Das start-ups ao stand-up: Entrevista a Guilherme Duarte

Autoria: João Carriço (LEQ), Manuel Botelho (LEFT) e Mário Rui Viana (LEEC)

Formou-se em Engenharia Informática, mas esses conhecimentos só lhe servem para fazer a ocasional manutenção do websiteou como inspiração traumática para uma ou duas canções. A verdade é que Guilherme Duarte estava na iminência de se tornar mais um dos normais produtos do Técnico quando descobriu o jeitinho que albergava para a comédia.

Guilherme Duarte, atualmente também conhecido pelo seu pseudónimo Gandim, é um comediante de stand-up, cuja arte também se estende ao rap. Algures durante a década de 2000, ingressou no então Mestrado Integrado em Engenharia Informática e de Computadores, e, após a sua conclusão, encontrou emprego numa consultora, onde se manteve durante, aproximadamente, dois anos. Durante este período, publicava textos num blog pessoal – “Por Falar Noutra Coisa” – que mantém até hoje. Mais tarde, contudo, opta por abandonar o seu, então, emprego para se dedicar à comédia a tempo inteiro, estreando-se em pequenos bares, mas alcançando os palcos de infames salas de espetáculo do país.

Num panorama geral, a comédia foi algo que surgiu na vida de Gandim de forma completamente espontânea. Durante cerca de 5 anos após acabar o mestrado, o comediante trabalhou em consultoras e startups “e foi aí, quando eu estava a trabalhar nas startups, que surgiu este gosto pela comédia, muito por acaso. […] Foi entre dois trabalhos, quando eu me despedi da consultoria, que criei o blog ali um bocadinho para passar o tempo”. Este blog (Por falar noutra coisa) foi a ferramenta para o sucesso do entrevistado: ganhou blog do ano em 2016 e já foi visitado mais de 30 milhões de vezes. Desde então os projectos têm sido inúmeros, entre os quais um programa de rádio na Antena 3.

Com uma longa carreira e muitos projetos em diversas áreas e formatos, vem também a capacidade de analisar as mudanças que ocorreram na “indústria” da comédia.  “Na altura em que eu comecei o blog, também ninguém fazia textos grandes para a internet. Estávamos ainda na fase do Facebook, coisas pequenas e fotos, era o que estava a bater.” Hoje, na era do algoritmo, seja mais difícil captar a atenção com ideias originais: “Acho que a grande mudança é que se tornou muito mais fast food do que era na altura. E é difícil fazer uma coisa com algum tipo de profundidade e de camadas para esse meio. E por isso é que as cenas que costumam bater mais são relatable, não é? A trend, que no meu tempo se chamava-se plágio.”

Guilherme retorna às suas vivências no Técnico regularmente: “Acho que aquilo que me atormenta mais é ter um pesadelo recorrente em que me falta acabar uma cadeira. […] Acontece-me muitas vezes sonhar com isso, diria que uma vez por mês.” Quando questionado sobre as cadeiras que mais o marcaram (negativamente), Guilherme aponta para as “análises e para as físicas”, mas atribui o protagonismo a Sistemas e Sinais: “Sistemas e Sinais foi a que mais me atormentou. […] Acho que era a segunda vez que estava a fazer a cadeira, na segunda fase, e lembro-me que estava um frio. Parecia que ia [vestido] para um matadouro e lembro-me de ver um colega meu, que tinha tido 19 na primeira fase, a fazer melhoria. Tive de me controlar para não o matar. Portanto essa cadeira traz-me várias lembranças, nenhuma delas boa.”

No entanto, nem toda a influência que o Técnico teve em Guilherme foi negativa. “Lembro-me de fazer textos sobre o Técnico ou sobre a informática no blog e de baterem bué […] É um nicho, mas é um nicho grande.” Este sucesso não se limitava, todavia, ao seu blog, prolongando-se ao trabalho enquanto Gandim, tendo uma faixa sobre estes mesmos temas – apropriadamente intitulada Informático – sido um dos maiores sucesso desse álbum: “Acho que o conceito em si carrega a música sem ser preciso, toda a gente sabe o que é um endereço de IP ou o que é RAM.” 

O rap foi algo que surgiu naturalmente, sem muitas influências: “Foi mesmo do gosto, de ser o estilo musical que eu mais ouço, […] o rap tuga” e como “a escrita de stand up já obedece a uma série de regras e o rap obedece ainda mais regras” pareceu uma evolução óbvia. No entanto, admite ter alguns indivíduos merecedores da sua admiração no campo do rap cómico, “Bo Burnham é obviamente uma inspiração […], lembro-me de o ver fazer [e pensar] «ok, o stand up também pode ser diferente»” e “o LilDicky, que é diferente porque é um rapper mesmo a sério, ele é um excelente rapper que calha ter piada”. Já no rap tuga chegou a fazer um top três: “Valete, Sam The Kid e Allen Halloween”, escolhas estas que se devem às letras com significado, coisa que sente ter vindo a perder-se.

E assim, mesmo já tendo atuado em grandes palcos, Guilherme Duarte não se considera um rapper: “Tento fazer coisas de rap com piada, mas, acima de tudo aquilo, é humor e não é rap”. Comparando as experiências no NOS Alive, mas enquanto alter-ego e apenas a fazer stand-up: “É sempre difícil atuar em festivais com stand-up, é muito difícil, não é o ambiente certo”; mas “foi um primeiro concerto de Gandim […] e foi incrível, nunca pensei que houvesse malta a cantar as letras […], que eu me via aflito para poder decorar”.

Quando fala da mecânica do processo, esta difere especialmente entre os dois estilos. O que começou como uma parte final dos espetáculos de stand-up passou para um projeto inteiro virado para o rap com maior produção e atenção ao detalhe. “Eu escrevia em casa, punha um beat e fazia ali tudo um bocadinho à padeiro. Depois tentei profissionalizar um bocadinho a coisa: arranjar uma produtora a sério, em vez de escrever a letra num ou dois dias, passar semanas a bater com a métrica, com o flow, e como é que isto tudo vai encaixar.”

Já a criação do stand-up nasce de um exercício de reflexão mais abstrato: “Vou para o Word, ou para o Google Docs, que é mais barato, e estou ali. Às vezes o que era uma piada pode tornar-se num bit de dez minutos, e às vezes o que era uma piada fica só uma piada. É um bocadinho fazer este exercício destas ideias ou estes temas, de tentar explorá-los e escrever, mesmo sem uma grande pretensão de ter piada no início. Só quase fazer dissertações sobre aquele tema e ver se surge algum ângulo cómico.”

Para além disso, o próprio processo de refinação e teste das piadas demonstra a evolução de Guilherme Duarte na forma como reage ao feedback do público. Cada vez mais consegue prever quais as piadas que vão causar maior riso na plateia, mas ao mesmo tempo tem confiança no gosto pessoal quando a reação não é a esperada.

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