Mãe, já tenho onde dormir: O PNAES da UL assegura 1498 camas até ao final de 2026

Autoria: Ângela Rodrigues (MEFT) e Beatriz Monteiro (LEBiom) 

De modo a apurar o nível de execução do Plano Nacional para o Alojamento do Ensino Superior (PNAES) relativamente às Residências de gestão dos Serviços de Ação Social da Universidade de Lisboa (SASUL), o Diferencial entrevistou Pedro Simão e Zélia Abegão, Administrador e Diretora de Serviços dos SASUL, respetivamente.

A crise da habitação em Lisboa para um estudante universitário

De acordo com os dados do PNAES, no ano letivo 2021/2022, em Portugal, existiam, na totalidade, cerca de 15 mil camas nas Instituições de Ensino Superior, o que traduzia uma cobertura de cerca de 13% quando comparados com os cerca de 120 mil estudantes deslocados no Ensino Superior Público. Este número, manifestamente pequeno, aliado aos acentuados aumentos no custo de vida nos grandes centros urbanos, como Lisboa, não só não assegura as necessidades dos estudantes, como prejudica os mais vulneráveis social e economicamente.

Das 93 instituições de Ensino Superior existentes em Portugal, Lisboa concentra 29, o que torna a cidade num destino escolhido por muitos que querem prosseguir os seus estudos. Contudo, segundo o Observatório do Alojamento Estudantil, que tem como um dos principais objetivos identificar diariamente a oferta privada de alojamento para estudantes, Lisboa é também a cidade com quartos para arrendamento mais cara do país. O preço médio por quarto localiza-se nos 500 euros por quarto, sendo que o valor mínimo se situa nos 250 e o máximo nos 945 euros.

É relevante salientar que, de acordo com o Portal Infocursos 2025, da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), o número de estudantes que abandonou o Ensino Superior após um ano de frequência voltou a aumentar, com 13,2% dos novos alunos a deixarem de estudar. Em 2024, esta percentagem situava-se em cerca de 11%.

O PNAES

Numa tentativa de tentar diminuir um dos maiores obstáculos no acesso ao Ensino Superior, o Governo lançou um programa de investimento dedicado ao alojamento estudantil, no âmbito do Plano de Resolução e Resiliência (PRR), que tem como objetivo aumentar a oferta de alojamento a preço acessível para os estudantes.

As operações passíveis de obter financiamento foram: construção de novos edifícios; aquisição de edifícios para adaptação que passam a ser utilizados como alojamento para o Ensino Superior; adaptação de edifícios que passam a ser utilizados como alojamento para o Ensino Superior, não o sendo anteriormente; renovação de edifícios já utilizados como alojamento para o Ensino Superior.

Através de uma dotação inicial de 375 milhões de euros, no âmbito do PRR, e de um suplemento de 72 milhões, foram contratualizados 119 projetos para reforçar e reabilitar mais de 18 mil camas em 53 concelhos, sendo o objetivo chegar ao final de 2026 com mais de 26 mil camas para estudantes. Destas 18 mil, 5857 correspondem a camas novas, 5842 são adaptações, e 6444 renovações.

Na Universidade de Lisboa

A cessação de contratos de arrendamento por parte dos proprietários tem originado o encerramento de algumas residências da Universidade de Lisboa. Entre 2014 e 2024, 11 residências dos SASUL fecharam portas e, mais recentemente, no final de 2025, a Residência Egas Moniz, localizada no Saldanha, foi também encerrada. 

“A residência [Egas Moniz] teve de ser encerrada porque o senhorio, que inclusive quis meter-nos em tribunal, quis a residência de volta. Nós empurrámos o mais que pudemos para mantermos a residência mas, o edifício ali, vale muitos milhões, e tivemos mesmo de acabar por entregá-lo”. No entanto, Pedro Simão ressalva que todos os alunos da residência Egas Moniz mantiveram a cama, já que, uma vez atribuída a vaga, esta é mantida a menos que o estudante desista da vaga ou termine a sua formação. Para além disso, os SASUL procuraram colocar os estudantes nesta situação “nas residências para onde quisessem ir”. 

O problema da falta de camas adensa-se quando verificamos que a Universidade de Lisboa é composta por um número considerável de estudantes deslocados. De acordo com um relatório do PNAES, no ano letivo 2021-2022, cerca de 31% dos estudantes da ULisboa eram deslocados. No entanto, tal como foi noticiado pelo Diferencial, em fevereiro de 2024, as camas dos SASUL só serviam 3% dos estudantes da universidade, ficando muito aquém do número de estudantes deslocados.

No corrente ano letivo, os SASUL tiveram 3071 candidatos às residências universitárias, alojando um total de 2019 estudantes, entre camas próprias (1701) e protocoladas (60, sendo que 44 destas são em Pousadas da Juventude). Destes, 1128 são alunos bolseiros. A diferença entre o número de alojados e de camas é o resultado de vários alojamentos terem durações mais curtas do que o ano letivo, por exemplo relativos a alunos de Erasmus ou do Polo da ULisboa em Xangai.

No âmbito do PNAES, estão a ser construídas duas residências para a ULisboa: a residência António Cruz Serra e localizada perto da Cidade Universitária, a Residência Campo Grande. Foi também construída a residência Manuel da Maia, localizada junto do IST, pertencente à Câmara de Lisboa, mas cuja gestão é da responsabilidade dos SASUL. A residência António Cruz Serra será composta por três edifícios, sendo que ainda só um destes está construído. Terá capacidade para alojar 901 estudantes e contou com um financiamento de 29 422 155€

“Um edifício já está construído e ocupado” e tem capacidade para alojar 335 estudantes. “Agora faltam dois edifícios  que estão a ser construídos. As obras são todas levadas a cabo pela reitoria e depois cedem-nos quando a obra está  acabada. De acordo com o que nós julgamos saber, a obra está dentro do calendário e em princípio será concluída até ao dia 31 de agosto de 2026”.

A residência Campo Grande, também corresponde a uma nova construção, tem um financiamento correspondente a 3 983 910€. Esta residência também se encontra em construção, e, em princípio, começará a alojar 122 estudantes no último trimestre do ano corrente.

A residência Manuel da Maia obteve um financiamento de 10 449 600€ para a construção de 320 novas camas destinadas a alunos da ULisboa e de outras instituições de Ensino Superior da cidade, que tenham protocolo estabelecido com os SASUL. Esta é a única residência pertencente ao Município de Lisboa, mas está sob a alçada dos SASUL e começou a alojar estudantes desde setembro de 2024. 

“A [residência] Manuel da Maia foi uma residência construída pela Câmara Municipal de Lisboa, que foi disponibilizada para a Academia de Lisboa. E escolheram-nos a nós para a gerirmos.”

A Residência Ventura Terra foi também intervencionada, sendo que a inauguração da 2.ª fase ocorreu em novembro de 2024, tendo agora capacidade para alojar 307 estudantes. Este projeto contou com um financiamento de  2 419 389.77€

Com a integração da Escola Superior de Enfermagem (ESEL) na Universidade de Lisboa desde maio de 2025, a sua residência, no polo Calouste Gulbenkian, será cedida aos SASUL para gestão e deixará de acolher apenas alunos de Enfermagem. Esta residência conta com 155 camas reabilitadas com um financiamento de 1 564 415€, também no âmbito do PNAES. 

“Será uma residência como as outras todas. Todas as residências que nós temos são pluriculturais. O facto de não termos residências monoculturais, de considerarmos que vos faz muito bem misturarem-se e conhecerem várias realidades e alunos de outros cursos, com outras preocupações e até com outras formas de ver a vida, muitas vezes.” 

Apesar desta “pluriculturalidade”, os SASUL tentam ao máximo alojar os estudantes próximos das suas faculdades. “E nós, é claro, procuramos que, por exemplo, na Manuel da Maia estejam principalmente alunos do IST (uma vez que esta se localizam a cerca de 200 metros de distância), mas aí não é monocultura porque têm alunos de todas as outras universidades. Mas aqui, na António Cruz Serra, procuramos que tenham alunos de Medicina, de Direito, de Letras, portanto, misturá-los a todos, mas com alguma racionalidade.” Pedro Simão acrescenta ainda que “todos os alojados têm um técnico de ação social que toma conta deles. E, por exemplo, você é do Tėcnico e agora fui obrigado, por qualquer razão, a alojá-lo no campus da Ajuda. Você diz: «ah, aquilo é terrível porque depois não tenho autocarros e tenho trabalhos até tarde». Se calhar, naquele ano, era o que havia, foi onde conseguimos encaixar. No ano seguinte, se calhar, já conseguimos mudar.“

A totalidade do investimento no âmbito do PNAES, incluindo também a residência da ESEL, traduz-se num aumento de 1498 camas até ao final de 2026. Deste modo, os SASUL terão sob a sua alçada 2544 camas. Neste número não se encontram as 60 camas protocoladas que resultam de uma iniciativa do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, chamada de “Alojamento Já”. De acordo com os SASUL, a iniciativa será renovada para o próximo ano letivo, pelo que, enquanto esta se mantiver, manter-se-ão as camas protocoladas.

Zélia Abegão reforça ainda a importância de os alunos deslocados concorrerem às residências dos SASUL, independentemente de serem ou não bolseiros: “Devem-se candidatar porque, depois [de alojarmos os alunos bolseiros], passamos aos não prioritários. E devem, porquê? Porque ainda que nós, no princípio do ano letivo, tenhamos as camas todas absorvidas pelos bolseiros, há muitos moços que terminam os estudos muitas vezes em novembro, dezembro, e nós chegamos a janeiro e começamos a ter camas vagas. E aí é só aguentar um trimestre no privado, depois nós temos camas disponíveis.” A Diretora de Serviços dos SASUL volta a frisar que “a partir do momento em que [os estudantes] têm uma cama, mantêm a cama até desistir [da vaga] ou terminar o curso.”

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