Foi presidente da AEIST e agora? Ivan Gonçalves volta ao Diferencial

Autoria: Tomás Vieira (LEMec)

Do pavilhão da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST) para o hemiciclo da Assembleia da República, Ivan Gonçalves passou pela Engenharia Biológica mas hoje escolhe a política e o serviço público na sua cidade. O Diferencial entrevistou o atual vereador na Câmara Municipal de Almada, que já nos conhecia, fruto da sua liderança da AEIST no ano letivo de 2010/2011.

Começa por descrever o seu percurso como natural sem nunca caracterizar o desvio das ciências biológicas como abrupto. Foi atleta universitário, depois dirigente associativo e pelo caminho alistou-se no Partido Socialista (PS).
Numa passagem curta e ascendente, esteve na direção da AEIST durante um ano e no seguinte na presidência. “Na altura, com 22/23 anos, tive a responsabilidade de gerir uma empresa que é uma associação, que é também uma instituição política e que tem um orçamento anual de quase um milhão de euros.” Recorda o caráter desafiador que foi liderar a sua “grande escola”, listando obrigações e experiências, como gerir empregados, que pouco mudaram. Ironicamente, uma destas foi exatamente para connosco, jornal dos estudantes do IST. “Nós às vezes ficávamos muito chateados, porque o Diferencial tinha peças sobre aquilo que não fazíamos tão bem […] achávamos que era injusta,  a visão que o Diferencial passava, mas isso também faz parte  do jornalismo, dar diversas visões e faz parte do papel de quem está nos cargos de responsabilidade.”

Confessa também meses iniciais de muita incerteza, tanto que só se sentiu verdadeiramente confiante quando já completara o mandato. “Eu costumo dizer que ao fim do ano eu estava preparado para ser presidente da Associação de Estudantes.” No entanto, o medo de ficar estagnado guiou-o para outros caminhos. “Se tivesse mais um ano, ia ser bom para a associação, porque ia ter um presidente mais preparado, mas eu tinha que seguir a minha vida.”

Ao sair do Técnico, foi engenheiro no setor privado e, na sequência de manter uma vida partidária ativa, foi eleito para a Assembleia da República nas legislativas de 4 de outubro de 2015, com 28 anos. Daqui, foi reeleito para as seguintes três legislaturas que, no total, montaram um quadro de oito anos. “Se me perguntarem se eu achava quando comecei na AEIST que ia ter um percurso tão político, diria que não. Não era esse o meu objetivo, porque eu estava a estudar Engenharia e era esse o meu objetivo.” Descarta a teoria de que haja alguma correspondência direta entre o associativismo e a política, exemplificando tratar-se do único colega de que tem conhecimento, além do seu antecessor, Jean Barroca, a fazer esta carreira. “A verdade é que nos últimos anos tenho passado mais tempo a fazer política do que propriamente a fazer Engenharia. Estas coisas não acontecem porque nós planeamos, acontecem porque vamos tendo gosto, vamos sentindo vontade de fazer. […] Também há muita sorte envolvida. Eu quando fui eleito pela primeira vez deputado à Assembleia da República, na verdade, não fui eleito, fui o primeiro a não ser eleito [no círculo eleitoral], mas entretanto depois formou-se um governo que não se estava à espera em 2015 e acabei por ser deputado nessa legislatura durante 4 anos. Portanto, estas coisas às vezes estão associadas a eventos que nós não controlamos minimamente, mas a vida vai nos empurrando.” Durante os seus anos de serviço àquele que é o segundo órgão de soberania do país, saltou de comissão em comissão, varrendo matérias desde a educação e o ensino, à saúde em tempos de pandemia até aos negócios estrangeiros, numa fase mais tardia. “Eu recordo-me que a comissão de finanças era uma comissão onde era preciso gente para trabalhar. Eu vim da área das engenharias, logo as finanças não são algo propriamente muito esotérico.”

Ainda como deputado, foi Presidente da Assembleia Municipal de Almada, dito por outras palavras: “presidente do parlamento local”, e nas autárquicas de outubro de 2025 saiu vereador do mesmo município. “Somos onze e destes onze, apenas sete têm responsabilidades, aquilo a que habitualmente chamamos pelouros.”

“Somos o Governo da cidade.” Por mais que agora trabalhe para servir uma escala menor, não afasta responsabilidades e, pelo contrário, vê mais contiguamente os resultados da sua atividade. “A Câmara Municipal de Almada está no top 10 das maiores câmaras municipais do país. Temos um orçamento [anual], que aprovamos há pouco tempo, de 209 milhões de euros, que é um orçamento grande, face à realidade portuguesa. […] O trabalho autárquico é diferente do que se faz a nível nacional, desde logo pela proximidade. Numa cidade as pessoas conhecem-se e abordam-te na rua. Ainda hoje estava num restaurante e pediram-me para ir falar com a senhora da farmácia ao lado. Obviamente eu fui e estivemos lá a resolver o problema.”

Nisto, apesar de se tratarem de mundos distantes, encontra paralelismos com a sua experiência no Técnico: “Na AE procuras melhorar o dia-a-dia, não só o teu, mas das pessoas que estão à tua volta. O que eu faço hoje, durante o dia, a tempo inteiro, é procurar que a minha cidade esteja melhor, nas responsabilidades que tenho.” Nestas responsabilidades, nota todo o preparo que outras aventuras no Parlamento lhe deram. “Na Câmara Municipal de Almada, tenho, por exemplo, as finanças, a comunicação, a economia e o turismo como minhas responsabilidades. São áreas onde por acaso eu já trabalhei no Parlamento.”

Sem nunca se prender à sua formação ou ao encargo anterior, tem uma filosofia constante. “Às vezes as coisas não são lineares. Há 10 anos atrás, se me perguntassem se eu seria vereador das finanças na Câmara Municipal de Almada, eu diria que provavelmente não. Hoje em dia é a coisa que faço, que gosto e que procuro fazer cada vez melhor.” Estes novos gostos espelharam-se também na educação que, anos após o IST, procura. “Entendi numa determinada fase que era importante estudar outros temas, nomeadamente Gestão Empresarial. Neste momento, estou a fazer uma pós-graduação em Gestão Autárquica, porque sou vereador há poucos meses e achei que era bom ir estudar alguns temas. Pelo meio eu tirei uma formação em estudos avançados em Geopolítica.” Ao que recicla o seu raciocínio, mas direcionando-o para o núcleo: “As coisas não são lineares, porque é que estudantes de engenharia se interessam por jornalismo? Porque nós não somos só um só e se calhar felizmente. Eu não gostava de só fazer Engenharia, francamente.”

No campo dos desafios, procurou-se saber se o desinteresse pelo universo que rodeia uma associação de estudantes é um tema atual. “Muitas vezes olhamos para o passado como se fosse o tempo em que as coisas aconteceram de uma forma perfeita. Quando eu fui presidente da AEIST, há cerca de 15 anos, já se dizia que os alunos não participavam tanto como participavam antigamente. Houve uma eleição, antes de eu ser eleito presidente da AE, em que a direção foi eleita com 200, 300 votos, o que para o universo Técnico é muito pouco. Obviamente que isso é um problema, mas se tu quiseres transpor isto para outras unidades, se calhar é um problema que é transversal à sociedade. A sociedade também se mobiliza mais quando há problemas. Estão mais paradas, às vezes é sinal de que não existe grande descontentamento.” Salvaguarda, no entanto, os tempos de crise – que se viveram pouco após a sua presidência – em que na existência de pressões socioeconómicas não há tempo a despender com associativismo ou núcleos. 

Ainda no Técnico, há um evento monumental de que pôde ser agente. Aquando da sua eleição para o Conselho de Escola, em 2008, participou em discussões onde ecoava a intenção de se fundir a Universidade Técnica e a Universidade de Lisboa (UL). “Já havia alguma complementaridade entre o Técnico e Medicina, porque nessa altura já o curso de [Engenharia] Biomédica era feito a meias.” Transportado para 2012, foi decretado que esta nova UL surgisse.

“A Assembleia Estatutária da nova Universidade foi aprovada, que resultou da fusão dos dois Conselhos Gerais. Eu na altura já fazia parte do Conselho Geral da Universidade Técnica de Lisboa e, portanto, acompanhei de perto esse trabalho.” Aquilo que considera um “projeto vencedor” diz ter sido o motor para que as instituições alcançassem agora lugares na escala que isoladamente não conquistariam. “Acho que foi um projeto interessante e que raras vezes se vê em Portugal, porque habitualmente cada um quer ter a sua capelinha.”

Outra frente de batalha, onde por vezes foi vitorioso, foi na da diminuição das propinas. Nesta, descarta dar os louros exclusivamente ao associativismo ou aos agentes políticos, mas é de notar que se fez ouvir particularmente enquanto Secretário-Geral da Juventude Socialista. “Nós trabalhámos muito para duas coisas. Éramos contra a existência de propinas no primeiro ciclo, da mesma forma que não se pagam propinas no ensino secundário. O outro tema, sobre o qual nunca conseguimos ter avanços, mesmo com governos do PS,  era o facto de nós hoje termos propinas de segundo ciclo, cujo valor é enorme e causa uma verdadeira desigualdade. Tentámos sensibilizar os decisores e as faculdades, mas, nesse campo, não tivemos grande sucesso.” Em resposta a qual considera ser o papel atual da discussão das propinas, num panorama onde não é esse o maior dos males, guia-se pela lógica de não atear fogo a uma casa a queimar. “Eu acho que o Estado não deve adicionar um problema aos problemas que já existem. Quando as propinas, em 1991, passaram de mil escudos para cinquenta e tal contos, aquilo que foi dito é que esse dinheiro seria usado para melhorar a qualidade do ensino das universidades. Obviamente, deixou de ser para projetos de melhoria da qualidade do ensino e passou a ser usado para despesa corrente das instituições, ou seja, para pagar aos funcionários, para pagar as questões da limpeza, para pagar as obras. Foi aquilo que foi prometido na altura que não aconteceria”, argumentando que se instaurou uma dependência nas receitas da propina para o bom funcionamento destas instituições. A sua resposta a este problema é um aumento do investimento no Orçamento do Estado, para que as decisões de levantamento das propinas do segundo ciclo sejam tomadas. “Hoje em dia há muitas profissões para as quais só se consegue exercer com um curso superior. Uma empresa hoje, se tiver que escolher entre alguém que tem o segundo ciclo ou que não tem, muitas das vezes escolhe alguém que tem o segundo ciclo. Cria uma desigualdade à partida, e eu não convivo bem com esse tipo de desigualdades. Nós já sabemos que a sociedade está cheia de desigualdades, mas a função do Estado é tentar corrigi-las. O Ensino Superior e a Educação são uma das maiores ferramentas que o Estado tem para corrigir desigualdades. E para além de que estudar não tem apenas a ver com a obtenção de um emprego. Se nós tivermos uma população mais qualificada é um ganho para a sociedade.”
Em tom de conclusão, e por iniciativa própria, Ivan Gonçalves reflete sobre aquilo que é a sua alma mater. “O Técnico é uma escola que nos deixa marcas para a vida e ter feito parte da AEIST foi uma experiência fantástica. Foi, talvez, o ano da minha vida em que eu mais aprendi, em que mais cresci e tive a oportunidade de me desenvolver como pessoa e como cidadão. Foi fundamental para aquilo que eu fiz a seguir, para aquilo que eu estou a fazer agora e para aquilo que eu ainda gostava de fazer na minha vida, seja a nível político, profissional, pessoal, mas até como cidadão. Ou seja, eu acho que quem participa no movimento associativo, e aqui incluo também as secções autónomas e a parte desportiva, quem faz parte desta comunidade académica faz com que nós sejamos melhores cidadãos e que nos preocupemos com o bem comum.

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