Autoria: Catarina Curado (LMAC)
Manuela Veloso, hoje uma referência mundial na robótica e inteligência artificial e professora na Carnegie Mellon University, começou o seu percurso no Instituto Superior Técnico. Numa entrevista ao Diferencial, a cientista da computação recorda o seu percurso académico e reflete sobre a evolução da sua carreira até à investigação de ponta.
Manuela Veloso entrou no Instituto Superior Técnico no ano letivo de 1975/1976, logo após o 25 de abril. Antes de entrar, recorda-se de ter participado no apoio aos retornados, no âmbito do serviço cívico obrigatório da altura. Foi ao entrar no Técnico que teve as primeiras disciplinas teóricas: “Álgebra I, II e III, Cálculo I, II, III e IV, Comunicações, Circuitos e Computação”. Lembra-se também das Reuniões Gerais de Alunos (RGA): “nós saíamos, no meio das aulas para ir para a RGA. Havia muita parte política ligada à educação”. O primeiro ano foi, segundo descreve, pouco estruturado, com uma avaliação pouco rigorosa, baseada em classificações de A, B e C. “No segundo ano, em 76/77, já foi perfeitamente normal.” Destaca ainda o grande número de trabalhos de grupo e o espírito colaborativo entre os estudantes.
Manuela recorda-se de passar os dias a estudar no Técnico, num curso altamente exigente, com pouco espaço para disciplinas humanísticas. No seu último ano da licenciatura, foi monitora. “Eu tive a sorte de, no último ano, ter sido monitora. Eu dava umas aulas, sendo monitora e depois fiquei a fazer investigação no Centro de Análise de Processamento de Sinais, atrás do Complexo Interdisciplinar.” Após essa temporada a dar aulas, decidiu fazer a tese de mestrado numa empresa, onde o seu objetivo era automatizar a lista de tarefas, as vendas e as compras. “A primeira vez que saiu a lista de peças automaticamente na impressora, estávamos todos a olhar para aquilo. Foi uma alegria. «Meu Deus, como é que esta lista de peças foi gerada automaticamente?» Foi uma revolução, esta capacidade de gerar informação automaticamente.”
A paixão pela robótica veio desta experiência, que depois se mostrou crucial no resto da sua carreira que continuaria nos Estados Unidos. “Eu fiz robótica toda a minha vida por causa deste conceito de autonomia, de serem completamente autónomos e de serem capazes de fazer a perceção, com as câmaras, com os sensores. De serem capazes de pensar. […] A minha paixão pela robótica não vem da ficção científica. Vem deste conceito de liberdade.”
Manuela foi para a Universidade de Boston em 1984. Como em Portugal não havia o mestrado em Ciências da Computação e queria fazer um segundo para complementar a sua formação, decidiu acompanhar o marido e mudar-se para os EUA. Revela que “o salto do Técnico para a Boston University foi muito interessante”, pois foi nesta altura da sua vida que aprendeu a ser mais pragmática. “No Técnico, nós nunca fazíamos o trabalho de casa no prazo que nos davam. O que interessava era fazer bem. Quando eu cheguei aqui aos Estados Unidos, nas primeiras cadeiras que tirei, havia trabalhos de casa e havia prazos. […] E foi uma grande aprendizagem, porque eu no fundo era uma perfeccionista, era uma pessoa que só valorizava saber e não valorizava tanto produzir. Comecei a perceber que isto não era assim.”
Após ter terminado o mestrado, em 1986, decidiu candidatar-se ao doutoramento na Carnegie Mellon (CMU), pois ansiava trabalhar com uma professora da área da sua tese, Problem Solving by Analogy. Mudou-se para a Pensilvânia após ter realizado os Graduate Record Examinations, provas obrigatórias de acesso ao doutoramento. Segundo a professora, “a CMU foi um delírio. Era um ambiente só de interesse social. Herbert Simon, Allen Newell, Raj Reddy, Geoffrey Hinton. Eram tudo professores formidáveis, tudo professores cheios de ideias. Foi o melhor tempo intelectual da minha vida. […] O Raj Reddy demonstrou lá no anfiteatro o primeiro speech recognition system.” No final do seu doutoramento, recebeu uma oferta de emprego e, a partir desse momento, ficou a trabalhar na CMU, universidade onde trabalha há já 34 anos.
Quanto ao que levou da sua formação no Instituto Superior Técnico, a professora confessa que “o que eu trouxe para os Estados Unidos, do Técnico, foi a parte intelectual toda, o conhecimento das disciplinas, a Matemática.” Relativamente à sua filosofia de trabalho, Manuela Veloso conta-nos uma com que se deparou há uns dias, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, numa exposição de Wifredo Lam: When I Don’t Sleep, I Dream. Com isto, enfatiza a necessidade de explorar novas ideias, de criar e de continuar a pensar, nunca desligando completamente.
Quanto ao futuro da Inteligência Artificial, Manuela Veloso considera que se fala muito sobre este assunto, muitas vezes sem o perceber. “O mundo inteiro fala da inteligência artificial. Vai-se ao cabeleireiro, fala-se de inteligência artificial, está-se numa esplanada, fala-se de inteligência artificial. É uma coisa absolutamente overwhelming. A inteligência artificial, de uma maneira ou de outra, é a capacidade de usar computadores para fazer muita coisa.” A isto adiciona que considera que o futuro será muito diferente devido à grande automação que se vai instalar. “Eu penso que o futuro vai ter muitas coisas automatizadas. Estamos num mundo de transição para muito mais automatização. Como disse o Norbert Wiener, «we are not spectators of the future, but we are actors».”
A professora acaba a nossa conversa admitindo a grande admiração que tem pelo seu país, mostrando-se muito impressionada com os avanços tecnológicos e com as grandes automações que já circulam pelo país. “Nós temos a Via Verde que é formidável, temos o MBWay que é formidável, temos o gov.pt que tem lá tudo. Eu tenho uma alegria pessoal do ponto de vista da automatização. […] É impressionante as coisas que há em Portugal, são muito avançadas. Eu sinto que as pessoas não apreciam estas coisas tanto como eu.”




