Autoria: Duarte Casanova, Engenharia do Ambiente (MEAmbi)


Há já algum tempo que andava à procura de pessoas empenhadas em fazer ativismo, pelo que achei interessante o convite duma amiga minha em participar numa formação de desobediência civil. Nenhum de nós sabia ao que íamos, mas o gosto por este tipo de coisas levou-nos a alinhar na experiência.

No dia da formação de desobediência, ativistas com mais experiência partilharam connosco os valores e qualidades que um grupo de ação deve ter, assim como o seu conhecimento prático no bloqueio de estradas e de oposição às autoridades. Achei bastante interessante, pois era algo que não iria receber em mais lado nenhum.

“Grupos de afinidade” foram criados entre os participantes. Estes são grupos não hierárquicos, de ativistas que deverão estar o mais junto possível durante a ação, de modo a darem o máximo de suporte e confiança entre si. Vim a saber que estes grupos, acabados de formar, estavam destinados a tomar tarefas numa ação direta que viria a ocorrer a 27 de setembro em Lisboa. O seu objetivo seria ocupar uma estrada no coração da cidade, perturbando ao máximo o sistema socio-económico, sistema causador de fortes desigualdades sociais e da extinção em massa decorrente.

Pareceu-me um bom plano, sempre tinha sonhado ver no meu país ações com “mais caráter” e esta era uma oportunidade que não podia perder. Três dias antes do evento a Extinction Rebellion, organizadora da ação, partilhou o local: o cruzamento sobre a paragem de metro Anjos.

foto: Extinction Rebellion Portugal

Era o dia D. Encontrei-me com o meu grupo de afinidade à hora de almoço para revermos o plano e pôr tudo em ordem. Após isso, fomos para o Cais do Sodré, onde nos juntámos à marcha da greve climática. Enquanto esta passava pelo Arco da Rua Augusta, saímos da multidão e fomos para o local anteriormente designado. Havia já bastantes polícias a patrulhar as ruas ao redor de Anjos. Por essa altura, chegou-nos a mensagem que estavam 2 carros da PSP e 10 polícias a vigiar o cruzamento que íamos ocupar. Decidimos separar-nos para parecermos menos suspeitos. Era como se estivéssemos num filme, num suspense sobre olho da polícia, prestes a iniciar uma revolução. 20 minutos antes da ação reencontrámo-nos. Estávamos a tremer com a adrenalina, o que levou alguns dos meus parceiros a sentirem-se mal. Depois de relaxarmos fomos para o local onde aguardaríamos pelo sinal para tomar a nossa posição. A missão do meu grupo de afinidade seria bloquear a estrada que dava entrada no cruzamento a oeste.

Do outro lado da estrada via mais jovens parados. Provavelmente era outro grupo de afinidade à espera do sinal. No centro do cruzamento um polícia sinaleiro mantinha a ordem na estrada. A sul aproximavam-se em marcha os Ritmos da Resistência, seguidos por uma coluna de mais de 400 ativistas, vindos da marcha para se juntar a nós. Os breves momentos em que esperámos que eles se aproximassem do cruzamento pareceram levar uma eternidade. Na altura certa soou o sinal e corremos para as nossas posições. Sentámo-nos na estrada impedindo os carros de passar. Numa questão de segundos, já dois polícias estavam a tentar levantar-me do chão. Com algum esforço, conseguiram arrastar-me para o passeio. Quando, finalmente,  eles conseguiram tirar todo o meu grupo de afinidade da estrada, já o cruzamento tinha sido tomado. Tínhamos conseguido!

A desobediência civil não-violenta que permitira a Gandhi e Luther King melhorar o mundo era agora a nossa arma e estava a funcionar bastante bem!

Em pouco tempo já estavam mais de 500 ativistas a ocupar a estrada, muitos cartazes e gritos vitoriosos no ar. Tínhamos acabado de parar a Avenida Almirante Reis! A desobediência civil não-violenta que permitira a Gandhi e Luther King melhorar o mundo era agora a nossa arma e estava a funcionar bastante bem! Num círculo cercado por polícias começamos a entoar canções, a conversar e a partilhar comida. O ambiente era incrível, havia um amor e união no ar como nunca tinha visto. Um desconhecido era um velho amigo e a comida de um era a comida de todos. Éramos todos heróis, heróis uns dos outros.

Começámos a montar tendas que a polícia nos veio tentar tirar. Por isso, colocámo-nos lá dentro para os impedir. Ameaçaram-nos sem resultado e depois de longos minutos a tentarem puxar-nos, um a um, para fora das tendas conseguiram o que queriam, mas o espírito na acampada era imutável. Estávamos todos orgulhosos e dispostos a ficar tanto tempo quanto possível.

De tempos em tempos os chefes da polícia tentavam negociar a nossa retirada. Por votação unânime, através das opiniões de cada grupo de afinidade, a tomada de escolhas da nossa parte era feita. A polícia queria que saíssemos antes das 8 da noite, a hora do telejornal. Nunca! A situação ambiental é uma catástrofe e todos nós tínhamos consciência que era preciso dar um bom “puxão de orelhas” no sistema para conseguir alguns avanços. Cerca de 20 minutos antes das 8, chegou o corpo de intervenção, agentes com capacetes e fardas muito mais grossas que polícias comuns. A chefe da polícia deu o último aviso para abandonarmos o cruzamento e quando o negámos foi-lhes ordenado que nos tirassem à força.

O ambiente era agora de ansiedade, sabíamos que chegaria a nossa vez, mas mesmo assim entoávamos os nossos gritos e canções. Podiam tirar-nos do cruzamento, mas nunca conseguiriam tirar-nos a determinação.

Imediatamente sentámo-nos numa posição conhecida por “saco de batatas” para que lhes fosse mais difícil arrastarem-nos. Um a um, vi os meus colegas serem retirados da acampada. Conseguia ouvir os gritos de dor daqueles que eram levados. De vez em quando, um polícia atirava um ativista ao chão para lhe bater. As autoridades estavam a utilizar a violência para travar um movimento não violento. O ambiente era agora de ansiedade, sabíamos que chegaria a nossa vez, mas mesmo assim entoávamos os nossos gritos e canções. Podiam tirar-nos do cruzamento, mas nunca conseguiriam tirar-nos a determinação. Quando chegou a minha vez de ser levado, um rapaz sentado atrás de mim pousou a mão no meu ombro, “Força” sussurrou-me ele. “Vais a bem ou vais a mal?” gritaram-me dois polícias. “Não há planeta B!”, continuei eu a gritar. Tentaram levantar-me do chão, mas sem sucesso. Não sei se era o meu aferro, ou até mesmo a vontade da Terra, mas eles não estavam a conseguir levantar os meus 56Kg do chão. Ao ver a dificuldade dos colegas, um terceiro polícia chegou-se à minha frente e apertou-me as bochechas com uma força tremenda. Gritei de dor. O polícia à minha direita dobrou-me o pescoço, imobilizando-me. Torceram-me o pulso direito ao ponto de eu conseguir tocar com os dedos no braço, “Está a doer?” perguntou-me um em tom de gozo. Levaram-me até ao grupo dos ativistas que já tinham sido retirados e, quando me libertaram, fui recebido com um abraço.

Doía-me imenso o pescoço e o pulso, mas a minha consciência estava mais limpa que nunca. Havia agora um clima de compreensão. Todos estávamos magoados e, ainda assim, orgulhosos. Um carinho mágico existia entre todos.

Doía-me imenso o pescoço e o pulso, mas a minha consciência estava mais limpa que nunca. Havia agora um clima de compreensão. Todos estávamos magoados e, ainda assim, orgulhosos. Um carinho mágico existia entre todos. Abracei outro rapaz que acabara de ser atirado ao chão pelos polícias. À minha esquerda outro polícia espancava uma rapariga que não aparentava ter mais de 16 anos. “This is what democracy looks like!” gritava a equipa. Ao ver toda a violência desnecessária à minha volta tive uma sensação nova, que me fez chorar como um bebé e gritar como um guerreiro ao mesmo tempo. Ainda hoje não consigo compreender como é que as autoridades foram capazes de usar tal ferocidade para parar uma manifestação pacífica. Será o salário deles mais valioso que o futuro dos seus netos?

Naquela noite todos nós voltámos para casa não como ativistas, mas sim como heróis.

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