É cada vez mais necessário que nós, millenials incompreendidos, aumentemos a nossa participação cívica, não caindo no perigo de criar uma sociedade desinteressada e perigosa, com vazios de poder, arredada de criatividade e radicalizada.

Texto: Paulo Moniz*


Não estarei longe da verdade ao dizer que a forma como nos envolvemos activamente na sociedade, enquanto cidadãos, é a nossa forma individual de fazermos política. Tradicionalmente, seguir carreira com uma cor partidária e almejar aplicar novas leis e fazer aprovar novos projectos tem sido, porventura, o modelo de participação cívica que, do alto do poder, mais consegue mudar toda uma sociedade.

Assim tem sido, é sabido, mas a balança das estatísticas já não pesa por esse caminho. A Presidência da República patrocinou, recentemente, um estudo1 demonstrando que 57% dos portugueses entre os 15 e os 24 anos não revelam qualquer interesse na política, número confirmado pelo relatório de 2018 da OCDE2 que coloca Portugal em primeiro lugar na lista de países europeus em que os jovens mostram esse mesmo desinteresse. Em termos mundiais esse valor não é muito diferente3 , com 52% dos millenials a não se reverem nos sistemas políticos dos seus países.

Percentagem de jovens que indicam não ter qualquer interesse na política, 2012-2014, OCDE
Percentagem de jovens que indicam não ter qualquer interesse na política, 2012-2014, OCDE

Portanto, tu, jovem millenial incompreendido, não estás só neste sentimento de descrença, e as razões são várias. A nossa confiança nos governos e representantes tem caído e a nossa afluência às urnas tem diminuído, isto porque têm falhado os resultados nas políticas públicas que mais nos afectam no imediato – o desemprego e a sua precariedade, por exemplo – e aquelas que num futuro muito próximo nos tocarão – os efeitos das alterações climáticas, as desigualdades sociais, o modelo de financiamento do sistema de pensões. Associada à falta de soluções está, também, a diminuição do número de jovens nas cadeiras do poder português. Na Assembleia Constituinte de 1975 eram 38% os deputados com menos de 35 anos, hoje essa percentagem fica-se pelos 14%. Isto não significa, necessariamente, uma falta de representatividade, mas está a incrementar o hiato geracional e a minar a necessária renovação de ideias e políticas públicas direccionadas aos mais novos.

A verdade é que nós jovens, mais ou menos millenials, nascidos e educados num ambiente digital cada vez mais desfasado da velha política de gabinete e de eleições quadrienais, não estamos, de todo, alheados de participação cívica, não estamos à espera que eles façam alguma coisa e não estamos com paciência para esperar que se faça algo. E se tudo isto não te soa a estranho, então acabas de te rever naquilo que são as novas formas de participação cívica.

O Eurobarómetro de 20184 sobre a juventude europeia, para uma população entre os 15 e os 30 anos, indica que estamos a mudar a nossa forma de fazer política, com mais participações de proximidade e menos envolvimento na velha política partidária. Está a aumentar a nossa envolvência em organizações de voluntariado com impacto directo na comunidade local, de defesa e promoção dos direitos humanos, do domínio das alterações climáticas assim como de outras organizações não ligadas a partidos políticos.

Não estou sozinho nesta ideia de que a mudança de políticas, de hábitos e até de economia tem de partir de baixo como exigência nossa, com promoções individuais de cada cidadão num activismo diário de melhoria da sociedade. De nada vale ficarmo-nos pela ideia, buscarmos desculpas pueris de inércia pessoal, quando aquilo que se busca não é um herói para o mundo, mas um cidadão activo na sua pequena comunidade, e isso tem um grande poder.

É inegável que a nossa sociedade está cada vez mais ligada ao mundo online, e com isso, também está a forma como nos relacionamos uns com os outros, como consumimos informação e como discutimos vários temas que nos afectam. Parece-me, portanto, expectável que as abordagens tradicionais de tomada de decisão também comecem a mudar para este plano. Timidamente, os governos já perceberam isso, e em Portugal, desde 2017 decorre anualmente um orçamento participativo jovem, com ideias dos jovens e para os jovens (o deste ano ainda decorre em opjovem.gov.pt).

Aqui ao pé, há o exemplo de André Couto, 36 anos, presidente de Junta de Freguesia de Campolide, que ao perceber o afastamento dos mais jovens na participação cívica e política decidiu tirar um curso de DJ, e ser ele a passar música nas festas e arraiais.

Bastando isso, passou a ter uma maior interacção nas suas páginas de Facebook e Instagram com comentários e mensagens vindas do público que ele queria alcançar. Também, às quintas-feiras, faz um vídeo directo via Facebook, em que fala do trabalho que está a ser feito na freguesia e está aberto à participação directa de todos.

Parece ter havido uma mudança, é certo, mas não um desinteresse completo na vida cívica. Tem falhado, isso sim, a passagem da mensagem que a política representativa é necessária ao funcionamento da nossa sociedade democrática.


Referências:
1. Estudo “Emprego, Mobilidade, Política e Lazer: situações e atitudes dos jovens numa perspectiva comparada”, feito em 2015 com o patrocínio da Presidência da República (http://hdl.handle.net/10451/22363);
2. OECD Youth Stocktaking Report (http://www.oecd.org/gov/youth-stocktaking-report.htm);
3. Inquérito global realizado pelo Financial Times em parceria com a Telefonica (https://www.telefonica.com/en/web/public-policy/blog/article/-/blogs/financial-times-telefonica-millennials-summit-outcomes/);
4. Flash Eurobarometer 455: European Youth (http://data.europa.eu/euodp/en/data/dataset/S2163_455_ENG)

4 de Dezembro, 2018

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