Por vezes é tentador criticar os aspetos menos apelativos do atual sistema de ensino, mesmo sem conhecer as razões por detrás da sua existência. Paralelamente, é igualmente frequente aceitar sem resistência ou ponderação as suas características basilares. No sentido de modernizar o ensino, há que tentar compreender um pouco melhor a sua história e, sobretudo, pôr em causa ideias até hoje incontestavelmente aceites.

Texto: Francisco Nogueira e João Gonçalves


Quebrando os paradigmas do ensino

É no sentido de tentar alcançar essa modernização que recuamos até à origem dos princípios regentes do sistema de educação como hoje o conhecemos. Foi Frederick II da Prússia quem, em 1763, aprovou o decreto Generallandschulreglement, que estabelecia as bases do primeiro sistema público e secularizado de ensino generalizado na Europa. Este novo regime pretendia garantir uma educação de qualidade providenciada por profissionais pagos e especializados, bem como assegurar o alcance da mesma a qualquer criança entre os 5 e os 14 anos, independentemente das suas posses, classe social ou até género.

A grande vitória deste sistema foi a maneira como se tornou uma ferramenta de preparação de todas as crianças para a vida numa sociedade cada vez mais industrializada, fornecendo-lhes competências até então restringidas a uma pequena porção da sociedade, como sejam a leitura e a escrita, mas também a formação artística e religiosa.

O sistema de educação atual deve muito ao sistema Prussiano. As escolas estavam organizadas de forma análoga a uma linha de produção, existindo um toque de campainha para que os horários fossem devidamente cumpridos, sendo necessário colocar a mão no ar para falar, sendo as turmas formadas tendo em conta as idades dos alunos (como se isso fosse um fator que os unisse mais do que os seus gostos ou capacidades) e sendo as disciplinas ensinadas separadamente, ignorando qualquer relação que pudessem ter entre si. É impossível não ponderar se a reverência pelos valores popularizados por este sistema (na altura inquestionavelmente revolucionários) nos estará a cegar à possibilidade de que a educação para a vida no mundo moderno requeira um conjunto distinto de princípios orientadores. Será que alguns destes métodos, mesmo parecendo à partida evidentes e sendo hoje questões tão fundamentais do nosso sistema de educação, não deveriam ter sido repensados ao longo dos últimos séculos de forma a acompanharem a evolução da sociedade e poderem dar resposta aos diferentes problemas que se têm vindo a levantar desde a sua conceção?

A verdade é que muitas vezes é necessário adaptar o sistema de ensino às necessidades do presente, e disso tivemos vários exemplos ao longo da História do nosso país. Tradicionalmente, a educação era consagrada ao clero, com ordens religiosas como a dos Jesuítas a construírem inúmeros colégios de frequência gratuita por todo o país ao longo dos séculos. O processo de aproximação do ensino português aos padrões modernos em que hoje o conhecemos pode ser apontado como tendo começado com a Implantação da República, a 5 de outubro de 1910. O novo regime aboliu de imediato o ensino lecionado por ordens religiosas, que foram mesmo levadas a sair do país, e impôs novas metodologias de educação visando incutir o civismo e noção de liberdade nos jovens desde tenra idade, criando para isso os primeiros jardins de infância, e tendo como prioridade o combate ao analfabetismo.

Apesar de tudo, muitos destes avanços vieram a ser revertidos com o período de ditadura militar. A escola passou a ter um caráter nacionalista e o combate ao analfabetismo deixou de ser prioritário, passando a ignorância da população a ser vista como uma vantagem para o Estado. A separação de rapazes e raparigas nas escolas e a obrigatoriedade do ensino primário apenas para os rapazes são outras medidas notáveis.

Finalmente, chegamos ao 25 de abril de 1974 e à restauração do regime democrático. A luta contra o analfabetismo volta a adquirir um estatuto prioritário, bem como o alargamento da inclusividade na educação: o caráter obrigatório da escolaridade é alargado ao 9º ano e a entrada no ensino superior passa a estar ao alcance de alunos do ensino técnico, profissional e maiores de 25 anos (no Estado Novo só era possível para alunos do liceu). A separação por géneros deixa de ser compulsória e eventualmente cai em desuso. Mais recentemente, e já no século XXI, o ensino obrigatório é novamente expandido, desta vez até ao 12º ano.

Atualmente, a necessidade de proporcionar um sistema de ensino dinâmico e orgânico implica a adaptação do mesmo a um mundo moderno onde as pessoas são cada vez menos vistas como meros operários obedientes cujo trabalho mecânico alimenta uma máquina de produção e cada vez mais como indivíduos criativos. O impacto de um sistema de ensino estruturado nos moldes do nosso faz-se sentir, por exemplo, na maneira gritante como algumas áreas do saber são subvalorizadas em relação a outras. O caso óbvio é o da arte, comumente menosprezada na maioria dos países desenvolvidos em prol das ciências. Isto faz com que exista uma distinção entre aqueles que são bons nas áreas mais valorizadas e aqueles que não o são, ignorando o facto de que mesmo assim possam ter um outro conjunto de capacidades que podem e devem também ser valorizadas, aproveitadas e incentivadas. Um sistema de ensino mais direcionado para o enriquecimento e melhoramento pessoal de cada aluno enquanto indivíduo e cidadão de acordo com a sua personalidade e não confinado às mesmas regras estandardizadas e rígidas de avaliação que todos os outros poderia ser uma solução muito mais enriquecedora para a sociedade atual.

Neste mundo cada vez mais globalizado e em constante e rápida mudança é essencial que cada indivíduo desde novo seja preparado para conseguir adaptar-se aos mais variados problemas e desafios que hoje em dia enfrentamos. Não serão características como a criatividade tão ou mais importantes nos dias de hoje do que a capacidade de memorização e de reprodução de informação que mais se adequava às linhas de montagem? Talvez precisemos hoje, mais do que nunca, de indivíduos que tenham ao seu dispor todas as ferramentas possíveis para poderem evoluir no sentido que lhes seja mais benéfico e lhes permita alcançar todo o seu potencial pessoal, e não apenas no sentido de satisfazerem uma hierarquia social. Talvez precisemos de cidadãos que sejam ensinados a pensar e, já que vivemos em democracia, a levantar a voz e a refletir sobre as questões mais urgentes, não se deixando seduzir pelo conformismo, e que lutem por uma comunidade mais justa para todos.

Quebrando os paradigmas do ensino

Para isso, é necessário olhar para as bases do nosso sistema de educação da forma mais crítica e imparcial possível e ponderar sobre se ainda fará sentido a forma como o ensino está organizado, mesmo que isso nos leve a questionar princípios tidos como fundamentais, tais como: fará sentido que os alunos sejam separados por idades e que aprendam fechados em salas de aula acerca da realidade exterior de um mundo cada vez mais globalizado? Será produtivo valorizar mais uma resposta correta do que o raciocínio pelo qual é alcançada? Estas e outras questões devem ser tidas em conta, por mais absurdas que algumas delas nos possam parecer, e talvez levar à realização de experiências com novas metodologias de ensino. Só revendo os princípios que orientam o ensino atualmente (alguns dos quais o fazem há cerca de duzentos anos) é que podemos entender o que é necessário mudar para alcançar um futuro onde a educação passe a priorizar a plena realização pessoal dos alunos enquanto indivíduos e a entenda como o enorme benefício para a sociedade que ela representa.


Primeira imagem cedida pelo Nationaal Archief (Spaarnestad Photo, SF001008027): Pupils with counting-frames in classroom, about 1930.

4 de Dezembro, 2018

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