Anti-vaxxers, terra-planistas, negacionistas das alterações climáticas. As correntes científicas “alternativas” abundam, e é do interesse da ciência (e de todos nós) conseguir vencê-las o quanto antes.

Autoria: João Gonçalves, MEFT (IST)


Há um grupo no facebook chamado “Física Quântica e Espiritualidade”. Não são duas áreas de estudo que habitualmente se sobreponham, mas a criatividade humana não tem limites. Enquanto estudante de Física, é interessante ler os posts publicados neste tipo de páginas e perceber qual a interpretação que algumas pessoas fazem dos avanços que se têm vindo a fazer nesta área científica. É frequente nestes fóruns o uso de termos como “energia”, “força”, “eletromagnetismo” e “spin”, mas é curioso também notar que aparecem sempre ou quase sempre com significados bem diferentes daqueles que estas palavras tomam nos  habituais manuais e livros de Física. Não só isso, estes termos técnicos vêem-se ali forçados a partilhar frases com palavras como “alma”, “aura, “espírito” e “karma”, que normalmente dizem respeito a ideias de um domínio bastante diferente.

É verdade que no Universo tudo está conectado e a linha que separa as diferentes áreas da ciência muitas vezes se esbate. No entanto, não é necessário fazer scroll down durante muito tempo para compreender que as publicações deste grupo não são interpretações construtivas nem reveladoras sobre aplicações das descobertas da mecânica quântica a outras áreas; são sim, na sua maioria, uma série de hipóteses pseudo-científicas para fenómenos ditos “sobrenaturais” que utilizam termos legítimos retirados da literatura física mas aplicados fora de contexto. Com isto tentam justificar conclusões não corroboradas pela experiência, mas expostas de forma a que pareçam teorias científicas legítimas. Vistas de fora e tendo algum conhecimento sobre os termos mal empregados pelos seus membros, estas comunidades podem ser por vezes bastante engraçadas. No entanto, este grupo, tal como tantos outros semelhantes, é a manifestação daquilo que me parece um problema maior na sociedade atual: uma falta de compreensão daquilo que é a essência da ciência.

Os membros destes grupos talvez sejam movidos pela curiosidade e por um desejo de encontrar respostas para as grandes questões metafísicas e filosóficas sobre a vida e o Universo, o que é inegavelmente um sentimento louvável. Talvez até, na sua eterna demanda, tenham visto na ciência uma ferramenta útil para desbravar a floresta cerrada do desconhecido em direção à verdade, o que é uma observação extremamente pertinente e uma estratégia bastante astuta. No entanto, seja por que motivo for, eles não compreenderam que esse caminho só se percorre com esforço e com estudo de matérias que demoram a compreender e a interiorizar, quer pela sua complexidade quer pelo enorme volume de conhecimento sobre elas acumulado ao longo da História da Humanidade. Alternativamente, talvez o tenham compreendido, mas decidiram mesmo assim que não se dispunham a percorrê-lo, virando-se então para as respostas simples, resumidas em frases vagas, inespecíficas e polvilhadas de termos aleatórios mal aplicados.

O motivo pelo qual esta atitude em relação à ciência é perigosa é que ela não se manifesta apenas em grupos de facebook pacíficos. É a mesma atitude que leva a grupos como os anti-vaxxers, que escolhem não se vacinar a si nem aos seus filhos. O motivo pelo qual o fazem é o facto de acreditarem que a vacinação pode ter efeitos secundários, de entre os quais o autismo. À primeira vista este medo pode parecer ter alguma legitimidade, sendo de facto fundamentado em artigos científicos (como por exemplo “MMR vaccination and autism” de Andrew J Wakefield, 1998). No entanto, é também verdade que estes artigos, publicados nos anos 90, já foram desde então muitas vezes desmentidos, tendo as suas conclusões atualmente muito poucos defensores entre a comunidade científica. O erro dos anti-vaxxers é o mesmo que o dos adeptos de “espiritualidade quântica” do facebook: aceitam os artigos que lêem sem olhar aos autores, às fontes ou aos métodos de recolha e análise de dados empregados, conquanto vejam que vêm rotulados como “científicos”, contenham termos técnicos impressionantes ou validem as opiniões que  já possuíam de antemão. Todo este comportamento é abominável aos olhos de qualquer verdadeiro cientista e uma corrupção daquilo que, de facto, deveria ser a ciência. Além disso, faz das pessoas vítimas fáceis para estratégias de desinformação e retórica desonesta e ardilosa que só servem os interesses de quem as partilha e prejudicam a sociedade como um todo, como é o caso do negacionismo em relação às alterações climáticas. Seria muito mais confortável ouvir essa narrativa e ignorar o problema em questão do que dar-lhe a atenção que merece. No entanto, a comunidade científica urge-nos enquanto sociedade a agir e ao escolhermos ignorá-la arriscamo-nos a ser castigados com consequências negativas irremediáveis.

É certo que a ciência não detém um monopólio da verdade, mas é precisamente ela a primeira a reconhecer que o ser humano é limitado e que a sua capacidade de alcançar o conhecimento verdadeiro também o é. É por isso que o processo pelo qual a ciência avança é o da refutabilidade: não podemos provar nenhuma teoria como estando certa, mas podemos prová-la como estando errada e descartá-la. A ciência é neste sentido a sua própria maior inimiga, pois incita-nos constantemente a olhar para o que nos diz com ceticismo e desafia-nos a encontrar evidências experimentais que a contradigam, pois só assim pode progredir. Nesse sentido, é bom não acreditar em tudo o que a ciência nos diz. No entanto, o progresso não é fácil. É difícil alcançar todo o conhecimento necessário numa determinada área para poder contribuir para a sua expansão, e mesmo que nos tornemos especialistas num determinado tópico haverá sempre muitos mais nos quais não o somos. Assumir que as contribuições para uma determinada área do saber se processam num regime democrático onde todas as vozes têm o mesmo peso, independentemente de conhecimento, experiência ou eventuais interesses económicos, políticos ou outros por detrás das ideias apresentadas, é ingénuo. No entanto, demasiadas pessoas pensam assim, como se comprova por um presidente dos Estados Unidos da América que aconselha a população do seu país a injetar desinfetante como vacina contra o COVID-19, julgando-se em posição de fazer contribuições sérias no ramo da ciência médica apesar da sua total inexperiência na área ou, de maneira ainda mais preocupante, por uma população que de facto o ouve e o faz.

Para compreender o que leva a situações destas em que as pessoas depositam as suas esperanças em teorias pseudo-científicas é importante analisar o que as levou a começar a acreditar na ciência em primeiro lugar. Para isso voltemos um pouco atrás na História até ao século XVII e à Revolução Científica, uma época que viu a consagração de ideias como o método científico, o surgimento de grandes descobertas nas áreas das ciências naturais e uma mudança drástica na maneira como as pessoas percecionavam a ciência e a sua relação com o Homem. Obras como as de Johannes Kepler, Galileu Galilei ou Isaac Newton vieram confirmar-nos com mais persuasão do que nunca uma revelação assombrosa sobre a realidade: a razão humana detém em si o poder para descortinar os princípios que regem o Universo e para fazer previsões matemáticas de grande precisão sobre como sistemas físicos se comportam ao longo do tempo. Tendo em conta os avanços que a ciência sofreu desde então e o facto de estarmos hoje rodeados de tanto conhecimento em tantas áreas é fácil esquecermo-nos do quão incrível terá sido na altura a consagração dessa revelação metafísica sobre a realidade, mas vale a pena pararmos para pensar nela durante um momento.

Imaginemos que ainda não se sabia absolutamente nada sobre o Universo e a Natureza e que estávamos a inventar a ciência do zero. Em primeiro lugar, não teríamos nenhuma prova concreta que nos garantisse que a realidade que experienciamos segue regras imutáveis e que as mesmas causas geram sistematicamente os mesmos efeitos. Em segundo lugar, não haveria nada que nos garantisse que o Universo segue princípios lógicos passíveis de serem descritos com uma linguagem simples e elegante como a da matemática. Em terceiro lugar, mesmo sendo verdade que o Universo segue regras constantes e quantificáveis matematicamente, nada nos garantiria que seríamos capazes de as deduzir e compreender. E no entanto, apesar de tudo isso, a verdade é que, tanto quanto sabemos, a realidade segue de facto regras imutáveis, essas regras são de facto determinadas por princípios lógicos passíveis de uma descrição matemática e nós somos, de facto, capazes de os desvendar. Tudo isto não é nada menos do que assombroso. Sendo assim, e ao compreender tudo isto, não é de admirar que a ciência tenha alcançado o estatuto de tão grande respeito aos olhos da sociedade que veio a adquirir: ela é uma ferramenta poderosíssima e uma chave para abrir as portas deste mistério que é a realidade.

E no entanto, mesmo tendo a ciência dado já tantas provas concretas da sua fiabilidade, continuam hoje a existir anti-vaxxers, negacionistas do aquecimento global e pessoas a seguir interpretações pseudo-científicas de descobertas científicas legítimas, independentemente das constantes refutações que as suas ideias recebem da comunidade científica. E estes movimentos não são resquícios de um passado distante nem levados a cabo por fundamentalistas religiosos, pessoas dementes ou populações com pouca educação; muitos deles são bastante recentes e surgiram maioritariamente entre populações de países desenvolvidos. Porque será, então, que isto acontece? Vamos analisar as possíveis razões.

Em primeiro lugar, a verdade é que por mais que a ciência evolua nem toda a gente tem uma educação científica. Muitas das pessoas que se dedicaram ao longo da vida a estudar outras áreas do saber humano podem cometer erros ao interpretar dados científicos, o que é perfeitamente natural, sendo igualmente natural quando o mesmo acontece a cientistas que tentam interpretar informações de uma área que não a da sua especialização. Temos um exemplo bem concreto deste fenómeno a acontecer atualmente, com a pandemia do COVID-19. Muito se tem falado na comunicação social de termos como “crescimento exponencial” ou “aplanar a curva” e tem-se visto inclusive uma valorização pelas opiniões dos cientistas verdadeiramente louvável (que, idealmente, se deveria manter após a pandemia e em relação a outros problemas, nomeadamente as alterações climáticas). No entanto, será que todas as pessoas que ouvem e, por exposição repetida, começam a utilizar elas mesmas estes termos compreendem os conceitos matemáticos que lhes estão subjacentes? Muitas delas talvez não, e este é um exemplo onde essa não-compreensão pode ter efeitos negativos.

Uma pessoa sem qualquer conhecimento de análise de dados pode olhar para o número de novos casos diários no seu país e, ao vê-lo diminuir por dois dias consecutivos, ser induzida a pensar que a propagação da doença está a ficar controlada. Não compreendendo a importância da análise de um conjunto de dados grande o suficiente para que tenha significado estatístico, ela poderá ser levada a aligeirar prematuramente as suas precauções. Inversamente, ver o número de casos por dia a aumentar em número absoluto durante vários dias consecutivos pode ser assustador, mas se virmos que o aumento percentual é mais pequeno a cada dia que passa percebemos que o crescimento já não é exponencial e que a curva está efetivamente a ser aplanada. E não é só na análise dos números que é importante estar informado de maneira rigorosa: também o é, e mais até, na utilização de máscara ou no uso de desinfetante, ambas medidas não poucas vezes levadas a cabo de forma descuidada ou inconsciente. Muitas pessoas colocam a máscara por debaixo do nariz ou retiram-na sem desinfetar as mãos, por exemplo.

Apesar de tudo, há que ser justo e admitir que o problema da iliteracia científica já foi muito pior do que é hoje e que o acesso à informação é cada vez melhor. A questão é que, com o advento da internet e da comunicação global e instantânea, espalhamos mais facilmente as ideias de maus utilizadores de máscaras hoje em dia do que as superstições igualmente incorretas que se espalhavam boca a boca no tempo dos nossos avós.

Uma outra razão que pode ter contribuído para o desrespeito indevido que a ciência tem recebido é, paradoxalmente, precisamente a sua ubiquidade. A constante presença de tecnologia nas nossas vidas leva-nos inevitavelmente a perder o assombro que inicialmente sentíamos por ela. De cada vez que hoje compramos um telemóvel ficamos muito menos impressionados do que ficámos no primeiro contacto que tivemos com esta invenção, mesmo que os telemóveis de agora sejam objetivamente mais avançados e devessem ser, em teoria, mais impressionantes do que os de então. Fomos mimados pela ciência e pela tecnologia a tal ponto que as tomamos como garantidas, por isso é normal que não fiquemos tão impressionados nem tenhamos tanto interesse nos seus avanços. A comunicação social também não ajuda: com tantos estudos que provam conclusões inacreditáveis seguidos de estudos que as contradizem, todos eles anunciados como uma grande descoberta que vem revolucionar as  nossas vidas para sempre sem que a grande maioria alguma vez de facto cumpra as expetativas, é normal que percamos o interesse. No entanto, esta perda de interesse pode ser bastante perigosa. Nalgumas pessoas, o enfadamento e irritação com a avalanche constante de estudos e descobertas manifesta-se numa total aversão pela ciência e pelas teorias e opiniões de especialistas, em particular quando vão contras as suas convicções pessoais. Em última instância isto pode levar até a um aumento da sua devoção por figuras e grupos que representem a antítese dos valores da ciência e da racionalidade: um excesso de confiança e bravado na exposição de ideias, associados a falta de rigor no raciocínio e excesso de ligeireza ao lidar com assuntos sérios. Acho que não é necessário especificar a que líderes me refiro.

Mas em todo este texto defendi sempre a ciência das pessoas que a rejeitam, que se lhe opõem ou que não a sabem interpretar, argumentando que a culpa de quaisquer consequências negativas das suas atitudes é somente das próprias pessoas e nunca da ciência em si. No entanto, e como o olhar escrutinador do método científico é imparcial e implacável, chegou agora o momento de o virar para a própria ciência e averiguar que culpa poderá ter ela também dos nossos percalços enquanto sociedade no caminho para a verdade e para o conhecimento.

A comunidade científica tem a sua quota parte de defeitos e imperfeições que não podem ser ignorados. Em primeiro lugar, o mundo precisa de bons cientistas mas precisa também de bons comunicadores para expor novas ideias e descobertas ao público geral. Interpretações erradas de mecânica quântica muitas vezes têm origem em livros ou programas de divulgação científica incompletos ou superficiais que não se esforçam por lecionar estas ideias nada intuitivas de uma maneira compreensível mas rigorosa. É certo que a tarefa não é nada fácil, mas talvez haja também uma escassez de personalidades capazes nesta área ou simplesmente desinteresse por parte do público.

Fora isso, o ego e excesso de confiança de alguns cientistas, quer nas suas próprias  teorias quer no modelo em vigor na sua área de estudo, bem como eventuais preconceitos infundados que possam ter, já levou e continua a levar a entraves desnecessários ao avanço da ciência. E não é apenas a “maus” cientistas que isto acontece. Em 1917 Albert Einstein adicionou uma “constante cosmológica” ad-hoc à sua Teoria da Relatividade Geral para garantir que ela estava de acordo com o então consensual entendimento do Universo como algo estacionário. Anos mais tarde, quando se tornou claro que essa visão estava errada e que o Universo estava na realidade em expansão, Einstein chamou a esse o “maior erro” da sua vida. Não é incomum encontrar também outros cientistas com a mente fechada a teorias que contradigam o paradigma em que acreditam ou a questões fora do âmbito da sua área de investigação. A isto junta-se ainda, em muitos casos, um total desprezo por tudo o que seja da esfera emocional e espiritual e uma atitude de superioridade em relação às Humanidades.

De um ponto de vista profissional esta atitude pode ser má, pois predispõe os cientistas que a praticam a rejeitar hipóteses como estando erradas por lhes soarem absurdas ou abordarem temas fora da sua zona de conforto, ignorando que muito daquilo que sabemos hoje sobre o Universo terá certamente parecido absurdo aos ouvidos dos cientistas que viveram antes desse conhecimento ter sido alcançado. É verdade que muito dificilmente um artigo no grupo de “Física Quântica e Espiritualidade” alguma vez ganhará um prémio Nobel, mas o ceticismo não dita que tomemos coisas que nos pareçam absurdas como falsas, apenas nos diz que não devemos tomá-las à partida como verdadeiras. Por vezes as hipóteses mais tresloucadas podem conter alguma informação útil, e mesmo que isso não se verifique o caminho a seguir deve ser o de educar os perpetuadores dessas hipóteses e mostrar-lhes os seus erros e não fazer pouco deles. O escárnio que as pessoas fazem de grupos pseudo-científicos não ajuda em nada a desmistificar os seus equívocos e talvez contribua apenas para que eles continuem ativos, sentindo que têm algo a provar.

Mesmo de um ponto de vista meramente pessoal, assumir uma atitude de superioridade intelectual também pode ser prejudicial. Muitos cientistas rejeitam com veemência práticas espirituais fundadas em princípios não fundamentados pela ciência como chakras ou meridianos, mas ao fazer isso estão também a ceder a um preconceito que os priva de experiências potencialmente enriquecedoras. Não quero com isto dizer que estão errados ao rejeitar os princípios pseudo-científicos que regem religiões ou filosofias esotéricas se sentirem que não existe fundamento experimental para os aceitar; quero apenas dizer que a veracidade ou falsidade da teoria por detrás de uma prática não a predestina necessariamente ao sucesso ou ao fracasso na tentativa de nos ajudar enquanto indivíduos. É possível beneficiar de técnicas de meditação e relaxamento mesmo não alimentando ideias religiosas nem espirituais, que é algo que talvez nos fizesse falta aprender durante esta pandemia. É possível também que grande parte da teoria por detrás da medicina tradicional chinesa esteja errada e que ainda assim esta possa ser útil em certos casos.

A acupuntura, por exemplo, tem dividido a comunidade científica: embora haja uma consensual reprovação pelos princípios teóricos que a regem, os seus efeitos práticos continuam a ser debatidos. Entre 2001 e 2006 uma série de testes foram aplicados na Alemanha para averiguar qual a eficiência da acupuntura no tratamento da dor física. Os pacientes testados foram divididos em três grupos sendo a um deles aplicada acupuntura tradicional, a outro sham acupuncture (aplicação superficial de agulhas em zonas definidas arbitrariamente e não de acordo com os princípios da acupuntura) e a outro fisioterapia. O estudo concluiu que nos casos particulares da dor de costas e da osteoartrite do joelho a acupuntura tradicional era o método mais eficaz de tratamento de dor. Como consequência, o pagamento destas práticas passou então a ser assegurado pelo sistema de saúde público da Alemanha. Apesar de tudo, os críticos apontam para a vantagem pouco significativa da verdadeira acupuntura sobre a acupuntura falsa como uma evidência de que os sucessos destas práticas se devem ao efeito placebo e não a algum mérito intrínseco do tratamento em si, pelo que a discussão se mantém. É evidente que a acupuntura não pode substituir a fisioterapia convencional, mas nada invalida que constitua uma ferramenta útil para o alívio da dor; por outro lado, também é perfeitamente possível que não seja útil de todo e que a sua prática deva ser abandonada por completo. A verdade é que de momento não sabemos, mas o caminho a seguir deve ser o de fazer mais estudos e deixar que os efeitos positivos e negativos da acupuntura falem por si, e não desprezá-la à partida, a ela e outras práticas semelhantes, por mero preconceito.

Finalmente, é importante referir ainda que a ciência não nos oferece todas as respostas sobre como reger uma sociedade nem esgota as possibilidades da criatividade humana. Em muitas situações, como no combate às alterações climáticas, os políticos pecam pela pouca atenção que dão aos conselhos da ciência, que já deu provas no passado (e continua a dá-las no presente, em casos como o da atual pandemia) de saber a maneira certa de atacar alguns dos problemas mais difíceis que enfrentamos. No entanto, noutras situações são os próprios cientistas (por vezes enquanto comunidade, por vezes em casos individuais) a tomar uma atitude de elitismo e desprezo por carreiras de áreas não-científicas (como as humanidades, por exemplo). A maior empregabilidade e salário médio que tipicamente esperam um trabalhador formado num curso científico ou de engenharia do que os que esperam um trabalhador formado num curso de humanidades só vêm validar ainda mais esse desprezo, levando também a que as pessoas olhem para os cientistas com maior respeito e reverência. Nada disto significa, no entanto, que uma destas áreas seja mais legítima para o estudo e a dedicação pessoal do nosso tempo do que a outra. A filosofia, por exemplo, ainda tem muito a oferecer à Humanidade, especialmente no que toca à ética e à moral, e embora o seu contributo possa ser tão válido e importante como o da ciência, ela acaba inevitavelmente por ser relegada para segundo plano. Um cientista é antes de mais um ser humano e deveria ser capaz de o reconhecer e de tomar uma atitude humilde perante o seu trabalho, compreendendo a contribuição que todas as áreas podem trazer para a construção de uma sociedade melhor. O progresso científico, tal como o económico ou o de qualquer outro tipo, deve também ser humanitário e ter em mente o tratamento ético e garantia de uma a vida digna a todos os seres humanos (e, com as alterações climáticas em mente e não só, alargando essa ideia também a toda a biodiversidade com que partilhamos o nosso planeta). Felizmente, a verdade é que há também muitos cientistas que já pensam assim, embora nem sempre sejam ouvidos pelos políticos nem lhes seja dado o apoio necessário à implementação das suas ideias.

A conclusão a retirar de tudo isto é que ninguém detém o monopólio do conhecimento e da sabedoria. As pessoas têm de aprender a ser mais abertas a novas ideias, mesmo as que vão contra os seus preconceitos ou crenças, e a confiar na ciência e exigir que seja ouvida pelos políticos, mas os próprios cientistas têm também de aprender a ouvir as opiniões e ideias dadas por especialistas de outras áreas e a aceitar que a ciência não dá respostas para tudo. Só assim, unidos pelo desejo insaciável de saber sempre mais mas guiados pela humildade e o reconhecimento de que ninguém alcança a verdade sozinho, poderemos progredir.

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