O Clube de Filosofia do Técnico: o lugar para questionar o porquê

Autoria: Daniela Marreiros (LEQ)

No passado dia 13 de novembro, ocorreu a inauguração do Clube de Filosofia do Técnico (CFT), onde foram introduzidos dilemas filosóficos relacionados com a ética. Fundado por alunos do 3º ano de Licenciatura em Engenharia Física Tecnológica (LEFT), o clube tem como objetivo preencher uma lacuna existente no Técnico, a que permite perguntar o porquê.

A sessão de apresentação foi moderada por João Paulo, onde este começou por fazer uma breve apresentação do clube e iniciou debates com a plateia sobre ética, recorrendo a várias interpretações do Trolley Problem

Apresentação do CFT | Fotografia: Daniela Marreiros

A inauguração foi marcada por uma pergunta à audiência, “o porquê” de alguns “jovens que com tantas coisas que podiam ter feito […] decidiram criar um Clube de Filosofia? Não tinham mais nada para fazer? Porquê?” O orador, João Paulo, concluiu que “há poucos porquês a serem feitos.” Especialmente “aqui no Técnico […] chegámos ao consenso de que de facto era importante haver um espaço onde o porquê é posto como uma pergunta de excelência.” 

Após a apresentação, em entrevista ao Diferencial, João Paulo explicou como surgiu a ideia de criar o clube: “A filosofia sempre foi uma paixão que muitos de nós tivemos e isso revelava-se muitas vezes nas conversas que nós tínhamos […] entre amigos achámos que eram importantes ser abertas a mais pessoas […] aquelas conversas eram importantes não só para nós mas também para a formação de jovens engenheiros.” Emergiu desta forma o CFT, com o objetivo de “criar, de facto, este espaço aberto em que cada um pode expor aquilo em que pensa, em que acredita e termos conversas descontraídas sobre isso”.

O entrevistado, em nome do clube, admite que se estão a propor a “uma tarefa megalómana” mas “é um bom desafio que queremos abraçar com muita alegria e entusiasmo”. Referiu, ainda, que “não queremos que o clube seja uma tasca em que cada um diz as suas opiniões. Queremos que seja um local onde há pessoas que sabem mesmo da filosofia que vão falar”. Assim, comprometem-se a criar um espaço que permita “pensar a fundo” e acabar por “pôr em causa aquilo em que acreditamos e aquilo que defendemos”.

Logotipo do CFT | Fonte: CFT

Apesar de poderem parecer semelhantes num instante inicial, são várias as diferenças apresentadas pelo João entre o CFT e o Técnico Debate Clube: “analisando um bocadinho o Clube de Debate, do que me parece, é muito voltado para a política, para palestras. Existe alguém a falar e a audiência, digamos assim, ouve. No final há uma pergunta ou outra, mas acho que acaba nisso.” A filosofia vai para além da política, “mas também queremos que quem vem ter connosco tenha um papel ativo nas nossas apresentações”. Este mote sentiu-se na primeira apresentação, “em que foi algo dinâmico, quem estava a ver participava e fazia perguntas, às tantas já havia conversa entre pessoas da plateia”, debates estes que se estenderam no coffee break. Sendo assim, “não queremos que o Clube de Filosofia se acabe na apresentação de argumentos, queremos que a assembleia participe, que esteja connosco a discutir numa forma mais livre”

 “As questões mais importantes da nossa existência que parece que cada vez mais não são feitas. Nota-se cada vez mais um medo em fazer estas perguntas.” Esta ideia é comprovada por um estudo desenvolvido pela Universidade de Virgínia em 2014 [1], exemplo apresentado na inauguração, em que vários homens “foram postos em silêncio e a única função que tinham durante esses 15 minutos era sentarem-se e estarem parados, mas tinham a possibilidade de carregar num botão que lhes dava [dolorosas] descargas elétricas”, enquanto seguros. “Cerca de 70% dos homens decidiu carregar no botão e a conclusão do estudo é que o silêncio assusta, as perguntas assustam. No silêncio é que costumam surgir as perguntas mais existenciais da nossa vida. 

“Porque é que eu trabalho naquilo que trabalho? Porque é que eu estudo onde estudo?

Ou porque é que amo alguém? Não sei, as perguntas mais fundamentais. Estou aqui? Ou para onde vou? Tantas perguntas, essas questões magoam e assustam cada vez mais, e portanto enchemo-nos com estímulos. Também gostávamos que o Clube de Filosofia fosse aqui um bocado contra a maré desta tendência […] que fosse de facto um lugar onde desse para pensar sobre as questões que mais importam na nossa vida.

Nas próximas sessões o objetivo é “que pessoas interessadas e que estudem sobre um tema, possam aprender e depois partilhar com o resto do grupo, e assim ir aprendendo uns com os outros”. Outro objetivo é “procurar um bocadinho por outras pessoas que percebam de filosofia e que nos possam vir ensinar”, por exemplo, convidando docentes do Técnico. “Vários professores já demonstraram interesse”, até mesmo filósofos. 

As sessões serão organizadas com um “período de exposição”, seguido por um período de debate. No entanto, João afirma que estão disponíveis para “formatos de debates diferentes do usual”, como por exemplo um “speed-dating de debates”, onde os participantes vão “rodando nas mesas” cada uma com um tema diferente e têm dois minutos para o discutir.

Os encontros decorrerão de 15 em 15 dias ou de 3 em 3 semanas, tendo em conta os “períodos em que é impossível, porque há testes, há exames, há pausas, há feriados […] eventualmente se for uma altura de exames muito complexa, de mês a mês. Contudo, gostávamos de ter alguma regularidade”.

Referências:

[1]-https://www.science.org/content/article/people-would-rather-be-electrically-shocked-left-alone-their-thoughts (acedido pela última vez a 21/11/2025)

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