Autoria: Inês M. Dias (MEMec)
No passado dia 19 de novembro o Presidente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST), António Jarmela, aceitou reunir-se com o Diferencial para uma entrevista, que teve como base fazer um apanhado do mandato anterior. Nesta conversa abordou-se também o que prevê para o próximo mandato e a forma como viveu pessoalmente a jornada, uma vez que se atirou de novo, talvez não totalmente de cabeça, para o desafio de liderar a AEIST.
Depois de um primeiro mandato que pode ser descrito como “fase de adaptação”, António descreve os primeiros meses com pouca saudade. Declarou que para entender o papel e as responsabilidades do que é gerir uma Associação de Estudantes (AE), são precisos mais ou menos “3 meses para perceber o que é que estamos a fazer e qual é que era o nosso papel”, sendo a própria experiência um “enorme misto de emoções”.
O termo escolhido para a experiência de liderar um grupo multidisciplinar neste âmbito foi o de “gerir uma mini empresa”. No seu primeiro mandato como presidente, António Jarmela teve não só de fazer chegar aos estudantes o que se pretende de uma AE, mas também de liderar uma equipa, lidar com algumas questões legais que “apareceram”, e passar ainda pela gestão de recursos humanos. O mandato é, no entanto, considerado como positivo, enfatizando que “todos os mandatos têm aspetos positivos e negativos”, mas que a vontade de completar a missão a que se propôs, a ambição de ver uma comunidade estudantil mais ativa e unida, assim como a vontade de vir a enfrentar novos desafios, fê-lo recandidatar-se.
Quando questionado quanto aos momentos mais marcantes do mandato, responde: “Eu acho que os momentos chave de qualquer direção são os eventos, especialmente quando se tratam daqueles grandes, que nos últimos anos tem sido sem dúvida o Arraial do Técnico. É o ver acontecer, é ver que montámos aquilo tudo, fruto do trabalho que se calhar passámos meses e meses a montá-lo. Em termos de logística também, há uma equipa a montar aquilo fisicamente, mas quando vemos que aquele evento todo foi 100% a Associação que fez, é bastante recompensador.”
Em termos de um momento menos positivo, que testou sem dúvida a capacidade de reação da Direção da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (DAEIST), Jarmela mencionou o apagão, que aconteceu enquanto decorria a Jobshop no Pavilhão Central do Campus Alameda: ‘“num workshop, por exemplo, houve um apagão no meio da Jobshop e surgiu de repente a pergunta de «o que é que vamos fazer, como vamos fazer». Ainda por cima o apagão foi no segundo dia, acho eu, portanto toda a gente ficava sem saber o que é que se faz, como se faz […] Foi um momento difícil.’’
Quando questionado quanto ao que ele espera ser a “imagem de marca deste futuro mandato”, Jarmela falou-nos do projeto de construção de um complexo desportivo no Taguspark. Será em princípio um dos maiores investimentos na história da Associação, incluindo também a contratação de um funcionário dedicado exclusivamente à gestão do desporto no IST, com uma data prevista de término para o final do próximo ano (2026). O pavilhão não começou a ser construído até à data, mas o Presidente revelou que começará e terminará em 2026.
Para além deste grande projeto, o Presidente da AE não pôde deixar de mencionar o impacto do aumento do valor das propinas e os crescentes custos na habitação, assim como a problemática da saúde mental a nível académico (não só no IST). Quanto a estas temáticas, AJ falou como exemplo de vitória terem conseguido voltar a abrir o antigo espaço de estudo 24 horas durante as semanas de preparação e de época de exames, no campus da Alameda. Quanto aos restantes novos projetos que estão a pensar “atacar”, o Presidente mencionou que o Plano de Atividades definitivo ainda está para ser finalizado.
Enquanto Direção da AE do Instituto Superior Técnico, o poder que apresentam quanto a estas questões está essencialmente dependente do “envolvimento societal” dos que os rodeiam e da própria comunidade académica. Visto como um possível (e principal) obstáculo à mudança (interna e externa) que esta direção pretende representar, assim como alguns problemas estruturais (que escolheu não especificar), AJ salientou a necessidade de uma estratégia de comunicação eficaz e de uma maior união entre os núcleos e Secções Autónomas (SA) estudantis. Quando questionado quanto a essa mesma questão da relação entre a AEIST e os núcleos e SAs, AJ comenta que esta está bastante melhor que em anos anteriores, mas que é ainda importante reforçar e manter a comunicação e interação entre núcleos e SAs, essencialmente para estabelecer a “ponte” entre a AEIST e a comunidade estudantil. Acredita ainda que, desta maneira, será mais fácil gerar uma maior participação e envolvimento dos estudantes na vida académica e participação eleitoral, o que é atualmente um problema: “Acho que é muito importante haver um momento de celebração com todos os núcleos e SAs. Por isso até propusemos fazer um torneio com todos os núcleos do técnico, para criar competição entre eles e uma maior interligação entre eles, porque acontece também muito, é que os próprios núcleos, às vezes dizem que a Associação não tem, muita relação com os núcleos, mas os núcleos também não têm entre si, isto é, existe alguma proximidade entre alguns tipos de núcleos. Por exemplo, as versões de praxe, conhecem-se mais umas às outras mas há uma grande desconexão entre os outros núcleos. Aliás, isto verifica-se mesmo entre os núcleos que estão muito afastados dos outros, e, portanto, criar essa ligação entre todos também é muito importante para a AE.’’
Em termos de conseguir terminar todos os projetos a que se propõe, AJ considera que, apesar de haver projetos para completar do anterior mandato, estarão para vir (anunciados também na campanha) os “projetos muito grandes que este ano podemos vir a fazer porque o ano passado não tínhamos capacidade para tal”. Esta falta de capacidade deveu-se particularmente a dívidas retidas dos vários mandatos anteriores, às quais a (na altura) nova AE teve de rapidamente arranjar soluções para combater.
Foi também pedido a AJ que falasse sobre aqueles a quem “não conseguiu agradar”, ou seja, quem defendeu a renovação de uma equipa da DAEIST, e não a continuidade da direção. António Jarmela reconhece que existem críticas, assim como reconhece que nem tudo foi perfeito (que houve falhas e que há necessidade de melhorias), mas apresenta confiança de que as mudanças que propõe para este novo mandato, assim como a adicional experiência adquirida no anterior mandato (talvez por não serem necessários os 3 meses de briefing), serão suficientes para mostrar que o grupo quer mudança e a vai conseguir. Esta mudança deverá envolver mudanças na “estrutura orgânica” da organização, como já o começaram a fazer no anterior mandato, a “transparência” e a “apresentação concreta de resultados” que deverão ser perceptíveis a toda a comunidade estudantil: “Acho que como se combate as críticas é apresentando-as e concluindo as nossas propostas e os projetos que temos, que são diferentes. Mesmo quanto à questão da continuidade, mudar a estrutura orgânica é um sinal de que podemos mudar, que não é ficar igual, portanto, acho que a resposta que se deve dar a quem não sente que as coisas podem mudar com uma direção repetida é mesmo a de apresentar respostas.’’
De acordo com o próprio, essa mesma mudança de estrutura interna (apesar de que talvez pouco notória para os estudantes) foi essencial. A AE que foi assumida por AJ estava aparentemente a chegar a um nível de insegurança financeira (dívidas) que poderia vir a prejudicar futuras direções da Associação de Estudantes, ao ponto de não ser viável realizar eventos como o Arraial. Esta ansiedade, adicional a todos os restantes problemas que lhe foram “despejados” aquando da tomada de posse do primeiro mandato, fez com que houvesse uma mudança de mentalidade governativa, que acabou por resultar num excedente orçamental de mais de 100.000€ (com apoio do IST para grande parte da quantia), e apresenta agora projetos estruturais relevantes para os beneficiários (os estudantes): “Sim, assusta logo muito quem toma posse […] Ficámos muito ansiosos, mudámos estratégias, mudámos todos os mecanismos internos, e, portanto, de contabilidade […] Depois chegámos ao final do mandato e tivemos um excedente orçamental, considerável, e, portanto, este é um mandato onde nós nos propusemos, de facto, a fazer investimentos estruturais que ficarão muito para o futuro da Associação.’’
Esta experiência enquanto Presidente da AEIST alterou pessoalmente António: sente que amadureceu e cresceu como pessoa, criou amizades que considera “para a vida” e aprendeu muito com a experiência em termos do que requer gerir e liderar uma equipa. A gestão do cargo trouxe-lhe “sem dúvida” uma nova perspetiva da sociedade, da comunidade fora e dentro do mundo académico, e a nível empresarial.
Para terminar, reforçou que o próximo mandato será marcado por investimentos importantes e sustentados na comunidade estudantil, principalmente na área financeira da Associação, para garantir uma melhor preparação para os próximos que receberão a DAEIST, como para os estudantes, garantindo o investimento nos espaços de estudo, projetos, etc. AJ expressa ainda confiança na sua e na capacidade da sua equipa de enfrentar obstáculos e conseguir construir um futuro marcado pelo “crescimento e estabilidade”.
“O que eu gostaria de partilhar, é que, de facto, este mandato vai ser muito caracterizado por investimentos estruturais naquilo que é a Associação, porque, de facto, há vários anos que não havia esta capacidade para fazer esses investimentos.’’
Esta próxima Direção da AEIST mostra-se ambiciosa, já consciente dos desafios e barreiras a enfrentar, e aparentemente preparada para trabalhar com a comunidade estudantil que representa. Veremos como corre. A equipa do Diferencial cá estará para ver.




