Autoria: Tomás Vieira (LEMec)
Numa edição que reúne entrevistas a alumni notáveis, o Diferencial procurou também incluir uma alumna honorária. Joana Lobo Antunes entrou para o Técnico em 2019 e desde então é uma das caras que dá voz à instituição. Comunicadora, professora e investigadora, esta cientista trocou estar na fronteira do conhecimento por comunicar o que se passa nessa mesma fronteira.
Ciência e Comunicação (de Ciência)
O seu gosto pela área remonta à infância. “Eu gostava de consumir coisas de comunicação científica, como livros, filmes e documentários, mas isso não era propriamente uma profissão”, de modo que foi muito lógico que prosseguisse uma carreira científica. “Fiz uma licenciatura, fiz um mestrado, fiz um doutoramento.” Finalmente, quando começou a lecionar ciência, interrogou-se qual seria o próximo passo a tomar em direção ao seu gosto que até então não exercitara. Para o efeito, por volta de 2008, entrou na organização da Noite Europeia dos Investigadores (NEI) em Portugal. Acrescenta que na altura, em Portugal, só se dinamizavam atividades de comunicação em quatro grandes centros de investigação e esses mesmos quatro, juntos no consórcio responsável pela NEI, queriam fazer teatro com cientistas. “Eu, na altura, estava a fazer teatro, fazia ciência e veio o convite cujo objetivo era aproximar os cientistas das pessoas.” Foi exatamente ao entrar neste projeto que descobriu pares, ou melhor, “pessoas com um percurso científico que de repente se dedicavam a criar pontes entre os cientistas e as pessoas.” Nestes moldes e sob a descrição de “aproximação” iniciou a segunda parte da sua carreira, que culminou na entrada para o Técnico, agora liderando a sua equipa de estudantes e profissionais da área. No caminho até lá confessa alguma sorte, visto que na altura a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) atribuía bolsas individuais de pós-doutoramento em comunicação de ciência. “Pude concorrer e ganhei uma bolsa para fazer pós-doutoramento no ITQB em parceria com a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) em jornalismo de ciência.” No entanto, aquilo que diz ser sorte não viria a acabar aí, já que “tive a enorme sorte de estar num sítio onde nasceu o mestrado de comunicação de ciência [e também] quando nasceram as primeiras formações para doutoramento em comunicação de ciência. […] Com o nascer do meu percurso, nasceram estas coisas todas, eu tive a sorte de estar no início disso tudo.” Transportada para os dias que correm, é com alguma pena que se vê repetidamente obrigada a dizer que bolsas individuais de pós-doutoramento na área científica de comunicação da ciência já não são atribuídas. Contudo, há ainda margem para exercer a atividade de vida da entrevistada. “Neste momento ainda existem pessoas que conseguem ter bolsas individuais para fazer doutoramento em comunicação de ciência e as bolsas de pós-doutoramento existem, mas não em concursos de bolsa individual. […] Algumas unidades de investigação abrem posições para pessoas doutoradas fazerem comunicação de ciência no seu sítio. Há vários exemplos aqui no Técnico e fora do Técnico. Portanto, existem oportunidades, mas é preciso procurá-las, porque tem de se conhecer o panorama de comunicação de ciência para saber onde encontrar essas oportunidades.”
“Pude-me dedicar a tempo inteiro a fazer ciência mas de um outro ponto de vista”
O desafio que é comunicar o Técnico
Num passo anterior à atividade que desempenha, surge, naturalmente, a dúvida de como é que uma ex-aluna da Faculdade de Farmácia (FFUL) e à data professora na Universidade Nova de Lisboa tenha, em 2019, vindo parar à Alameda. Conta que recebeu o convite sob a seguinte proposta: “Nós no Técnico fazemos muita ciência, mas não estamos a conseguir comunicar a ciência do Técnico enquanto tal”. Houve um reconhecimento por parte dos dirigentes, que a professora acrescenta ser uma impressão pública palpável. “O Técnico é muito conhecido enquanto faculdade, mas não enquanto produtor de conhecimento e inovação, portanto, uma das coisas que me pediram foi precisamente isso.” Aqui destaca alguns desafios, mas aqueles que invadem qualquer outro detalhe são a dimensão da instituição e o grau de riqueza de cada um dos seus constituintes. “O Técnico é mesmo muito grande, há 25 unidades de investigação e algumas das unidades de investigação perceberam muito rapidamente a importância de se fazer comunicação de ciência. O caso mais claro de todos é o Instituto de Sistemas e Robótica (ISR), que desde muito cedo investiu nessa área, mas o Técnico não é o ISR.” Deste mesmo ponto, define igualdade como um pilar da sua missão. “Tentamos comunicar o Técnico como um todo, desde engenharia geológica de minas à bioengenharia.” No outro lado da moeda, há a vastidão de conteúdo em cada grupo. “Quando entrei no Técnico senti que estava sempre a entrar na gruta do Ali-Babá, cheio de tesouros que mais ninguém sabia que existiam […] um dos trabalhos que nós aqui temos é mostrar ao mundo os tesouros, sendo que às vezes temos de explicar porque é que são tesouros.” Portanto, e em resposta à proposta, concluiu que “pensar como é que no Técnico se podia montar uma estratégia global é profundamente desafiante […] mas achei o desafio tão complexo que achei que seria divertido tentar.” No entanto, nem tudo o que faz no IST se resume a isto. Sob o papel de diretora para a comunicação, alberga a equipa para a comunicação institucional como também a de imagem e de relações públicas. “Temos o Núcleo de Apoio ao Estudante que se calhar é a cara mais visível que vocês [estudantes] conhecem, que faz a promoção da oferta formativa e também o acompanhamento dos estudantes cá dentro.”
Nesta primeira vertente, define uma máxima incontornável: “a comunicação do Técnico, a comunicação institucional não é jornalismo. O jornalismo é independente, aliás há aquele conceito de que jornalismo é imprimir aquilo que as pessoas não querem que seja impresso, tudo o resto são relações públicas. […] Não douramos a pílula, não inventamos coisas que o Técnico não faz. Mostramos aquilo que faz de melhor, em termos de investigação, em termos de ensino, em termos de inovação, da melhor forma possível.”
Agora considerando o panorama geral de comunicação, na garantia da publicidade institucional e na exclusão do negativo, abre-se, mesmo assim, uma lacuna para o informativo, de caráter neutro, mas igualmente importante. Concretamente, na falta de um canal oficial próprio, assuntos tão íntimos e importantes à comunidade, como alterações curriculares, não têm a devida luz. “O único motivo pelo qual não há mais informação é porque não nos chega.”
“Todos nós temos identificado que precisamos de ter mais informação, [inclusive] houve uma altura em que nós preparámos uma secção da newsletter em que incluímos uma secção para ter precisamente as decisões dos órgãos. Conseguimos ter em duas edições. […] A questão disto é haver o tempo para os materiais chegarem. Às vezes as pessoas nem se lembram, por muito que eu fale que é preciso haver a informação e que a informação tem de chegar à equipa de comunicação, para poder ser difundida.” Numa analogia, explica que estas aparentes “faltas de transparência” não são nada mais que “entupimentos de canal”, sem qualquer intenção subjacente.“O que acontece é que vocês no Diferencial, vão vocês atrás das histórias. Nós aqui estamos completamente assoberbados por milhares de coisas que nos chegam. Vocês têm mais redatores no Diferencial do que nós na comunicação e, portanto, estamos muito dependentes do material nos chegar.”
Projetos dentro do IST
Durante todo o seu percurso, anexado à sua carreira, teve sempre projetos – não fazendo dos últimos seis anos exceção. Iniciativas como a exposição 110 Objetos; This week at Técnico; IST Press; Dia Aberto do Técnico; Dia dos Mestrados; Engenharia e Ciência vão à Escola e Explica-me como se tivesse 5 anos, por mais que sejam esforços conjuntos, têm, pelo menos, um denominador comum. Conta como mudou os eixos do dia aberto, como a pandemia alterou os planos de execução da exposição e como percorrer a história da instituição por 110 objetos foi desafiador. “Tenho muito orgulho nesse projeto. Envolvemos muitas pessoas, deu muito trabalho, foi um grande investimento, mas acho que não só nós e a equipa que fez, mas acho que todo o Técnico se deve orgulhar daquela história porque é (um livro que fica) intemporal. Desde o telefone do século XIX a robôs feitos há pouco tempo, aliás um dos objectos que lá está, está neste momento no espaço, que é o nanossatélite.”
Ainda nos objetos destaca : ”Uma das coisas que queríamos muito contar era o desporto no Técnico e convido todos os estudantes a irem conhecer a história da taça de voleibol. Descobrimos uma coisa incrível: o voleibol entrou em Portugal muito por causa do Técnico, veio para Portugal trazido por americanos na Terceira, na base das Lajes. Havia americanos na base das Lajes e um açoriano que começou a aprender vólei lá, veio para o Técnico e trouxe o vólei, portanto o Técnico foi uma das primeiras instituições no país a ter uma equipa de vólei, tanto que neste momento o IST tem mais taças nacionais de voleibol do que o Benfica, faltam duas para chegar ao nosso nível.” Por fim, a acrescentar aos projetos, destaca-se todo o esforço que tem sido feito para a inclusão do IST nos media. Desde a ida de professores para comentários televisivos técnicos até à recente rubrica “CNN Inovação”, é tudo obra desta (pequena) equipa.
Intervenção Atual
No ano letivo de 2025/2026 deixou de lecionar no mestrado que “fundou” na FCSH e em cadeiras noutras instituições, passando a dedicar-se inteiramente ao Técnico. É responsável pela cadeira HACS Comunicação na Ciência e Engenharia e a UC Comunicação de Ciência, oferecidas para licenciatura e doutoramento respectivamente. “Achei que o desafio de trazer a comunicação de ciência para o Técnico era um desafio ao qual eu me queria dedicar completamente.” Empacotado nesta missão está a vontade de ter uma uma equipa que faça comunicação de ciência com estudantes de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento. Para tal surge com a ideia “que estudantes de mestrado, mesmo que sejam estudantes de mestrado do Técnico, por exemplo de engenharia eletrotécnica ou engenharia física, possam fazer as suas disciplinas e dissertações de mestrado também em comunicação de ciência, sem deixarem de ser física ou bioengenharia, [ou melhor,] possam fazer uma dissertação sobre a comunicação da sua ciência”. Sucintamente, quer tornar realidade a possibilidade de um estudante de mestrado chegar ao gabinete de um professor e propor um novo estilo de tema de tese. “Tenho uma larga experiência de orientar teses de mestrado em comunicação de ciência. Penso que não será muito difícil e até acho que muitos estudantes aqui do Técnico poderão ter interesse. Quem estiver interessado, temos todo o gosto em receber e pensarmos em projetos. Fica [aqui] o desafio para os estudantes do Técnico.”



