Autoria: Ângela Rodrigues (MEFT) e João Barata (LEAer)
Pedro Gil Ferreira é um astrofísico português, atualmente professor no Departamento de Física da Universidade de Oxford, mas foi em tempos aluno da Licenciatura em Engenharia Física Tecnológica, no Instituto Superior Técnico. Para saber mais sobre o seu tempo enquanto estudante em Lisboa, bem como sobre a sua progressão no meio académico, o Diferencial entrevistou o físico, que foi também o primeiro português galardoado com a Eddington Medal da Royal Astronomical Society, em 2024.
Pedro Gil Ferreira entrou no Técnico em 1986, no primeiro ano em que a licenciatura em Engenharia Física Tecnológica funcionou de modo completo, a partir do primeiro ano. “Eu tenho colegas que entraram no curso vindos de Engenharia Eletrotécnia e de outros cursos, mas eu fui do primeiro ano em que começou no primeiro ano. Nós trabalhávamos muito em conjunto com a licenciatura de Matemática, mas Física, se me recordo bem, no meu ano éramos 15 e éramos só homens”.
Pedro Gil Ferreira destaca que havia “um certo entusiasmo e coisas que eles [os docentes] ainda estavam a tentar perceber como é que haviam de fazer. […] Havia professores que estavam muito interessados em dar-nos aulas e, portanto, tivemos aulas com uma data de pessoas que na altura eram icónicas na física portuguesa”. O astrofísico destaca que os primeiros anos eram dominados por cadeiras de matemática dadas por “uns jovens recém-chegados dos Estados Unidos, que se tinham doutorado lá, o Luís Magalhães, o Carlos Vargas, e uma série de pessoas como eles, que eram fantásticos professores e que nos inspiravam”. O seu último ano de licenciatura “foi um ano a fazer investigação, que era, no fundo, o que eu queria fazer. Foi, em todos os aspetos, um curso ideal. Além disso, era um curso em que uma pessoa, se quisesse, podia ser autodidata. Houve algumas cadeiras em que eu nem fui às aulas, eu estudava os livros, estudava por mim. E muitos de nós estudávamos sozinhos e íamos fazer exames. Era um curso em que os alunos eram motivados e, portanto, isso funcionava bem. As pessoas que entravam no Técnico para Engenharia Física, a maior parte não entrava para fazer engenharia, entrava para fazer física.”
Apesar de atualmente o Técnico ser muito conhecido devido aos seus núcleos e atividades extracurriculares, “nós em Física e em Matemática éramos um bocado puristas e não estávamos muito virados para o mundo empresarial, para a indústria, era mesmo mais para a investigação”. E Pedro Gil Ferreira não era uma exceção. Daquilo que o físico se lembra, “havia os bares e havia sempre lá umas pessoas características a jogar às cartas a toda hora, mas não me lembro de haver assim muitas atividades extracurriculares”.
Embora atualmente trabalhe em Cosmologia e Astrofísica teórica, mais concretamente na estrutura de grande escala do Universo e na origem da matéria e da energia escura, durante a licenciatura as suas áreas de eleição centravam-se em Física Matemática e Física Teórica, sendo que o seu projeto final de licenciatura foi em Relatividade Geral, e que quando concorreu para se doutorar, queria trabalhar em Gravidade Quântica. A Cosmologia só surgiu mais tarde, quando estava a começar o doutoramento no Imperial College, em Londres. Foi nessa altura que o professor percebeu que “havia algo de interessante a acontecer no mundo da Ciência, que era a Cosmologia”, com as medições do fundo de radiação cósmica, a radiação oriunda do Big Bang, por volta de 1991. Estas descobertas levaram a uma expansão da área da Cosmologia e Pedro Gil Ferreira achou que podia ser uma área interessante: “Mais uma vez, um bocado do ponto de vista matemático e teórico, mas pouco a pouco fui seduzido pelos dados. Eu ainda sou um teórico, mas sou um teórico que trabalha muito perto dos dados”.
Após o doutoramento no Imperial College, de 1992 a 1995, o astrofísico pós-doutorou-se em Berkeley, na Universidade da Califórnia, entre 1995 e 1999, e no CERN, entre 1999 e 2000, antes de se tornar investigador em Oxford, onde, desde 2008, é também professor. Comparando os sítios onde teve a oportunidade de fazer investigação, considera que “tenho muita sorte em estar aqui [em Oxford] porque isto está cheio de pessoas muito boas, tenho muita gente a passar por cá, temos alunos muito bons e, portanto, é um lugar privilegiado para trabalhar”. A opinião que tem de Berkeley é semelhante, apesar de ter estado lá há quase 30 anos. Já sobre o CERN, vê como “um sítio interessante, mas não muito interessante”, na medida em que não há alunos, “aquilo é basicamente só investigadores e depois é uma organização internacional”, em que os investigadores têm tendência a agrupar-se dentro das suas próprias nacionalidades.
“Eu sempre gostei do Técnico. Eu gostei muito de estar aí e quando estive aí era ainda um bocado provinciano, já não é assim. Por exemplo, em 2019, fiz aí uma sabática no Departamento de Física, num grupo que é um dos melhores grupos do mundo de Relatividade Geral. Eu não sei bem como é o Técnico agora, mas o Técnico neste momento tem grupos muito bons e pessoas muito boas a trabalhar em áreas de ponta.”
Relativamente aos projetos de investigação dos quais guarda melhores memórias ao longo da sua carreira, destaca um projeto que fez quando estava em Berkeley, sobre matéria escura. “Eu e um amigo irlandês decidimos perceber como é que um tipo particular de campo fundamental, o chamado campo escalar, se podia comportar no Universo e como é que poderia afetar a evolução do Universo. E escrevemos uns artigos sobre isso. Curiosamente, muito pouco depois, fizeram-se umas medições em que se mediu a expansão do Universo e uma das hipóteses que se pôs é que, precisamente, campos como os que eu e o meu colega estávamos a estudar, podiam explicar essa expansão. Esses artigos têm rendido muito, as pessoas citam muito e, aliás, eu 30 anos depois volto a esses artigos para explorar mais coisas.”
Pedro Gil Ferreira realça também uma experiência em que participou com um outro físico teórico, em que mediram o fundo de radiação cósmica e as chamadas flutuações ou inomogeneidades no fundo de radiação cósmica, já que “se uma pessoa olhar para essas inomogeneidades, pode usar isso para tentar perceber qual é que é a geometria do espaço, porque há muitos anos conjeturava-se que o espaço do Universo podia ter três geometrias: uma geometria esférica, uma geometria euclidiana e uma geometria chamada hiperbólica. Com essas medições do fundo de radiação cósmica, conseguimos ver que o Universo de facto tem uma geometria euclidiana. Foi assim uma medida definitiva sobre uma propriedade do Universo que fizemos. Isso deu-me imenso prazer”.
Comparando a investigação científica feita atualmente com a que era feita quando terminou a licenciatura, o físico teórico considera que teve sorte em ter decidido explorar a área da Cosmologia quando ela estava a expandir pois era uma altura em que “havia muita low hanging fruit, que é «fruta fácil de apanhar», portanto entre os meus vinte e os trinta pude trabalhar em projetos em que aquilo rendia muito. Com trabalho, mas não com trabalho extremo”. Atualmente, cerca de 30 anos depois, “é mais difícil fazer algo com impacto”, já que são necessários equipamentos, como telescópios, muito mais sofisticados.
Apesar da dificuldade acrescida, Pedro Gil Ferreira foi o primeiro português a receber a medalha Eddington da Royal Astronomical Society, uma das distinções científicas mais prestigiadas desta sociedade, atribuída a investigações de mérito excecional em astrofísica teórica. Quando perguntado sobre a influência deste tipo de prémios no seu trabalho, o astrofísico reconhece a sua importância: “Eh pá, dá prazer, não é? É sempre bom ser reconhecido pelos pares”.
O professor também é conhecido devido à sua presença na rádio e na televisão, desde a RTP até à BBC e à National Geographic. Enquanto divulgador científico, defende que a comunicação científica é fundamental porque “trata de verdades. E é verdade que há opiniões sobre o que é que essas verdades são, mas há factos que são irrefutáveis e uma pessoa não deve fugir a isso.” Quanto às dificuldades que sente ao passar conhecimento, aponta dois problemas. Por um lado, “muitas vezes é difícil explicar conceitos físicos de uma maneira simples”, o que significa que se “tem de elaborar e inventar metáforas e, ao fazer isso, acaba por corromper um bocado a informação que uma pessoa está a tentar transmitir”. Por outro lado, considera também que “as pessoas, muitas vezes, têm opiniões sobre coisas que não sabem e não estão muito interessadas em reconhecer que não sabem ou se informar e essas situações são frustrantes, porque não vale a pena discutir”.
Introduzindo o tema da Inteligência Artificial (IA), Pedro Gil Ferreira assume que tem usado esta ferramenta “em alguns casos” no seu trabalho de investigação: “Esta semana, instalei o Claude e tentei fazer um projeto com o Claude.” Admite ainda ser um “novato” e considera que trabalhar com IA “é um bocado como trabalhar com um aluno não muito bom, mas que faz alguma coisa: produziu-me bastante lixo, mas umas coisas interessantes que me deram para pensar”. Quanto ao uso de IA por parte dos estudantes universitários, admite não ter ainda uma opinião formada sobre o assunto, apesar de valorizar a possibilidade de tirar ideias para a resolução de problemas. Sobre os potenciais efeitos negativos, acredita que, “por enquanto, uma pessoa consegue «topar» que isso está a acontecer, mas vai chegar a um ponto em que vai ser impossível uma pessoa saber como aquilo foi feito”. Sugere que isto pode muito provavelmente significar o regresso a “métodos muito mais primitivos de avaliação: exames orais ou exames com papel e lápis”. O professor comenta também o aumento do número de artigos de investigação publicados, “o que eles chamam de AI slop”. Apesar de notar que “o número de artigos já estava a aumentar antes da inteligência artificial”, acredita que esta não ajudou. Conclui que “toda a tecnologia que desenvolvemos, em princípio para tornar a nossa vida mais fácil, vai acabar por tornar a nossa vida mais difícil”.
Sobre as diferenças, em termos de preparação no fim do curso, entre um aluno do Técnico e um aluno de Física em Oxford, por exemplo, Pedro Gil Ferreira acredita que “está tudo mais ou menos ao mesmo nível”. Relembrando a sua passagem pelo IST, “há 30 e tal anos”, considera o Técnico “mais formal”, o que é “fundamental”, mas destaca que, na altura, os alunos não eram muito educados a “resolver problemas e a tentar resolver problemas físicos de uma maneira intuitiva”. Realça a importância de “olhar para um problema e tentar perceber «Ok, quais é que são os fatores em causa aqui» e fazer estimativas. Isso foi a coisa que me faltou um bocado quando saí do Técnico, mas eu aprendi isso rapidamente.” Apesar da boa preparação dos estudantes que reconhece ao Técnico, defende que há sempre vantagem em os alunos expandirem os seus horizontes e terem experiências noutras universidades pois “quando uma pessoa sai de um sistema de ensino para o outro, vai aprender coisas diferentes e de maneiras diferentes”.
Quando perguntado sobre o seu futuro, o astrofísico fala-nos um pouco do seu projeto atual: “Ando muito focado em tentar perceber o que é que é uma coisa chamada energia escura, que é a energia que é responsável pela expansão acelerada do Universo”. Pedro Gil Ferreira gostaria que, durante a sua vida, se conseguisse perceber o que é essa energia escura, apesar de não ter grande esperança: “acho que isso não vai acontecer porque, de certa maneira, vai ser um problema insolúvel”. Garante que continuará a fazer o que faz, mesmo acreditando que há limites na Ciência e no conhecimento que é possível adquirir. Diferencial: “Então vai continuar a trabalhar num problema para o qual acha que não existe solução?” Pedro Gil Ferreira: “Pois é, eu vou trabalhando, é isso, é. E eu acho que há muitos problemas que trabalhamos na Ciência que são assim. É um bocado um paradoxo. Há coisas em que uma pessoa vai andando para a frente, para a frente, para a frente, mas não é claro que haja uma solução em que uma pessoa chega e diz «OK, está resolvido», porque há sempre uma coisa para além.”




