A pedalar do Hip-Hop para tudo o resto: Entrevista a Mike El Nite

Autoria: Pedro Lima (MEIC-A) e Pedro Ruas (MEC)

No passado dia 6 de março, o Diferencial sentou-se à mesa com Miguel Caixeiro – mais conhecido por Mike El Nite – mas, porque ele nos considera amigos, podemos tratá-lo por simplesmente Miguel. 

Sendo assim, Miguel lançou há cerca de 1 mês o seu novo disco, “Existencisensual”, onde explora novas temáticas, produções e metodologias de construir canções que possam “agarrar o ouvinte”. Perante o sentido completamente oposto ao que tem sido o seu trajeto até aos dias de hoje, o Diferencial procurou saber o que levou Miguel a inclinar-se para outros géneros, alguns deles completamente diferentes do que o que nos habituou. Entre conversas paralelas sobre restaurantes, recomendações de rotas para fazer em bicicleta e sugestões de jazz fusion, Miguel abriu um bocadinho o véu, não apenas sobre o seu mais recente álbum, mas também sobre o seu trajeto académico e o que o trouxe aos dias de hoje.

Primeiramente, o Diferencial quis perceber de onde vieram todos estes géneros que habitam no álbum de Miguel, um artista que, até há pouco tempo, se apresentava como um pilar do movimento de Trap nacional  – só neste projeto temos influências de City Pop, Jazz Fusion, Italo-Disco, Música Popular Portuguesa e até toques de neo-soul, entre outros: “Há uma certa paisagem que está inerentemente presente na minha vida, porque sou português, vivo em Portugal e cresci aqui, logo estava obviamente sujeito ao que dava na televisão e na rádio, por exemplo, ou na cena de ir à FNAC e comprar os CDs, que eram de uma seleção limitada […] Mas o trajeto em si deu uma grande volta, porque eu afasto-me disso na adolescência, para me ligar mais ao Hip-Hop, especificamente, mas também Nu Metal e todo o tipo de música que tivesse essa energia anti-sistema, se quisermos. O bichinho volta por iniciativa própria, mas também na sequência do álbum com o David Bruno [“Palavras Cruzadas”, 2021], onde acabo por me abrir mais musicalmente, a ir à procura de tesourinhos portugueses escondidos, a abafar-me um bocado pela história da música portuguesa, e no fundo a obcecar-me um bocado por esta estética. […] Posteriormente, dou por mim numa playlist de Jazz japonês super conhecida, que tem também uma estética muito própria, aquela cena dos anúncios japoneses dos anos 80 e 90 […]. Tudo isto culmina no meu disco, onde eu basicamente reúno com todas estas ideias, e procurei transmitir um sentimento de, mesmo que nunca tenhas ouvido nada disto, alguma coisa era-te familiar.”

Mike El Nite

Perante uma mudança tão drástica no seu som, no álbum apenas constam duas colaborações – com xtinto, em “Demónios”, e com João Chaves, em “Oceano Pacífico”. Miguel comentou que não descartou a hipótese de ter mais features no álbum: “Cheguei a pensar nisso, mas honestamente, já não fazia nada a solo há tanto tempo que senti que precisava de mais espaço para mim […]. E a verdade é que as músicas foram saindo com alguma fluidez, fazíamos basicamente uma por sessão […]. Quis também fazer um statement com este trabalho: isto é um meio novo para mim, então eu estou aqui, a solo, a mostrar-vos um pouco de tudo e quem é que eu sou.” É uma espécie de renascimento. Miguel Ângelo disse a certa altura, sobre as dificuldades enfrentadas ao criar David, que esculpiu toda a pedra que não era David. Ora, Mike El Nite (ou simplesmente Miguel) fê-lo à sua própria criação artística, revelando quem realmente é.

Ao longo de “Existencisensual”, o ouvinte acompanha uma atuação de um artista num bar, entre os vários temas e skits; quando questionado acerca desta abordagem específica, em prol de uma simples coleção de músicas, Mike revela que foi buscar este conceito ao seu passado: “Ao início, eu e o Baco simplesmente começamos a fazer música. Eu já tinha algumas ideias e foi uma questão de as revisitar ou descontruí-las um pouco. Mas aproveitei todo este processo para regressar um bocadinho ao meu passado, até porque esta transformação artística foi acompanhada de uma evolução pessoal, onde fui buscar vivências antigas dos meus pais [o pai, Joaquim Caixeiro, pertenceu à Brigada Victor Jara, teve um projeto musical enquanto «Quinzinho de Portugal» e chegou a ser dono de um bar em Lisboa]. Esse imaginário, dos bares de antigamente, onde a noite era mais calma, teve obviamente uma influência no disco: a cena toda de chegares a um bar, sentares-te numa mesa, está a dar música ao vivo, e tu ali a conversar com a malta, vêm as bebidas acompanhadas com umas pipocas, todo esse ambiente é tão confortável e familiar para mim, que foi bastante fácil navegar nele.” Desenvolveu também o que sente acerca do cenário noturno, agora que está mais maduro: “A noite, e a vida em geral, está super acelerada, hoje em dia estás lá na discoteca, em pé, a beber, entra o DJ, abanas a cabeça um bocado, depois vens cá fora. Ou é um botellón ou uma rave, estás a ver? E quis explorar a cena intermédia, onde se inserem muitos sítios noturnos onde os meus pais iam sair, por exemplo.”

Mike El Nite
Mike El Nite

O Diferencial quis também perceber as diferenças na metodologia deste projeto em comparação com os seus anteriores, onde Mike El Nite abordava a música numa perspetiva mais virada para o Hip-Hop: “Acima de tudo, retirar esta ideia de que as letras têm de ser complexas. Se me vem uma ideia à cabeça, não tentar complicá-la demais, resistir a essa tentação […]. Porque no rap existe essa lógica, ‘quem é que tem a melhor caneta ou as melhores barras?’ Tu teres um espaço numa canção e procurares ser conciso no que queres transmitir, em vez de tentar preencher os versos todos, como fazia antes, foi talvez o principal desafio. […] Fazeres esse processo contrário é também muito desafiante, porque numa música pop tens de conseguir transmitir o que queres, mas também de fazer as pessoas cantá-la, torná-la sticky.[…] Entre outras coisas mais óbvias, como despir-me um pouco em termos vocais: nunca fugi ao autotune, e uso também neste álbum, mas procurei, mais do que o habitual, usar a minha voz natural: assumir esse papel de cantor, assumir essas dores de crescimento, e aos poucos, ir tirando as rodinhas da bicicleta.”

Saindo um pouco fora do tema da questão, Miguel também assumiu que este risco começou a ganhar forma na sua cabeça na altura do COVID: “De repente, no auge da Think Music, no segundo ano do #FFFFFFF, o mundo fecha, e tu começas a pensar um bocado mais na coisa: estamos a correr atrás do quê? O próximo hit de Verão? O próximo artista revelação? Tudo isso era válido e dava muita pica, mas depois começas a perceber o teu público, o quão volátil pode ser – e no nosso caso era muito público académico, o mais volátil possível. Estas pessoas vão eventualmente mudar as perspetivas de vida, ver as coisas de maneira diferente no futuro. Eu queria fazer música para as pessoas ouvirem agora, mas também daqui a 20 anos.”

Recentrando as atenções na entrevista, Miguel revelou que a canção que demorou mais tempo a ser feita foi “Amor Sintético”, pela conjugação de estilos que quis incorporar na faixa, ao mesmo tempo que tentava “que fosse dançável e não muito overwhelming”. No entanto, refere que todas as músicas do álbum demoraram algum tempo a serem concluídas, principalmente nas fases finais de mistura e masterização: “Quando começas a meter várias camadas e sonoridades numa faixa, tens de ter cuidado, porque o produto final não pode ser confuso para o ouvinte. Tu metes um disco a tocar e tem de estar tudo no sítio certo, não pode existir esse atrito; essa questão agrava-se quando, no nosso caso, quase todas as músicas eram diferentes, tinham instrumentos diferentes, cantadas em registos diferentes, etc. […]. E até é curioso, porque esta cena da Engenharia do Som é altamente científica, mas ao mesmo tempo, espiritual. Tu estás ali a controlar as frequências e de repente queres alterar algo mas usas termos como “isto tem de estar mais fuzzy” ou “bubbly”, e depois vais lá e mexes nuns gráficos. É meio crazy.”

Capa do álbum “Existencisensual”

Num repertório recheado pela nostalgia das discotecas dos anos 90, a faixa que evoca o momento de respirar fundo numa saída à noite, na casa de banho do bar, é “Ocarina”. E é nesse contexto de vida em constante movimento que sobressai, naturalmente. “É uma música de New Age [com] canto gregoriano e flautas [japonesas] […]. Normalmente ouves, sei lá, num spa, quando o pessoal quer mandar aquela vibe holística. E a ligação, na casa de banho, com esse áudio faz sentido para mim. A água a correr e a cascata. E de repente estás a entrar na cascata dos lobos. É sobre esse imaginário.” 

Quando questionado sobre a semelhança com “Sadeness (Part I)”, dos Enigma, Mike El Nite confirma que foi intencional. Lançada em 1990, um ano depois de ter nascido, “é o staple desse estilo musical”. Contudo, há “muitas outras músicas que usam as mesmas samples”, tendo em conta que havia “uma espécie de promiscuidade de quando implementavam um sintetizador numa faixa, […] como por exemplo o da flauta asiática, [que] é incrível”. Mas as referências e inspirações não terminam aí. Naquilo que apelida de uma “veia mais nerd”, o seu lado gamer levou-o a usar Legend of Zelda: Ocarina of Time para dar título à faixa. Faz ainda um trocadilho, imaginando uma mulher com esse nome. Já no conteúdo da música, talha versos de erotismo e romance, relacionando uma mulher com um instrumento musical, o que o aproxima de cantores românticos como Fernando Girão. Mike El Nite menciona ainda “a figura masculina do Ingrid Atão e do galã também ter um lado espiritual, tipo o Steven Seagal; de estar ali na floresta em comunhão com os animais e com a cascata”, imagética que confessa ter logo idealizado.

Fora do espetro musical, Mike El Nite tem um podcast com João Maia Ferreira, intitulado “Seja Como For”, onde costumam abordar, entre outros assuntos, o panorama político. Neste álbum, porém, essa faceta interessada na política não está propriamente desenvolvida. Quando questionado sobre se o projeto era incompatível com esses temas, Mike El Nite diz que o facto de este álbum ser menos vincado ao nível político veio de um lugar de interrogação das suas próprias convicções e de que a música deve, mais do que tudo, unir. “A minha opinião política na música é muitas vezes nas entrelinhas, mas obviamente que fiz disso quase uma bandeira.” Revela que houve, a certa altura, uma espécie de reavaliação destas crenças, mas que curiosamente, agora até regressou à maior parte delas. No entanto, o artista afirma: “Sinto que há um lado da arte que tem um poder, mais do que um poder informativo e de despertar consciências para questões políticas, tem o poder de unificar e não de segmentar.” O artista discorre ainda sobre um dos papéis mais importantes da sua profissão: o de entreter um público. E esse público pode ou não querer ser exposto a mensagens políticas. Ainda assim, reconhece que “há certas mensagens que, não sendo políticas, são políticas, no sentido em que são unificadoras”. Num contexto de constante polarização, Mike El Nite sente que não “[faz] música só para pessoas que pensam como [ele]”. “Mesmo que tu não penses como eu de certeza que há alguma coisa com a qual te vais identificar. E a partir daí podemos começar uma conversa muito mais facilmente […]”.

Relativamente ao seu percurso académico, frequentou o Ensino Superior por apenas seis meses. No entanto, ao olhar, em retrospetiva, para o que veio antes, o cantor e compositor confessa que chumbou a Matemática, no décimo ano do curso científico-humanístico de Artes Visuais. Sentindo que aquilo não iria funcionar, decidiu ir estudar para a ETIC, que na altura era uma escola profissional semi-privada: “Agora já tenho cursos técnicos e equivalência ao Ensino Superior, mas na altura acho que não tinha. Então fiz o secundário na ETIC, no curso de Desenho Animado. Convenhamos que era um bocadinho mais fácil passar às disciplinas, até porque nós estávamos a pagar”. 

Posteriormente, trabalhou em restauração, turismo, entre outras áreas, até que teve uma espécie de epifania. “Quando fiz 25 anos ou 24, somewhere nesse ballpark, pensei, ‘vou para a faculdade’ […]. Fui para a ESCS tirar Audiovisuais e Multimédia.” Algures no tempo que lá passou, lembra-se de um professor de Economia, que lhe disse para dinamizar o interior. “Eu na altura achei aquilo super ofensivo, porque eu tinha ambições de ser um artista em Lisboa”, confessa, mas hoje reconhece que o professor talvez visse algo que ele não conseguia, porque sente que gostava de ir viver para o interior. Ao fim de seis meses, lançou o “Mambo Nº1”, com o ProfJam. “Já foi há uns 12 anos. E na altura a música bateu. E eu pensei, a faculdade está aqui, esta oportunidade não está aqui sempre. E então saí.” Sente que foi uma das melhores coisas que fez e que tudo o que iria aprender no Ensino Superior, aprendeu on the go, no trabalho. Já noutra asserção, não se revê na praxe, apesar de respeitar quem faz parte dela e reconhecer que incentiva as pessoas a superarem-se a si mesmas, mesmo com as normas que existem numa instituição. Sobre a relação atual com a vida académica, mantém-na viva através de concertos e festas académicas.

Fazendo uma retrospectiva com o passado (relativamente recente), é curioso revisitar antigas entrevistas de Mike El Nite, onde o artista citava referências como Kanye West, Tyler, The Creator, ou Travis Scott. No entanto, o artista menciona que o rap é intrínseco à sua carreira e está sempre presente, de uma maneira ou outra: “Essa parte está sempre viva, sem dúvida. Ainda ontem [05/03/2026] estive com um artista a gravar uma colaboração, e o que ele queria de mim era um verso de rap; não gravei o verso, no entanto, como gravaria há uns anos […]. Acabo por materializar esta vontade através de features e colaborações[…]. Mas há certas coisas que já não me interessam honestamente: já não estou ligado ao último rapper que está aí a bombar com a cena nova, e irritam-me muitos movimentos que parecem construídos para ter shock value. Já não me interessa o clip polémico, ou quem disse mal de quem, se foi o Kendrick ou o Drake, as diss-tracks, isso é tudo cultura americana no seu pior. Ao passo de, se metes um álbum de jazz japonês a dar, ouves aquilo e automaticamente sentes tranquilidade.”

Por último, ainda sobre o disco, mas fazendo uma ponte com a sua carreira, questionamos Miguel acerca dos possíveis receios ao apresentar um disco destes – completamente fora do espetro musical do artista – depois de tantos anos a acumular fãs com os seus raps. O artista, como foi recorrente na entrevista, tinha uma resposta na ponta da língua: “Isso passou-me pela cabeça, e houve obviamente algum receio, mas para as pessoas que se possam agarrar muito à música do passado eu digo: a música está lá, está disponível, podem ir ouvi-la. Eu estou altamente satisfeito e confiante com o que fiz [neste álbum]. Sei que estou a arriscar na estabilidade da minha carreira, e que isto é meio um tiro no escuro; mas acima dessa ansiedade toda que possa gerar, eu sinto que tinha de o fazer. Como referi no início, a vida evolui, eu evoluo com ela, e a minha música a mesma cena, porque isto tem de ser dinâmico até ao último dia”.

Mike El Nite está-se a preparar para apresentar o seu disco, com uma digressão nacional, que arranca no dia 12 de março, em Lisboa, onde vai atuar no B.Leza. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais.

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