“Mais importante que atingir a igualdade dos números é garantir a igualdade de oportunidades”: Cerimónia de entrega do Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo

Autoria: Mariana Lameiro (Estudos Gerais)

No passado 4 de dezembro de 2025, o Salão Nobre do Instituto Superior Técnico (IST) recebem a 9ª edição do Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, sendo galardoadas as Engenheiras Diana Marques e Susana Monteiro, na categoria Young Alumna, e ainda a Engenheira Cristina Cachola, na categoria Role Model, numa edição em que foi atingido um novo recorde de candidaturas. 

Maria de Lourdes Pintasilgo

Maria de Lourdes Pintasilgo nasceu em Abrantes, em 1930, e morreu aos 74 anos em Lisboa, no ano de 2004. Foi formada em Engenharia Químico-Industrial pelo Instituto Superior Técnico, em 1953, tendo exercido a profissão como investigadora na Junta de Energia Nuclear e como chefe de serviço no Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Companhia União Fabril (CUF).  Foi também a primeira (e única até à data) Primeira-Ministra de Portugal, entre julho de 1979 a janeiro de 1980, e Membro do Parlamento Europeu, de 1987 a 1989. 

Devido ao seu percurso, é a personalidade que dá vida à atribuição deste prémio, que decorre há já 9 anos, numa luta pelo encontro e reconhecimento do contributo feminino na Ciência e na Engenharia.

Cerimónia de Entrega da 9ª Edição do Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo

Rogério Colaço, presidente do Instituto Superior Técnico, abriu a sessão alertando para a importância da existência de distinções como esta, evidenciando que “talvez este passado não seja assim tão distante e não esteja tão afastado que não possa regressar se nós não celebrarmos quem lutou contra ele.”

O Presidente do IST levou o seu pensamento mais longe, continuando: “Refletindo um bocadinho sobre isto, quero dizer que, se nós temos leis neste momento que são impostas por outros, que não são discriminatórias, porque é que continuamos com esta discrepância tão grande, nomeadamente nas lideranças?”. Em resposta a esta grande questão, o Rogério Colaço destacou a falta de uma rede consolidada de lideranças femininas. 

E, de facto, analisando as estatísticas de uma escola maioritariamente de homens, no ano letivo de 1950/1951, as mulheres prefaziam apenas 5,5% dos lugares ocupados [1]. Já em 2023, este número correspondia a 29% [2]. 

Mesmo a nível nacional, segundo uma estatística publicada pelo Observatório de Género, que faz parte do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), a diferença de salário médio entre homens e mulheres, em dezembro de 2025, situa-se em cerca de 17,5%. 

É, portanto, neste contexto que o Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo é criado, fazendo-nos encarar uma injustiça social que continua a existir mais de 50 anos depois, tornando a celebração das mulheres na Engenharia o grande objetivo deste prémio, que usa Maria de Lourdes Pintasilgo de forma simbólica: pela mulher que há mais de 70 anos não acreditou ter o seu destino determinado pelo seu género. 

Na categoria Young Alumna foi distinguida a Engenheira Diana Marques, finalista do doutoramento em Bioengenharia. Foi a sua criação em laboratório dos primeiros filetes de peixe através de bioimpressão tridimensional que a levou ao pódio. A ideia era então produzir peixe para sushi, crescendo apenas as células desse peixe. A sua dissertação de mestrado, “Novas Biotipas de Combustíveis Vegetais e Eletrocondutores para Biomas 3D”, já era pioneira neste tipo de investigação, tornando-se no primeiro trabalho experimental no Técnico na área. 

Ainda na mesma categoria, Young Alumna, foi galardoada a Engenheira Susana Monteiro, da área de Engenharia Informática e de Computadores, realizou a sua dissertação de mestrado de grande relevância na área de interoperabilidade segura entre C++ e Rust, em colaboração com a Google. Destaca-se ainda o início de uma promissora carreira na Apple

Nas palavras de Susana Monteiro: “Mais importante que atingir a igualdade dos números é garantir igualdade de oportunidades.” 

Já na categoria de Role Model, foi distinguida a Engenheira Química Cristina Cachola, em reconhecimento de uma carreira de excelência no setor da energia, marcada por uma trajetória ascendente na Galp, que culminou na atual função de diretora da Refinaria de Sines. Destaca-se a liderança exemplar de transformação e descarbonização de uma das maiores infraestruturas industriais do país, através de projetos estratégicos em biocombustíveis e hidrogénio verde, bem como o compromisso com a sustentabilidade, a responsabilidade social e o impacto comunitário. Pela sua visão estratégica, competência técnica e capacidade inspiradora, constitui um exemplo de notável liderança feminina na engenharia portuguesa. 

“A confiança vem de Fiat e vai de Ferrari”, brincou Cristina Cachola durante o seu discurso, numa tentativa de mostrar que é difícil ganhar confiança, mas que é fácil perdê-la.

Após os discursos das galardoadas, Clara Raposo, vice-governadora do Banco de Portugal, apontou, durante a sua intervenção, que a inteligência, aptidão e determinação como as três características que “não têm género” e que, portanto, “tudo é possível para todos.” 

Referências

[1] MAURÍCIO, Mónica – DINÂMICAS ESTUDANTIS NO INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO DURANTE A DÉCADA DE 1950. Janeiro 2008

[2] NEP- Ingresso no IST 

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