Entre a ação e a inércia

Quando vivemos em grandes grupos, como acontece nas extensões da selva urbana, a tendência para desviar o olhar e seguir caminho adormece cada vez mais a compaixão pelo outro. Por isso, surge a necessidade de a despertar. Mas não a façamos lançar-se de imediato para muito longe. Por enquanto, ela pode habitar confortavelmente no bairro local.

Quando vivemos em grandes grupos, como acontece nas extensões da selva urbana, a tendência para desviar o olhar e seguir caminho adormece cada vez mais a compaixão pelo outro. Por isso, surge a necessidade de a despertar. Mas não a façamos lançar-se de imediato para muito longe. Por enquanto, ela pode habitar confortavelmente no bairro local.

Texto: Alina Chervinska


Sr. Poe
Sr. Poe

Consideremos um indivíduo. Pode ser o Sr. Poe.
No seu dia-a-dia, o Sr. Poe depara-se com variadas situações: algumas alegram-no, outras deixam-no indiferente e ainda outras deixam-no fora de si. Resultam na maior parte da interação com os outros e são de foro pessoal.

Sr. Poe fora de si
Sr. Poe fora de si

Acontece, porém, que há coisas que realmente o incomodam, mesmo que não o toquem diretamente ou de maneira imediata. “É injusto.”- pensa. Avalia o grau de incómodo provocado, pondera nas possíveis ações a tomar, pesa as implicações a nível de gastos de tempo e de recursos da sua parte, até que por fim toma uma decisão. Temos a oportunidade única de seguir o Sr. Poe na sua mirabolante aventura deste exercício mental. Sobe o pano do seu cérebro.

“Se a greve de transportes chateia tanta gente, porque razão é que simplesmente esperamos que elas passem (desenrascando-se, entretanto, cada um como pode) para, uma vez findas, suspirarmos de alívio e prosseguirmos com a vida habitual? É um sintoma de um problema e quem faz greve está a tentar aliar mais vozes ao seu protesto prejudicando os utentes das estruturas: quanto mais população revoltada, mais dificilmente o tema é ignorado pelas autoridades. Mas existe um percalço neste esquema: se a população afetada pela falta de transportes não se junta aos demais – nada feito. O que significa que as greves voltar-se-ão a repetir. (Preciso de comprar mais pão.)

…Então e porque é que a negligência pelas pessoas de idade é um facto conhecido e, no entanto, permanente? (A bateria no meu telemóvel aguenta cada vez menos tempo.) Também é verdade que a construção daquela sinagoga na Rua do Plátano há anos que está à espera de ser terminada. Mas toda a gente parece estar sempre tão ocupada com outros assuntos… (Não me posso esquecer de reservar uma mesa para o jantar logo à noite.) E, mais importante ainda, por que será que estes pensamentos habitam a nossa mente por alguns minutos e depois a abandonam, empurrados por considerações mais agradáveis ou mais próximas à pele?”

Mentes mais organizadas do que a do Sr. Poe já se debruçaram sobre a inércia social. Por exemplo, em 1970, Latané e Darley constataram, numa série de experiências sociais, que numa situação de emergência a probabilidade de resposta do indivíduo num grupo diminui com o aumento do número de pessoas no grupo. Por outras palavras, o stress instantâneo é apaziguado pela presença de outras pessoas, que certamente tomarão ação. O perigo é que quase toda a gente pensa que quem está ao lado é que vai agir, o que resulta numa paralisia generalizada. Este efeito, chamado de difusão da responsabilidade, pode aplicar-se não só a situações pontuais de rua, mas também a fenómenos sociais, como a tolerância da xenofobia ou do abuso sexual ou até as greves de transportes públicos.

Mais uma possível explicação para a inércia social é a Hipótese do Overload Urbano[1], que nos faz anuir com a cabeça quando afirma que dada a enormidade das carências encontradas em locais urbanos, a tendência do habitante da cidade de empatizar com o próximo torna-o física e emocionalmente vulnerável. Daí que a diminuição do seu círculo de simpatia surja como medida defensiva e quase inevitável.

Outros (refiro-me às mentes não menos brilhantes de alguns dos meus amigos) dirão que deixar passar é mais fácil e mais cómodo, quando não somos afetados diretamente ou os danos colaterais não nos atingem, pois criar perturbações na inércia exige consideráveis gastos energéticos e temporais: é mais difícil do que seguir um correr de costumes já estabelecido. Haverá mais razões para a passividade cívica? Com certeza, tais como a falta de tempo, porque o Sr. Poe é um estudante aplicado ou um trabalhador full-time ou, pior ainda, trabalhador-estudante; a misantropia ou até a sólida crença na insignificância das próprias ações, entre outras.

Contudo, enquanto continuarmos a ser presenteados com situações que nos deixam indignados, a vontade de mudança é o único motor que as poderá corrigir, donde vem que a consciência dos fatores que perpetuam a inação e a sua deliberada contrariação é das melhores qualidades que uma pessoa pode possuir com vista a melhorar o mundo à sua volta. Neste contexto, não devem ser ignorados nem o valor do exemplo nem o efeito de bola de neve: as vontades dos outros entram em ação quando põem os olhos na vontade inflamada do pioneiro.

Posto isto, consideremos o assunto do outro lado: o que é que leva o indivíduo a agir? Neste ponto, o foco do pensamento do Sr. Poe dirige-se para um estudo[2] acerca do altruísmo, conduzido numa comunidade (Hassledorn Houses) formada por famílias com baixos rendimentos em Nova Iorque, EUA, e publicado em 2009. Algumas das conclusões tecidas são valiosas para a questão colocada no início deste parágrafo, pois o altruísmo é uma das formas de participação cívica. Ora, entre as razões que levam os indivíduos marcadamente altruístas a agir estão os modelos (familiares, conhecidos, desconhecidos), o reconhecimento dos problemas (de uma pessoa separadamente ou da comunidade como um todo), valores e princípios morais, entre outros. É igualmente importante notar que, para além destas razões indígenas, é de enorme relevo o contacto próximo com a problemática local: todos os dias eles se deparam com os calos sociais locais.

Outro aspeto que se pode detetar e que é essencial para a vontade germinar em ação é a dimensão da comunidade: Hassledorn Houses é pequena o suficiente para os seus habitantes se sentirem pessoalmente responsáveis pelos processos que lhe são internos e também para não haver necessidade de ninguém diminuir o seu círculo de simpatia (pois o caudal de problemas externos não é tão intenso como numa grande cidade). Para além disso, é fisicamente mais fácil detetar um problema e cogitar numa possível solução apenas no meu bairro do que em toda a Lisboa.

A redução de escala parece, então, ser o segredo: a ação local é mais realizável e, portanto, o seu efeito mais tangível.

Não deixemos de ponderar sobre mais um pormenor: como já foi mencionado, a comunidade-alvo do estudo continha quase exclusivamente famílias com reduzidos meios financeiros, o que leva a perguntar se o nível de vida terá influência na nossa resposta a situações externas de foro social. É verdade que a escassez torna as paredes das casas mais finas, vai abrindo aos poucos as portas e impõe a cooperação e entreajuda como condição necessária à sobrevivência e preservação das boas relações humanas. Reciprocamente, será acertado afirmar que a segurança material daqueles que a têm afasta a realidade das carências dos outros?

Se isso for verdade, então a mera diminuição de escala das comunidades em que vivemos não bastaria para fomentar a ação cívica, pois a desigualdade económica continuaria a ser um impedimento. Torna-se necessário procurar e despertar a compaixão e a humildade que há em cada um de nós. Qual o papel do ensino formal e informal no seu despertar?

O Sr. Poe decide começar aos poucos e onde a sua mão chegar.


[1] Milgram (1970)
[2] “The Social Production of Altruism: Motivations for Caring Action in a Low-Income Urban Community” por Mattis J. M., Hammond W. P., Grayman N., Bonacci N., Brennan W., Cowie S. A., Ladyzhenskaya L., So S.

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