Autoria: Catarina Luís (LEBiol)
A 19 de novembro, a ABIC (Associação de Bolseiros de Investigação Científica) reuniu investigadores e estudantes no Caleidoscópio para o debate “Ciência em Tempos de Guerra”, centrado na militarização, precariedade e ética na ciência, destacando críticas institucionais e o impacto dos conflitos globais no trabalho científico.
Assinalando o Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento, dia 10 de novembro, a ABIC promoveu o debate “Ciência em Tempos de Guerra”, um espaço de reflexão sobre o impacto da guerra, da militarização e das tensões geopolíticas nas práticas científicas, na ética académica e no quotidiano dos bolseiros.[1]
O painel reuniu vozes de áreas distintas, entre elas Carlos Almeida, investigador do Centro de História da Universidade de Lisboa e especialista em História de África;[2] Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático de Filosofia na Faculdade de Letras da ULisboa e referência nacional em filosofia política e ambiental;[3] Sofia Andringa, investigadora do LIP (Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas) dedicada à física de neutrinos e astropartículas.[4] O debate dividiu-se em três momentos: intervenções iniciais de cada orador, perguntas direcionadas pelo moderador e por fim, abertura ao público para participação.
O moderador iniciou o debate dando uma breve contextualização do tema, começando por sublinhar que vivemos condicionados por narrativas visuais e ameaças simbólicas disseminadas pelos media e redes sociais, usadas para justificar o aumento dos investimentos militares tanto em Portugal como na Europa. Defendeu que a guerra, atualmente, é uma construção discursiva sustentada por retóricas de segurança e inimigos simbólicos, inclusive em conflitos nucleares. De seguida, destacou a discrepância entre o desinvestimento na ciência fundamental e o crescimento notório dos orçamentos de defesa, que afetam os bolseiros e a produção científica. Criticou, ainda, o CERN por aplicar “dois pesos e duas medidas” nos casos Rússia e Israel. Por fim, terminou questionando como a ciência pode promover a paz e contrariar o militarismo.
Primeira Ronda: Intervenções Iniciais
Professor Carlos Almeida: Tempos de Guerra e Responsabilidade Científica
Almeida começou por sublinhar a gravidade do tema a ser debatido, alertando para a normalização da guerra no quotidiano. O professor apontou como esta normalização é promovida através da criação discursiva de inimigos por parte dos media como, por exemplo, a Rússia, ou da construção mediática do medo, preparando uma economia de guerra acompanhada de sacrifícios sociais e de liberdades.
Para melhor ilustrar o seu argumento, expôs o caso de Gaza como exemplo de guerra exterminadora, com cerca de 70.000 mortos e 170.000 feridos, que equivale a 10% da população. Esta guerra brutal foi transmitida em direto, porém, defender a paz é vista como estigmatizante. Apontou que a Europa destruiu décadas de diplomacia ao adotar a lógica de “paz pela força”, através de, afirma o professor, “quase abdicação de todo o pensamento crítico, o policiamento de todas as vozes levantadas em espaço público contra esta vertigem armamentista e a mais despudorada duplicidade”.
Criticou ainda o silêncio por parte das universidades portuguesas perante o genocídio de Gaza e a manutenção de cooperações com Israel, incluindo instalações militares em campos universitários. Adicionalmente, menciona ter assinado, juntamente com outros docentes da ULisboa, uma carta enviada à Reitoria a solicitar que a instituição assumisse uma posição pública sobre o genocídio em Gaza, mas afirmou que a iniciativa não obteve resposta. Concluiu defendendo a responsabilidade individual e coletiva de interpelar instituições e denunciar a cultura de guerra, ódio e discriminação.
Professor Viriato Soromenho-Marques: Raízes da Tecnociência Moderna e Trindade Monstruosa
Marques destacou que a cumplicidade entre universidades e o setor militar, incluindo Israel, tem raízes na tecnociência moderna, desenvolvida no século XVI com os Descobrimentos portugueses e espanhóis. Diferente da epistemologia grega contemplativa, esta ciência visa objetivos práticos e “fáusticos”, centrados em poder e utilidade. Citou New Atlantis (Bacon, 1624), cuja “Casa de Salomão” simboliza o uso do conhecimento para expandir o império humano, e Utopia (More, 1516), em que colonos aplicam tecnologia para impor leis e legitimar guerras “justas” sobre povos indígenas.
De seguida, apresentou um triângulo explicativo, tanto da realidade atual como da realidade a partir do ano 1600, indicativo que a ciência não é o único motor na pesquisa científica. Este consiste em três vértices, o primeiro sendo a tecnociência, que ignora impactos ecológicos como plásticos, fósseis e clima. Em segundo, o Estado moderno, com poder territorial e políticas antimigratórias, e, por fim, a economia de mercado, orientada para crescimento ilimitado. O professor cita como exemplo histórico os EUA: Vannevar Bush criou, em 1941, o Office of Scientific Research, com orçamentos completamente extraordinários para radares e bombas atómicas. Em 1945, o relatório Science: The Endless Frontier fundou a NSF, financiando também privados e estruturando o complexo militar-industrial pré-Eisenhower. Hoje, fundos federais mantêm uma estreita ligação a oligarcas, como se vê na interseção entre negócios e diplomacia de Trump.
Marques concluiu com La Condition Postmoderne (Lyotard, 1979), lembrando que a ciência neoliberal busca potência, não verdade, cientistas tornam-se peças de engrenagem e as ciências humanas são marginalizadas por não serem facilmente mensuráveis.
Sofia Andringa: Militarização Local e Regras Éticas no CERN/LIP
Sofia expressou algum otimismo ao recordar a missão original do CERN: colaboração científica pós-guerra, publicações abertas e proibição de fins militares. Porém, partilhou o seu descontentamento perante uma situação atual, que consiste na suspensão de cientistas russos após a invasão da Ucrânia, enquanto israelitas permanecem apesar do envolvimento em projetos ligados a agências de segurança e sistemas de vigilância em Gaza. Alertou também para financiamentos como o “Ciência Não Para”, que mascaram objetivos militares, incluindo empresas de drones, bem como acordos de confidencialidade e uma ética científica superficial que não exige reflexão sobre guerra, paz ou origem do financiamento. Criticou também a Agência Espacial Portuguesa (FCT+Defesa, 2019), por priorizar empresas de “alto potencial” próximas do setor de defesa, em detrimento da ciência, pressionando jovens precários a adaptar projetos a interesses militares.
Além disso, Sofia apontou, ainda, para práticas institucionais tóxicas, como desencorajar discussões sobre o próprio trabalho, criando opacidade e medo. Defendeu que a separação entre investigação civil e militar está a colapsar, utilizando como exemplo a Alemanha do pós-nazismo, quando centros científicos foram redirecionados para fins estratégicos. Acrescentou que a UE segue a mesma lógica ao promover tecnologias “não partilháveis”, desenvolvimentos científicos cuja divulgação é limitada por terem potencial militar.
Segunda Ronda: Perguntas Direcionadas
As perguntas dirigidas à mesa começaram com Sofia, que foi confrontada com a questão de saber se, depois de Nagasaki e do Tratado de Não-Proliferação dos anos 1960, estamos a assistir a uma regressão histórica em que o armamento volta a ser um negócio altamente lucrativo, capaz de condicionar decisões políticas. Sofia concordou, defendendo que a lógica do armamento conduz à guerra e que os cientistas devem recusar colaborações militares, lembrando os riscos demonstrados pelas ciências nucleares. Assinalou que a precariedade leva muitos investigadores a tentar dirigir fundos civis para evitar vínculos militares, mas essas estratégias falham, sendo necessária uma organização internacional.
Ao Professor Viriato perguntou-se sobre a incapacidade do direito internacional, e de uma eventual estrutura federal europeia, para reconhecer a Palestina ou classificar o que ocorre como genocídio. Marques respondeu que atravessamos uma crise de entendimento, demonizam-se adversários e produzem-se tecnologias poderosas sem ética (plásticos, fósseis, IA, armas, entre outros). Para ilustrar a manipulação mediática e a duplicidade de critérios na cobertura destas guerras, referiu a sua própria experiência de censura. Tanto em 1973, sob um regime ditatorial, como recentemente, após 15 anos a escrever num jornal sobre a Palestina e a Ucrânia, de onde foi afastado por ser “demasiado insistente”. Por fim, reafirmou que uma guerra nuclear é improvável, evocando Kennedy, 1963, afirmando que se deve evitar forçar um adversário a escolher entre retirada ou nuclearização, e que a superioridade convencional da NATO aumenta o risco de escalada.
A pergunta dirigida ao Professor Carlos evocou o caso da Lucas Aerospace ,1976, onde trabalhadores propuseram converter tecnologias militares para fins civis, e questionou como os investigadores de hoje podem fazer o mesmo, incluindo iniciativas como a petição da Liga à ULisboa. Em resposta, Almeida sublinhou que tal ação só pode resultar de organização coletiva e contínua, como a promovida pela ABIC, e da criação de mais espaços críticos e de debates. Recordou ainda que o genocídio em Gaza continua com 22 mortes num único dia e estamos perante a época da apanha da azeitona mais violenta desde 1977. Relembrou também que a ONU aprovou o mandato de Trump e que Portugal continua a produzir moedas para Israel, defendendo que tudo isto deve ser analisado numa perspetiva de longa duração, desde o século XVI, o colonialismo consolidou formas de apropriação privada da tecnologia que seguem presentes nas dinâmicas atuais.
Terceira Ronda: Perguntas do Público
A terceira ronda trouxe intervenções centradas na crescente militarização da investigação académica. Um participante iniciou esta ronda de debate perguntando como impedir que tecnologias como IA para reconhecimento de imagens sejam usadas militarmente, citando a vigilância em Israel. Outro destacou a urgência de inverter este rumo e refletiu sobre o papel dos investigadores precários, que representam 90% do sistema, lembrando a elevada abstenção nas eleições da ULisboa. Houve também quem recordasse que certos estudos sobre guerra podem prevenir conflitos, como na crise dos mísseis de 1962.
Outro testemunho relatou a exclusão de cientistas russos em instituições internacionais como o ESRF e o PDB, enquanto os cientistas israelitas permaneceram, desprezando inúmeros protestos contrariando esta decisão. Sofia Lisboa, membro da ABIC, sublinhou a inquietação dos bolseiros, que lutam simultaneamente pelos contratos e contra a militarização da investigação. Alertou para o risco de a precariedade forçar projetos a agendas militares, destacando que o Orçamento de 2025 prioriza fundos “dual-use” e inovação não-académica.
Conclusão
Nas respostas finais, Sofia reforçou a importância de saber dizer “não” a projetos sensíveis e de proteger convites diretos, promovendo a ação coletiva através de petições no CERN, conselhos científicos e manifestações. Marques destacou a ética individual e a responsabilidade difusa, exemplificada pelo Projeto Manhattan, e alertou para desigualdades estruturais e degradação democrática. Identificou três crises críticas: nuclear, climática e IA, exigindo cooperação global compulsória. Nesse sentido, a concentração de poder bloqueia a criatividade, tornando essencial que os cientistas criem formas de resistência a estas ameaças. Almeida enfatizou o papel das ciências sociais na desconstrução de inimigos simbólicos e na construção de culturas de paz, defendendo ações coletivas que contrariem alienação e precariedade.
O moderador conclui sublinhando que a militarização do conhecimento não é inevitável, mas um resultado político. Assim, defendeu que os cientistas, especialmente os mais precários, precisam de espaços de debate para se organizarem e influenciarem coletivamente as decisões que afetam o futuro da ciência. O encontro terminou com um apelo transversal: multiplicar momentos de discussão, participação pública e esclarecimento crítico é essencial para construir uma comunidade científica mais consciente, responsável e comprometida com a paz.
Referências:
[1] Gravação do debate “Ciência em Tempos de Guerra” [Acedido pela última vez à 24/11/2025]
[2] Currículo de Carlos Almeida [Acedido pela última vez à 24/11/2025]
[3] Bibliografia de Viriato Soromenho Marques [Acedido pela última vez à 24/11/2025]
[4] Membros do LIP- Sofia Andringa [Acedido pela última vez à 24/11/2025]




