Autoria: Ângela Rodrigues (MEFT)
Poucos meses após a apresentação do Exercício Final Curso de Expressão Dramática, o Grupo de Teatro do Instituto Superior Técnico (GTIST) voltou ao seu palco com a peça Mauser – Em tempos de traição, as palavras são belas, baseada no texto de Heiner Müller e encenada por Mónica Calle.
Antes disso, nos dias 27, 28 e 29 de março, teve lugar a apresentação da peça A Nossa Cidade, que marcou o fim do Curso de Expressão Dramática da turma de 2025/2026. Este curso é uma iniciativa anual do GTIST que tem como objetivo proporcionar formação teatral a todos os entusiastas “com ou sem experiência prévia na área do teatro, de qualquer idade ou profissão”. De outubro de 2025 a março de 2026, a turma esteve envolvida em ensaios lecionados em horário pós-laboral na Sala de Teatro do IST, de aproximadamente 3 horas, duas vezes por semana, para desenvolver as suas competências teatrais. O resultado desse trabalho de cerca de 5 meses culminou no exercício final apresentado ao público.
Apesar das primeiras datas de Mauser só terem sido anunciadas no dia 17 de abril, os bilhetes para o primeiro dia de exibição, 1 de maio, esgotaram rapidamente. Devido ao sucesso das apresentações nos dias 1, 2 e 3 de maio, foram abertas mais oito datas ao longo do mesmo mês, que acabaram também por esgotar.
Ao longo de cerca de 120 minutos, o público é levado para o campo de batalha onde “o indivíduo se apaga e a obediência esmaga o desejo”, onde não há espaço para pensamentos e questões, onde o valor mais alto é o alegado “bem comum”, uma revolução cujo motivo é incompreendido. Em Mauser, as personagens são anónimas, todas com o mesmo propósito – eliminar o inimigo (“Eu matei pela revolução”) – e com o mesmo destino – serem eliminadas (“A revolução não precisa mais de ti, ela precisa da tua morte”).
No entanto, não há qualquer elemento em cena que preveja a violência da peça. Tudo é movido pelos atores: a passagem dos dias através do ato de vestir e despir os casacos; a corrida desenfreada; os puxões entre companheiros de batalha, que tanto se apoiam como se repelem; o som ensurdecedor dos casacos a bater no chão, a simular o som das armas de fogo.
“Sabendo que o pão de cada dia da revolução
É a morte dos seus inimigos, sabendo que ainda
Precisamos de arrancar a relva para que o verde permaneça.”
Há também os momentos de quase lucidez e de indagação, e até de ternura, em que há um despertar para a realidade, para a necessidade de sair da obediência, como é o caso das interpretações corais de “Acordai”, de Fernando Lopes Graça, ou de “Que Força é Essa”, de Sérgio Godinho.
“Eu recuso-me. Eu não aceito a minha morte.
A minha vida pertence-me.”
“Tu sabes o que nós sabemos, nós sabemos o que tu sabes.
E a tua pergunta não ajuda a revolução.
Se a vida for uma resposta, talvez ela possa
Ser permitida. Mas a revolução precisa
Do teu SIM até à morte. E ele não perguntou
Mas foi até à parede e deu a voz de comando
Sabendo que o pão de cada dia da revolução
É a morte dos teus inimigos, sabendo que ainda
Precisamos de arrancar a relva para que o verde permaneça.”




