Estivemos à conversa com Zita Martins, astrobióloga, professora associada e investigadora no nosso Instituto e uma das mais brilhantes cientistas nacionais. Pudemos abordar a sua perspetiva internacional única em relação à igualdade de género, discutimos a sua relação com a docência, o que a levou a optar pela ciência e como encara a carreira de investigação.

Autoria: Diogo Faustino, MEAer (IST)

Diogo: Gostava de começar por abordar um assunto que foi discutido pela presidente da FCT, Helena Pereira, em entrevista ao Público. Tentando resumir, ela fala da investigação científica em Portugal e da nossa posição vantajosa em relação a outros países. Temos um grande número de mulheres investigadoras, mas esses números escondem uma realidade: se pensarmos em funções de coordenação, de responsabilidade ou grupos de decisão esta tendência inverte-se. De que maneira tem ou não experienciado este fenómeno na sua carreira? [1]

Zita: Eu sou licenciada em Química pelo Instituto Superior Técnico, sou das antigas licenciaturas de Química. Aliás, o curso de Química propriamente dito já não existe, existe Engenharia Química. Eu sou do antigo curso que tinha 5 anos. Quando estava no último, eu fui para fora e estive fora quase 16 anos. Tem sido muito interessante ver as diferenças tanto em termos de investigação como em cargos de topo, as formas como diferentes universidades tentam ver esta questão de igualdade de género e equidade… Costumo dar este exemplo de quando estava no Imperial College. Estive lá quase 11 anos. O Reino Unido tem vários comités ao nível das Universidades para tentar mitigar estas questões de termos poucas mulheres. Não só em cargos de poder: no Reino Unido havia poucas mulheres com cargos fixos. Havia mulheres a estudar mas quando chegava a questão de ter uma posição fixa isso não acontecia. O chamado Athena Swan [2] atribuía medalhas de ouro, prata e bronze aos departamentos que cumprissem esses tais critérios, pois era realmente preciso mudar como as coisas estavam.

Acho que em Portugal esses comités não são necessários mas há certamente pequenas coisas que podem e estão a ser feitas. Foi muito interessante viver fora de Portugal, voltar, e ver essas diferenças. Estou no departamento de Engenharia Química e temos mais ou menos 50% de mulheres em cargos fixos. Só aí temos uma grande diferença em relação ao que vivenciei fora de Portugal. Uma coisa muito interessante em termos do IST tem a ver com a oportunidade de, tanto as mães como os pais, terem um semestre após o nascimento dos filhos em que têm a oportunidade de se dedicar exclusivamente à investigação. Acho que é um exemplo fantástico que devia ser replicado a nível nacional. Obviamente, ao longo da minha carreira, tenho tido várias experiências, cada país tem diferentes percentagens de mulheres na ciência. Em Portugal é normal ver mulheres como professoras universitárias ou investigadoras, nesse caso somos um muito bom exemplo.

De facto, em cargos de liderança é uma história diferente, mas consigo imediatamente pensar em duas, três mulheres que estão à frente de vários institutos de investigação. Há uma mudança que está a ser operada neste momento mas as coisas demoram muito tempo. É preciso estes passos, de dar condições para que quem esteja no papel de investigador ou professor consiga equilibrar a maternidade ou paternidade com a parte profissional, dar mais estabilidade em termos de financiamento. Como a professora Helena Pereira mencionou, há algo a fazer mas, como podem ver, começaram precisamente por mencionar essa senhora, que está à frente de uma instituição nacional e, por isso, estamos num bom caminho. É um gosto da minha parte ter vindo do estrangeiro para Portugal há cerca de 3 anos e contribuir com a minha pequeníssima parte para isso.

Diogo: A Zita disse em entrevista à Space Awareness que em Portugal é normal ver mulheres a fazer ciência, mas que a carreira de investigação científica tem uma instabilidade inerente. É uma profissão precária? [3]

Zita: Acho que devemos de antemão informar os estudantes do que os espera. Eu lembro-me de ter a vossa idade e nós sabíamos que muito possivelmente não íamos ter logo emprego fixo, que talvez tivéssemos que ir para fora – o que na minha geração não era um problema, a maioria dos meus colegas queria mesmo ir para fora. Neste momento há muita gente a ser forçada a trabalhar no estrangeiro. A investigação não é um emprego em que fiquemos imediatamente no sítio que queremos com uma posição permanente. Há uma grande diferença relativamente à indústria e eu compreendo perfeitamente os estudantes que não querem esta instabilidade. Não há certos nem errados em relação a isto. Se quisermos comparar com outros países, a Royal Society fez um relatório relativo a todas as pessoas que tiravam doutoramento. Uns iam para a indústria, outros seguiam investigação, outros tornaram-se professores… De todos esses apenas 3% conseguiu ter emprego fixo a nível universitário e apenas 0.5% conseguiu chegar a professor catedrático. Não sei de cor os números de Portugal, mas penso que não serão muito diferentes.

Diogo: Ainda acerca desta temática, num estudo publicado em 2018 pela Comissão Europeia sobre a igualdade de género aborda-se a população doutorada em Portugal. 53.5% são mulheres, mas mesmo aí há uma presença de estereótipos: as mulheres estão sobrerrepresentadas na área da educação e sub-representadas na área das tecnologias, engenharia e manufatura. [4]

Zita: Os números não são propriamente novidade. Apesar de já haver uma igualdade ao nível dos doutoramentos há certas áreas onde há menos mulheres. Será interessante ver a evolução ao longo do tempo, especialmente na parte das tecnologias informáticas. Por exemplo, no IST, quantas mulheres há nos diferentes cursos de há 20 anos para cá. Como imaginam, tudo isto demora tempo, uma licenciatura e mestrado são pelo menos 5 anos e portanto são problemas que não se resolvem numa geração. 

Novamente, isto começa antes. Não é por acaso que faço tanta comunicação de ciência. Agora não tanto, apesar de já ter feito por Zoom, mas antes ia muito a escolas de norte a sul com meninos e meninas com 5 e 6 anos. É nessas idades que se deve começar, não aos 16 ou 17 anos em que já se tem uma ideia formada. A comunidade científica tem um dever de dar de volta, ir às escolas mostrar o que fazem numa linguagem acessível para os mais novos começarem a ver quais são as possibilidades. Isso tem implicação daí a 10, 15 ou 20 anos. Se nós queremos tentar chegar a esse equilíbrio, isso vem de muitas gerações e portanto temos que mostrar cada vez mais o trabalho que fazemos. Quando há bons exemplos (ou role models) isso tem sempre a sua importância.

Diogo: Isto até porque a Zita é uma pioneira no seu campo, foi a primeira pessoa em Portugal a doutorar-se em Astrobiologia.

Zita: Quando se vai para uma área pioneira é como estar no meio do mato a abrir caminho para quem vem a seguir. Quem vai para uma área nova sabe que há sempre Velhos do Restelo mas, por outro lado, há muito orgulho em ver as novas gerações a começar a trabalhar comigo. Eu não senti na pele discriminação por ser mulher a fazer astrobiologia, isso é um facto. Há sempre as dificuldades inerentes de ser a primeira pessoa no campo, todos os contactos que tive de estabelecer. Nunca ninguém tinha trabalhado nesta área em Portugal e há 20 anos não tínhamos os telemóveis que temos hoje.

As dificuldades até foram mais nesse nível, estabelecer contactos a nível europeu, americano… estou numa missão espacial japonesa. Torna-se muito interessante e recompensador abrir caminho para os estudantes, independentemente do género. A minha equipa é muito diversa e quando contrato alguém não estou a pensar se é rapariga ou rapaz. Quero trabalhar com pessoas pelas suas capacidades académicas e humanas, que também são muito importantes. 

O equilíbrio também passa por se normalizar a mulher na ciência. Se calhar há 20 ou 30 anos, ao pensarmos num cientista, imaginávamos um homem branco sénior. Nós queremos mudar isso, normalizar que haja cientistas de todas as nacionalidades, de sexo feminino e masculino.

Diogo: Uma das coisas que me fascina no seu percurso é mesmo a capacidade de sair da zona de conforto. Até começou por estudar ballet clássico, mais tarde aprendeu russo por ser uma promissora nação espacial, contactou um cientista da NASA para saber onde deveria estudar na Europa. Em que medida é que essa capacidade moldou a sua carreira?

Zita: Sim, comecei aos 4 anos a praticar ballet. É verdade, tenho saído da minha zona de conforto, acho que isso me define muito bem. Não foi só um, contactei 5 cientistas! Com um deles ainda colaboro, Jason Dworkin, da NASA Goddard. Ele não se lembrava: há cerca de 4 anos, estávamos numa conferência e contei-lhe esta história, que ele era a razão de eu estar onde estava. Portanto, sim, esta capacidade de adaptação e de sair da zona de conforto é importantíssima na ciência e na vida no geral. Nós notamos agora que a ciência está a avançar muito rapidamente. Quanto à vivência no estrangeiro, de estar constantemente a saltar de sítio, tive que ter muita flexibilidade nesse sentido. Tive que me adaptar a novas culturas, novas regras do jogo. É bom que tenha isso no meu feitio. 

Estive em países muito diferentes, vivi nos Países Baixos, no Reino Unido, nos Estados Unidos, um verão em França, tenho contactos com cientistas por todo o mundo: há grandes diferenças culturais e a pessoa tem que aprender a respeitar o outro. Na minha área de trabalho as pessoas têm sido sempre muito generosas e respeitam a diferença. Tem sido interessante trabalhar em equipas internacionais, aprende-se a ser mais flexível e a colocar-se em diferentes situações: eu costumo dizer que ponho sempre chapéus diferentes. Tenho a carreira de cientista mas também de professora universitária, co-diretora do programa MIT Portugal, agora como consultora de Sua Excelência o Presidente da República para os assuntos de Ciência, Inovação e Transição Digital: são maneiras de estar diferentes e contribuições muito diferentes. Aprende-se a dialogar com todos e ver diferentes formas de trabalhar e de estar na vida, porque vêm todos de áreas diferentes. A própria ciência não vive só da ciência, vive também do investimento, de colaborar com outras empresas. 

Diogo: Há pouco falávamos de role models, tem algum em particular? Qual foi a influência dos comunicadores de ciência no seu percurso?

Zita: Em termos de astrobiologia, obviamente o Carl Sagan foi a minha inspiração. Lembro-me de ter os meus 15 anos numa aula de biologia. A professora pôs uma cassete VHS, se calhar já nem sabem o que é… Eu lembro-me que fiquei fascinada ao ouvir o Carl Sagan falar da ciência de uma forma tão bonita. Esse bichinho, anos mais tarde, foi o que me levou à astrobiologia e a querer juntar a química, o espaço, a geologia, as ciências planetárias… É muito interessante ver a história do Carl Sagan. Como foi também um pioneiro na astrobiologia teve muitos entraves para conseguir ter estabilidade na carreira e progredir. Para mim foi realmente uma inspiração porque foi um grande cientista, o seu lado comunicativo foi tão intenso, interessante e importante que muitos diziam que ele era só um comunicador, quando isso não é verdade. Ele juntou as duas coisas e fê-lo de uma forma fantástica, tem artigos maravilhosos e que são importantíssimos na nossa área. As séries de televisão dele não têm nada de efeitos especiais do outro mundo, é do mais simples que há, mas como era tão bom comunicador, tão fascinante e cativante, só nos focamos no que ele está a dizer. Muitos dos cientistas nesta área hoje estão cá por causa dele.

Diogo: Sim, não acredito que haja alguém na ciência que não tenha uma influência. A minha geração teve o Neil DeGrasse Tyson, que pegou no trabalho do Carl Sagan e foi muito influenciado por ele, também o Michio Kaku… qualquer um de nós que acabe por enveredar pela ciência foi cativado por um destes comunicadores e é importante que continue a existir este trabalho.

Zita: Concordo a 100%: a parte de comunicação da ciência é fundamental. Se queremos cada vez mais pessoas a vir para a ciência temos que simplificar, mostrar às pessoas o que realmente fazemos. 

Diogo: Para terminar, como tem sido conjugar o trabalho de investigação com a docência, especialmente em relação com o seu tempo no Reino Unido?

Zita: Eu já dava aulas no Reino Unido. Não tão intensamente, não eram tantas horas por contrato. A Royal Society financiou-me durante 8 anos, 1 milhão de libras, e esse dinheiro era realmente para fazer investigação. Eu podia dar aulas, era aconselhada a dar aulas, mas não mais do que um determinado número de horas. Não era esse o objetivo do financiamento. Mas dei aulas, dava matérias muito variadas. Tanto dava aulas para turmas pequenas como para turmas maiores e por isso quando cheguei cá não tive esse choque. Têm uma comunidade muito mais internacional, tínhamos alunos britânicos mas também muitos alunos asiáticos, da China, Índia… uma comunidade muito diferente.

Já trazia a experiência de dar aulas, é algo de que gosto e acho que é muitíssimo importante, passar a mensagem e informar a próxima geração de alunos. Nem todos têm que seguir carreira académica, obviamente, não é isso que estamos à espera, mas é importante passar o nosso saber e cativar os estudantes. O meu tempo também é dividido a fazer investigação, agora tenho esta nova responsabilidade de trabalhar para a Casa Civil. É tudo ciência, são as suas diferentes vertentes. Os dias são bastante longos mas faço tudo com muito gosto e sou apoiada por uma grande equipa. Obviamente não sou só eu, tanto na investigação como a dar aulas, há sempre um grupo docente mesmo quando sou eu a responsável pela unidade curricular. O truque é rodearmo-nos de pessoas que sejam bons colegas e amigos, com quem gostamos de trabalhar.

Recursos

[1] Há “um grande número de investigadoras”, mas poucas chegam ao topo — porquê?

[2] Advance HE’s Athena Swan Charter

[3] Meet Dr Zita Martins | Educate & inspire

[4] She figures 2018 – Publications Office of the EU

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