NAF: O núcleo que retrata o Técnico a preto e branco e a cores há 75 anos

Autoria: João Carriço (LEQ) e Sara Nascimento(LEBiom)

Fundado na década de 1950, o Núcleo de Arte Fotográfica (NAF), secção autónoma mais antiga da AEIST, conta até aos dias de hoje com diversas dinâmicas que permitem a aproximação da comunidade estudantil à prática fotográfica. 

Com o objetivo de conhecer melhor o funcionamento deste núcleo, assim como o panorama histórico em que se insere, o Diferencial entrevistou dois intervenientes da sua história, de períodos diferentes: Isabel Correia, atualmente Professora Auxiliar no Departamento de Engenharia Química do IST; e Vasco Lourenço, atual coordenador do NAF.

Um núcleo do século passado

A história do NAF inicia-se em 1951, com a criação do seu precursor  – a Secção de Fotografia da AEIST – seguindo-se a aquisição de material fotográfico pela mesma entidade, documentada por um dos dois únicos documentos relativos a este núcleo que sobreviveram ao passar do tempo. A única outra menção deste antecessor do NAF ocorre num outro documento, datado de 1956, em que o Almanaque Português de Fotografia se dirige ao seu diretor. [1]

Os primeiros passos do NAF, descritos no seu website como errantes, deixam bastantes pontas soltas, até à década de 90, em que o núcleo adquiriu “uma nova dinâmica”, conforme descreveu Emanuel Moreira, integrante do núcleo no ano letivo 1991/1992, no podcast ‘110 histórias, 110 objetos’. Em particular, o breakthrough do NAF dá-se em 1993, decorrente do registo por parte dos fotojornalistas do Técnico de um momento marcante da luta estudantil da época, quando um grupo de estudantes sofreu uma descarga por parte da polícia nas proximidades da Assembleia da República. [2]

O NAF, limitado às paredes do Técnico

Uma parte significativa do trabalho do NAF toma o formato de iniciativas direcionadas à aprendizagem, sendo a principal o Curso de Introdução à Fotografia Analógica, que decorre duas vezes por ano e em dois níveis. Nas palavras de Vasco Lourenço, o Curso de Nível I “ocorre com mais frequência, muitas vezes pela disponibilidade dos formadores, e é um curso de educação de técnicas básicas de laboratório”, enquanto que o foco do Curso de Nível II é “aprofundar essas técnicas e experimentar também outras técnicas alternativas”.

Vasco Lourenço, atual coordenador do NAF. Fotografia: Gabriel Barata

Para além destes cursos, disponibilizam também workshops de técnicas de fotografia alternativas, tendo os mais recentes sido os de colódio húmido e de pinhole. Vasco Lourenço destaca o workshop de cianotipia, realizado recorrentemente ao longo dos anos, e em colaboração com a Associação do Pessoal do IST (APIST), que se tem “tornado uma tradição, porque é uma coisa engraçada de se fazer com as crianças”. 

Existem também outras duas iniciativas do NAF cuja ênfase não é a aprendizagem: Os Laboratórios Aberto e Comunitário. O Laboratório Aberto é uma iniciativa realizada tipicamente uma vez por semestre e cuja intenção, segundo Vasco Lourenço, é “trazer pessoas novas para vir conhecer o NAF”; enquanto que o Laboratório Comunitário é uma iniciativa realizada semanalmente com o objetivo de fornecer aos entusiastas por fotografia analógica um espaço para desenvolver a sua arte, ao custo de 5€, sendo, contudo, esperado que os visitantes estejam já familiarizados com a fotografia analógica.

O coordenador do NAF denota, ainda, um contraste entre a afluência destes dois momentos. Nos cursos e workshops, verifica um “crescimento de sucesso”, relatando que as vagas tendem a esgotar muito rapidamente, estando em grande parte limitadas ao material e às instalações do núcleo, que descreve como um “rambo apocalíptico”. Os Laboratórios Comunitários, contudo, têm vindo a assistir a um declínio no número de participantes ao longo deste semestre: “Alguns colaboradores acham que é por causa da guerra no Irão […] as pessoas estão com a bolsa apertada, como é um hobby caro”. 

Câmara escura do laboratório de fotografia do NAF. Fotografia: Gabriel Barata

Quanto à presença do núcleo na comunidade do Técnico, Vasco Lourenço destaca, para além da importância de um núcleo artístico numa escola de engenharia, a relevância histórica que o NAF carrega: “Eu acho que o NAF tem uma componente também histórica e cultural importantíssima. […] Acompanhamos a história do Técnico há 75 anos, a gente passou por várias coisas desde movimentos estudantis nos anos 60, anos 80, anos 90, até aos dias de hoje”. Ademais, o NAF colabora também com outras entidades e núcleos estudantis do Técnico, podendo destacar-se particularmente a sua colaboração na exposição “Estudantes de Abril”, organizada pelo Diferencial em 2024 para celebrar o 50.º aniversário do 25 de Abril.

O NAF, para lá das paredes do Técnico

Apesar de, nas palavras de Vasco Lourenço, o espaço do núcleo estar confinado ao corredor sombrio da secção de folhas da AEIST, onde acabam “por estar um pouco escondidos”, o seu alcance estende-se muito além do Técnico. Qualquer pessoa, independentemente da sua idade, curso ou faculdade, pode contactar com o NAF. Enquanto núcleo que valoriza a fotografia analógica como uma atividade de desenvolvimento artístico e  prática lúdica, o objetivo do NAF é chegar a todos os que manifestem interesse nesta área. Adicionalmente, pretende ainda alargar a sua comunidade, algo que tem sido alcançado através da promoção de cursos, workshops e laboratórios anteriormente referidos.

Vasco Lourenço destaca, aliás, o Laboratório Comunitário como “uma parte central de envolvimento com a comunidade, não só do Técnico”. Refere, ainda, que o NAF recebe fotógrafos de profissão e enfatiza o seu papel como um núcleo focado, igualmente, na promoção e desenvolvimento artísticos, em particular, através da “divulgação de algumas exposições de eventos, exposições que são feitas mesmo por esses fotógrafos, que nos pedem para utilizar o laboratório”. Além das iniciativas regularmente organizadas pelo núcleo, Vasco Lourenço evidencia, ainda, mais alguns exemplos de atividades nas quais o NAF tem uma participação ativa, como o evento 35 mm por Lisboa que “é um fim de semana em que a malta tira fotos [por Lisboa] e depois vai revelá-las para o laboratório [do NAF]” e ainda “uma visita ao Arquivo Nacional da Imagem em Movimento da Cinemateca”. 

O percurso do NAF na ótica de diversas personalidades

A história do NAF é marcada não apenas pela sua forte atividade interventiva e pela diversidade de projetos desenvolvidos ao longo do tempo, mas também pelo envolvimento de diversos elementos da comunidade académica do Técnico.

Isabel Correia, que integra este grupo de membros, refere que o interesse pela fotografia surgiu na sequência do desenvolvimento de um trabalho acerca do processo fotográfico, no âmbito de uma cadeira de Fotoquímica, ainda enquanto frequentava o curso de Engenharia Química no IST. Neste contexto, destaca ainda a interessante ligação entre a química e a fotografia. Admite que, no entanto, numa fase inicial, a falta de recursos e prática podem levar a “resultados [que] nunca correspondem àquilo que a pessoa imagina quando fotografa”. 

De modo a contornar essas limitações, decidiu então, mais tarde, investir numa máquina fotográfica analógica e frequentar uma formação na Associação Portuguesa de Fotografia, onde aprofundou os seus conhecimentos acerca desta temática. 

Ainda assim, o seu primeiro contacto com o NAF ocorreu na altura em que o interesse e experiência adquiridos lho permitiram, já posteriormente ao pós-doutoramento: “Como eu queria usar o laboratório e já tinha aprendido a fazê-lo fui para o NAF”. A sua passagem foi, deste modo, assinalada pela participação num curso orientado por Filipe Barrocas, com o qual desenvolveu, juntamente com André Alves e Maria João Soares, em 2010, a exposição Diagramas. Este projeto consistia em “[fotografar] imensas pessoas nuas, de costas”, sobre o qual refere ainda: “imprimimos cerca de 20 telas em tamanho real, expusemos em vários sítios, nomeadamente no Pavilhão Central e outras universidades”. 

Professora Isabel Correia. Fotografia: Gabriel Barata

Para além de Isabel Correia, seria impossível não mencionar Jorge Calado, distinto professor catedrático jubilado do IST e também um dos nomes mais respeitados no panorama da fotografia nacional. A sua ligação ao NAF manifesta-se através da curadoria das exposições colectivas Engenhos e Visões e Técnica Photographica. [1] Isabel Correia descreve ainda Jorge Calado como “um professor do departamento de Engenharia Química que sempre esteve ligado à cultura, à fotografia” e que chegou mesmo a comissariar projetos de um fotógrafo do NAF, dos quais a “IST Press chegou a fazer algumas edições”.

No que diz respeito à dinâmica do núcleo, Isabel Correia refere, a título de sugestão para o futuro, que o NAF poderia apostar no aprimoramento das suas exposições: “O que eu acho que o NAF devia fazer seria, se calhar, mais exposições, tamanhos maiores, […] que chamem a atenção e que encham também um bocadinho a vista”. Ao qual acrescenta que não só o aspeto físico é de extrema relevância, mas também o aprofundamento e desenvolvimento conceptual: “Há que dar importância aos projetos mais conceptuais. Por trás de uma ideia tem de haver sempre um conceito, e acho que é importante ajudarem os alunos a desenvolver projetos que tenham um conceito que seja forte”. 

Na sua perspetiva, Isabel Correia acredita que um núcleo como o NAF desempenha um papel fulcral no desenvolvimento dos estudantes, ao “dinamizar a interação entre alunos” e fomentar a partilha. Sublinha ainda que “hoje em dia, um dos grandes problemas é que nós vivemos todos fechados no nosso mundo” e que é de enorme relevância os alunos apresentarem interesses que vão além do curso e da faculdade.

Finalmente, o aparecimento e democratização da fotografia digital no início do novo milénio ditaram enormemente a dinâmica e futuro do núcleo. Até lá, a fotografia era tida como um processo lento e exigente, que implicava um enorme cuidado técnico, que passou, contudo, a ser bastante acessível e imediato. Este aspeto é marcado por Isabel Correia: “o núcleo, quando quase toda a gente começou a fotografar em digital, acabou por perder um bocadinho o impacto que tinha”. Nos dias que correm, no entanto, muitos mostram interesse em retomar a prática antiga, devido a “um certo revivalismo, em que há muita gente que gosta do processo analógico”.

Referências

[1] Website do NAF[2] “110 histórias, 110 objetos. O Ampliador de Fotografia” (podcast do Técnico em colaboração com o Público)

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