Autoria: Tomás Vieira (LEMec)
(Advertência: De acordo com a nossa política interna, leia-se regulamento, “O Diferencial é um jornal independente, cuja linha editorial é livre de qualquer interferência política.” A entrevista nasceu do interesse em explorar (e dar a conhecer à comunidade) uma interveniente política objetivamente importante na nossa proximidade, no Técnico. Deste mesmo modo, outras entrevistas a agentes políticos já foram conduzidas pelo Diferencial: Manuel Heitor, Carlos Moedas e Isaltino Morais)
Patrícia Gonçalves, professora catedrática do Instituto Superior Técnico (IST) e investigadora na área de física de partículas, é um dos novos elementos do mais recente hemiciclo português. A deputada “da casa” sentou-se com o Diferencial para discutir a nova matéria dos seus dias e pôr-nos emparelhados com a sua visão de ciência e ensino superior.
Carreiras: entre a ciência, docência e política
A Doutorada em Engenharia Física Tecnológica pelo IST teve como núcleo do seu trabalho doutoral o Large Electron-Positron Collider (LEP), no famoso Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire (CERN), em que Portugal é Estado-Membro. Desde 2005, é professora no Departamento de Física do IST, tendo passado também a integrar o Departamento de Engenharia e Ciências Nucleares em 2019.
Entrelaçadamente, tem também uma carreira de investigação que começou como bolseira no Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP) em 2002, tendo mais tarde passado a investigadora auxiliar deste mesmo laboratório. Na atividade que desempenha, destaca-se a coordenação do Grupo do LIP “Space Radiation Environment and Effects”, que trabalha em proximidade com a Agência Espacial Europeia (ESA). Já dentro do LIP, teve diversos papéis administrativos, realçando-se o seu mandato na direção, começado em dezembro de 2017, culminando como presidente, num novo mandato, que já dura desde maio de 2024.
O que a difere do modelo padrão de docente é que, em paralelo à sua carreira científica, tem todo um caminho político. É membro do LIVRE desde 2014, coordenando grupos e participando em comissões com temas como a Ciência e o Ensino Superior, mas também transportes, segurança, entre outros. Foi deputada na Assembleia Municipal de Lisboa no mandato de 2017-2021 e é agora deputada na Assembleia da República para 2025-2029.
Aulas, plenários e discursos: a campanha da professora catedrática passou dos auditórios para as ruas. Até porque, com a sua recente eleição nas legislativas de maio de 2025 como 3ª deputada do LIVRE pelo círculo eleitoral de Lisboa, deixou de lecionar no ano letivo 25/26, mas acumulando alguma pedagogia, já que ainda co-orientou teses.
Paralelos e intersecções: Ciência e Política
Os seus problemas são agora macroscópicos, passando de discutir aquilo de que somos compostos para aquilo que devemos compor como país. No seu grupo parlamentar, por mais que reduzido, a predominância de agentes políticos com formação científica diversificada diz ser uma mais-valia, refletindo-se no seu modo: “O LIVRE defende a decisão baseada em evidência científica e defende isso com muita violência”, ao que completa com: “isso é uma parte da razão pela qual eu faço política ali”. No que descreve como um mar de juristas, é fundamental que haja o debruçar sob uma verdade comum “embora tenhamos de ter cuidado a não sermos uns tecnocratas”. Dado que, segundo a professora, as pessoas cujas vidas trabalha para melhorar não estão ativamente a pensar na ciência ou nos dados do problema. “Estão a pensar em si, querem ter mais habitação, querem ter melhores transportes, querem ter melhor acesso à saúde.” No entanto, tudo isso tem um modo, tem uma solução e “isso faz-se com base em evidência”.
A advertência que faz para não se ser demasiado complicado ou, como diz, “tecnocrata” no discurso é, segundo a deputada, um desafio tanto na comunicação científica como na política. “Não podes impor as tuas opiniões às pessoas, tens de trazer as pessoas até a ti, explicar-lhes porque é que é assim.” No entanto, “o problema é que às vezes não temos o mesmo espaço para explicar isso do que outros que têm para garotar muito alto”.
Tangencialmente, discorre sobre aquilo que é a dificuldade em conviver com a incerteza e secções de choque que se dão na ciência. Isto, pois, quando se consultam especialistas, “muitas vezes as pessoas não têm capacidade para receberem uma resposta probabilística”. Exemplificando: “um amigo pergunta-vos qualquer coisa sobre um assunto que ele acha que vocês devem saber e vocês dizem «pois não sei» ou «depende»”. Faltando detalhes, um contexto e outras variáveis à pergunta, o amigo indignado rebate “mas tu não sabes isto?!” O exemplo dado ilustra a natureza dos fenómenos (físicos), que colide diretamente com: “as pessoas [por defeito] encaixam/decoram uma explicação simples para uma coisa. É a explicação que têm ali. Tu vais dizer que não sabes? Como é que não sabes?” Referenciando o efeito Dunning-Kruger, diz: “quanto menos as pessoas sabem sobre o assunto, mais estão convencidas que sabem”. Contudo, “temos que aprender a viver num mundo em que as pessoas tendem a funcionar desta maneira e temos que aprender a explicar o «não é bem assim» de uma maneira não paternalista”.
Na sua filosofia, “sabermos ouvir independentemente da nossa formação” e “ter em conta o que é que as pessoas sentem” são dois lemas que tem de conciliar com a complexidade dos assuntos que trata. Numa analogia bastante perspicaz e ironicamente óbvia, compara os obstáculos da comunicação política à atividade na sala de aula. “Quando és professor aprendes a falar para um conjunto [específico] que está à tua frente.” Explica que “eu chego à frente de uma turma e penso: «eles estão no segundo ou no terceiro ano… O que é que eles já sabem?»” O seu mote é encontrar um ponto de referência: “tu tens que começar do sítio onde tu sabes que as pessoas estão, depois podes puxar para cima”. Analogamente, “em política, quando se está a tentar comunicar, também tentas colocar a mensagem de uma forma que as pessoas compreendam”.
Nisto, resume a comunicação científica a dois aspetos: “ir construindo” partindo de um ponto que não o do comunicador e/ou “mostrar uma coisa impactante” na esperança de cativar curiosidade, culminando essa no “tentar perceber porquê”. Transportando para a AR, admite que “é preciso ter paciência”, isto pois “se tens gente à tua frente a negar que há alterações climáticas, o que é que vais fazer? Não é verdade, toda a evidência científica vai ao contrário”.
Complementa dizendo que esse tipo de avaliação não é feita por quem não sabe, “é feita por comitês, por pessoas [externas] que sabem do que é que estão a falar”, já que, “como deputado tens que estar em várias comissões diferentes, [estas] de vários assuntos diferentes. […] Tens que ter assessores que saibam ou tens que pedir entrevistas e audições. […] Há coisas que eu não sei. Eu vou perguntar a quem sabe.” Para este efeito particular, cita uma proposta do LIVRE: “criar um gabinete técnico-científico de apoio à atividade de legislação na Assembleia da República”.
Assim, o CERN(e) da questão levantada é a aparente dissonância entre a ciência e a política, já que “quem promove os argumentos acientíficos [na política] grita muito alto, mas não quer dizer que tenha razão.” Justificando que “o discurso público muitas vezes é muito simplista e polarizado para o sentido de quem grita, mais alto quer […] e as pessoas ouvem.” Concretamente, “seja na questão das pessoas transgénero ou na questão das alterações climáticas, há coisas que são complexas” e, no seu entendimento, “polarizam-se as opiniões e às vezes era preciso serem assuntos discutidos com muito mais tranquilidade, mais calma, mais pensamento.”
“É tudo dissonante quando não há honestidade no exercício da função política ou no exercício intelectual, não é?”
No que toca à sua atividade parlamentar regular e em resposta a se levava algo da realidade académica para o hemiciclo diz que “quando se faz política, as pessoas transportam aquilo que sabem para esse mundo”. Contudo, esclarece que não se pode resumir à sua experiência pessoal. Discorre sobre o problema da habitação “onde o preço de um quarto ou de uma casa é proibitivo para muitas famílias”, mas a atualidade obriga-nos a focar num passo anterior, no acesso e continuidade no ensino – as propinas.
Aqui a deputada vive entre duas cargas, argumentavelmente, opostas. Por um lado, o ministro da educação, Fernando Alexandre, diz que “a propina é um pequeno valor face aos custos da frequência do ensino superior. Não consigo perceber, confesso mesmo, racionalmente, eu não consigo perceber como é que as associações de estudantes dão tanta importância […]”. Por outro, Rogério Colaço, presidente do IST, em entrevista à Rádio Renascença diz que “num país como o nosso, que precisa desesperadamente de talento e de desenvolvimento científico e tecnológico, um dropout por falta de condições económicas para concluir os seus cursos é um crime social.”
Fundamentalmente, vive com a crença que “constitucionalmente nós devíamos ter um ensino tendencialmente gratuito, até porque o país precisa de gente com formação superior.” Argumentando que “até nas versões economistas” para fazer com que a nossa economia cresça e se torne mais competitiva, é preciso estimulá-la com profissionais capacitados.”
A professora é clara: “a questão do aumento das propinas não é só a questão da propina da licenciatura, é depois o descongelamento dos mestrados”, reciclando, com alguma ironia, as palavras do ministro: “os 13 euros [de acréscimo à propina de licenciatura] são um mero ajuste à inflação.”
Segundo a catedrática, a inexistência de tetos legais para o valor das propinas de mestrados levará à existência de cursos com propinas bastantes elevadas, impondo uma pré-seleção dos candidatos desligada de mérito. “Perguntas isso ao Ministro, aliás perguntámos na semana passada, que ele esteve em comissão, e ele disse «é o mercado a funcionar. Se há muita procura, as pessoas pagam.»“ Aprofunda-se questionando: “queremos que o ensino superior funcione como uma empresa ou queremos que o ensino superior público seja uma porta aberta para aprender?” Acrescentando que “não é só para o mercado de trabalho, uma universidade é um centro de conhecimento.”
No entanto, não se restringe de explicar o lado negro da matéria: “O grande problema é que as universidades públicas em Portugal não são financiadas na totalidade pelo Orçamento do Estado” e não sendo este suficiente, para além de outras receitas da instituição, “as propinas são uma componente importante para financiar as universidades”.
Investigação: para além da fusão da FCT
Para a bancada da professora, no mesmo governo, surge outra preocupação próxima: a extinção da FCT e o debate anexo sobre investigação científica. “Há muito que nós não percebemos ainda porque essas decisões começaram a ser tomadas sem falar com a comunidade. Embora a FCT já precisasse de reformulação porque a comunidade científica cresceu muito.” Para a deputada, caso se registe o reforço (ideológico) da inovação face à investigação, leia-se o reforço do “utilitarismo do conhecimento científico”, estar-se-á a cometer um erro. Argumenta que “a ciência fundamental não tem necessariamente de ser avaliada da forma como tu a consegues transferir ou ser translacional para depois fazeres de inovação.” Uma vez que “a maior parte dos desenvolvimentos científicos que depois são usados na sociedade não são feitos com o objetivo inicial de se usar.”
Põe um spin à discussão falando no “paradigma da vela e da lâmpada” como uma maneira intuitiva de explicar o problema. “Tínhamos velas. Quando se passaram a usar lâmpada em vez de velas, uma lâmpada não é uma vela inovada. É uma tecnologia completamente diferente, que não tem nada a ver com as velas, porque foram descobertas as leis de Maxwell. Conseguiste começar a usar o eletromagnetismo para aplicações, mas não foi porque andavas a fazer uma fábrica de velas que tinha investigação em velas.”
“É sempre preciso pensar que há coisas novas que nós aprendemos a fazer, mas não é porque as estejamos a investigar.”
Para selar o argumento, dá-nos o exemplo dos sensores que detetam a emissão de fotões, em feixes, permitindo inferir o local e tempo de emissão. “Esta tecnologia faz-se à custa dos detetores que nós desenvolvemos [para estudar física de partículas], mas mais tarde veio-se a usar aquilo para outros fins.” Listando Positron Emission Tomography (PET) como uma técnica para a deteção de tumores muito pequenos, “mas quando andaste lá a ver se o cristal era bom ou se o sensor era bom para acoplar ao cristal, no fundo, a fazer os modelos para estas experiências, não estavas a pensar que aquilo poderia ser para o PET.” Sucintamente, sublinha a vertente translacional da ciência: “há muita investigação fundamental e até quando eu digo [investigação] aplicada, é aplicar conhecimento para instrumentação, como desenvolver um detetor, que está a ser desenvolvida para aquele fim, mas pode ser revertida para outro.” Não esquecendo os atritos e ruídos, pois “nem tudo o que as pessoas vão estar a investigar vai ser usado de forma útil para toda a gente.”
Finalizando a entrevista e em resposta à sua prospectiva para o cenário da ciência em Portugal, afirma: “dentro da minha pouca capacidade de intervenção, com um grupo parlamentar com seis pessoas […] ando a tentar que não piore”




