De uma miragem de uma residência estudantil a um novo “Mini-TIC”: O renascer da mítica piscina do Técnico

Autoria: Sofia Figueiredo (LEIC-A)

Encerrada desde 2015, a antiga piscina do Instituto Superior Técnico (IST) renascerá das cinzas, tornando-se o novo centro de trabalho estudantil dedicado ao associativismo e à representação de núcleos. Após o abandono do projeto para uma residência universitária, esta nova solução, desenhada in-house por antigos alunos, tem arranque previsto para 2026 e conclusão apontada para o final de 2027, resultando num espaço a funcionar 24 horas por dia.

Para perceber a fundo os motivos desta mudança de planos e o que está projetado para a antiga piscina, o Diferencial procurou ouvir o responsável pelo projeto. Em entrevista, o professor Miguel Amado, atual Vice-Presidente do Técnico para a Sustentabilidade e Infraestruturas, esclareceu o processo de planeamento e o futuro desta infraestrutura, que promete redefinir a dinâmica do campus Alameda.

O Passado Oculto do Tanque Vazio 

Houve um tempo em que o campus incluía um espaço onde os alunos podiam treinar, nadar e conviver. Atualmente, essa realidade é distante, as gerações mais novas olham para a antiga piscina apenas como uma infraestrutura abandonada. Se, para os antigos estudantes, o local é recordado com saudade de um tempo que não voltará, para as novas gerações apenas será um espaço que representa o eco de um tempo que não chegaram a viver.

Fazendo uma viagem ao passado, a prática de natação existiu no IST desde a década de 1940 e a piscina acabou por se tornar muito mais do que uma infraestrutura desportiva: à medida que os anos passavam, este espaço acolheu exames e até mesmo praxes. A história, contudo, vai para além de vivências académicas, principalmente antes do 25 de Abril. Em meados de 1968, teve um peso político incontestável, dado que foi esvaziada pelos próprios alunos para se transformar no palco do Seminário dos Estudos Associativos, assumindo-se como um importante pólo de resistência contra a ditadura.

O fim da miragem da residência

No entanto, os tempos de glória deram lugar ao abandono. Embora existam registos de que a piscina já havia sido encerrada pontualmente por falta de condições de limpeza, foi em fevereiro de 2015 que as portas fecharam por tempo indeterminado, devido a falhas graves de higiene que punham em causa a segurança dos utilizadores. Os estudantes ainda se opuseram ao encerramento, criando petições online em dezembro desse ano, mas a realidade falou mais alto: devido a constrangimentos financeiros, a Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST) era incapaz de suportar custos daquela dimensão. Sem orçamento para obras, a mítica piscina mantém-se vazia até aos dias de hoje, se nos abstrairmos do lixo.

Inicialmente, o plano de requalificação previa a transformação do espaço numa residência universitária. Contudo, como explica o responsável pelo projeto, acabou por esbarrar na indisponibilidade de fundos públicos. “Íamos candidatar-nos a um fundo […] entretanto, extinguiu-se, ou seja, o Governo disse-nos que já não havia fundos disponíveis.”

Com a queda da ideia da residência, a atenção virou-se para outra urgência: espaço para o associativismo. A solução encontrada por Miguel Amado é a criação de um espaço aberto 24 horas por dia, com uma parcela dedicada a cada núcleo do IST. “Se concentrássemos todos os núcleos no mesmo espaço, se calhar, aqueles que são mais dinâmicos ajudavam aqueles que são menos dinâmicos.”

Com esta proximidade, a dinâmica de interação entre os núcleos permitirá a troca de competências e aprendizagens. Miguel Amado reforça, também, que a melhoria das condições de trabalho dos núcleos estudantis é a máxima. Este novo espaço não só captaria apoios, como também projetaria a atividade e representatividade, conseguindo, para os núcleos em que isto é razoável, uma representação internacional mais elevada.

Relativamente aos receios de alguns grupos estudantis que já possuem os seus próprios espaços, o Vice-Presidente garante que o foco deste projeto é de aumentar o espaço e nunca de o retirar à comunidade estudantil: “Não é para vos retirar o que têm hoje, é para criar condições para poderem ainda ter uma maior representatividade e uma imagem de coletivo para fora.” 

Para acomodar esta nova dinâmica, o projeto de arquitetura aposta na versatilidade e no aproveitamento de pontos-chave no design da piscina, como o seu desnível.

Na zona do tanque de água, Miguel Amado relata não querer mudar a essência do projeto inicial, de um grande espaço. A ideia central é criar um anfiteatro que seja retrátil, revela o Vice-Presidente, com bancadas móveis recolhidas para a lateral, pretendendo-se “permitir que a Tuna e a Camarata também tenham um espaço para performance”, ou até mesmo acomodar a “exposição de algum carro, algum protótipo”.  

O planeamento do futuro “Mini-TIC”

Sendo propriedade do IST, o projeto da piscina está a ser planeado e desenhado por antigos alunos do Técnico, mais especificamente da área de arquitetura. A opção de se desenvolver o projeto “in-house” não foi por acaso, revela Miguel Amado: “Poderia ser mais rápido se tivéssemos contratado fora, só que ao contratar fora não controlamos aquilo que nós pretendemos”. Em termos práticos, segundo o Vice-Presidente, é possível concluir que o projeto em si está numa fase de desenho e de logística relativamente avançada, a nível da conclusão do projeto e do seu design, estando terminada em meados de outubro, com revisão em novembro.

A nível de obras, apesar das diferentes abordagens tomadas pelos arquitetos e do alinhamento criativo apresentarem divergências, as obras estão planeadas para iniciar o mais tardar no final do mês de janeiro, como Amado refere: “há colegas que entendem que não se deve tocar em nada, não se deve lá colocar mais ninguém, a não ser ficar quase como um espaço museológico.”

Amado entende que por mais que haja diferentes abordagens para o design deste espaço, são esperados pelo menos seis meses de obras, prevendo-se que a obra esteja totalmente concluída no final de 2027.

O Dilema do Espaço 

A escolha de dedicar este espaço monumental exclusivamente aos núcleos levanta, contudo, uma questão pertinente partilhada por muitos alunos: com a constante dificuldade em encontrar lugares para estudo, durante épocas mais críticas, por que não reutilizar um espaço tão grande, como a piscina, como sala de estudo? 

Confrontado com esta urgência estudantil, Miguel Amado defende a sua decisão, reforçando que o IST já dispõe das infraestruturas necessárias. “O TIC tem mais de 350 lugares sentados em permanência”, sublinha o Vice-Presidente relembrando ainda que “existe o Pavilhão de Civil que […] funciona 24 horas sobre 24 horas” nos períodos de avaliação. Como alternativas para mitigar o problema, Amado relembra que a cantina, com o seu “sistema de ventilação bom e de iluminação natural”, também “funciona como sala de estudo depois das horas de refeição”.

A piscina pode ter secado em 2015, mas a sua história ganha agora um novo fôlego. Afinal, a requalificação deste espaço demonstra que a sua essência nunca se perdeu, revelando quem realmente faz mover o campus: os alunos. Dão-se assim as boas-vindas ao novo centro estudantil, onde os alunos do Técnico terão um novo espaço para mergulhar de cabeça numa nova onda de associativismo.

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