Autoria: Tomás Almeida (LEMec)
No passado dia 11 de fevereiro celebrou-se o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência. Esta data, que realça a importância do envolvimento feminino na promoção da diversidade e inovação, contribuindo para o progresso da ciência, ficou marcada por diversos eventos comemorativos impulsionados por instituições de renome na área, como International Science Council (ISC), Academia das Ciências de Lisboa (ACL) e outras entidades políticas nacionais e internacionais, como a UNESCO e a ONU. Este dia visa promover uma efetiva reflexão acerca do percurso científico das mulheres, bem como dos progressos, oportunidades e desafios das suas carreiras no âmbito da ciência.
O Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência foi criado através de uma resolução em Assembleia Geral da ONU no ano de 2015. Esta data foi instituída como parte de uma agenda global na promoção da igualdade de género e visa reconhecer, valorizar e incentivar a participação feminina em todas as áreas do conhecimento científico, em especial nos campos da saúde, engenharia e tecnologia. A celebração das grandes conquistas históricas é também parte integrante das comemorações deste dia, como é o caso de Marie Curie, galardoada com o Prémio Nobel, e Rosalind Franklin, que contribuíram incisivamente para o avanço das pesquisas acerca da radioatividade e da compreensão da estrutura do DNA, respetivamente. Estas personalidades são memórias vivas do reconhecimento e valorização do papel da mulher, inspirando decisivamente as gerações contemporâneas nas suas jornadas tanto pessoais como profissionais.
Em território nacional, esta data é celebrada desde a sua instituição através de inúmeros eventos, tais como: debates, webinars, exposições, roundtables, palestras e workshops, impulsionados por universidades, academias e organizações políticas. Deste modo, Portugal pretende, em concordância com a visão internacional, conferir maior visibilidade às mulheres que fazem investigação no país, promovendo o acesso e a participação plena e igualitária destas nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Contudo, a celebração deste dia passa também por reconhecer os desafios que ainda se enfrentam na atualidade. Assim, é essencial a criação de um espaço de diálogo e partilha entre as docentes e jovens, onde a experiência se cruza com o futuro e se traçam percursos reais, diversos e inspiradores.
Em 2026, as comemorações portuguesas desta célebre data internacional, onde se reafirma anualmente o compromisso multilateral das instituições académicas e políticas para com o empoderamento feminino nas áreas STEM e a construção de uma academia mais aberta, diversa e inclusiva, passaram pelos seguintes eventos:
· Roundtables – organizados pela Universidade Nova de Lisboa, onde foram convidadas profissionais de diversas áreas científicas para abordar o atual papel da mulher na investigação e inspirar jovens estudantes;
· Webinar: “A ciência tem género? O que diz a IA?” – organizado pelo Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP) em colaboração com a União de Físicos dos Países de Língua Portuguesa (UFPLP), onde se debateram questões de género nas áreas da ciência, tecnologia e inteligência artificial;
· Reflexão: “A sub-representação feminina” – organizado pelo Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), onde se refletiu acerca das possíveis razões para a sub-representação feminina e se ouviram testemunhos de estudantes, dirigentes e docentes acerca dos seus percursos profissionais;
· Global Women’s Breakfast– organizado pela International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC) com participação da Faculdade de Farmácia do Porto (FFUP), onde se reuniram cientistas e estudantes para um pequeno-almoço internacional de networking e partilha de experiências;
· Speed Dating com Mulheres Cientistas – organizado pela Universidade de Évora em parceria com o Agrupamento de Escolas Gabriel Pereira, onde decorreram encontros dinâmicos entre estudantes e investigadoras de diversas áreas científicas.

A ACL foi parceira na divulgação de um webinar denominado “Women in Scientific Organizations” promovido pelas seguintes instituições: International Science Council (ISC), InterAcademy Partnership (IAP) e Standing Committee for Gender Equality in Science (SCGES). Num primeiro momento, este evento ficou marcado pelo lançamento do relatório “Towards gender equality in scientific organizations: assessment and recommendations” [1], no âmbito das celebrações do Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência. Seguiu-se a apresentação de três casos de estudo distintos: Academia Real Espanhola das Ciências, International Union of Pure and Applied Physics (IUPAP) e Scientific Committee on Antarctic Research (SCAR). Estes casos surgiram no debate como modelos, uma vez que as reformas estruturais adotadas deram azo a uma maior participação feminina nas tomadas de decisão das organizações, sendo todas estas lideradas por mulheres. Por fim, houve ainda tempo para a exposição de recomendações a adotar com o intuito de fazer face aos desafios futuros das mulheres nas áreas científicas. Estas recomendações focaram-se na institucionalização da igualdade de género, na análise de dados referentes exclusivamente às mulheres e na promoção de ambientes seguros, inclusivos e respeitadores.
Os estudos atuais acerca da igualdade de género são ainda alarmantes, já que, segundo dados da Eurostat, apenas um em cada cinco especialistas em tecnologias de informação e comunicação são mulheres [Eurostat, 2023] e apenas três em cada dez diplomados em áreas STEM são mulheres [Eurostat, 2022]. O Relatório ISC-IAP-SCES supramencionado aborda também esta questão, reforçando que, embora tenham vindo a existir avanços efetivos desde 2015, as mulheres permanecem sub-representadas em cargos de chefia das organizações científicas, quando comparadas com a sua quota global de mercado (31,1% dos investigadores mundiais em 2022). Em virtude destes fatores, a comunidade internacional encontra-se cada vez mais atenta a este tipo de desigualdade sistémica, procurando aliviar este desequilíbrio organizacional através de políticas públicas com enfoque no empoderamento e na emancipação femininos. Por conseguinte, o Governo português lançou, no dia 30 de outubro de 2025, o Programa Nacional das Raparigas nas STEM. Este está focado na atração e retenção de talento feminino nestas áreas, tendo como objetivo mitigar e combater estereótipos de género que associam homens e mulheres a papéis tradicionais e que desempenham um papel significativo na exclusão de jovens das áreas tecnológicas.
Referências:
New report confirms: Women remain underrepresented in scientific organizations
Women and girls in science: Dismantling barriers, closing gender gaps | UN News




