As vacinas contra a COVID-19 estão na ordem do dia e a motivação para a discussão nem sempre é estritamente científica. É, portanto, importante conhecer como funciona o procedimento normal de desenvolvimento de novos medicamentos, que vacinas estão a ser testadas e o que é que está a ser feito para acelerar um processo que costuma ser longo, de forma a evitar cair em histerias mediáticas, até porque não há melhor vacina que a informação.

Autoria: Ana Lúcia Tiago, MEBiom (IST)

Está quase a fazer um ano desde que apareceram em Wuhan, na China, os primeiros casos da pneumonia viral que haveria de virar o mundo de pernas para o ar. Se ao início muitos foram céticos em relação à gravidade da situação (infelizmente alguns iluminados mantêm ainda esse cada vez mais infundado ceticismo), o confinamento e as verdadeiras crises económicas, sociais e sanitárias que dele advieram, a par do crescente aumento no número de casos, vieram provar que o problema dificilmente desaparecerá sozinho, pelo menos não com a rapidez que precisamos. Assim, é cada vez mais claro que a vida só retomará alguma da normalidade do passado quando existir uma vacina.

A investigação começou cedo, em janeiro, assim que foi possível sequenciar o genoma do SARS-CoV-2, e os primeiros ensaios em humanos aconteceram em março. Atualmente existem cerca de 150 vacinas em estudo e são raros os dias em que não ouvimos nos noticiários alguma notícia relacionada com uma delas, sendo que provavelmente as mais mediáticas terão sido a apressada aprovação da vacina russa Sputnik V e as interrupções nos testes das vacinas mais promissoras, primeiro da Universidade de Oxford em conjunto com a farmacêutica AstraZeneca e, mais recentemente, da farmacêutica Johnson & Johnson, devido a reações adversas em alguns voluntários.

Com a discussão em torno deste tema a ser cada vez mais dominada por interesses políticos, com Trump a prometer uma vacina antes do dia das eleições nos Estados Unidos, e a rapidez com que a investigação está a avançar (o tempo normal de desenvolvimento de uma vacina ronda os 10-15 anos), é normal que surja uma certa desconfiança em todo o processo. É, portanto, relevante que se conheça o procedimento normal de desenvolvimento e aprovação de novos medicamentos, que vacinas estão a ser testadas e o que é que está a ser feito para tornar tudo mais célere, de forma a mantermo-nos imunes (passo o trocadilho) à histeria mediática em torno deste assunto e, eventualmente, tomar decisões informadas quando chegar a altura. Vamos então por partes.

1.   Desenvolvimento e aprovação de novos medicamentos:

O processo de desenvolvimento de um novo medicamento é longo e complexo. Depois de extensa investigação fundamental sobre o mecanismo da doença em causa e investigação aplicada à conceção do tratamento, são iniciados os chamados ensaios pré-clínicos, em que a eficácia e a segurança de um putativo novo medicamento começa a ser testada em células e/ou tecidos e, mais tarde, em modelos animais. Seguem-se ensaios clínicos, ou seja, estudos em seres humanos, que estão normalmente divididos em quatro fases: a Fase I acontece na sequência de ensaios pré-clínicos bem-sucedidos e envolve normalmente um número pequeno de voluntários saudáveis, na ordem das dezenas. Nesta fase pretende-se avaliar a segurança e a dosagem máxima que pode ser tolerada pelo corpo. São também analisadas a farmacodinâmica e a farmacocinética do medicamento, ou seja, a forma como este é metabolizado no organismo. A Fase II inclui já mais participantes, na ordem das centenas, e tem critérios de inclusão mais restritos. Aqui o objectivo é continuar a avaliar a segurança do medicamento quando administrado na dosagem previamente determinada e procurar sinais de eficácia, decidindo assim se vale a pena avançar para um estudo fase III. A Fase III antecede a aprovação para comercialização. Inclui milhares de voluntários e tem como objetivo confirmar a eficácia e monitorizar efeitos secundários. Nesta fase o estudo inclui normalmente um grupo de controlo que recebe um placebo e, idealmente, existe dupla ocultação, isto é, nem os sujeitos do estudo nem os médicos sabem a que grupo pertence quem. Com isto pretende-se eliminar quaisquer possíveis enviesamentos do estudo e garantir que os resultados são o mais fidedignos possível.  As entidades reguladoras de cada país, como por exemplo a Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos ou a European Medicines Agency (EMA) na União Europeia, são quem detém a responsabilidade de acompanhar todas as fases dos estudos e de aprovar um medicamento para comercialização. Quando este ponto é atingido entra-se na Fase IV em que o medicamento já está a ser aplicado e continua a ser recolhida informação relacionada com a sua relevância clínica e efeitos secundários.

No caso dos estudos a decorrer para as várias possíveis vacinas contra o Coronavírus, o protocolo é sensivelmente o mesmo, sendo que o critério a ser usado pela FDA em alguns estudos é que a vacina é considerada eficaz se impedir que pelo menos 50% dos vacinados apresentem sintomas de COVID-19.

2.   Vacinas em desenvolvimento:

Existem quatro tipos diferentes de vacinas em desenvolvimento, todas baseadas na introdução nas células de partes ou da totalidade do vírus com o objetivo de desencadear uma resposta imunológica. Vacinas como as que estão a ser desenvolvidas pelas farmacêuticas Moderna e Pfizer, ambas já em ensaios fase III, são baseadas em RNA mensageiro, pequenas moléculas de ácidos nucleicos virais que dão instruções às células para produzirem certas proteínas do vírus, o que desencadeia a resposta desejada e que permitirá ao sistema imunitário “aprender” a lidar com este. Outro tipo possível de vacinas envolve a utilização de vetores virais, isto é, vírus usados comummente em engenharia genética para introduzir pequenas sequências de ADN nas células e aí despoletar a produção de proteínas de interesse, neste caso, mais uma vez, proteínas virais. Vacinas como a polémica russa Sputnik V, que foi anunciada por Putin antes dos resultados dos ensaios de fase III serem conhecidos, ou aquelas produzidas pelas farmacêuticas Johnson & Johnson ou Astrazeneca, ambas em ensaios de fase III, usam esta tecnologia. Estão também a ser desenvolvidas vacinas que envolvem a injeção direta de proteínas do vírus ou mesmo todo o vírus, inativado ou atenuado, para dentro das células.

3.   Como acelerar o processo:

Devido à emergência mundial, é de extrema importância que o processo de desenvolvimento da vacina seja o mais rápido possível sem descurar, claro está, a sua segurança e eficácia. Várias estratégias estão para isso a ser postas em prática: devido à grande quantidade de centros de investigação que voltaram a sua atenção para o Coronavírus, é possível realizar em paralelo muitos passos da investigação que aconteceriam normalmente em sequência; para além disto, uma forma de acelerar os testes clínicos é juntar mais do que uma fase, tendo portanto ensaios de fase I/II ou de fase II/III; é também possível aprovar a vacina mais cedo, dada a situação excecional, como já foi feito na China ou na Rússia, sem ter ainda resultados das fases finais, com a chamada aprovação para uso limitado ou precoce (se bem que muitos especialistas alertam para os possíveis riscos desta estratégia). O desenvolvimento da vacina pode também ser acelerado com incentivos, iniciativas concertadas ou financiamento como a operação “Warp Speed” do governo dos Estados Unidos, que já prometeu 10 mil milhões de dólares para a produção de 300 milhões de doses de uma vacina até janeiro de 2021; ou o esforço coordenado pela Organização Mundial de Saúde que pretende produzir 2 mil milhões de doses de uma vacina até ao fim de 2021. Na União Europeia estes incentivos tomam a forma de acordos prévios de aquisição, isto é, contratos assinados entre a comissão europeia e as farmacêuticas responsáveis pelas vacinas mais avançadas que permitem aos estados membros adquirirem um certo número de doses a um determinado preço depois das respetivas vacinas serem aprovadas para comercialização. Isto em troca de financiamento nos estádios iniciais do desenvolvimento e produção. Até agora a comissão europeia assinou dois destes contratos, um com a AstraZeneca e outro para compra de doses da vacina desenvolvida pelas farmacêuticas GSK e Sanofi, estando já em conversações exploratórias para novos contratos no futuro.

Em conclusão, as vacinas preparam o nosso sistema imunitário para lidar com vírus sem que tenhamos de adoecer e são comprovadamente uma forma eficaz de conseguir a chamada (e tão desejada) imunidade de grupo. É muito provável que cheguemos efetivamente a ter uma vacina funcional e segura contra a COVID-19. O problema é que não sabemos quando é que isso acontecerá e, sobretudo, não queremos que seja depressa demais. É importante que os estudos publicados sejam peer reviewed (cientistas reveem a investigação de outros cientistas com o objectivo de detetar possíveis problemas) e que a investigação que está a ser feita seja o mais transparente possível, não comprometendo passos importantes em nome do tempo ou para agradar a certas fações políticas ou entidades governantes. Isto porque não podemos pôr em causa a confiança da sociedade nesta tão importante ferramenta de saúde pública, seja ela a vacina contra a COVID-19, seja qualquer outra. É também relevante manter presente que aprovação de uma vacina não resolverá todos os problemas do planeta da noite para o dia, já que a tarefa de produzir as doses necessárias para toda a população levará ainda muito tempo e há que decidir quem as receberá primeiro. No entretanto resta-nos continuar a usar as armas que têm sido tão importantes até agora: máscara, higienização regular das mãos, distância social e etiqueta respiratória.

Mantenham-se seguros.

Referências:

1.       https://ionline.sapo.pt/artigo/710841/-a-espera-de-uma-vacina?seccao=Opiniao_i

2.       https://www.nytimes.com/interactive/2020/science/coronavirus-vaccine-tracker.html

3.       https://www.nature.com/articles/d41586-020-02706-6

4.   https://www.nationalgeographic.com/science/health-and-human-body/human-diseases/coronavirus-vaccine-tracker-how-they-work-latest-developments-cvd/

5.       https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/QANDA_20_1662

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