De wallpapers publicados no Twitter para o trabalho com alguns dos seus artistas favoritos – entrevista a Rui Carneiro

Autoria: Ângela Rodrigues (MEFT) e Catarina Curado (LMAC)

Tem 33 anos, é natural do Porto, e desde cedo soube que queria que a sua vida estivesse ligada à música, apesar de não saber de que modo. Ponderou seguir engenharia, mas percebeu que “a matemática não é para mim”, pelo que se licenciou em multimédia. Hoje em dia trabalha com algumas das maiores bandas de metalcore e deathcore, como Bad Omens e Lorna Shore. Para saber mais sobre este artista (quase desconhecido), o Diferencial conversou com Rui Carneiro, designer e artista gráfico. 

”Eu sempre amei música. Eu já tenho 33 anos e, desde que tinha 12, 10 anos, tinha uns amigos que gostavam de música, gostavam de rock e, como os amigos puxam os amigos, eu sempre fui atrás deles, fui ouvindo música e, pronto, apaixonei-me completamente. A música sempre foi uma das minhas grandes paixões e sempre, desde criança, sempre quis trabalhar no mundo da música.”

No entanto, apesar deste desejo de trabalhar no mundo da música, Rui sempre esteve ciente das dificuldades que enfrentaria se quisesse ser músico, produtor ou mesmo manager, pelo que a música passou para segundo plano, e o plano A mudou para engenharia. “Então, por causa disso [da dificuldade de trabalhar na música em Portugal], eu decidi: «Pronto, posso continuar a amar a música, mas se calhar não vai ser esta a minha vida». E eu decidi seguir outra carreira na vida, decidi ir para a engenharia”. 

Mas esta perspetiva de carreira também foi posta de parte, quando no final do secundário percebeu que não queria estudar Cálculos e Álgebra, pelo que ingressou na licenciatura em Tecnologias de Comunicação Multimédia, no Instituto Universitário da Maia (ISMAI). “Era um curso que te ensinava muito de várias coisas. Por exemplo, ensinava um bocadinho de design, um bocadinho de fotografia, um bocadinho de vídeo, um bocadinho de imagem. A ideia do curso era que, quando terminavas a licenciatura, depois tiravas o mestrado numa dessas cadeiras, numa dessas áreas”. Porém, Rui optou por não fazer o mestrado e começou a trabalhar em empresas de marketing, que precisavam de pessoas para fazer flyers, e foi fazendo pequenos designs, mas admite que “nessa altura, eu tinha zero interesse em design”.

“E, quando eu estive nesses empregos em que fiz pequenos designs aqui e ali, eu também, no meu tempo livre em casa, comecei a fazer pequenos wallpapers para o telemóvel de bandas que eu amava: Silent Planet, I Prevail, Casey, Bad Omens também. E postava nas redes sociais, mas apenas como muita gente, milhares de gente fazia antigamente no Tumblr e no Twitter, agora o X.”

Em parte graças ao incentivo dos amigos, que gostaram do seu trabalho, foi continuando estes designs e descobrindo que, digitalmente, podia pôr esses designs em t-shirts, por exemplo, mas sempre no plano digital. E, mais uma vez, ao partilhar o seu trabalho nas redes sociais, as reações foram positivas. “Novamente, as pessoas que eu conhecia disseram «Ah, quero comprar, isto é interessante». E eu pensei, «Isto não existe [fisicamente], isto é só um bocado digital», e depois comecei a pensar, «Fogo, será que eu consigo transformar os meus designs em merch?»”

E foi assim que, em 2017, tudo começou. Decidiu trocar os wallpapers por t-shirts, e continuou a apostar nas redes sociais, especialmente no Twitter, porque “as bandas na altura eram mais ativas, e respondiam. E se as pessoas respondem, quer dizer que veem. E se as pessoas, e se os artistas veem o que eu publico e republicam,  os fãs também vão ver e vão comentar. Então era marketing de graça.” Apesar dos primeiros meses não terem sido um mar de rosas, “mandei designs para imensas bandas, postei em todas as redes sociais, e não deu em nada”, em setembro de 2018, a sorte parece mudar com uma mensagem (inesperada) do vocalista da sua banda favorita.  

“Em setembro, a minha banda preferida já era Silent Planet, uma banda de metalcore americana. Eu já amava, amava, amava, era a minha banda preferida, e nós [eu e a banda] já tínhamos uma relação de fã e banda, porque eles não tinham muitos fãs na altura, e, pronto, admito, eu era um fã obcecado, eu comentava cada publicação, e eles, como banda americana, não devem ter muitos fãs chamados Rui. Era fácil saberem quem eu sou. Então pronto, eu comecei a fazer t-shirts para eles, mas apenas como fã, eles não me tinham contratado, nada. Comecei a «postar, postar, postar», até que um dia «postei» uma [fotografia de uma t-shirt] e os fãs deles responderam muito, queriam muito aquela t-shirt. Nessa altura, eu trabalhava na Worten e lembro-me como se fosse ontem; estava na minha pausa e vi que tinha uma mensagem do Garrett, que é o vocalista dos Silent Planet, a dizer que queria comprar [o design], e eu, «Meu Deus». Foi uma loucura.”

É neste momento que Rui Carneiro aproveita para nos mostrar entusiasmadamente, da mesma forma como nos contou esta história, que tem esta primeira t-shirt emoldurada no escritório.

Alguns dos designs que Rui Carneiro criou posteriormente para uma colaboração entre os Silent Planet e a Carhartt.

Com o reconhecimento por parte da sua banda preferida, Rui admite que achou que este seria o ponto de viragem (e que ficaria famoso), só que tal não aconteceu imediatamente. Continuou a publicar designs, “porque agora já tinha este fogo dentro de mim, mas, admito, em janeiro [de 2019], já estava um bocado desanimado. Eu pensei que depois de trabalhar para os Silent Planet, a bola de neve ia começar a acontecer, o que não aconteceu”. Foi preciso esperar mais uns meses, até fevereiro ou março de 2019, para esta “bola de neve”.

Como já nos tinha explicado, apesar do ligeiro desânimo, Rui continuava a partilhar os seus designs, na esperança que uma banda ficasse curiosa com o seu trabalho. Foi com um desses trabalhos em particular que ganhou muitos seguidores, entre eles o vocalista da banda Casey. “O que eu queria, no fundo, era marketing de graça, eu queria que as bandas partilhassem, para que as outras bandas amigas vissem. A banda principal para quem eu fazia o design, não tinha de ser ela a comprar, mas se outras bandas vissem… Então, eu postei para uma banda,  já nem me lembro qual, e recebi bastantes seguidores, um deles era o vocalista de uma banda chamada Casey, que era uma banda de hardcore melódico, do Reino Unido. Eles mandaram-me um e-mail e eu pensei «outra loucura». Eles disseram: «Olá, como tu sabes, eu sou o Tom, sou o vocalista do Casey, e nós vamos acabar. Este é o nosso último tour, que vai acabar em abril, mas o nosso designer de roupa teve um problemazinho e não consegue fazer os designs. Podes ser tu a fazê-los?». E eu pensei, «Meu Deus, como é que um designer que não tinha quase clientes, o meu primeiro cliente, era uma coisa grande?» A banda não era grande, mas era uma coisa grande, era o último tour de uma banda.”

Através desta parceria com os Casey, Rui continuou a ganhar visibilidade e clientes, apesar de confessar que inicialmente obtinha pouco rendimento através dos seus designs, só que, no outro lado da moeda, não deixava de ser espetacular ter o reconhecimento por parte das bandas. “Eu não recebia nem metade do ordenado mínimo, recebia muito pouquinho, mas tinha alguns clientes, [em março] tinha dois ou três clientes. Em abril já tinha três ou quatro. Era pouco, mas era incrível. Aquelas bandas que eu mostrava aos meus pais e eles diziam: «Que barulheira, filho, mas ainda bem que tu gostas», agora conheciam quem eu era e contratavam-me.”

É com este crescimento do número de clientes que, em maio do mesmo ano, Rui começou a ponderar se se deveria despedir do seu local de trabalho para se dedicar a tempo inteiro “a isto da música e da roupa”. Conversou com os pais e a então namorada (atual noiva) sobre a ideia de se dedicar ao projeto durante dois anos, para ver se conseguia vingar, e foi com o apoio deles que decidiu despedir-se. “Eles disseram: «filho, tu tens sempre um telhado, tens sempre comida, força, vais conseguir» e a Ana, a minha noiva, disse o mesmo. Eu lá me despedi para ter mais tempo e pronto, foi como tudo começou. Depois em setembro já tinha um monte de clientes bem grandes, já tinha os Issues, que eram grandes, já trabalhava muito com a SharpTone Records, que é uma label muito grande de metal”.

Apesar do início da carreira de Rui Carneiro ter coincidido quase com o início da pandemia de Covid-19, Rui considera que “mundialmente foi um desastre, mas para a minha carreira foi a melhor coisa que me aconteceu”, já que, estando as bandas impossibilitadas de dar concertos, precisavam de vender merch para sobreviver; e era aí que Rui entrava. “Foi aí que a minha carreira rebentou. Bad Omens, Spiritbox … por acaso eu tive muita sorte e vieram todas [as maiores bandas do mundo de metal] para cima de mim tipo, Silent Planet, Casey, Dayseeker e foi Darko US, Lorna Shore e foi assim uma bola-neve gigante”.

Da esquerda para a direita: Design de um hoodie para os The Plot In You, design para um hoodie para os Fit For a King, design para uma t-shirt dos Inertia.

Agora, enquanto artista já consolidado, apesar de não ter clientes novos todos os dias ou todas as semanas, tem sempre trabalho, quer seja em termos de design de roupa ou de álbuns. Uma vez que vários dos seus clientes são norte-americanos, devido aos horários cruzados, quando envia um design ou uma uma ideia, só tem uma resposta na manhã seguinte. 

“Não falo com os meus clientes todos os dias, um cliente geralmente manda-me um e-mail ou pelas redes sociais, mais pelo Instagram, faz-me um pedido, que precisa de duas t-shirts, precisa de um álbum, nós conversamos e é isso. Ainda antes de vos atender, estive a fazer algumas peças de roupa. É muito bonito, eu amo o meu trabalho, 99.9 por cento do tempo, mas também admito que nem sempre tenho a maior força de vontade para trabalhar.” 

Em relação à gestão de prazos, tudo depende da complexidade do projeto. Rui admite ter mais facilidade e rapidez na criação de peças de roupa, enquanto uma capa para um álbum exige muito mais tempo e dedicação. Ao contrário de uma peça de merch, que pode estar associada apenas a um curto período de tempo, o álbum é uma obra duradoura. “Eu costumo ser rápido, costumo fazer uma t-shirt em dois, três dias. Agora, um álbum demora muito mais tempo, um mês, dois meses. Num álbum, temos tudo, desde ícones, logótipos, videoclipes”. 

Pelo caminho, há ainda clientes mais exigentes e outros que lhe dão maior liberdade criativa e essa liberdade varia também no acesso à música antes de sequer iniciar o trabalho. Nem sempre ouve os temas finalizados; por vezes recebe apenas pequenas partes das músicas; outras vezes já conhece o percurso da banda. Ainda assim, acredita que “não existe errado na arte, porque a arte é a junção de todas as tuas vivências, as tuas memórias, as coisas que tu assimilas. Por isso, é que eu acho que há uma liberdade completa.” Um caso particular é o da banda Darko US, com quem trabalha desde 2020. “São o único cliente em que eu posso fazer o que eu quiser e eu raramente ouço a música antes. Eu falo todos os dias com o Josh [Miller], que é o que escreve a música, e ele diz-me que vão lançar um álbum e que eu posso fazer o que eu quiser. E os álbuns são feitos. É a banda mais diferente que eu tenho.”

Da esquerda para a direita: Capa e vinil de “DETHMASK 3”, e design para uma t-shirt dos Darko US.

Rui relembra que o crescimento da sua carreira deveu-se, em grande parte, às redes sociais e em especial ao antigo Twitter. Em 2020, a plataforma oferecia um alcance aos músicos e aos artistas que hoje já não existe. “O Twitter, em 2020, dava muito mais alcance nas tuas publicações e as pessoas eram muito mais ativas. […] E muitos dos clientes que, neste momento, são gigantes, na altura não eram.” Foi neste ecossistema que conseguiu construir as primeiras pontes com bandas e editoras da sua carreira.

Quanto à relação com os artistas e as editoras, descreve-a como globalmente positiva. Os maiores obstáculos surgem, por vezes, de falhas de comunicação. “[Às vezes] eles pedem uma coisa e querem outra.” Segundo o designer, esta discrepância acontece muitas vezes quando existe um intermediário, que costuma ser o agente da banda, a transmitir a informação, o que, na sua perspetiva, pode complicar um processo que poderia ser muito mais direto. 

Rui confessa-nos também que já chegou a rejeitar projetos por incompatibilidade criativa, sobretudo quando envolviam estilos que não domina ainda, como a ilustração, já que se baseia muito no desenho manual. A isto soma-se um problema que diz ser transversal à indústria dos designers gráficos: a falta de tempo e os prazos muito apertados. “Às vezes não nos dão muito tempo. Todos os designers do mundo da música, nós não temos muito tempo.”

Entre os trabalhos mais gratificantes destaca o álbum “Rebirth”, dos The Arbitrary, e as várias obras que produziu para a banda DIESECT: logótipo, capa de álbum e merch. Apesar de trabalhar maioritariamente sozinho, afirma que há exceções. Nos álbuns dos Darko US colabora frequentemente com Matt Colamore, responsável pelas componentes em 3D que marcam a identidade visual da banda. Rui admite ainda que tem investido mais tempo a aprender modelação e design tridimensional para conseguir expandir as suas competências. Entre as suas maiores influências, destaca Dan Barkle, autor do mais recente trabalho da banda Northlane, Clockwork, cujo estilo influenciou fortemente a sua evolução como artista.

Da esquerda para a direita: capa de “Rebirth”, dos The Arbitrary, e vinil de “Hide From The Light [Deluxe Edition]”, dos DIESECT.

Se no metal já conquistou reconhecimento internacional, confessando-nos, aliás, que já aconteceu ter sido reconhecido noutros países, o seu futuro pode passar por outros géneros. “O que eu gostava muito era de clientes que não fossem de metal, gostava muito de pop, muito de k-pop. Gostava de fazer algo, por exemplo, para a Sabrina Carpenter.” Adiciona que a sonoridade menos abrasiva da música pop é mais calma para os ouvidos e mais estimulante para a criação das suas obras.

No entanto, admite que ainda há um caminho a percorrer no que toca ao reconhecimento do artista gráfico por trás da merch e dos álbuns. “Os fãs, quando compram merch ou gostam da capa do álbum,  não sabem quem é o artista, há aquele disconexo. Eu, por exemplo, na minha página de profissional, sou profissional ao máximo e não falo de mim. […] Há uma barreira grande entre saberem quem faz a roupa ou os álbuns e os membros da banda, eu entendo isso, porque quando uma banda lança um álbum não tem lá a foto do designer, não é isso que quero. Acho que é por isso que as pessoas não sabem [quem são os designers], mas não há mal nisso”. Rui considera que uma maneira de ultrapassar este problema reside em identificar os designers nas publicações, bem como escrever na descrição.

Olhando para trás, Rui identifica uma clara e profunda transformação no seu estilo. Onde antes tendia a preferir o maior número de elementos gráficos e cores, hoje privilegia a clareza, a tipografia e a organização das suas obras. “Houve uma mudança completa”, afirma. Mais do que impressionar, quer agora criar trabalhos de que se orgulhe, e essa, acredita, é a sua maior evolução desde 2019.

Posters para a tour australiana de 2025 dos Currents e Chelsea Grin, com Bloom e HEAVENSGATE, e para a tour norte-americana de 2025 dos Chelsea Grin, com Shadow of Intent, Signs of the Swarm e Disembodied Tyrant.

Em relação aos preços das suas obras, revela que este pormenor continua a ser um desafio. No começo, sem saber quanto deveria cobrar pelo seu trabalho, perguntava a outros designers os preços que estes faziam. A partir daí, foi fixando preços base. “Eu tenho um preço base, mas varia com o tempo que eles precisam [para serem feitos], a sua complexidade etc. Tenho preços para roupa, faço o mesmo para uma t-shirt. Posso dizer que os logótipos são mais elevados, muito mais trabalhados, muito mais difíceis, logo têm outros preços. Os meus preços variam.”

Entre os projetos pessoais e não relacionados com o mundo da música, destaca o trabalho que desenvolveu, há poucos anos, para a 100 Thieves, uma das maiores organizações de esports de todo o mundo. 

Perante o avanço da Inteligência Artificial na criação artística, Rui reconhece que a IA está cada vez mais sofisticada, chegando ao ponto de já escrever nas publicações das suas redes sociais que os seus trabalhos foram criados sem o auxílio desta ferramenta. A nossa conversa terminou, então, com as suas palavras de determinação “eu não vou desistir, vou continuar a criar, vou continuar a trabalhar.”

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