afirmou que é importante pressionar os governos e políticos para produzir alterações ao nível do ensino, remodelando disciplinas como Formação Cívica para educar as crianças sobre os valores da democracia e estendendo programas deste género ao resto da população, e lutar por uma economia que não coloque em causa o ambiente e ao mesmo tempo fomente a criação de emprego não precário.

De seguida falou o presidente do Técnico, professor Arlindo Oliveira, que apontou alguns dos pontos mais importantes em que a AEIST, do seu ponto de vista, se deve focar. Primeiro, o alheamento dos alunos pelas causas políticas e sociais. É fundamental atraí-los e encorajar uma participação mais activa, acabando com a falta de representatividade de toda a comunidade no debate de ideias e problemas que por agora é apenas feito pelas elites. Como segundo ponto, refere ainda que a AEIST não pode estar apenas focada em fazer bons eventos como o Arraial do Técnico. É fundamental que se adapte aos novos tempos, onde as novas tecnologias levam a alterações da relevância e utilidade de funções que a AE costumava exercer. Olhando para o mandato anterior, elogiou a capacidade demonstrada em sanear o grave problema financeiro da AEIST, manifestando disponibilidade para trabalhar em conjunto para decidir como dar bom uso ao património desta, mais concretamente, às piscinas fechadas, mas também a outros espaços inutilizados.

Por fim, João Silva, o novo presidente da AEIST, prometeu continuar o projecto iniciado pela direcção anterior, fazendo uma gestão eficiente e responsável dos recursos e defendendo ao mesmo tempo os interesses dos alunos. Um ponto que destacou que tem de ser prontamente resolvido é a falta de espaços de estudo, alavancando que é necessário aproveitar melhor os espaços existentes, bem como procurar novas opções. Defende um diálogo e colaboração com os diversos grupos de estudantes, prometendo fazer do Fórum AEIST uma realidade durante o seu mandato para tornar esta cooperação mais eficaz. Falou também da necessidade da AEIST se aproximar das residências de estudantes e das suas comissões. Para finalizar, prometeu que a AEIST continuará a ter um papel preponderante no movimento associativo estudantil a nível nacional.

Grande Entrevista: Arlindo Oliveira

(esta é a versão na íntegra da entrevista publicada na edição impressa de Novembro de 2016)

Ao fundo do corredor do Conselho de Gestão, o professor Arlindo Oliveira, Presidente do Técnico, recebeu-nos no seu gabinete para uma entrevista descontraída e sem formalidades. Nesta conversa pragmática e de “engenheiros” foram discutidos vários temas relevantes aos alunos e comunidade académica, desde o processo de transição do aluno para o ensino superior até aos desafios futuros do Técnico. No fim, ainda houve fotografias, em que a confiança do professor nos dotes do Gonçalo o levou a dizer “vê lá se me apanhas aí mais direito, que eu estou um bocado torto”.

 


 

Diferencial: Quais foram as razões que o levaram a decidir-se por um curso nesta instituição? Sabia que era isto que queria?arl2pbb

Alindo Oliveira: Já sabia, eu gostava muito de computadores, na altura usava um ZX Spectrum, portanto
na altura foi muito fácil escolher engenharia Electrotécnica e de Computadores.

Durante a sua vida estudantil chegou a participar em associações ou grupos de estudantes?

Não tive uma vida muita activa nos grupos de estudantes, porque também comecei a trabalhar cedo. Entrei no 3º ano para o laboratório no INESC e a partir daí fiz actividades de investigação e desenvolvimento. Na altura também jogava xadrez, que me ocupava um bocado do resto do tempo. Devo ter ido a algumas actividades, mas não estive directamente envolvido. Também na altura não havia tantos núcleos com há agora.

Que tipo de hobbies gosta de praticar no tempo livre?

Eu não tenho assim muito tempo livre, mas jogo ténis e paddle quando posso. Faço jogging uma vez por outra e ski no inverno, quando posso. Já não jogo xadrez, mas quando era novo jogava muito a sério. Agora, volta e meia faço uma perninha no xadrez.

A entrada para o ensino superior é um momento marcante na vida de um estudante. Acha que as escolas secundárias são eficazes nesse processo de transição?

Não sei se as escolas secundárias ajudam muito. Por exemplo, na das minhas filhas os alunos tiveram a oportunidade de visitar universidades, mas acho que é difícil para muitos jovens saber o que que querem quando estão no 12º ano. Eu não sei o que é que podiam fazer para além de algumas alterações.

“[O processo de transição] depende muito de os jovens terem ideias definidas e hoje em dia se calhar têm cada vez menos.”

Por exemplo, a cadeira de Informática podia ter uma componente maior de programação, os laboratórios podiam incluir um pouco de electrónica, mas expor os alunos a outras disciplinas é mais difícil. Estou a pensar em Engenharia Civil, por exemplo. Depende muito de os jovens terem ideias definidas e hoje em dia se calhar têm cada vez menos.

E quanto ao papel do Técnico neste processo?

Acho que aqui eles aprendem rapidamente. Ao fim de um semestre já perceberam bem o que é o curso, não totalmente, porque ainda têm uma carga grande de Matemática e Física, mas existem pelo menos uma ou duas disciplinas no primeiro ano que dão uma boa ideia do que os alunos vão estudar no futuro. Além disso, têm alguma liberdade para mudar (de curso).

Se a chegada à universidade é um ponto fulcral na vida de um estudante, outro é a saída deste meio e a entrada no mercado de trabalho. Como encarou essa fase?

Na altura entrava-se para a carreira de docente como assistente, logo quando se acabava a licenciatura até. Eu na altura tinha-me candidatado para assistente, tinha sido um dos melhores alunos do meu curso, e decidi seguir a carreira académica, que implica o doutoramento. Quis fazer o doutoramento nos EUA, concorri a algumas universidades, entrei numas e não entrei noutras, e acabei depois por ir para Berkeley. Na altura não tive grande dúvida, porque também já estava na carreira académica.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Manuel Heitor considerou a Praxe uma “prática fascizante” e apelou tanto aos dirigentes académicos como aos representantes dos alunos que acabassem com a Praxe, substituindo-a por actividades com vista à integração do aluno na comunidade académica. Qual é a posição do Técnico em relação a este tema?

Concordo com o ministro no que respeita aos casos em que a Praxe é de alguma maneira humilhante, feita de forma a baixar a auto-estima dos alunos. Eu acho que a recepção aos alunos tal como é feita no Técnico, que foge muito a esse tipo de Praxe humilhante, tem os seus lados positivos, embora por vezes se excedam um bocado. São todos jovens…

“Acho que a recepção feita no Técnico é uma coisa positiva de que a maior parte dos alunos gosta, e aqueles que não gostam não têm qualquer pressão para participar.”

Eu tive duas filhas que entraram aqui e até gostaram dessas cerimónias de recepção. Acho que a recepção feita no Técnico é uma coisa positiva de que a maior parte dos alunos gosta, e aqueles que não gostam não têm qualquer pressão para participar.

Quais são as áreas da Engenharia que acha que se estão a expandir actualmente?

Acho que a área da interface entre as tecnologias de informação e comunicação, electrónica, informática, biomédica e biologia, física e nanotecnologia vai ter um grande desenvolvimento nas próximas décadas. Assiste-se também neste momento a um grande interesse noutras áreas que não estão muito relacionadas com esta, nomeadamente as áreas do espaço e da energia e ambiente. Todas estas áreas têm relações com outras como a Engenharia Mecânica, que está a ter grandes desenvolvimentos, um bocado por força da electrónica e da computação.

Este ano lectivo é marcado por uma alteração de paradigma ao nível das médias de entrada. Isto representa uma aposta dos jovens na instituição e a fé de que uma formação nestas Engenharias constitui uma mais-valia. Como vai responder o Técnico a este crescente nível de exigência e expectativa?

Havia já uma tendência, a média dos nossos cursos (Engenharia Aeroespacial e Física Tecnológica) estava a subir e a de Medicina a descer devagar. Há também outros cursos do Técnico, como Matemática e Engenharia Biomédica, que ficaram com médias muito altas. Isso mostra que a Engenharia é uma disciplina atraente neste momento para os jovens e que existe também algum desânimo com a Medicina. É verdade que coloca uma maior responsabilidade, mas temos vindo a crescer e isto já tem muitos anos. Tenho a certeza de que continuaremos a ter cursos com médias muito altas e com alunos muito bons.

Qual é a sua perspectiva relativamente às novas tendências de e-learning face a um ensino mais tradicional?

Acho que relativamente a essas tendências, onde se incluem os MOOCs (Massive Online Open Courses), se tenha exagerado um bocado na velocidade e no impacto com que vão entrar no ensino superior. Nós olhamos à volta para o MIT, CMU, Berkeley, etc., e continua a haver muitas aulas no formato clássico, embora haja já algumas nesse formato. Não é uma coisa que acontece de um momento para o outro, tal como não acontece que toda a gente deixa de vir à universidade e são só MOOCs para todos.

“Não faz muito sentido termos uma aula teórica a ser dada por um professor e gravar a aula inteira, quando os alunos podem ver um vídeo de um professor muito mais interessante e resolver exercícios em casa.”

No entanto, não acontecendo de um momento para o outro, acho que é uma tendência que nós temos de seguir, porque, com tudo o que há na Web e ao nível de aplicações móveis, com as imensas maneiras que há de aprender agora, não faz muito sentido termos uma aula teórica a ser dada por um professor e gravar a aula inteira, quando os alunos podem ver um vídeo de um professor muito mais interessante e resolver exercícios em casa. Acho que nos temos de adaptar progressivamente. Não há justificação para haver más aulas, as aulas deviam ser todas boas, mas se não há condições para que todas sejam boas, se calhar mais vale que estas sejam vistas em casa e que na universidade sejam mais interactivas. Também obriga à alteração dos hábitos dos alunos, que não estão habituados a vir para cá já com o material preparado. Nós vamos agora lançar alguns MOOCs e isto é um passo nessa direcção.

Então esse foi o único passo dado até agora nesse sentido?

Não foi o único, há algumas cadeiras que estão a funcionar em regimes alternativos, mais experimentais, pelo menos no Taguspark.

Uma realidade que afecta grande parte dos estudantes do Técnico é a dificuldade em encontrar um espaço para estudar e trabalhar. É público que há em vista a construção do Técnico Learning Center na antiga gare do Arco do Cego, mas esse é um projecto a longo prazo…

Não é muito a longo prazo, nós queremos iniciar a construção no princípio de 2017 e acabar em menos de dois anos. Neste momento, temos tudo preparado para lançar o concurso este ano. Acho que vai ser um espaço que poderá funcionar em adição a este (Espaço24). Há outros espaços que nós estamos a tentar recuperar para dar melhores condições aos alunos.

Aarlindocores que espaços se refere?

Estamos a pensar qual é a melhor função a dar à piscina, que neste momento está fechada e que provavelmente não vale a pena recuperar.

Existem algumas salas e infraestruturas que apenas podem ser acedidas por alunos de cursos que pertencem a certos departamentos, o que leva a que os alunos tenham uma experiência diferente em termos de qualidade. O que acha desta situação?

A gestão de espaços no Técnico é uma das coisas mais difíceis. Existem de facto alguns cursos mais pequenos que conseguem gerir um pouco melhor os seus espaços e ter algumas salas. Não sei se elas estão completamente reservadas para eles. A nossa ideia é criar boas condições para todos e também pretendemos fazer outra coisa: criar espaços onde os alunos de diferentes cursos estejam juntos para aprenderem uns com os outros, trocarem experiências, fazerem projectos. O Learning Center, além do Espaço24, vai ter espaços para este tipo de colaboração. Aquilo que posso dizer é que também não vale a pena ir piorar as condições de alguns cursos que se calhar têm as condições que todos os cursos deviam ter. A minha esperança é que melhorando as condições globais se elimine um bocado essa assimetria que eu até aceito que haja.

No passado referiu que existia uma disparidade brutal ao nível do salário de um engenheiro no primeiro emprego entre estados da UE. Acha que está a aumentar?

Até pode ser que esteja estável, mas continua a ser grande. Falamos de um factor de 2 ou 3 para a Alemanha e 5 para a Suíça. Os salários em Portugal não têm aumentado e isso causa uma pressão competitiva que é difícil para Portugal, porque há muitos engenheiros que decidem ir para esses países e isso constitui uma preocupação. No entanto, para os engenheiros que não querem sair do país, é um factor competitivo importante. Há muitas empresas a quererem estabelecer-se aqui porque a mão-de-obra de engenharia é mais barata. Ainda agora cheguei de Silicon Valley, onde há várias empresas portuguesas que têm lá o CEO e o departamento de vendas, enquanto toda a equipa de engenharia está em Portugal, nomeadamente em Lisboa e no Porto. Lá, um engenheiro custa à volta de 150 m€ anuais, aqui se for 50 m€ por ano já é um bom salário. Há coisas boas e coisas más.

Tendo em conta o papel das instituições de ensino superior no desenvolvimento da sociedade, o que podem fazer para combater esta realidade e melhorar as perspectivas profissionais dos engenheiros que pretendam trabalhar em Portugal?

Eu tenho andado a pensar bastante nisso. Porque é que em Portugal um engenheiro ganha menos do que na Alemanha ou em Silicon Valley? Porque estas outras sociedades como um todo são mais ricas. Ou seja, um engenheiro lá ganha mais, mas o mesmo é verdade para um professor, por exemplo. Apesar de tudo, o salário de um engenheiro em Portugal não é mau comparado com o salário médio nacional.

“Para aumentar a riqueza geral do país é preciso exportarmos mais e isso implica que tenhamos mais tecnologia (…) O grande valor acrescentado está nas empresas tecnológicas.”

Porque é que este não é mais alto? Não se pode aumentar por decreto como querem os sindicatos. Para aumentar a riqueza geral do país é preciso exportarmos mais e isso implica que tenhamos mais tecnologia, porque neste momento o que se exporta são produtos de metalurgia, biotecnologia, agricultura e pouco mais. O grande valor acrescentado está nas empresas tecnológicas. É necessário criar empresas que exportem mais. Isto é uma coisa que não tem corrido bem, nas últimas décadas não temos crescido quase nada. Penso que neste momento há alguns bons indícios, temos muitas startups, temos empresas de natureza tecnológica já com alguma dimensão. Também temos algumas preocupações, o sistema bancário está muito mal, o sistema industrial também não está como devia estar, mas nós não temos nenhuma mágica.

Passemos à questão da autonomia das universidades. No último orçamento de estado, as universidades ganharam alguma autonomia…

Quase nada, aquilo foi uma coisa muito pequena…

Então diga-me como tem visto a relação entre universidades e o estado.

Nós não temos mais autonomia, o Estado dá-nos um orçamento de 50 M€ e depois não nos deixam fazer nada com esse dinheiro. Não podemos contratar e, quando se compra qualquer coisa, tem de se ir à eSPap (Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública). Dêem o dinheiro que têm, não é muito, o país é pobrezinho, tudo bem. Mas não nos chateiem, deixem-nos gerir esse dinheiro.

“O Estado dá-nos um orçamento um orçamento de 50 M€ e depois não nos deixam fazer nada com esse dinheiro (…) Dêem o dinheiro que têm, não é muito, o país é pobrezinho, tudo bem. Mas não nos chateiem, deixem-nos gerir esse dinheiro.”

Porque existe essa desconfiança?

Porque outros serviços do Estado têm de ser muito bem controlados. Nesses serviços, se se meterem mais pessoas depois tem de se meter lá o dinheiro para pagá-las. As universidades não são assim, não recebem pelas pessoas que têm, recebem pelos alunos que formam. Devem ter total liberdade de fazer o que querem com o dinheiro, naturalmente fazendo concursos públicos para as posições de pessoal, etc. É uma coisa difícil de mudar, porque o Estado continua a olhar para as universidades como repartições públicas. A semana passada estava a ouvir o presidente de Cambridge a dizer que há duas coisas que a universidade precisa: public trust, ou seja, que as pessoas confiem na universidade, e isso já vimos que as universidades e o Técnico, em particular, têm. Depois, de autonomia. O public trust nós conseguimos, a autonomia só quando os legisladores mudarem.

“Há duas coisas que a universidade precisa: public trust, ou seja, que as pessoas confiem na universidade (…) e autonomia. [A primeira] nós conseguimos, a autonomia só quando os legisladores mudarem. “

Qual é a direcção que o Técnico deve tomar nos próximos 10 anos?

Estamos a tentar reforçar as ligações com a sociedade e com as empresas. Temos o programa de Parcerias Empresariais que está agora a ser criado com a comunidade Alumni. Queremos em geral reforçar a transferência de tecnologia e a capacidade de criar empresas e startups. Também queremos internacionalizar mais o corpo docente e os alunos, eventualmente evoluindo para um ensino cada vez mais em inglês ao nível do 2º e 3º ciclos. Há obviamente o desafio orçamental, onde vamos continuar a lutar por outras fontes de financiamento.

Texto – Miguel Martinho

Fotografia – Gonçalo Ferreira

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico

Trumpmania

Demagogia a caminho da Casa Branca?

Quem ainda não ouviu falar de Donald Trump, o bilionário do sector imobiliário e celebridade da televisão que se prepara para ser provavelmente o candidato republicano às presidenciais nos EUA? Trump é, sobretudo, um entertainer, um homem que sabe o que tem de fazer para cativar a atenção da audiência.

Acontece que, neste caso,a plateia que o vê é o eleitorado norte-americano e o objectivo do espectáculo é a sua eleição. Ele é um produto da degradação da política norte-americana e, mais especificamente, da radicalização de um partido republicano que já não controla as suas bases. Criam uma representação distópica da realidade, incutindo medo e desconfiança, mas são incapazes de apresentar soluções para as mesmas, sendo por isso reféns do seu próprio radicalismo.

É nesse tipo de ambiente, à saída de uma crise económica e com uns media totalmente subjugados à força das redes sociais, que se geram as condições necessárias para o aparecimento de uma criatura política como Trump. É a antítese do establishment de Washington.
É o político que não é político, vem do mundo empresarial e tem uma língua afiada. Trump é um fenómeno alavancado pela Internet e pelas redes sociais.

O seu nome está quase sempre presente nas pesquisas relacionadas com a política e as presidenciais norte-americanas e uma rápida análise no Google Trends revela que o interesse em Trump apresenta uma tendência sempre crescente nos últimos anos e muito mais acentuada do que em qualquer outro candidato.

Evolução das pesquisas dos 4 principais candidatos relativa ao máximo da pesquisa de cada um
Evolução das pesquisas dos 4 principais candidatos relativa ao máximo da pesquisa de cada um

Quando se olha para as pesquisas relacionadas, enquanto para os outros candidatos grande parte das pesquisas envolvem os adversários e o partido pelo qual concorrem, Trump destaca-se com pesquisas associadas à sua riqueza, património, Twitter e esposa. A classe média que sofreu com a crise económica, mas sobretudo os trabalhadores brancos mais pobres que se vêem em trabalhos precários, vêem-no como um self-made man, alguém que está em total controlo da sua vida e idolatram-no por isso. Quando surge num comício, ele está a vender um produto, a marca Trump.

Investigar o tipo de retórica usado permite perceber por que razão o que diz pode ser tão apelativo. É narcisista, mas transmite presunção com uma autenticidade tal que persuade as pessoas que o ouvem a pensar nessa vaidade como algo fundamental na recuperação da grandeza da América (daí o slogan de campanha “Make America great again”). Mas vamos por partes:

      1. “Don’t” – é um dos verbos mais empregues. O uso de frases negativas é recorrente e está quase sempre associado a dois sujeitos: ‘’We” e “They”. O primeiro refere-se ao país e serve para destacar o suposto estado de fragilidade em que se encontra face a um mundo exterior mais feroz e competitivo. Serve para contrapor com a grandiosidade dos EUA dos anos 80 e 90, quando o país vivia um crescimento económico galopante e saboreava o pós-2ª Guerra Mundial e o colapsar da União Soviética.É vulgar encontrar frases que dão uma imagem de subjugação do país perante outras entidades, sejam elas países como a China, que desvaloriza a moeda para fazer concorrência desleal, como a Rússia, que tem como líder Vladimir Putin, uma figura forte que governa com mão de aço, obtendo sempre o que quer, em oposição à lassidão de Obama, ou como o Irão, que negoceia acordos nucleares e nas costas explora a credulidade do Ocidente para continuar a desenvolver armas nucleares; sejam elas movimentos ou fenómenos como a imigração e a incapacidade de controlar as fronteiras, e  o terrorismo.Todas estas questões são legítimas na sua génese e não devem ser por isso desconsideradas, mas Trump pega nelas e exagera certos aspectos para gerar indignação, receio e desconfiança. “We don’t know”, “We don’t have” são elementos que repete até à exaustão. Toda esta vulnerabilidade não existe por acaso e é preciso usar o segundo sujeito como o agente do mal. “They” refere-se não só aos democratas, mas a Washington (incluindo os seus adversários republicanos nas presidenciais) que se tornou um ícone da corrupção, incompetência e inércia da política norte-americana. Trump aproveita-se da imagem já presente para cavalgar a maré de descontentamento que o povo americano sente relativamente aos seus representantes.São “eles” os culpados, os senadores e deputados que prometem mundos e fundos, mas mal chegados a Washington parecem apanhados pela apatia e amarrados aos interesses de lobbys. Trump apresenta-se como alguém livre dessas correntes. O argumento do “sou rico, sou independente e por isso não preciso de tomar acções moralmente reprováveis” cai muito bem entre as pessoas que estão fartas do clientelismo de Washington.
      2. “Very, very” e “great” – A adjectivação para Trump baseia-se no abuso do superlativo absoluto analítico. “Very simple,hard,proud,sad,weak,upset…” são exemplos do que povoa os seus textos. Faz uso sempre de adjectivos simples, muitas vezes monossilábicos e quase sempre acompanhados de um ou mais “very” que acentuam o adjectivo. Um dos adjectivos mais usados é “great”, o qual costuma estar ligado à sua pessoa.

3. A linguagem do povo – Trump não tem um discurso adornado com palavras caras. Comunica as suas ideias em frases normalmente simples e curtas. Por vezes nem chega a terminar um determinado raciocínio. É capaz de interromper aquilo que está a dizer para fazer um comentário depreciativo sobre alguém, ou congratular-se pelo seu próprio sucesso.

Este ziguezague constante passa uma imagem de uma certa proximidade. Há até coreografias com o público. “Quem vai construir aquele muro?” grita Trump e respondem-lhe de volta “México!” ou quando Trump se vira para os jornalistas a cobrir o evento e os insulta, sendo acompanhado por vaias do público, são exemplos da comunhão que Trump e os seus apoiantes fervorosos partilham.

Conhecem todos os soundbites e repetem-nos, sendo sempre acompanhados pelo sorriso e encorajamento de Trump, que alimenta esta posição de intolerância.

4. “I’m” e “success” – Já apresentou a vítima, os americanos, e o culpado, os políticos, e descreveu o cenário distópico em que vivem. O que falta? O salvador que vai criar empregos para todos, acabar com a imigração e o terrorismo, resolver os problemas do Médio Oriente, e colocar China e Rússia no seu devido lugar.

As duas palavras andam entrelaçadas ao longo de todas as suas intervenções a tal ponto que se torna impossível dissociá-las. Trump é um nome forte e que se junta bem à forma agressiva como fala. Mesmo que lhe apontem falhas no raciocínio, nunca vacila e torna-se mais hostil. Se alguém tenta contrariá-lo, foge ao assunto e rapidamente ostraciza o indivíduo.

Ele consegue sobreviver à sua ignorância, porque logo no instante a seguir ataca quem lhe fez a acusação. Depois disso, a imagem que fica é a incapacidade de quem o acusou de lhe responder de volta. Isto, porque raros são os jornalistas ou personalidades que estão dispostos ou sequer habituados a descer ao mesmo registo dele.

5. “Ad-e tudo” – Exemplos de ad hominem não faltam: seja um jornalista como uma deficiência motora que escreveu um artigo sobre o 11 de setembro e negou que houvesse muçulmanos a festejarem nos terraços dos prédios em Nova Jérsia, seja um rival republicano como Jeb Bush, que acusou de ser um miúdo mimado e estúpido.

Invariavelmente, o plano é este: se criticam as suas posições, furta-se ao confronto de ideias e passa para o insulto, adjectivando o seu opositor de marioneta, aborrecido, fraco ou, em último caso, acusa-o de deturpar as suas palavras, mandando-o reler/ouvir o que dissera.

Ad populum é também frequente. Quando quer dar força às suas ideias, inventa ou refere sondagens em que supostamente a maioria das pessoas concorda com ele. Se a maioria concorda, então só pode ser verdade. O que, reduzido ao extremo, se torna simplesmente em “votem em mim, porque eu sou popular. Porque sou popular? Porque defendo coisas populares”.

Trump sabe aquilo que as pessoas querem ouvir e depois, com a sua aptidão de vendedor, coloca um laço por cima e apresenta-lhes isso mesmo. Sem explicações, sem planos. O produto é apenas a promessa.

Ad baculum é também uma das suas favoritas. Qualquer discussão que não se resolva por ad hominem acaba com Trump a ameaçar através de coerção (física ou, por exemplo, através de processos em tribunal) o seu opositor. Dá uma oportunidade para projectar a sua força e parecer dominante num confronto que era inicialmente ideológico.

Ad verecundiam, por último, é parte integrante da forma de estar de Trump. Fala como se fosse uma autoridade inquestionável no mundo dos negócios e isso lhe desse capacidade para falar sobre tudo. Estamos a falar de alguém ao nível de um deus na terra. Os argumentos de autoridade surgem frequentemente e facilitam-lhe muito o trabalho.

Se ele for bem sucedido em apresentar uma imagem de sucesso e infalibilidade, então basta-lhe depois fazer afirmações sem qualquer necessidade de as sustentar. “Acreditem em mim”, “Eu digo-vos isto”, são exemplos da estrutura base que usa para este tipo de falácia.

Quando Trump diz que será “o melhor presidente criador de empregos que Deus já criou. Eu digo-vos isto” e depois é interrompido por aplausos entusiásticos, todo o trabalho que empregou na criação da marca apresenta os seus resultados. Se isto fosse dito por outro rival republicano teria o mesmo impacto? Muito provavelmente não, seria visto como uma fraca tentativa de conseguir votos.

Trump é uma personagem dos tempos e não é algo exclusivo do outro lado do Atlântico. É um sintoma da incapacidade dos políticos e da própria democracia em responder às necessidades dos seus cidadãos e ao mesmo tempo adaptar-se a um mundo globalizado que é muito diferente daquele em que as nações ocidentais se formaram. A ascensão surpresa de Trump diz-nos também quão incapazes somos de prever o futuro e, ainda mais, de reagir às mudanças, sendo prontamente engolidos pela avalanche de acontecimentos. Muito provavelmente Trump não será o próximo presidente dos EUA, mas ficará para a história como um “palhaço” do circo televisivo foi capaz de, por alguns momentos, acreditar que era possível sentar-se numa das cadeiras mais importantes do mundo.