Autoria: Ângela Rodrigues (MEFT) e Sara Viegas (LEEC)
No âmbito da reestruturação do sistema de garantia da Qualidade das Unidades Curriculares (QUC) do Instituto Superior Técnico, o Diferencial falou com o professor Carlos Santos Silva, na qualidade de membro da Comissão Executiva do Conselho Pedagógico (CP), de modo a compreender as motivações desta reestruturação, bem como que alterações serão implementadas.
O sistema Qualidade das Unidades Curriculares do IST
O sistema QUC é o sistema de garantia de Qualidade das Unidades Curriculares do IST, que corresponde a um inquérito, realizado de forma anónima, respondido obrigatoriamente por todos os Estudantes de todos os cursos do IST, cujos objetivos são monitorizar o funcionamento das Unidades Curriculares (UC), “bem como promover a melhoria contínua do processo de ensino, aprendizagem e avaliação do/a Estudante e do seu envolvimento no mesmo”.
Apesar do sistema só ter sido regulamentado em 1998, em 1993, o Técnico começou com o primeiro protótipo do que conhecemos hoje como QUC, uns primeiros inquéritos “em que se preenchiam umas bolinhas” para avaliar e monitorizar as atividades académicas.
Anos mais tarde, o processo foi informatizado e implementado no Fénix e, em 2007, devido à necessidade de adaptação ao processo Bolonha, foi feita uma “revisão e avaliação do próprio processo de ensino e aprendizagem”, que culminou no lançamento do Sistema Integrado de Qualidade do IST (SIQuIST). As questões que ainda hoje preenchemos foram definidas durante estas alterações.
“O Técnico foi a primeira Escola no país a implementar este tipo de sistemas e, na maior parte das Escolas, em Coimbra, no Porto, é muito baseado no que a gente tem agora. Na Universidade de Lisboa, aliás, todas as Escolas usam a implementação no Fénix e, portanto, usam o nosso sistema.”
O processo de reestruturação
“Nós, desde há vários anos, no CP, sentimos que as QUC deveriam evoluir. E então começámos um processo, que já vai para aí no segundo ou terceiro ano de reestruturação”.
Tal como explicado pelo professor Carlos Santos Silva, quando as QUC foram desenhadas, a sua principal intenção era “identificar cadeiras que estivessem a funcionar menos bem, para no ano seguinte funcionarem melhor”. No entanto, a forma como o processo está implementado acaba por não permitir que haja tempo suficiente para atuar sobre as UC antes de serem novamente lecionadas. Para além disso, com a reestruturação do sistema de ensino em 2021, “tivemos logo a sensação que isto ia ser um bocadinho mais caótico, porque ia haver muitas avaliações”.
Assim, surgiu a necessidade de procurar um sistema que pudesse ultrapassar as limitações oferecidas atualmente pelo Fénix: “Para nós mudarmos as QUC no Fénix, basicamente, o que era possível era mudar mesmo só as perguntas. A estrutura do resto do inquérito tinha que ser tudo igual, achávamos que […] deveria evoluir noutra direção [que não só mudar as perguntas].”
Foi justamente uma aluna no CP que encontrou uma ferramenta de uma empresa dinamarquesa especialista em inquéritos em instituições de Ensino Superior, que está a ser atualmente testada: a Student Pulse. Numa primeira fase, foi feito um projeto-piloto que consistiu em inquéritos feitos aos alunos, mais focados no bem-estar do que em questões académicas. Devido às reações positivas, “comecei a pensar: se no Fénix estamos amarrados, não vamos conseguir evoluir muito a forma de fazer inquéritos, e se desta ferramenta do Student Pulse. Os professores gostaram, os alunos gostaram, porque não tentar usar o Student Pulse para fazer as QUC?”.
Deste modo, têm sido implementados pequenos projetos-piloto para testar o desempenho da plataforma no que toca aos inquéritos QUC e para afinar pequenos detalhes. No primeiro semestre de 2025/2026, o projeto foi testado em cadeiras de Engenharia Mecânica, não só por ser o departamento de origem do professor Carlos Santos Silva, mas também devido à dimensão do curso. Neste segundo semestre, o projeto está a ser implementado em UC identificadas no ano passado com desempenho “Auditoria”.
As alterações
Nos últimos anos, o feedback que tem chegado ao CP sobre as QUC é o de um inquérito longo, com pouca flexibilidade, perguntas desatualizadas e uma falta de oportunidade de deixar comentários complementares. Por exemplo, atualmente, a bibliografia não é o único recurso que os professores sugerem aos alunos: há slides, aulas gravadas, notas complementares, vídeos da Internet, entre outros. Contudo, as perguntas das QUC foram escolhidas numa altura em que a bibliografia era, se não o único, o principal apoio.
Assim sendo, o CP decidiu formular inquéritos mais curtos, embora mais flexíveis. “Os alunos levam normalmente menos de três minutos a responderem às cinco questões a cada momento”, notou o professor. “A nossa expectativa é, como são menos perguntas, que os estudantes sintam menos resistência [a responder].” A seguir a cada uma das cinco questões, uma caixa de texto será apresentada aos estudantes com uma pergunta de resposta livre em continuação da anterior. “Por exemplo, «Percebeste os objetivos de aprendizagem? Dá uma nota de 1 a 10» e [o estudante] diz 5. E eu pergunto, «O que é que não foi claro para ti, ou o que achas que o professor podia ter feito para ser mais clarificador?»”
Neste sentido, ao longo da UC há três momentos de questionário aos alunos: no final da primeira semana, são feitas perguntas mais gerais sobre o funcionamento da cadeira, se os métodos da avaliação e os objetivos de aprendizagem são claros, ou se os alunos estão motivados. Na quarta semana, os alunos são inquiridos sobre a qualidade dos materiais disponibilizados e sobre a disponibilidade do professor para responder às questões colocadas. Na última semana, são colocadas questões semelhantes às existentes atualmente sobre a organização, docência e avaliação.
A grande diferença para a implementação atual centra-se no facto de, para além da resposta através de uma nota de 1 a 10, os estudantes têm também a possibilidade de escrever um comentário sobre cada uma das avaliações. De acordo com o professor Carlos Santos Silva, “com esses comentários, há cadeiras em que se recebe facilmente 500 comentários sobre as 3 ou 4 perguntas.” E é aqui que entra a dimensão de Inteligência Artificial (IA) da Student Pulse: a ferramenta processa todos os comentários e gera, em poucos minutos, um relatório com os aspetos positivos e a melhorar, bem como recomendações. “A IA depois fornece aquele relatório ao docente e a dinâmica é que o docente, ao ler aquilo, não digo que implemente tudo, mas pelo menos resolva algumas coisas que não estão a funcionar tão bem como eles esperavam.”
“Vocês têm aquela sensação de que responder aos inquéritos QUC não serve absolutamente para nada e eu queria aproveitar esta oportunidade para desmistificar, para contradizer um bocadinho isso”.
Carlos Santos Silva destaca ainda a grande mais valia da existência destes momentos de avaliação das cadeiras enquanto estas ainda estão a decorrer, o que permite identificar os problemas e resolvê-los em tempo real: “As QUC foram sobretudo desenhadas para identificar problemas das cadeiras. E, portanto, até eu acho que é muito mais útil identificar quando estão a ter problemas, e dizer «não estou a gostar disto, estou a gostar daquilo». Eu acho que isso é [uma] grande vantagem.”
Outro dos benefícios mais convenientes da Student Pulse, para além dos comentários escritos, é o facto de permitir aos alunos responder às QUC tanto no computador como no telemóvel, o que anteriormente não acontecia.
Num grande número de cadeiras, há muitos professores que lecionam mais do que um tipo de aula, como por exemplo, teóricas e laboratórios. Atualmente, é pedido aos alunos que respondam um questionário por cada professor por tipo de aula, o que significa que há docentes que podem ser avaliados até três vezes numa só QUC. Nos novos inquéritos, essa multiplicidade deixará de ser uma realidade.
No final deste semestre, a maior parte dos alunos já poderá responder aos novos inquéritos QUC, mas esta experiência continuará a funcionar como teste-piloto. Os alunos continuarão a ter de responder às QUC antigas. De acordo com o professor Carlos Santos Silva, espera-se que para o ano já haja uma implantação total dos novos inquéritos e que os antigos sejam, depois de anos de trabalho, por fim arquivados.
Nota: Gostávamos de agradecer ao Jorge Marques por partilhar com o professor Carlos Santos Silva a nossa intenção de cobrir este tema.




