Autoria: Madalena Bento (LEBiol), Manuel Botelho (LEFT)
Desde a possibilidade de conquistar qualquer ponto no horizonte, auxiliado pela sua prancha, aos problemas com Eletromagnetismo, João Rodrigues é a prova viva de que com dedicação é possível conciliar o alto rendimento desportivo com os estudos.
A paixão pelo windsurf nasce muito antes de sequer sonhar em representar Portugal em sete edições dos Jogos Olímpicos. Aos nove anos conseguiu “ter força para levantar a vela e deslizar em cima do imenso azul, movido por algo que não se vê, que apenas se sente”. Este sentimento pelo desporto, aliado à busca pela perfeição, foi a razão para ter conseguido, aos 44 anos, qualificar-se para os seus sétimos e últimos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016.
No entanto, o movimento olímpico aparece na sua vida logo em 1992 quando se qualifica pela primeira vez para este evento. Ao entrar no estádio olímpico de Barcelona, percebeu que “os Jogos eram mais do que uma manifestação meramente desportiva, eram também um palco onde se cruzavam culturas diferentes, crenças diferentes, pessoas com ideias e valores completamente distintos”. Para além disso, o velejador admite que a participação olímpica o fez “ter uma vida com significado, à procura de valores que eram os que os Jogos partilhavam e faziam sentido, até como futuro engenheiro na altura.”Isto porque para além de ser atleta de alto rendimento, João frequentava simultaneamente a licenciatura em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico.
O início do seu percurso no Técnico não foi estranho a turbulência, visto que foi marcado por “uma greve de meses, devido a uma grande contestação por parte dos professores” em relação à Prova Geral de Acesso (PGA) – resultando no adiamento de um semestre. Se por um lado este atraso implicou que todos alunos tivessem de “fazer um ano num semestre”, por outro permitiu que, durante esse período, João se dedicasse totalmente ao windsurf. Este semestre completamente dedicado aos treinos deu-lhe a bagagem suficiente para, um ano depois, se conseguir qualificar para os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992.
Ao voltar de Barcelona percebeu que queria repetir a experiência de participar no maior dos palcos desportivos. Chegou, assim, à conclusão que teria de tomar medidas drásticas para conseguir conciliar o seu percurso desportivo e académico. Por isso, durante 3 anos guardou num armário a sua maior fonte de distração, “a caixa mágica, a televisão”, admitindo que durante esse período “a única coisa que eu fiz, basicamente, foi andar de prancha e estudar.”
Contudo, no Técnico havia um pensamento que o assombrava: “Se eu disser que sou atleta de alta competição, eu vou arranjar problemas aqui”. Este receio baseava-se no aviso de um docente, que sublinhara que “esta era uma instituição muito exigente e que não havia lugar para atletas de alta competição”. Ainda assim, no Técnico encontrava semelhanças com o windsurf. “Houve cadeiras aqui: Mecânica de Fluidos, Aerodinâmica, etc., tudo cadeiras que, no fundo, eu olhava para aquilo e percebia «ah, realmente é por isto que as pranchas andam para a frente»”. Esta relação era simbiótica, pois “o desporto deu-me também esta capacidade de estabelecer objetivos desde muito cedo.”
Por existir esta complementaridade entre o mundo académico e desportivo, reconhece que “há todo um processo que está a ocorrer em Portugal no sentido de perceber que os atletas podem ser mais do que simples atletas.” Para além disso, estes desportistas “um dia vão acabar a sua carreira e vão precisar de continuar a pertencer à sociedade”. Neste sentido, destaca iniciativas como as “unidades de apoio ao alto rendimento, onde escolas secundárias visam proporcionar aos atletas condições para que eles possam conciliar as duas coisas.” A importância destes apoios é reconhecida pelo windsurfista dado que, também para ele, existiram períodos em que só foi possível prosseguir a sua carreira desportiva porque “já tinha financiamento” que lhe garantia autonomia.
Relata também que a sua carreira desportiva nem sempre foi feita de sucessos, referindo que “embora eu tenha tido algum sucesso em campeonatos do Mundo e da Europa […] nos Jogos Olímpicos isso nunca se manifestou.” Nestes momentos, quando a frustração o assolava, recordava-se “do momento inicial: Por que é que eu estou a fazer isto? O que é que me move a continuar a ir para o mar todos os dias? É porque eu quero um resultado em específico ou porque eu quero procurar e criar a melhor versão de mim mesmo? E eu sempre percebi que era a melhor versão de mim mesmo que eu queria.” Para além disso, apesar de reconhecer que deu “tudo o que tinha para dar”, alerta para o facto de que “às vezes as coisas não correm como nós queremos”.
Nos jogos do Rio de Janeiro em 2016, finalmente percebeu a razão para as lágrimas do atleta irlandês que viu chorar na cerimónia de abertura em Barcelona 1992. Concretizou, passado 24 anos, que “aquilo não eram lágrimas nem de tristeza nem de alegria, era algo mais profundo, mas sim o que implica chegar [aos Jogos], o que implica depois continuar lá durante tanto tempo”.
Relativamente à forma como encarou o final da sua carreira desportiva, admite que teve tempo para digerir a despedida, visto que, inicialmente, planeava fazê-la aos 40 anos em Londres 2012. Todavia, quando anunciaram que os Jogos de 2016 iam ser no Rio de Janeiro, decidiu adiar a sua reforma desportiva. Apesar de ter esta vontade, reconhece que “da mesma forma que eu tive imensas dificuldades em me qualificar para Barcelona, eu tive imensas dificuldades, por razões completamente opostas, para me qualificar para os jogos do Rio.”
Uma vez que, ao longo dos anos, notava que “precisava de mais tempo para recuperar e se preparar.”
Embora estes 4 anos tenham sido essenciais para não sofrer o Olympic Blues[1], este processo foi facilitado, curiosamente, pelas palavras que um professor do Técnico lhe transmitiu: “Nós temos aprendido aqui imensas coisas. Equações diferenciais, física quântica, coisas assim […] mas, na nossa vida como profissionais, a maior parte de nós não iria usar quase nada daquilo.” Destaca que esta afirmação se comprovou verdadeira: “As contas que eu fazia enquanto engenheiro eram ‘um mais um igual a dois’ ”. Todavia, enfatiza que o professor lhes incutir a noção que “vão estar aptos a aprender qualquer coisa”. Por este motivo, quando o desafiaram a ser Diretor Regional da Juventude e o incentivaram a candidatar-se à presidência da Comissão de Atletas Olímpicos, não hesitou em aceitar o desafio.
O papel como Presidente da Comissão de Atletas Olímpicos permitiu-lhe continuar ligado ao movimento olímpico e “devolver um pouco daquilo que tinha ganho”. Ademais, este cargo permitiu-lhe ser convidado para estar presente nos Jogos de Tóquio em 2021, experiência que descreveu no seu livro, OITO – Os Jogos Olímpicos por dentro, já que a sua função era “simplesmente estar e tinha livre acesso a todos os sítios”. Este gosto pela escrita iniciou-se bem antes de Tóquio quando, em Pequim 2008, é incentivado pela família a relatar o seu dia-a-dia, depois de lhes ter enviado “dois parágrafos” a descrever o seu hotel. Ao seguir os conselhos dos seus mais próximos, descobre que a escrita “era uma forma também de ordenar o pensamento e de perceber como é que [se] estava a sentir num determinado sítio.” Assim sendo, acaba os Jogos com “um texto que dava para escrever um livro”, que é publicado e ao qual, atualmente, se juntam mais três.
Nos últimos anos, João Rodrigues, para além de se ocupar a gerir a sua própria escola de windsurf, ainda desempenhou o papel de Embaixador da Ética no Desporto. Neste, sensibiliza para problemas como o doping ou a manipulação de resultados, alertando para o facto de existirem inúmeros casos “de atletas que viram as suas carreiras destruídas por causa disso”.
Durante a sua vida vestiu muitas peles: “de estudante de secundário, de velejador que não queria ir a lado nenhum, que só queria andar de prancha todos os dias se possível, até um velejador olímpico, um engenheiro, depois um diretor regional”. Ao fazer o balanço de todo o seu percurso, João constata: “Não vivi a vida que me quiseram impor, foi uma escolha sempre minha e que valeu a pena”. Por isso, repara que “se voltasse atrás, faria exatamente a mesma coisa.” Neste sentido, transmite o desejo de que “toda a gente pudesse ter uma vida com significado e que lhes faça sentido.”
[1] O Olympic Blues é o estado de desânimo que assola os atletas quando se faz a transição de uma carreira desportiva – nomeadamente uma carreira olímpica – para a reforma. Este sentimento decorre do fim repentino de uma carreira “extremamente exigente, muito intensa, muito absorvente”.




