Análise e reflexões sobre a Primeira Fase de Candidaturas de Mestrado do IST do ano letivo 2026/27

Autoria: Catarina Curado (LMAC), Luísa Sestelo (LEEC) e Madalena Bento (LEBiol)

Um total de 2515 estudantes candidataram-se às 2090 vagas disponíveis em mestrados do Instituto Superior Técnico na primeira fase de candidaturas deste ano letivo, que decorreu de 8 a 20 de março. O Diferencial analisou os resultados obtidos.

Entre os passados dias 8 e 20 de março decorreu a 1ª fase de candidaturas a mestrados no IST para o ano 2026/2027, à qual se puderam candidatar os estudantes de licenciatura (1º ciclo) que, até à data, tivessem concluído pelo menos 138 ECTS. Para além destes, ainda são elegíveis a este concurso titulares de grau de licenciado (ou equivalente legal) e titulares de um grau académico superior estrangeiro, que seja reconhecido pelo Conselho Científico. Todavia, este concurso não se destina a estudantes internacionais. 

As colocações definitivas desta 1ª fase foram publicadas no dia 27 de abril. Os alunos que não ficaram colocados nesta fase ou que não eram admissíveis à data ainda se poderão candidatar à 2ª fase, a decorrer entre os dias 22 de junho e 3 de julho, ou até à 3ª fase, com datas a anunciar.[1]

Documentação necessária para a candidatura

Todo o processo de candidatura decorre em formato digital na plataforma Connect. Para que esta seja validada, é necessária a submissão obrigatória em formato PDF do Curriculum Vitae e do certificado de habilitações discriminado com média, ou, em alternativa, uma cópia do suplemento ao diploma de 1.º ciclo. Também pode ser submetida documentação comprovativa da realização de atividades extracurriculares, que mais tarde poderá ser contabilizada no processo de seriação. Estes documentos deverão ser emitidos pela entidade onde são desenvolvidas estas atividades, indicando o período em que as mesmas foram realizadas e o número de horas despendido nas mesmas. Esta discriminação nem sempre foi necessária, mas, atualmente, permite que estes valores sejam convertidos numa valoração que varia entre 0 e 1, em que o valor 1 corresponde a cerca de 1680 horas (70 dias). 

Para alunos que, à data da candidatura, não tenham concluído o 1º ciclo de estudos, é também necessária a inclusão de uma declaração, sob compromisso de honra que acabarão a licenciatura, onde conste a sua média de 1.º ciclo.[2]

Processo de seriação 

Depois da submissão da documentação e do preenchimento de outras informações relevantes, é atribuída uma nota de candidatura que permitirá a seriação dos candidatos. Esta classificação é calculada da seguinte forma:

O coeficiente “afinidade”, A, pode ter um valor entre 0 e 1 que pondera a coerência científica entre o curso que o candidato frequentou anteriormente e aquele a que se candidata. A Natureza, N, reflete a qualidade do curso e/ou instituição de ensino superior de origem do candidato. “MFC” corresponde à média final de curso do curso concluído pelo candidato, na escala de 0 a 200. No caso de estudantes que ainda não tenham concluído a licenciatura são consideradas somente as unidades curriculares aprovadas até ao momento de candidatura. Finalmente, “B” é uma bonificação de até 10 pontos. Este ano o método de cálculo deste parâmetro foi alterado, sendo agora obtido através da fórmula:

sendo α é um fator de ponderação e Bax e Buc componentes de bonificação por atividades extra-curriculares e pelo trajeto curricular do candidato, respetivamente.[2]

Para que a candidatura seja confirmada é necessário o pagamento de um emolumento de 50 euros por cada candidatura efetuada, passando a ser cobrado o valor de 100 euros a partir da terceira. Depois de colocado, o aluno deve assegurar a sua vaga através do pagamento de uma taxa de 100 euros para a reserva da mesma, valor que será posteriormente descontado ao valor das propinas de mestrado. 

Análise do panorama “vagas vs. candidaturas”

Figura 1: Número de vagas e candidaturas à 1ª fase respetivas a cada mestrado

O gráfico seguinte evidencia diferenças significativas na procura entre os vários mestrados oferecidos no Técnico. Observando a razão entre candidaturas e vagas, as áreas com maior atratividade relativa são claramente as ligadas às tecnologias digitais, informática e ciência de dados. Entre os cursos com maior pressão de candidatura destacam-se claramente MEIC-A e MEIC-T, que apresentam cada um mais do dobro de candidaturas para as vagas disponíveis. No caso de MEIC-A, 408 candidatos para apenas 200 vagas e, no caso de MEIC-T, 211 para 95 vagas.

Na área da Economia e Gestão, MEGI mostra igualmente uma grande procura ao contabilizar 192 candidaturas para 96 vagas. Também Engenharia Biomédica evidencia elevada atratividade entre os estudantes, com MEBiom21 contabilizando 187 candidatos para 110 vagas. Consolidando-se como um dos cursos mais competitivos, quer na Licenciatura, quer na entrada para o Mestrado, MEAer21 apresentou 193 candidaturas para 142 lugares vagos. 

Onde para certos cursos há um cenário de grandes discrepâncias entre os números de vagas e o de colocados, para outros, a procura fica bastante abaixo do esperado. Estes costumam ser os cursos de um nicho científico, como são os casos de MEGM, com 8 candidatos para 27 lugares, MEP, com 6 candidatos para 25 lugares e MPSR (Proteção e Segurança Radiológica), com 4 candidatos para 12 lugares.

Um dos destaques deste ano é o mestrado de Engenharia e Ciência de Dados (MECD) que registou um aumento significativo do número de vagas, passando para 45 o que antes estava nas meras 25 vagas. Este aumento acompanhou a procura crescente dos últimos anos pelo Mestrado, que contabiliza 84 candidaturas, praticamente o dobro das vagas disponíveis. 

É importante referir que todos os mestrados cuja sigla termina em 21, correspondem a cursos que resultaram da reformulação dos antigos Mestrados Integrados do Técnico, na sequência da sua extinção em 2021. Com essa alteração, os ciclos de estudo passaram a estar separados em licenciatura e mestrado autónomo.

Evolução das vagas e candidaturas

Figura 2: Evolução do número de vagas e candidaturas à 1ª fase 

Relativamente ao número de vagas, pode-se verificar que as oscilações que existem não são muito significativas. No entanto, estas podem-se justificar, primeiro, por existirem cursos como o Mestrado em Física Médica (MFM) ou o Mestrado em Engenharia Farmacêutica (MEFarm) que são lecionados de forma conjunta com a FCUL e a FFUL, respetivamente e para os quais as candidaturas são feitas de forma alternada com a instituição parceira. Esta situação verificou-se nesta 1ª fase de candidaturas (2026/2027), mas não para o ano anterior. Contudo, a principal justificação para estas variações prende-se ao facto de o número de vagas dos cursos de continuidade, ou seja, aqueles que têm licenciatura equivalente, ser calculado através do número de candidatos do ano anterior majorado em 10%, permitindo que os estudantes de continuidade consigam entrar no curso, sem que se esgotem as vagas para outros possíveis candidatos, até ao limite de vagas aprovadas pela A3ES (Agência De Avaliação E Acreditação Do Ensino Superior). Para os restantes mestrados, o número de vagas é determinado conforme a avaliação da A3ES, baseada no corpo docente necessário e infraestruturas disponíveis para o bom funcionamento dos cursos. 

Nos últimos três anos verificou-se um aumento do número de candidatos à 1ª fase. Contudo, deve-se notar que os dados do ano de 2024/2025 “não podem ser diretamente comparáveis” com os dos anos seguintes, ressalva o Presidente do IST, Rogério Colaço. Isto porque, parte dos estudantes que ingressaram no mestrado nesse ano “não precisavam de se candidatar” por ainda terem entrado em regime de mestrado integrado, ou seja, antes da entrada em vigor do Decreto-Lei nº 65 de 2018. Acredita-se assim que só agora é que “estamos a chegar à origem estacionária”, depois de “um período de transição”, o que é corroborado pelo facto de 2025/2026 para 2026/2027 só ter existido um aumento de 7,5% dos candidatos. 

 No decorrer da análise destes dados o Presidente destaca que tem existido um aumento da “procura de estudantes que fazem o primeiro ciclo noutras instituições, nacionais e também internacionais”, constatando-se que em determinados cursos de 2.º ciclo estes alunos representam “mais de um terço” do total de vagas, destacando-se a Universidade Nova e o ISEL como as principais instituições nacionais de origem. Se por um lado podemos olhar para estes números como um sinónimo de reconhecimento de que o Técnico é visto como uma escola de “qualidade na sua formação e capacitação de estudantes”, pode-se também constatar que parte desta atratividade aparente se deve ao facto de “as propinas da maioria dos mestrados no Técnico [serem] inferiores às propinas de mestrado de todas as escolas congénitas.” Para além disto, este aumento de procura exterior ainda enfatiza o problema que se tem vindo a acentuar desde a desintegração dos mestrados, relativamente ao facto de “entre 20% a 30% dos estudantes [optar] por sair”, decidindo “terminar os seus estudos […] ou ir estudar para outra instituição”. Estes números apesar de serem “difíceis de rastrear” deviam ser alvo de reflexão desta instituição. Ao não estarmos a conseguir reter o talento dos estudantes de Licenciatura, acaba-se por dar espaço à entrada de estudantes de outras instituições, que noutra situação provavelmente não se candaditariam por saberem que a maioria das vagas seria ocupada por alunos de continuidade. Claramente que a entrada de novas pessoas promove a chegada de “novos talentos” porém, revela que os estudantes de Licenciatura não ficaram satisfeitos com o seu curso ao ponto de continuarem a realizar os seus estudos no IST. Apesar de o Presidente afirmar que está a ser feito trabalho no sentido de “se tentar desmontar um bocadinho a percepção que havia do Técnico, que é uma escola esmagadora”, a saída destes estudantes não auxilia na tentativa de desconstrução desta mesma visão.

Existem várias razões que motivam os alunos a prosseguirem os seus estudos noutra instituição, diferente daquela em que realizaram a Licenciatura. Alguns estudantes optam até por um país diferente, decisão que foi agilizada em espaço europeu pelo Processo de Bolonha. 

Em 1999, o Processo de Bolonha estabeleceu a Área Europeia de Ensino Superior (em inglês, EHEA). Tem como objetivo tornar a educação superior mais acessível e inclusiva, tornando a Europa mais atrativa para a continuação dos estudos superiores. Reformou e uniu o ensino superior na Europa, para além de facilitar a mobilidade dos estudantes que o programa Erasmus, criado em 1987, tinha trazido. Este programa foi criado com o intuito de aumentar a cooperação das instituições de ensino superior europeias através da mobilidade de alunos. Passadas quase quatro décadas continua a ser muito procurado, somando já mais de 18 milhões de participantes[3]. 

 O Processo de Bolonha trouxe algumas obrigações aos países participantes: a criação de três ciclos de estudo (Licenciatura, Mestrado e Doutoramento); a obrigatoriedade de reconhecimento dos estudos em intercâmbio (as vulgarmente chamadas “equivalências”); e a implementação de um sistema de ensino de qualidade. Isto permitiu reforçar a confiança nas demais instituições de ensino europeias, aumentando a procura pelos programas de mobilidade.

Figura 3: Evolução mundial do número de participantes em programas de mobilidade[3]

Mais tarde, o Comunicado de Paris procurou aumentar a ambição da EHEA até 2020. Fê-lo através de objetivos bem definidos, como inovar os métodos de aprendizagem e ensino, integrar cooperação transnacional no ensino superior e procurar um futuro sustentável através do ensino superior. 

De modo a facilitar todo o processo de mobilidade de estudantes europeus foi criado o Sistema Europeu de Transferência e Acumulação de Créditos (ECTS), em 1989, em paralelo com o Programa Erasmus. Mais tarde, os ECTS foram integrados no Processo Bolonha, sendo aquilo que conhecemos hoje em dia. No IST, 1 ECTS equivale a 28 horas de trabalho, seja ele autónomo, atividades presenciais ou avaliações. Um ano corresponde a 60 ECTS, ou seja 1680 horas de trabalho (equivalente a 70 dias completos). 

Para além do programa Erasmus, um estudante de Mestrado do IST tem outras opções de mobilidade. O programa de Duplo Grau, em que o estudante realiza um período de estudos numa universidade parceira e da qual recebe um diploma, obtendo assim dois diplomas de Mestrado. O programa Almeida Garrett, realizado durante um período de estudos de, no máximo, 30 créditos, a nível nacional. Já o programa SMILE procura unir estudantes da União Europeia e países da América Latina e Caraíbas. Existem também acordos fora da Europa e até o Virtual Credit Mobility, um programa online em que os alunos têm a possibilidade de ter uma experiência internacional num modelo totalmente virtual e gratuito.[4]

Referências 

[1] – https://tecnico.ulisboa.pt/pt/ensino/estudar-no-tecnico/concursos-de-acesso/mestrados/

[2] – https://tecnico.ulisboa.pt/files/2026/02/regulamento-2-ciclo.pdf

[3]-https://erasmus-plus.ec.europa.eu/resources-and-tools/factsheets-statistics-evaluations/statistics/data/overview

[4] – https://tecnico.ulisboa.pt/pt/ensino/estudar-no-tecnico/programas-de-mobilidade/ 

Lista de mestrados:
MA – Mestrado em Arquitetura

MBiotec – Mestrado em Biotecnologia

MBMRP21 – Mestrado em Bioengenharia em Medicina Regenerativa e de Precisão

MEAer21 – Mestrado em Engenharia Aeroespacial

MEAmb – Mestrado em Engenharia do Ambiente

MEAN – Mestrado em Engenharia de Áudio e Acústica

MEBiol21 – Mestrado em Engenharia Biológica

MEBiom21 – Mestrado em Engenharia Biomédica

MEC21 – Mestrado em Engenharia Civil

MECD – Mestrado em Engenharia e Ciência de Dados

MEE – Mestrado em Engenharia Eletrónica

MEEC21 – Mestrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores

MEFT21 – Mestrado em Engenharia Física Tecnológica

MEGE – Mestrado em Engenharia e Gestão da Energia

MEGI – Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial

MEGIE – Mestrado em Engenharia e Gestão da Inovação e Empreendedorismo

MEGM – Mestrado em Engenharia Geológica e Mineira

MEIC-A – Mestrado em Engenharia Informática e de Computadores (Alameda)

MEIC-T – Mestrado em Engenharia Informática e de Computadores (Taguspark)

MEMat – Mestrado em Engenharia de Materiais

MEMec21 – Mestrado em Engenharia Mecânica

MEP – Mestrado em Engenharia do Petróleo

MEQ21 – Mestrado em Engenharia Química

MERC – Mestrado em Engenharia de Recursos Energéticos

MicroBio – Mestrado em Microbiologia

MMA – Mestrado em Matemática Aplicada e Computação

MPSR – Mestrado em Proteção e Segurança Radiológica

MQ – Mestrado em Química

MSIDC – Mestrado em Segurança de Informação e Direito no Ciberespaço

MST – Mestrado em Sistemas de Transportes

Leave a Reply