O Técnico precisa de participação, mas a AEIST precisa ainda mais

Autoria: António Jarmela (Presidente da AEIST)

Há muito que se discute a participação estudantil no seio académico, desde as taxas de abstenção para as eleições dos Órgãos de Escola e de Governo da Universidade, até à taxa de preenchimento dos QUC. Quando se questiona os estudantes, a resposta é consensual: “não muda nada”;  “quer vote ou não vote é sempre a mesma coisa” ;“é óbvio que essa lista vai ganhar”.

Dentro de poucos meses, ocorrerão as primeiras eleições para as Assembleia de Revisão Estatutária, tanto a do IST como a da Universidade de Lisboa, desde 2007.
Será um momento marcante nas Instituições de Ensino Superior: os estudantes, em urna aberta, vão ter pela primeira vez a oportunidade de votar no Reitor e no Presidente do IST.  Vão existir alterações profundas no caminho que as instituições trilharão, contudo tudo depende de uma comissão que decidirá esse o nosso futuro.

O Técnico precisa de participar, precisa de intervir e definir o rumo da Instituição. Salvaguardar os interesses dos estudantes é salvaguardar os interesses do futuro da engenharia do nosso país.

Mas mostrar que a participação impacta e faz falta é mais do que participar nos atos democráticos é também apontar o dedo, criticar e dizer que é preciso uma mudança. É fruto da participação cívica que a mudança às vezes acontece.

É sabido que a AEIST possui uma infraestrutura desportiva no campus de Oeiras, o que não é do conhecimento de muitos é o estado em que a infraestrutura chegou. No final de abril um utilizador anónimo publica no reddit do IST o seguinte post:

“​Com a aproximação do torneio de basquetebol 3×3 no campus de Oeiras, marcado para esta quarta-feira, venho expor publicamente o estado de degradação em que se encontra o campo desportivo gerido pela Associação de Estudantes (AE).

​Apesar de ser um espaço com utilização frequente e cujo acesso é pago (à semelhança dos campos na Alameda), o recinto apresenta uma evidente falta de manutenção há coisa de dois anos, praticamente desde a colocação das tabelas, em 2024.

​Atualmente, os utilizadores deparam-se com problemas concretos que comprometem não só a prática desportiva, mas também a integridade física e o material dos estudantes:

Nomeadamente:

1.      O piso encontra-se frequentemente coberto por folhas de pinheiro secas, o que transforma o campo numa superfície altamente escorregadia e perigosa.

2.      O estado atual da superfície causa danos e desgaste acelerado no calçado e no equipamento dos jogadores.

3.      ​Existe uma presença acentuada de ervas daninhas no interior das quatro linhas, problema sobre o qual a AE já foi notificada diversas vezes.

É imperativo que os fundos gerados pela AE, sejam geridos, por estudantes, de acordo com os interesses dos estudantes. Exigimos um ambiente seguro e digno para a prática desportiva de todos, como nos foi prometido quando ingressámos na faculdade.

Deixa a tua opinião nos comentários.

O pedido que o denunciante fez para deixarem a opinião nos comentários foi atendido por vários estudantes. Uns apontaram as falhas, outros denunciaram problemas estruturais no modelo de gestão, mas o denunciante, em resposta a um comentário, demonstrou com uma pesquisa simples que o que estava a denunciar era evitável, mostrando números e fontes sobre quanto custava a manutenção regular do espaço.

Quando fez este comentário, certamente pensou que o mesmo ficaria perdido na rede social, que mais uma vez (como afirma na publicação) a sua Associação não o ouviria. Mas, às vezes, quando em conjunto com uma denúncia se apresenta uma solução, ela realmente acontece.

Passados uns dias da presente denúncia nas redes sociais, o estado das condições das infraestruturas desportivas da AEIST foi alvo de debate e reflexão em reunião de Direção da AEIST. E a solução foi simples, a apresentada pelo u/averageISTstudent (como se apelida na rede social): contratar uma empresa de manutenção regular para o campo desportivo situado no Taguspark,.

Este é talvez um dos exemplos mais óbvios que consigo retirar de como a participação cívica fundamentada pode realmente ter impacto nas políticas das organizações. Este estudante, com uma publicação, conseguiu (in)diretamente impactar as condições desportivas de que os milhares de estudantes da nossa instituição usufruem. Isto não pretende ser um apelo à multiplicação de críticas dirigidas ao Instituto Superior Técnico ou à AEIST, mas sim um apelo à verdadeira participação cívica e democrática.

Todos os estudantes, anualmente, fazem queixas ao Conselho Pedagógico sobre injustiças nas avaliações. Todos criticam os métodos de ensino e de avaliação, mas quantos são os estudantes que dirigem uma proposta de alteração a um regulamento do IST? Quantos estudantes propõem alterações ao modo de funcionamento da nossa escola? Quantos estudantes participam nas eleições para os delegados?

O IST e a AEIST precisam da sua comunidade discente. Se algo estiver errado, é preciso apontar o dedo, mas esse mesmo dedo deve apontar o caminho a seguir. Nos próximos meses, estas duas instituições que referi vão alterar os seus estatutos e, com essas mudanças, mudar o paradigma das instituições. Mas os interesses da comunidade só poderão ficar salvaguardados se a histórica irreverência estudantil continuar viva e acesa.

Participem e contribuam para estas instituições. Elas precisam de vocês.

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