Autoria: Mário Rui Viana (LEEC)
Já a largas décadas de distância da obra seminal do Midwest Emo que os colocou no mapa, os American Football acabam de lançar o quarto álbum do mesmo nome. Desobrigados de qualquer revolução ou reinvenção, os norte-americanos levam até ao limite o quanto se pode experimentar continuando a ser mais do mesmo.
É muito difícil criar uma obra-prima, além de mais uma obra-prima que serve como referência universal para um dos géneros mais influentes na música alternativa do século XXI. Mas ainda mais difícil é responder à questão: “E depois?”. Será talvez por esta razão que, um ano após o lançamento do álbum de estreia ‘American Football’ em 1999, o grupo se separou, e não voltariam a lançar música nova durante mais de 17 anos.
Felizmente, bons filhos à casa tornam. E, desde aí, a banda tem mantido um nível de qualidade acima da média com ‘American Football’ (2016), ‘American Football’ (2019), e agora com ‘American Football’ (2026).
Não é segredo que a sombra daquela estreia perfeita ainda paira sobre cada novo lançamento, mas não existe também nenhum esforço por parte da banda em afastar-se desse primeiro sucesso. Certamente os projetos não seriam homónimos se esse fosse o caso. Há, aliás, uma certa reverência ao facto de o jackpot ter saído tão cedo, como se lhes conferisse uma liberdade para explorar os limites, imperfeições e mutações do género de que foram pioneiros. Reinventar a roda 27 anos depois de uma obra-prima é algo exclusivo das figuras mais lendárias da história da música e os American Football aceitam de bom grado o seu lugar no escalão abaixo, o de mestres do seu nicho.
É neste contexto que surge o seu quarto álbum, que, apesar de transportar a melancolia passiva do midwest americano, com arranjos e composições que rivalizam seriamente o melhor trabalho do grupo, peca por uma escrita mais vaga e metafórica que acaba por ser mal conseguida. Nada contra o… chamemos-lhe “atmosférico reflexivo”. É, aliás, mais do que compreensível a dificuldade em, aos 50 anos, voltar a alcançar os versos acutilantes de uma banda universitária dos anos 90. Talvez seja essa mesma acutilância juvenil que me leva a obcecar sobre os poucos falhanços e limitações deste disco. No entanto, estando estabelecido que o que está diante de nós não é um candidato a álbum da década, segue-se uma apologia deste que é um grande álbum.
A escolha de iterar sobre a atmosfera melódica de projetos passados e trazê-la como veículo principal deste novo disco não é de todo estranha. É, afinal, o atributo mais característico dos American Football e o mais fácil de emular por quem os toma como inspiração. Talvez emular não seja o verbo certo para descrever esta situação, dado que esta “emulação” vem dos mesmos cérebros que escreveram o cânone, mas esse cânone chega pouco intacto a este álbum. Digamos que a figurativa Bíblia dos American Football foi sujeita a um resumo Europa-América, por falta de uma analogia melhor. Não se entenda por isto que foi, de maneira alguma, uma escolha infeliz. Se já descartámos o objetivo de alcançar a perfeição do auge prematuro, há que deixar espaço para a experimentação.
Para deleite do ouvinte, essa experimentação vem em todos os tamanhos e feitios. É evidente uma influência do Post-Rock nos arranjos de cordas, sobretudo em momentos como a primeira metade da faixa “Patron Saint of Pale” onde um riff simples – mas sujo e distorcido – é tocado em loop, marcando o ritmo da música e libertando a bateria e o baixo para tarefas melódicas mais interessantes do que marcar o ritmo da típica protagonista: a guitarra elétrica. Como não poderia deixar de ser, um guincho desta mesma guitarra marca o início da reta final da canção que nos presenteia com um agradável momento nostálgico dos primórdios da banda. O experimental também tem limites, e as composições deste projeto possuem a lucidez de manter a familiaridade necessária para não perder a atenção do público.
Do Post-Rock passamos ao Shoegaze, e do Shoegaze passamos ao Folk, num álbum que encontra a sua melhor qualidade na sobriedade com que mistura a sua identidade com novas descobertas. Para além disso, as várias colaborações conferem ao disco uma certa frescura e novidade, sempre em moderação, sendo a participação de Brendan Yates dos Turnstile o maior destaque dos artistas convidados.
Na sua crítica ao projeto, a publicação americana Pitchfork equipara esta evolução dos American Football a “The Smiths, se tivessem feito mestrado num conservatório de Jazz em vez de se separarem” e é impossível fugir a esta comparação naquele que é o elemento mais diferente deste álbum: a voz de Mike Kinsella. Muitas das faixas contam com Kinsella a fazer a sua melhor imitação de Morrissey, o que se revela uma escolha surpreendentemente acertada.
Na verdade, e em retrospectiva, essa escolha pouco tem de surpreendente. Se nestas canções as letras exploram o alcoolismo, a vergonha, o suicídio e o divórcio, quem melhor para as cantar do que um Morrissey com sotaque de Chicago? A voz honesta (e por vezes desafinada) de um jovem que cantava sobre os desgostos da vida universitária no Illinois já não se aplica a este paradigma, e há que chamar os pesos pesados. Os The Smiths não são, no entanto, a única banda que é possível ouvir ao longo dos 49 minutos de ‘LP4’.
Para compreender a presença das outras, é preciso relembrar que o Midwest Emo se afirmou como o primo fixe do movimento Emo devido aos seus elementos de Indie Rock e Math Rock, que contrastavam com o frenético Pop-Punk que era o mainstream do movimento. Com isto em mente, é lógico o porquê de tantos momentos deste álbum parecerem retirados aos The National ou até a um Bon Iver muito precoce. O Indie que outrora se apresentava subtilmente entrelaçado com as melodias principais, aqui aparece como como elemento fundamental da lírica deste projeto.
A gravadora da banda, Polyvinyl, descreve ‘LP4’ como “implacavelmente pesado”, notando que “o vício, o auto-ódio e o renascimento vêm à tona, muitas vezes dentro da mesma música” enquanto o baterista Steve Holmes afirma que “Se lerem as letras no papel, elas podem parecer sombrias, mas há esperança nelas.” E é precisamente este papel de renascimento e esperança que é confiado ao Indie Rock. Num álbum em que muitas faixas podem ser divididas em atos, o Indie aparece como veículo da redenção e salvação, onde as melodias mais leves e rítmicas resgatam o último ato de cair no desespero. Assim, é quase poético que o elemento que diferenciava um grupo de adolescentes das restantes bandas seja o mesmo que, 27 anos depois, salva este álbum de ser irremediavelmente sombrio.
O mundo em que os American Football surgiram já não existe. Quando mencionamos o Emo, ninguém pensa num grupo de cinquentões suburbanos, mesmo que estes continuem em grande forma. Mesmo assim, não estamos tão longe de 1999 como possamos pensar: Vai sair um novo Star Wars, o presidente dos EUA está envolvido num escândalo sexual e, claro, há um novo álbum dos American Football que vale mesmo a pena ouvir.



