Jornadas de Matemática põem Técnico a dançar

As Jornadas de Matemática, promovidas pelo n{math} – Núcleo de Estudantes de Matemática, que começaram no passado dia 4, tiveram como ponto alto do dia de hoje a actividade “Dança Fluida”. Orientada pelo escocês e também professor do Departamento de Matemática, Roger Picken, a roda de dançarinos improvisados surpreendeu e encheu de curiosidade aqueles que pelas 16:00 passavam pelo átrio principal do Pavilhão Central. A atividade pretendia fazer pensar sobre a ligação entre a Dança e a Matemática, e até onde esta ligação é visível e palpável.

Aliás, é este um dos motes destas Jornadas – A Matemática e as 7 artes. Através de uma análise profunda e cuidada, o núcleo de estudantes de Matemática apresenta-nos uma perspetiva interessantíssima e que passa, decerto, despercebida por muitos de nós que vemos e encaramos a matemática apenas como uma ferramenta. Passando pelas aleatórias peças Klavierstuck XI de Stokausen, na música, até aos estudos geométricos de procura do cânone de Almada Negreiros, na pintura, esta é uma exposição que merece um olhar atento e que nos demoremos.

 

As jornadas de Matemática continuam até sexta-feira dia 7, aproveitamos para destacar o workshop de Haskell, por Hugo Gomes, amanhã, dia 6, pelas 14:30. E, na sexta-feira, pelas 13:30, as R Ladies vão dar um workshop a não perder de Análise de Dados em R & Haskell.

MAAT: O Museu com telhados de cerâmica

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15 horas, cinco de outubro: dia da celebração da implantação da república. É dia dessa instituição aclamada por uns e censurada por outros – o Feriado. Sob um sol abrasador, acumula-se, à porta do MAAT, uma multidão. A pausa a meio da semana e a gratuitidade contribuíram para isso.

A ânsia de conhecer o novo museu da cidade é grande. Há pessoas a ignorar a organização improvisada das filas e ouvem-se alguns gritos e impropérios. Cá fora, sobre a calçada, o sol queima e nem os jornais gratuitos do MAAT valem como um bom tapa-sol. Para muitos, quase todos, a espera vale(rá) a pena.
Passados 35 minutos, a espera acaba. 4 anos e 20 milhões de euros depois, a hora chega.

Chegamos ao foyer e olhamos em redor. Um feixe de pessoas entra, ininterruptamente, pela porta. Vemos, do outro lado, um muro. Aproximamo-nos.  Sob os nossos pés, ao longo de uma parede curva que se fecha numa elipse, desdobra-se a primeira sala do MAAT. Impressionante.

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A Sala Oval, o maior espaço do museu.

Lá em baixo, uma rede cobre os quase 4 mil metros quadrados da sala, e sob ela grandes tapetes arrumados como livros. E bolas. Há crianças, velhos e adultos, os primeiros correm atrás das bolas e os segundos e terceiros vigiam-nas ou simplesmente deitam-se sobre os livros.

É a primeira instalação in-site do MAAT. Pynchon Park. Da artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster – e é quase tudo o que há do museu. À volta, há uma video room e uma project room. Mas mal se notam.
Soube a pouco.

Mas se é verdade que um bom livro não se consegue julgar pela capa, o MAAT é o corolário do inverso – um bom edifício cujo interior não lhe faz jus. É um facto.  Impressiona pela forma e pela sua inclusão na cidade. Diríamos, ao contrário do costume, que o espaço foi feito para aquele edifício.

O imenso terraço é uma alucinação. Uma simples protuberância na marginal. Iluminado por todos os lados (a luz, essa, é a rodos!) conta com o revestimento em cerâmica para ajudar à festa.

“O nosso lugar é nos dois lados da luz”. Sim, mas da artificial!

À entrada do MAAT está escrito algo como “O nosso lugar é nos dois lados da luz”, pode até ser verdade, mas, do lado de dentro, a luz que vem de fora não entra. Apenas a energia da EDP serve para iluminar os espaços. Embora não o sintamos, estamos numa cave. Alta, ampla e muito iluminada. Não é em si um incómodo e muito menos será um problema, isto permite escurecer a sala por completo e fazer, por exemplo, projeções localizadas – a instalação de Foerster tira já partido disto.

Do MAAT muito e muitos esperavam – 60.000 pessoas, são raras em Portugal as inaugurações de espaços como este – alguns terão saído desiludidos, outros encantados, alguns até indiferentes. Mas com as obras do edifício a estarem concluídas apenas em 2017, muito ainda está por fazer e mostrar. Então, voltaremos a escrever…

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À entrada do MAAT, visitantes acumulavam-se à medida que a tarde ia chegando ao fim.

As imagens que acompanham este artigo foram tiradas por mim e a galeria de imagens a preto e branco pelo Gonçalo Ferreira

 

Há algo de novo no Reino da Dinamarca

 

Há algo de novo no Reino da Dinamarca.

Lust For Youth são post-punk dançável. São electrónica cerebral com devaneios amorosos. São reverberações sombrias vindas de um lugar com tanto de inóspito, quanto de íntimo. E são ainda algo mais, apenas explicável na mundividência daqueles que, no sábado à noite, se deslocaram ao Musicbox para ouvir este trio nórdico.

Criado pelo sueco Hannes Norrvide, o projecto, com laivos de synthpop, destaca-se pela forma como concilia a linha lo-fi e gótica com uma estética romântica e rítmica. Oriundo de Gothenburgo, o músico vive agora em Copenhaga, lar de outras bandas como Iceage, Lower e Halshung, e faz-se acompanhar por Loke Rahbek e Malthe Fischer.

Juntos inserem-se num lote de bandas dinamarquesas, com cada vez maior dispersão, assente numa arquitectura sónica frígida, os seus traços cortantes e distanciados. Inclusos na selva de betão da capital, abrem portas ao mundo e ao abismo. É a lírica depurada e niilista que os marca, cravada numa matriz instrumental intimidante e soturna. Os músicos (adolescentes na sua maioria) parecem defender que fomos enganados, e que, no final de contas, talvez a Escandinávia não seja a região mais feliz do mundo.

Afinal, há sombras na terra do Sol da meia noite.

 

A abertura da noite ficou a cargo dos First Hate. Sintetizadores inquietantes e voz lúgubre marcam este duo, também proveniente da capital danesa. A aura de informáticos a quem colocaram um microfone nas mãos e uma tour mundial à porta, não foi, contudo, suficiente para gerar grande comoção na sala ainda por encher. Ainda assim, fazendo do inusitado cool, provaram, mais uma vez, que miúdos estranhos nem sempre dançam sozinhos.

 

Era já perto da meia-noite, quando os Lust For Youth subiram ao palco.

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O público dividia-se entre uma maioria curiosa, em silenciosa expectativa, e um pequeno lote de fãs, frenéticos e empolgados.

A banda, que já passara tanto por Lisboa, como pelo Porto, apresentou-se coesa e compenetrada. Hannes enfrentava o público num misto de displicência e de um auto-controlo, que não deixava de ser palpitante. Rosto pueril, maçãs do rosto emaciadas, num trejeito à Morrissey, e pose desprendida compunham a restante personagem cénica. Ladeavam-no o guitarrista de anorak e capucho (canhões de fumo até nórdicos arrepiam) e o teclista, incógnito por detrás do estandarte da banda.

Os temas ecoaram pelas paredes sólidas da sala que, com as suas luzes esbatidas e clima austero, se tornou no local ideal para receber o grupo. As composições foram intoxicantes, densas e com a melancolia por batuta.

O vocalista, qual Ian Curtis homoerótico, tecia vitrais para uma alma dolente. A sua magreza obscena e sinuosa, expunha os caminhos labirínticos de um coração oblíquo. Como testemunhara em Junho de 2014 à Wondering Sound, era ele “no bem e no mal, tanto apaixonado como pungente” o mote das canções. Mergulhou-se, assim, no vazio, assistindo à apologia de que o amor é bom (s)e fodido.

Ao longo de cerca de 45 minutos, os três elementos tocaram músicas do seu último álbum Compassion (incluindo uma interpretação especialmente tocante de “Sudden Ambitions” ), bem como malhas antigas ( “Illume”, “Running” e, naquele que foi o momento da noite, “New Boys”).

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Em geral, os Lust For Youth conseguiram imprimir a sua forma e estilo. O concerto pedia, contudo, mais variedade na setlist, bem como uma sala mais cheia, para escutar estes temas que cheiravam a amor e cigarros.

E a noites de insónia, logo esquecidas.

Ao contrário desta.

 

Texto: Gil Gonçalves

Fotos: Tomás Monteiro

 

[Este artigo não segue o acordo ortográfico]

Old Jerusalem e o “aceitar das coisas como as coisas são”

São quase dez da noite e Francisco Silva (Old Jerusalem) não consegue encontrar o seu carro. Sigo-o, percorrendo em debandada todos os pisos do parque subterrâneo, na esperança de recuperar a viatura estacionada há muitas horas, no começo de um extenuante dia de contacto com a imprensa.

O músico portuense recapitula metodicamente a sua viagem prévia, jornada que só terminará já de madrugada quando regressar à sua cidade natal, e se preparar para mais um dia de trabalho enquanto economista. Quando, finalmente, a nossa procura é lograda, oferece-me simpaticamente um CD. Fica, assim, provado que mesmo para quem se move dentro de um horário e de uma profissão tão constringentes, há espaço mental para gostos paralelos, desvelos e esquecimentos.

 

Largas horas antes, encontramo-nos num café, no Cais do Sodré. Lá dentro, o ambiente luminoso e acolhedor contrasta com o fim de tarde de inverno; as vozes e conversas rechaçam o frio, espantando o doce negrume que se abate sobre Lisboa. Francisco está sentado ao centro, alheio a estas transformações que envolvem a sala, lendo Patti Smith e aguardando estoicamente a enésima (e última) entrevista do dia. Aqui, como na génese do seu projecto artístico, cimentado a passos curtos e ao longo de mais de uma década, parece cómodo e pragmático.

De facto, é a aceitação do rumo natural das coisas – e não a sua imposição – que pautam o seu estabelecimento enquanto músico profissional, como explica: “Não sou uma pessoa movida por ambições desmesuradas, as coisas acabaram por se direcionar neste sentido”. Sentido, este, marcado pela edição de seis álbuns, vários EPs e pela conquista de ampla admiração por parte da crítica.oj foto 2

 

Oriundo do Porto, desde cedo revelou um espírito com tanto de curioso quanto de diletante. Aos catorze anos, e ainda sem saber tocar qualquer instrumento, previu a composição futura de um disco. Essa promessa tinha, como adianta, mais de caricato que de profético, uma vez que só durante o seu décimo segundo ano de escolaridade, aprofundou o estudo de guitarra no Conservatório, ao mesmo tempo que prosseguia a área de Economia. Esta desmultiplicação temática vir-se-ia a revelar uma constante na vida de Francisco.

A Economia, que inicialmente era “um frete e uma rede de segurança financeira” acabou por se revelar um prazer. Por outro lado, “o que escrever canções implica é diametralmente distinto do que o que essa ciência requer, são mundos diferentes e que se desconhecem, mas que redundam numa base humana comum, o que torna a sua exploração tão interessante.”

Após a envolvência em projectos efémeros como o de uma “banda metal rudimentar” e um conjunto pop, decidiu gravar uma demo com material emprestado. O registo chegou aos ouvidos de Rodrigo Cardoso, membro dos Alla Pollaca, que começava a editora independente Bor Land. Dentro em pouco, os dois músicos procederam a uma parceria, bem como ao lançamento do EP dividido, Alla & Old. Alcançava-se, assim, a atenção dos media especializados e um sonho de adolescência.

Seguiu-se, em 2003, o álbum de estreia: April. Tido como um dos melhores álbuns do ano pela Blitz, apresenta um registo intimista com influências folk, uma beleza insustentável aberta em versos bem pensados.

Old Jerusalem, nome escolhido por causa de uma canção de Will Oldham, rapidamente se tornou num songwriter reputado, de qualidade lírica inegável. As palavras, e os que estas aportam, são uma prioridade, como explica entusiasticamente: “Não descanso enquanto não resolvo uma má linha. Há momentos em que comprometo o espaço sonoro para não enlutar a letra.”

Peço-lhe para desvelar o seu método de composição, proposta a que acede sem veleidades: “Dos sons, à palavra, à rima, à estrofe. A história é a ponte entra as rimas descobertas; a música é o mote, acolchoando a lírica que surge de brincadeira.”

Trata-se de um processo criativo pessoal que o músico, cabelos grisalhos e olhos cansados, sob lentes espessas, perscruta absorto: “É impossível distanciar-me de tal forma que ache as músicas muito boas. Não consigo auto convencer-me do impacto que a minha música possa vir a ter. Contudo, o processo justifica-se a si mesmo: a incapacidade da percepção total do seu conteúdo não o torna menos aprazível.”

Mais uma vez o autor encara com naturalidade a sua obra e o retorno que esta suscita: “Já me pacifiquei com a impossibilidade de prever matematicamente a atenção e a resposta do público.” E acrescenta: “O móbil não é o auto convencimento de grandeza! Há que respeitar o público e a forma como este interioriza o meu trabalho.”oj foto

 

A conversa dispersa-se por entre os meandros do elo criador-crítica. Francisco revela-se um interlocutor nato, dinâmico na sua contemplação vigilante do que o rodeia. Por entre golos de chá, perde-se a atenção às horas, mas ganha-se um melhor entendimento sobre um dos mais singulares cantautores portugueses dos últimos tempos: “A interacção entre produtores e consumidores de música deve assentar num respeito mútuo, pesando, contudo, mais as opções do artista. É um jogo onde o público e o padrão vigente não devem ser constrições. Em última instância, apesar de o critério de apreciação ser o do público, o artista é que manda e deve ter liberdade absoluta.”

No seu caso, o livre arbítrio levou-o A Rose is a Rose is a Rose, o seu trabalho mais recente, e que foi baptizado na sequência de uma frase de Gertrude Stein, remetendo para o “princípio da Identidade e o aceitar das coisas como as coisas são.”

Trata-se do sexto LP de Old Jerusalem e dá continuidade ao labor já iniciado, de forma coerente. Efectivamente, a ideia de Old Jerusalem é relativamente fechada e hermética : “Tem margem de manobra, mas contém uma essência que se deve manter.”

Excepção feita para a nova “colaboração âncora” de Filipe Melo que, ao tocar piano e orquestrações, “trouxe cores que não estavam na minha palete”, bem como as participações inauditas de Nelson Cascais, no contrabaixo, Petra Pais, na voz, entre outras.

Cria-se, desta forma, um álbum mais expansivo, percorrendo um vasto espectro sonoro, sempre orgânico e manejado com mestria. Francisco cunhou aqui “um espaço que deve condensar algo maior, com a fé que o ouvinte tenha experiências similares que tapem os buracos.” Respeita-se a natureza das coisas, o seu ritmo e moldes, “abnegando face ao alheio.”oj foto 3

 

Mais que confrontação, contemplação, num registo que pretende ser um olhar resignado sobre o mundo e o que o move. Pergunto-lhe se, face à situação política (à data, Marcelo Rebelo de Sousa assumia a Presidência da República), tem planos para explicitar uma mensagem política em temas futuros. Convicto, nega o intuito, tecendo paralelos com as raízes do folk, influência mais audível em Old Jerusalem: “O folk de outrora ambicionava uma maior intervenção social, a que o crescimento do género e da indústria tiraram congruência e genuinidade. Acho mais benéfico que cada um pense por si. Até porque tentar romantizar problemas políticos pode inibir a sua solução pragmática, colocando-a num patamar abstracto e impessoal. Os chavões de massas costumam ser falsos, prefiro uma comunicação mais íntima.”

Um diálogo pessoal, com um público que lhe é próximo, a retomar já neste mês de Abril (dia 8 no Maus Hábitos, no Porto, e dia 16 no Teatro Gil Vicente, em Barcelos).

 

Findo o nosso tempo, dirigimo-nos para o exterior do café. Por entre o breu, grupos encaminham-se em rebuliço para alguns dos bares e salas de concertos mais badalados da capital. Não posso deixar de me interrogar se Francisco aspira alcançar uma audiência mais abrangente. Seguro, confidencia, passos acelerados sobre a Rua cor de rosa: “Gostava que a minha música chegasse a muita gente, mas não me moldo a esse propósito. Ainda assim, não quero descambar num acto narcísico: edito para que me queiram ouvir e enquanto me quiserem ouvir!”.

Nós cá o esperaremos, ano após ano.

 

Gil Gonçalves

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico

Youthless e a Evasão pela Arte

A pequena sala da galeria Zé dos Bois, em Lisboa, tremia face ao volume sonoro esmagador. Baixo e bateria reverberavam incessantemente, numa actuação que desafiava tanto a audiência, quanto o sistema de som. Estávamos a 19 de Setembro e os Youthless, sob o nome de Flaming Tits, davam um concerto surpresa. Os temas sucediam-se, sôfregos, numa catadupa frenética e desinibida, que obrigava a multidão a dançar. O duo erguia uma muralha sónica densa, não entre o palco e a audiência, mas sim em nosso redor, delimitando um espaço comum, febril e criativo.alex youthless

 

Um mês mais tarde encontro-me com Alex (bateria e voz) e Sab (baixo) no Jardim da Estrela. O Outono já chegou e com ele os dias mais curtos e remelosos. Cheira a chuva e a luz gasta-se, rapidamente, antecipando um fim de tarde sombrio. Os próprios músicos parecem reflectir a mudança do clima, estando visivelmente mais calmos do que quando os conheci no Verão. Esta mudança anímica não é, porém, novidade para quem toca junto desde os tempos da escola.

“Conhecemo-nos no Instituto Espanhol de Lisboa, e aí formámos uma banda chamada Three and a Quarter. Ensaiámos até o Alex ir para a universidade, nos EUA, onde gravámos um álbum e fizemos uma digressão”, explica Sab. As transições geográficas imperaram sempre numa banda cujos membros provêm de países distintos: “Alex veio de Nova Iorque aos 14 anos e eu passava sempre muito tempo com a minha família, em Londres.”

Foi desta amálgama de culturas, bem como de uma busca constante por novas influências, que despertou o projecto Youthless. A mãe de Alex mostrou-lhe música clássica minimalista, o pai jazz e o irmão rock. Num ensaio, por brincadeira, ele foi para a bateria e Sab para o baixo. Rapidamente criaram sete músicas e aperceberam-se que conseguiam compor a dois.

As suas músicas assumem uma estrutura paralela à da maior parte do rock, na medida em que fazem uso apenas da bateria e do baixo. Este último é ligado a dois amplificadores distintos, o que possibilita tocar em quatro oitavas simultaneamente. A sonoridade é, portanto, espessa e ruidosa: “Queríamos soar como se os Sonic Youth tivessem sido produzidos pelo King Tubby [célebre produtor de dub]”, adianta Sab.

Nas primeiras gravações delinearam o molde em que iria assentar o seu som ecléctico: “um manto sonoro de barulho, onde o próprio ruído seja um catalisador psicadélico”. À composição a dois, e sempre num ambiente descontraído, opõem-se os concertos, celebremente caóticos e explosivos. Não obstante, o seu noise rock visa comover e não apenas alienar, porque, como explica Alex: “a música é uma vibração e nós queremos tocar para pessoas que não a racionalizem, mas que a sintam.”

Talvez por isso prefiram tocar em clubes, salas pequenas e com uma identidade forte, onde o público seja receptivo. Intenções que não impediram, todavia, espectáculos anárquicos, em que assistências menos hospitaleiras ficaram pasmadas com a potência fracturante do seu som e das suas performances. Alex recorda que “num concerto organizado pelo Fua [Joaquim Durães, produtor do festival Milhões de Festa], o Sab bebeu demasiado bagaço e vomitou em palco. Já eu saltei de um segundo andar e magoei-me nas costas…”youthless foto11

 

É curioso ouvir todas estas peripécias e excessos numa tarde sonolenta de Outono. O sino da Basílica da Estrela ressoa, imponente, enquanto Alex pede mais um chá. Veio há pouco de uma sessão “duríssima” de fisioterapia porque, após seis semanas intensas e desregradas, contraiu uma grave lesão nas costas, o que obrigou a uma pausa do grupo. Só recentemente regressaram aos palcos, mais revitalizados do que nunca: em Março irão lançar o seu primeiro álbum.

Apesar de ainda pouco poderem revelar acerca do lançamento do This Glorious no Age, a editar em Portugal pela NOS e no Reino Unido pela CLUB.THE.MAMMOTH e Kartel Records, o seu entusiasmo é palpável. “É um disco que retrata as minhas experiências pessoais de uma forma não filtrada”, principia Alex.

Estes temas são já focados no primeiro single, Golden Spoon, que conta com um videoclip do amigo e colaborador Francisco Ferreira (Capitão Fausto e BISPO). A este seguir-se-á Attention, uma faixa que aborda a complacência com a hecatombe do quotidiano.

Pergunto-lhe se vê as suas composições como eminentemente sociais. Diz-me que “não são arte didáctica, porque não tenho nem o direito, nem o conhecimento para apontar uma direcção. Não são um lamento ou uma lição, mas creio que têm uma componente social implícita, como toda a arte.”

É perceptível a sua mudança de postura: o baterista pondera agora com vagar as respostas. Faz-se notar a seriedade com que escreve as letras, cuidadosamente camufladas sob a erupção instrumental. “Estes singles são a minha observação resignada desta montanha russa de eventos babélicos.” Eventos estes que, afirma, “não importa definir como bons ou maus. É mais importante compreender que catalogar ou adjectivar.”

Alex medita e cita alguns dos seus autores de referência, uma e outra vez, revelando a profundidade do seu projecto de escrita. Ao fazê-lo as suas palavras contrastam com o fim de tarde bucólico: “O capitalismo vai fazer a humanidade definhar. Criou um espectáculo onde a experiência directa cessa e se vive através de um show amplificado pelos media. A internet, por exemplo, permite um maior alcance, mas tira valor à música. Se o que chega a mais gente é mais pequeno, então o seu impacto é menor.”

À medida que o nosso tempo se esgota, consome-se também a luz do dia. Muitas questões ficam em aberto acerca do novo trabalho desta banda, que dissimula observações sociais em malhas distorcidas de alta voltagem. Questões estas que apenas os concertos, como o de dia 21 de Novembro, em Évora, podem ajudar a responder. Até lá fica a convicção da banda de que “a arte nos tira de um meio hermético e nos mostra algo de muito real e verdadeiro. É aí que assume uma vertente social e é nisso que reside o seu enorme poder.”

 

Gil Gonçalves

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico

Foto: Jannike Stelling