Autoria: Tomás Vieira (LEMec)
André David é investigador, físico experimental e, acima de tudo, um português que vive, come e respira o CERN há mais de 25 anos. O Diferencial procurou incluir o seu testemunho, na qualidade de alumnus do IST, trazendo à edição um olhar exclusivo sobre o Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire (ou Organização Europeia para a Investigação Nuclear.)
O seu primeiro passo no ensino superior ter sido no Técnico foi talvez o aspeto em que menos perdeu tempo a pensar: “Na candidatura pus Física na universidade que era perto da casa dos meus avós e Matemática na universidade que era perto da casa dos meus avós, e entrei em Física.” Durante os seus estudos confessa que o seu contacto com o Diferencial foi inexistente, visto que o seu curso tinha um ecossistema muito próprio. “Nós em Física tínhamos a Pulsar, havia a secção do circo, havia a secção da astronomia. Sabes, o campus do Técnico não parece pequeno, mas a partir do momento em que uma pessoa não entra pela Alameda, a vida acaba por estar toda concentrada lá em cima [no pavilhão de Matemática/Física]. Portanto, na zona da Associação dos Estudantes havia duas coisas: o grupo de teatro, onde eu tinha amigos, e a piscina, que entretanto já não existe. […] A piscina ao fim de semana era muito simpática, uma paz, não havia ninguém.” Acima de tudo, o curso foi-lhe “muito simpático” e nos últimos dois anos de estudo, em Portugal, fez um projeto na área de Microtecnologias, que pelo meio agregou uma componente de Física Teórica Nuclear. “A dada altura, a minha orientadora dessa parte do projeto disse-me «Ó André, o André não tem assim muito jeito para estas coisas teóricas, mas há ali uma coisa mais prática no CERN.» O CERN tinha muito muito má reputação no meu ano, por causa de uns quantos professores que nós tivemos, portanto eu sou a única pessoa do meu ano que acabou por ficar ligada à Física de Partículas e foi completamente por acaso.” Não descreve a sua primeira estadia como uma boa memória, mas foi aliciado a fazer “coisas giras”, de modo que lá ficou, e perdura até hoje. “Depois do doutoramento, apareceu a oportunidade de participar na experiência CMS [Compact Muon Solenoid] com o grupo português, e então eu tornei-me na pessoa que estava cá no CERN a cumprir as responsabilidades desse grupo. Os aceleradores funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, durante uns quantos meses. Portanto, há toda uma série de responsabilidades vis-à-vis da colaboração que os grupos têm que cumprir. Eu estando cá [no CERN] acabava por cumprir uma grande fração de todos os membros do grupo, incluindo os que estavam em Lisboa a fazer trabalho de análise de dados.“ A determinada altura, surge a abertura para se candidatar a uma posição no laboratório, de maneira que desde 2013 não apenas é empregado pelo CERN mas sim empregado do CERN, como carinhosamente apelida. “Porque é que eu ainda continuo cá e não vou fazer outras coisas por outros lados? Há muito tempo decidi que o serviço público era aquilo que eu queria fazer. Trabalhar no CERN acaba por ser trabalhar para a comunidade e, de facto, é muito interessante ver pessoas que vêm dos quatro cantos do globo que às vezes não sabem fazer nada e depois saem daqui a saber fazer determinadas coisas, e muitas delas voltam para os países de origem e acabam por fundar grupos.” Nos dias que correm, descreve-se como um mediador entre quem almeja investigar e o estado da arte do instituto. “Eu trabalho no departamento de Física Experimental, eu penso no meu trabalho como algo que procura criar uma ponte entre a engenharia e a teoria. Tento pedir aos engenheiros que desenhem coisas possíveis e [tento] garantir que conseguimos refutar teorias e escolher parâmetros das teorias.” O seu dia típico varia entre muitas reuniões e temporadas no laboratório. “Há reuniões de manhã, por exemplo, para estarmos com os nossos colegas de Taiwan ou da China. Temos muitas reuniões à tarde, por causa dos nossos colegas dos Estados Unidos que acordam às [minhas] duas da tarde. […] Passo bastante tempo no laboratório e em particular, nos últimos 8 anos, tenho estado a trabalhar num projeto para fazer um detector novo, que vai ser parte dos upgrades que vamos fazer ao detector CMS [Compact Muon Solenoid]”
Descreve o CERN como um instituto coberto por uma mística atmosfera de desconhecimento público. “Uma coisa que às vezes não é muito clara, é que as experiências não são experiências do CERN, são experiências no CERN. Portanto, o CERN é assim um bocado como a Câmara Municipal, que constrói o jardim infantil, mas que não é para os funcionários da Câmara Municipal. […] É um fator de 10 entre as pessoas que são pagas pelo CERN e as pessoas que vêm fazer coisas relacionadas com o CERN. […] O CERN cria as condições para os investigadores dos vários países, a maioria Estados-Membros, poderem vir cá fazer as experiências.” Por sua vez: “Cada instituto vai ter uma fração das responsabilidades, por exemplo, construção de detetores. […] Se os italianos fazem um bocadinho mais disto, se calhar os americanos fazem um bocadinho mais daquilo.” Esta listagem de aspetos menos bem entendidos estende-se também a falsas concepções, ou talvez, mitos. “«Ah, o CERN vai abrir um buraco negro» Infelizmente não. Não há energia suficiente para isso.” E, para destruir os nossos sonhos, esclarece que não é produzido ouro, pelo menos não em quantidades consideráveis, e que “os feixes no CERN não causam terremotos, isso é a diferença entre causalidade e coincidência.” Para completar o quadro de desabafos, expressa alguma frustração no que toca à desinformação que orbita os financiamentos, argumentando que a régua de crítica mediática é desmedida. “[Uma experiência] vai custar 20 mil milhões. Sim, mas é durante quatro décadas e não é pago por um país, é pago por um conjunto de países que não é particularmente pequeno. Portanto, o LHC [Large Hadron Collider] custou o equivalente a um café, uma bica, por ano, por cidadão dos Estados-Membros. É óbvio que há sempre a questão: «Ah, mas não podíamos estar a fazer outras coisas com esse dinheiro?» Sim, mas depois não vou começar a perguntar quanto é que custa cada uma das guerras malucas que andam pelo mundo.”
Voltando ao funcionamento, outra filosofia interna muito característica é que a atividade do instituto, tal como declarada no documento fundador, é dividida entre o presente e o futuro. Ao longo da história do CERN tem sempre existido um projeto que está em funcionamento e um projeto que está a ser planeado. “Isto acaba por criar uma dinâmica de manter toda a comunidade envolvida e de não haver buracos. […] Há aqui uma noção de continuidade geracional e que no CERN, felizmente, o horizonte é mantido.” Nesta mesma atividade, projetada com décadas de antecedência, surge uma estranheza que André David crê ser intimamente ligada a algumas culturas. “Eu estou a trabalhar para construir um detector e não vou poder ver o fim desse detector. E, provavelmente, quando este detector estiver construído, vou trabalhar para um acelerador que eu provavelmente vou estar morto antes dele chegar à sua segunda fase.“
“Neste campo, as pessoas acabam por fazer muitas coisas que não vão desfrutar. Fazemos as coisas porque temos a noção do valor que elas têm e daquilo que elas vão poder proporcionar. Quando se fala em projetos futuros… Sim, este detector vai estar pronto em 2030 e depois a gente vai ligá-lo. Com certeza não vai funcionar. Vamos ter que encontrar a maneira de pôr a funcionar. Há uma cadeia, há uma continuidade que é muito mais longa do que aquilo que uma pessoa pode viver.[…] Pessoas que estão neste momento no liceu ou na escola primária, há espaço para todas essas pessoas poderem contribuir. “
Durante os seus anos de contribuição, acabou por ganhar crédito naquilo que culminou ser a observação experimental do Bosão de Higgs. “O que aconteceu foi que Portugal, o LIP, tinha responsabilidades no calorímetro eletromagnético. Quando eu me juntei ao grupo, estávamos a acabar a eletrónica. Portanto, a eletrónica foi desenhada e instalada por portugueses. Andámos a meter os cabos todos no sítio certo. […]A primeira coisa que nós quisemos fazer quando o LHC começou a fazer colisões foi medir qual é a probabilidade de produzir fotões no LHC para comparar com previsões teóricas. Contribuímos uma parte do algoritmo para, digamos assim, parear os dois fotões quando há mais do que dois fotões em cada colisão. […] E sim, depois eu, de 2015 a 2017 fui coordenador de toda a Física de Bosão de Higgs de CMS.” Sem fazer da entrevista uma tese, discorre: “A partícula que nós encontramos é uma partícula única. É a única partícula elementar que não tem spin. É um escalar, ou seja, não sabe diferenciar nenhuma direção de espaço e por isso, de certa maneira, existe em todo o espaço. Isto depois volta a uma coisa que nós, os físicos, não gostamos, que era a noção de éter, que era uma forma de explicar a velocidade da luz. No entanto, esta partícula que nós encontramos: anda como um pato; grasna como um pato; e cheira a pato.”
“Uma das coisas interessantes acerca desta partícula é que, de certa maneira, é uma espécie de alfinete de segurança. Sabes, aqueles que se usavam nas fraldas, ela fala com todas as outras partículas do modelo padrão que nós conhecemos, sendo que os neutrinos são sempre uma exceção. Fala com quarks, fala com leptões, fala com bosões, bosão W, Z. Portanto, se a matéria escura for realmente matéria, e se essa matéria for em partículas elementares, há a possibilidade que este bosão, que é o H0125, que é o estilo de nome que aparece nas listas telefónicas, também tenha uma interação com a matéria escura. A matéria escura é aproximadamente 25% do universo. Não é uma brincadeira. É um mistério para os cronologistas. O Bosão de Higgs é uma ferramenta nova que nós temos para explorar a natureza e é isso que vamos fazer com este upgrade do LHC que vai funcionar até 2040. Vamos pará-lo agora, em julho-agosto. E depois vai estar parado até 2030 para podermos exatamente mudar todos os componentes.”
A somar a toda a sua trajetória e planos vindouros é, desde 2004, guia de visitas ao seu local de trabalho. Nesta atividade, essencialmente do foro da comunicação da ciência, admite ver uma mudança no discurso popular. “Hoje em dia vejo cada vez mais o questionar «mas afinal isso serve para quê?» E eu acho isso interessante, mas a impressão que eu tenho é que as pessoas quando tiram o telemóvel do bolso não se apercebem da quantidade de engenharia eletrónica, mecânica quântica, sei lá, radiofrequência, química de baterias. Portanto, hoje em dia eu sinto uma espécie de ceticismo em relação à utilidade da ciência. A forma que eu tenho de lidar com isso é realmente tentar puxar as pessoas de volta para a tecnologia que elas estão a utilizar e lembrar-lhes que a tecnologia que estão a utilizar provavelmente nunca teria sido feita se não tivesse havido investigação fundamental.” No entanto, admite não conhecer as raízes do fenómeno e que, como um bom cientista, tem ainda que maturar o assunto.
“A vantagem de teres uma organização que já vai com 70 anos é que existem exemplos. Por exemplo, cada vez que tu clicas num link, isso é uma coisa que foi inventada no CERN, a noção da HTTP. […] Há um aspecto de transferência de tecnologia e de conhecimento que não é nada trivial.”
Para fechar o argumento de utilidade discorre naquilo que é a vertente pedagógica, fruto da natureza de funcionamento única. “Uma coisa como o CERN não tem que ser só acerca de Física de Partículas. Só 80 [dos dois mil quinhentos] é que são físicos de partículas, incluindo todos os experimentalistas e teóricos. Portanto, a esmagadora maioria das pessoas que trabalham para o CERN, são engenheiros, são físicos aplicados, são administrativos, são bombeiros… Portanto, todas as pessoas que vêm cá no programa de estudantes de verão, que são [talvez] 150 por ano, absorvem coisas e depois voltam. Eu não acho que elas tenham que ser todas engenheiras e cientistas ou investigadores, mas são pessoas que levam o método científico e toda uma série de coisas dos métodos quantitativos de engenharia de volta para as guias profissionais deles. […] Por exemplo, tudo aquilo que as pessoas chamam de AI, que na realidade é machine learning, em 2010, nós já estávamos a usar aquilo que na altura eram chamados métodos multivariados, ou seja, usar muitas variáveis para poder explorar as acumulações. Portanto, todas estas coisas nós já temos uma grande preparação e por isso muitas pessoas que fazem doutoramentos aqui acabam a fazer machine learning ou, por exemplo, fundadores do ProtonMail. “



