“O que conta é a intenção”, mas “os meios nem sempre justificam os fins.” Os nossos ideais, a nossa conduta moral, as nossas crenças são aquilo que nos define a alma, pois são os aspetos que moldam a nossa personalidade. Se menciono a alma, já estou a distinguir-me à partida das pessoas que não acreditam na sua existência.

A nossa decisão de agir é baseada nesse código, escrito nas entranhas da nossa mente (para os mais céticos). No entanto, o caminho da conceptualização à ação é uma peregrinação onde muita gente se pode perder, pois a procura pelo impacto a isso o pode obrigar. O risco é o facto de esse impacto ser também o destino dessa viagem.

Autoria: Ana Glória Cruz


No contexto do ativismo, as ações variam desde escrever cartas, assinar petições e boicotes até marchas, demonstrações e mesmo greves de fome. Existem também atividades mais criativas, que envolvem a arte e um leque de outras competências. O que determina a escolha entre estas medidas? Será a determinação, será a necessidade, a gravidade da situação, será a coragem? Qualquer que seja a motivação, cada uma destas medidas reflete um maior ou menor impacto na sociedade.

Comecemos por abordar a causa das alterações climáticas, pois julgo que poderá existir algum consenso neste assunto, acerca da sua legitimidade. A Greve Climática Estudantil foi um evento que assinalou isso mesmo, com uma enorme adesão da população, essencialmente jovens, em várias cidades a nível internacional, sendo que em Portugal decorreram mais de 20 eventos.

Em Lisboa reuniram-se milhares de estudantes (1), um número tão grande que torna a convicção de muitos questionável. No entanto, o evento foi eficaz em criar consciencialização para o problema, pois moveu as pessoas a pensar nos problemas emergentes, pensar na mudança, juntarem-se a tirar fotos para o Instagram com cartazes originais, mas obrigatoriamente a discutir o assunto. Portanto, a meta foi atingida e ninguém se perdeu, porque o evento é rotulado como inofensivo. Motivações vãs foram transformadas em informação útil e na representação de uma problemática. E quais foram os custos? Os jovens faltaram às aulas, prejudicando potencialmente a sua educação. Sim, tratou-se de um único dia, mas, como qualquer estudante universitário sabe, um dia é suficiente para legitimar faltar nos outros todos e não estamos só a falar de estudantes universitários.

Greve Estudantil pelo Clima em Lisboa, foto de Nuno Pinto Fernandes.

A ocorrência de uma demonstração destas implica a mobilização policial, o condicionamento das ruas, a poluição sonora. Quanto maior a dimensão, mais relevantes estes aspetos, até ao ponto de eles limitarem de facto o bom funcionamento da cidade. Enquanto a causa é garantir a manutenção sustentável do planeta que é a nossa casa, a maioria das pessoas podem ser rápidas a ignorar os recursos necessários a estas medidas, mas e se o tema for outro? A demonstração é um direito, tal como o é a livre expressão. No entanto, nem todas as ações são legítimas, nem todos os comentários sensatos.

No contexto do ativismo podiam abordar-se muitos outros temas diferentes, para além da causa pouco polémica das alterações climatéricas. Eu escolho discutir o feminismo, pois sei que, à partida, já vai começar a promover a separação dos leitores em grupos. Segundo a sua essência, ninguém iria presumir que pudesse causar tanta discórdia. Afinal, o que defende é a igualdade, conceito que não é novo, ou não deveria ser, na nossa sociedade. Contudo, uma razão importante para a resistência em aderir à causa, apesar de não ser a única, reflete-se na criação do termo feminazi, o qual alerta para um radicalismo que permite distorcer um conceito essencialmente bom. Neste ponto, as opiniões divergem: muitos podem estar a pensar que o radicalismo neste tema não existe, que o radicalismo é necessário ou que o radicalismo embaraça, corrompe a pureza das ambições dos representantes feministas. Decerto, muita gente não se batiza de feminista porque tem medo da conotação, não se envolve na discussão porque receia os confrontos. Contudo, não creio que seja uma questão de coragem. Julgo ser uma questão da natureza humana e da vida em sociedade: a ação de uns afeta a ação de todos, a convicção de um par de pessoas marca a convicção de um grupo. É preciso lembrar o que foi dito no início, as nossas morais são só nossas e, para isso, a associação não ajuda a natural evolução do nosso pensamento individual, mas promove um efeito de grupo. Pode ser eficaz nos seus objetivos, mas perdem-se identidades pelo caminho, até se cair em paradoxos e em hipocrisias.

Finalmente, até que ponto se deve defender uma ideologia? Um exemplo extremo de uma forma de ativismo seriam as demonstrações dos coletes amarelos, que se iniciaram em França, onde incêndios, arremessos de pedras e vandalismo em geral são aparentemente válidos para marcar uma posição. Como se distingue este tipo de atividade do terrorismo?

Protestos de coletes amarelos em Paris, França, foto da BBC (2)

A linha que os separa é muito ténue. Muitas organizações de ativistas afirmam cuidadosamente ser contra este tipo de violência. No entanto, como já foi descrito, basta a ação de alguns para manchar a boa intenção de todos e até o seu direito inerente à demonstração ou outra forma de ativismo. Voltando ao tema das alterações climáticas, que foi dado como um terreno pacífico no contexto do ativismo, se pensarmos nas técnicas mais extremas utilizadas para atingir consciencialização, como colar mãos a sedes de empresa ou acorrentar voluntários numa barreira humana, o caso muda de figura. De facto, muitos destes ativistas pacíficos são presos pela polícia. Será este o objetivo? Sim e não. É, de facto, eficaz. Estamos a falar sobre isso.

Assim chego à conclusão pretendida. A busca pelo impacto é muitas vezes necessária. É um veículo da mudança social, da transformação de mentalidades. No entanto, cabe a cada um perceber que tipo de assuntos justificam que ações e se é legítima a tentativa de impor aos outros as suas convicções. De facto, levanta-se a questão da vida em sociedade. A consciencialização mais importante é a de que cada membro da comunidade contribui para a vida na mesma e tem  tanto o direito como o dever de uma contribuição positiva.

Fontes:

(1)““Não há planeta B”. Milhares de estudantes saíram à rua para protestar contra as alterações climáticas”

(2) “Yellow vest protests: Violence returns to streets of Paris”

6 de Junho, 2019

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