“Prefiro estudar para ter tempo para os ensaios do que estudar para passar.” – Entrevista aos The Street Sofas

Autoria: Mário Rui Viana (LEEC), Manuel Botelho (LEFT) e Maria Alves (LEQ) 

Na mesma sala que usaram como camarim durante o Arraial do Técnico, os The Street Sofas, banda de poucas palavras, sentaram-se à conversa com o Diferencial sobre as suas origens, os desafios da música universitária e a vitória no ContrabandIST que os colocou no palco principal do campus Alameda.

No meio da abundância de cálculos e integrais, há alunos do Instituto Superior Técnico que continuam a encontrar tempo para se aventurar em peripécias musicais. Espalhados pelos campi, estes artistas têm no concurso de bandas organizado pela AEIST, a oportunidade de mostrar o seu talento.

Para os The Street Sofas, este foi apenas mais um dos vários concursos que têm vindo a participar, no entanto, será, certamente, relembrado de maneira especial, uma vez que a sua vitória levou a banda ao palco do último Arraial do Técnico.

A banda é composta por cinco elementos: Margarida, na voz; os irmãos Diogo e André, na guitarra e bateria, respetivamente; Afonso, no baixo; e Manuel, outro guitarrista. Tudo começou como uma ideia entre os irmãos Diogo e André; de seguida, juntarem-se com um baixista (Afonso) para tocar. Depois, insatisfeitos com a qualidade de Diogo como vocalista, acolheram a Margarida. Por fim, juntou-se o Manuel, que traz “um som mais clássico” do qual o grupo sentia falta.

Chamados a classificar a sonoridade da banda, afirmam que se encontra algures entre o indie rock e o garage rock. O que faz sentido, quando nomeiam entre as suas referências Inhaler. No entanto, garantem que em “todos os concursos de bandas em que já participámos disseram sempre que nós tínhamos um som bastante original.”. As primeiras ideias, criadas pelos irmãos Matias, sofreram, agora, algum impacto, com a entrada de Manuel, que traz mais complexidade ao som da banda.

O processo criativo da banda é caseiro, no sentido em que os irmãos Diogo e André apenas têm de literalmente cruzar um corredor para uma partilha inicial de ideias, que depois, são desenvolvidas em conjunto com os restantes membros da banda.  Cada um dá a sua contribuição até que a versão final de cada música ganha forma: “Com as sugestões de cada um, é sempre bastante dinâmico, cada um vai sugerindo a sua parte e adaptamos.” Assim, o esboço é constituído em grupo e é nos ensaios que se fazem as últimas alterações. 

No entanto, toda esta interação encontra-se ainda em fase beta, já que têm poucas músicas compostas e a banda admite que esta química criativa tem vindo a melhorar ao longo do tempo. No início, preferiam simplesmente tocar e deixar as conversas para depois, mas hoje sentem que a comunicação se tornou uma parte essencial da identidade e do som coletivo.

Curiosamente, o nome da banda não acompanhou essa evolução. Pelo contrário, manteve-se inalterado desde o início. A origem, como admitem com humor, foi “aleatória”: o único critério era que ambas as palavras começassem pela mesma letra. Tratou-se quase de uma resignação, já que não se lembraram de melhor: “Eu já não vinha com mais ideias, então ao fim de algum tempo [ficou].”.

Em relação à sonoridade do single lançado, afirmam que não estava ainda muito “madura” e que “o processo não foi assim tão orgânico, eu acho, como foi, porque  nós não estivemos lá quando estavam a fazer a produção, então eu acho que ainda não nos representa muito bem, mas ainda assim gostei bastante, foi muito giro.”.

O grande número de músicas inéditas traz ainda assim coisas boas: “Uma pessoa que gostou muito desta música, não está lançada, vai acompanhar para ver quando é que sai”, mas admitem “Por outro lado nós queremos lançar as músicas. Não queremos ter muitos mais concertos sem as lançar”.

Quando questionados sobre a interferência dos estudos universitários no tempo que dedicam à banda, os membros surpreendem face ao que seria esperado, e garantem que conseguem conciliar bem ambas as áreas, realizando, pelo menos, um ensaio por semana. Realçam até o fator motivador desse compromisso semanal: “Prefiro estudar para ter tempo para os ensaios do que estudar para passar.” 

Ao pedirmos conselhos para outros estudantes que queiram começar uma banda, deixam o convite aos leitores “Epá… comecem uma banda. Nós não estamos muito longe de vocês. Quando se entra na universidade, há esta oportunidade de, de repente, conhecerem 200 pessoas novas num curso e tentar ali criar uma banda de estudantes. Não vejo muitas pessoas a aproveitar isso”.

Além disso, a banda enfatiza a importância de saber escolher do que se abdica, isto é, dispensar pequenas coisas para não comprometer aquilo que é verdadeiramente importante e que lhes dá gosto, como é o caso da música que ajuda a aliviar o stress dos estudos. Entre risos, o André contrapõe com honestidade: “Eu sinto que tiro mais tempo ao estudo do que à bateria, ou seja, em vez de tocar menos, eu estudo menos”.

A banda revela que o ContrabandIST foi encarado “na desportiva”, já que não acreditavam que sairiam vencedores. Esta despreocupação ajudou a reduzir a ansiedade típica de subir ao palco. E, foi ao manter o mesmo registo alienado de qualquer stress ou ansiedade, que acolheram o “sentido de responsabilidade” que sentiram ao preparar um concerto, em nome próprio, para atuar num dos maiores festivais académicos da Europa.

Os The Street Sofas contam ao Diferencial a experiência no Arraial do Técnico, recordando: “Acho que nós nunca tínhamos tido uma experiência tão engraçada de banda.” Descrevem o momento como o mais profissional que viveram até agora, com direito a camarim e à habitual confraternização com outros artistas no backstage. Para além disso, o facto de terem amigos e conhecidos espalhados pela plateia assegurou a confiança dos artistas em palco e a possibilidade de aproveitarem o arraial: um equilíbrio que, admitem, era precisamente o que procuravam.

A banda admite que, no início, a preocupação de não terem uma plateia substancial os deixava apreensivos. Contudo, rapidamente perceberam que esse receio era irrelevante e decidiram focar toda a sua energia no concerto. Foram, porém, surpreendidos pelo aumento gradual do público, que acabou por formar uma pequena multidão. Entre risos, confessam: “No início, não estava lá muita gente, nem os nossos amigos estavam lá.”

O grupo enfatizou ainda a dificuldade de encontrar produtores dentro do orçamento de estudantes universitários, ou seja, alguém que lhes permita gravar em estúdio com qualidade e com um estilo que se adapte ao da banda. Até aos dias de hoje, nunca receberam pagamento por nenhum concerto, mas garantem que estão dispostos a levar a música mais longe.

Os The Street Sofas sublinham também a falta de apoio por parte de entidades externas, defendendo que deveria existir algum meio de cooperação e incentivo para novas bandas. Referem, por exemplo, que muitos programas oferecem oportunidades apenas a artistas a solo, deixando grupos emergentes sem espaço semelhante.

No que toca a perspectivas futuras, preferem viver o presente: “Enquanto conseguirmos tocar juntos, tocamos e, se algum dia não der, pronto”, diz Margarida, sem excluir a possibilidade da continuação da banda com outras pessoas futuramente. Para já, o foco está na gravação e lançamento de novos singles, já que, até ao momento, apenas têm um disponível, que admitem já não os representar tão bem.

Embora moldados pelas ciências, os engenheiros desta banda não deixam de procurar novidades e de explorar o universo musical. Todos os membros são a prova de que a vida académica não é tudo e o que é preciso para se ter uma banda não é só muito tempo (também não prejudica), mas sim muita determinação. Ainda só lançaram uma música, mas estão já com ideias de gravar mais e têm no seu canal de YouTube os concertos, que incluem músicas ainda inéditas. Assim, com promessas no ar, ficamos à espera de ouvir mais dos The Street Sofas e do que andam a fazer.

Nota: Entrevista conduzida no dia 9 de outubro de 2025, na sala do Diferencial.

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