O Pequeno Buda quer trazer a meditação às universidades

Tomás Mello Breyner, também conhecido por Pequeno Buda, foi um dos oradores do TEDxISTAlameda e encontrou na meditação um método para aprender a viver em harmonia com as cirscunstâncias da vida. Tem a sua própria escola de yoga e é responsável por um projecto que pretende implementar a meditação diárias nas escolas.

Pela tua talk, ficámos com a ideia de que tens uma visão “naturalista” da religião. Defines-te como panteísta ou simplesmente pensas na natureza como uma manifestação do divino?

Eu penso no divino como um todo, não só como a natureza; mas a natureza também pode ser um todo. Para mim tudo é divino – tudo o que está dentro de nós e à nossa volta -, Deus está em todo o lado. Não me identifico com nenhuma religião e identifico-me com todas. Gosto um pouco de todas, porque acho que todas falam exactamente o mesmo. Depois existem as guerras porque alguns dizem “O meu Deus é melhor”, “Com o meu chegas lá mais rápido do que com o teu”, etc.

 

Ficámos curiosos quando disseste que devíamos aceitar (a palavra utilizada foi até embrace) as coisas que nos acontecem, independentemente de serem boas ou más. Como é que se pode lidar e aceitar de forma “passiva” as coisas más que nos acontecem?

Eu gosto de acreditar que tudo é bom. Quando digo bom, não entro no dualismo bom/mau; as coisas são o que são. O que para uma pessoa é mau, para outra pode ser bom, o que nos leva logo a concluir que as coisas não são boas nem más por si só. Se tu classificas uma coisa como boa, e outra pessoa classifica essa mesma coisa como má, quem é que tem razão? As experiências são apenas experiências que existem. Depois a classificação entre bom ou mau já é uma coisa mental que parte de nós, mas, na sua verdadeira essência, as coisas não são boas nem más; são apenas coisas.

 

Trabalhas principalmente com crianças. O facto de haver uma certa ingenuidade da parte delas e, portanto, inconsciência relativamente a este dualismo bom/mau, é uma mais-valia?

Nós não vamos tão a fundo com as crianças, apenas as tentamos trazer para o momento presente. As crianças costumam estar bastante agitadas – o que está, em parte, relacionado com a era digital em que vivemos – e, depois, quando se tentam concentrar, é um problema, o que dificulta a tarefa dos professores. Assim, o que nós tentamos fazer é resgatar as crianças para o momento presente e fazer com que elas percebam que têm de se concentrar, que é bom estar concentrado. Depois a parte da meditação que conecta com o coração e com a essência não é muito abordada. Por vezes falamos um pouco sobre o coração, mas nunca sobre Deus, religião ou filosofias deste género do bem e do mal.

 

Como é que reagem as crianças quando meditam pela primeira vez?

É muito engraçado! Nós trabalhamos com crianças pequenas e, tudo o que é novo para elas, é relativamente fácil. Elas adoram! É um momento no qual elas dizem que se sentem mais calmas e mais felizes. Já tivemos feedbacks super engraçados, como “É o tempo para o coração respirar”. Elas pedem aos professores para fazer meditação antes dos testes. De certa forma, parece que as crianças sabem que precisam destes exercícios; sabem que estão super agitadas e isto é bom para elas. É fantástico ver como as crianças alinham nisto!

 

E os professores também alinham, ou é mais difícil convencer os professores do que convencer as crianças?

É! O nosso desafio é esse mesmo: convencer os adultos de que as crianças têm de fazer 5 minutos de meditação. Por exemplo, professores de Matemática e professores de Ciências não estão muito para aí virados, então às vezes não fazem. Às escolas que aderem ao projecto, nós pedimos mesmo que façam todos os dias; nem que seja só tocar numa taça tibetana, que faz um sonzinho “plim”, e deixá-las em silêncio. As crianças precisam de aprender a estar em silêncio, porque elas estão completamente agitadas de um lado para outro, cada vez mais. No fundo, é normal as crianças estarem agitadas, berrarem, etc; mas, quando se chega a um extremo, já não é tão normal. Nós tentamos resgatá-las para a calma, para que elas consigam estar mais concentradas na sala de aula e, consequentemente, o processo de aprendizagem seja mais fácil.

A meditação também pode ser uma mais-valia em casos clínicos?

Sim. Para crianças que sofrem de autismo, por exemplo, a meditação é uma grande ajuda. É mais difícil para elas fazerem-no – por exemplo, fechar os olhos muitas vezes é difícil -, mas nós tentamos dar uma força e explicar que é importante. Há várias técnicas para as ajudar. Claro que nós não vimos pregar que a meditação é a salvação e que podemos parar de tomar medicação – não, nós queremos incluir a meditação aos poucos! Estamos só a plantar uma semente.

Achas que a meditação poderia ser útil aos estudantes universitários?

Sem dúvida. Nós estamos a pensar em começar a vir também às universidades. Neste momento também já estou a trabalhar com alunos da Oeiras International School – que vão ter os exames finais exames do secundário no final deste ano lectivo -, a qual me contratou para ir todas as semanas à escola fazer sessões com os alunos. Nas universidades é igual: quando nos acalmamos, as nossas ideias arrumam-se; quando estamos em stress, as nossas ideias dispersam-se.

Na tua talk, falaste ainda sobre o teu problema auditivo. O problema resolveu-se?

Não, continuo com o problema; a minha visão da situação é que mudou. Eu continuo a ouvir o zumbido e ouço mal, mas aceitei a minha condição – é assim que eu sou. Às vezes posso não ouvir bem, mas, em vez de ficar chateado comigo mesmo, aceito-me. Se me cortassem uma perna, também não ficaria à espera que a perna me crescesse, teria de aceitar a minha condição. É assim que eu sou e vivo feliz.

E-mail: tomasmbreyner@gmail.com

Site: tomasmellobreyner.com

Grande Entrevista: Arlindo Oliveira

(esta é a versão na íntegra da entrevista publicada na edição impressa de Novembro de 2016)

Ao fundo do corredor do Conselho de Gestão, o professor Arlindo Oliveira, Presidente do Técnico, recebeu-nos no seu gabinete para uma entrevista descontraída e sem formalidades. Nesta conversa pragmática e de “engenheiros” foram discutidos vários temas relevantes aos alunos e comunidade académica, desde o processo de transição do aluno para o ensino superior até aos desafios futuros do Técnico. No fim, ainda houve fotografias, em que a confiança do professor nos dotes do Gonçalo o levou a dizer “vê lá se me apanhas aí mais direito, que eu estou um bocado torto”.

 


 

Diferencial: Quais foram as razões que o levaram a decidir-se por um curso nesta instituição? Sabia que era isto que queria?arl2pbb

Alindo Oliveira: Já sabia, eu gostava muito de computadores, na altura usava um ZX Spectrum, portanto
na altura foi muito fácil escolher engenharia Electrotécnica e de Computadores.

Durante a sua vida estudantil chegou a participar em associações ou grupos de estudantes?

Não tive uma vida muita activa nos grupos de estudantes, porque também comecei a trabalhar cedo. Entrei no 3º ano para o laboratório no INESC e a partir daí fiz actividades de investigação e desenvolvimento. Na altura também jogava xadrez, que me ocupava um bocado do resto do tempo. Devo ter ido a algumas actividades, mas não estive directamente envolvido. Também na altura não havia tantos núcleos com há agora.

Que tipo de hobbies gosta de praticar no tempo livre?

Eu não tenho assim muito tempo livre, mas jogo ténis e paddle quando posso. Faço jogging uma vez por outra e ski no inverno, quando posso. Já não jogo xadrez, mas quando era novo jogava muito a sério. Agora, volta e meia faço uma perninha no xadrez.

A entrada para o ensino superior é um momento marcante na vida de um estudante. Acha que as escolas secundárias são eficazes nesse processo de transição?

Não sei se as escolas secundárias ajudam muito. Por exemplo, na das minhas filhas os alunos tiveram a oportunidade de visitar universidades, mas acho que é difícil para muitos jovens saber o que que querem quando estão no 12º ano. Eu não sei o que é que podiam fazer para além de algumas alterações.

“[O processo de transição] depende muito de os jovens terem ideias definidas e hoje em dia se calhar têm cada vez menos.”

Por exemplo, a cadeira de Informática podia ter uma componente maior de programação, os laboratórios podiam incluir um pouco de electrónica, mas expor os alunos a outras disciplinas é mais difícil. Estou a pensar em Engenharia Civil, por exemplo. Depende muito de os jovens terem ideias definidas e hoje em dia se calhar têm cada vez menos.

E quanto ao papel do Técnico neste processo?

Acho que aqui eles aprendem rapidamente. Ao fim de um semestre já perceberam bem o que é o curso, não totalmente, porque ainda têm uma carga grande de Matemática e Física, mas existem pelo menos uma ou duas disciplinas no primeiro ano que dão uma boa ideia do que os alunos vão estudar no futuro. Além disso, têm alguma liberdade para mudar (de curso).

Se a chegada à universidade é um ponto fulcral na vida de um estudante, outro é a saída deste meio e a entrada no mercado de trabalho. Como encarou essa fase?

Na altura entrava-se para a carreira de docente como assistente, logo quando se acabava a licenciatura até. Eu na altura tinha-me candidatado para assistente, tinha sido um dos melhores alunos do meu curso, e decidi seguir a carreira académica, que implica o doutoramento. Quis fazer o doutoramento nos EUA, concorri a algumas universidades, entrei numas e não entrei noutras, e acabei depois por ir para Berkeley. Na altura não tive grande dúvida, porque também já estava na carreira académica.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Manuel Heitor considerou a Praxe uma “prática fascizante” e apelou tanto aos dirigentes académicos como aos representantes dos alunos que acabassem com a Praxe, substituindo-a por actividades com vista à integração do aluno na comunidade académica. Qual é a posição do Técnico em relação a este tema?

Concordo com o ministro no que respeita aos casos em que a Praxe é de alguma maneira humilhante, feita de forma a baixar a auto-estima dos alunos. Eu acho que a recepção aos alunos tal como é feita no Técnico, que foge muito a esse tipo de Praxe humilhante, tem os seus lados positivos, embora por vezes se excedam um bocado. São todos jovens…

“Acho que a recepção feita no Técnico é uma coisa positiva de que a maior parte dos alunos gosta, e aqueles que não gostam não têm qualquer pressão para participar.”

Eu tive duas filhas que entraram aqui e até gostaram dessas cerimónias de recepção. Acho que a recepção feita no Técnico é uma coisa positiva de que a maior parte dos alunos gosta, e aqueles que não gostam não têm qualquer pressão para participar.

Quais são as áreas da Engenharia que acha que se estão a expandir actualmente?

Acho que a área da interface entre as tecnologias de informação e comunicação, electrónica, informática, biomédica e biologia, física e nanotecnologia vai ter um grande desenvolvimento nas próximas décadas. Assiste-se também neste momento a um grande interesse noutras áreas que não estão muito relacionadas com esta, nomeadamente as áreas do espaço e da energia e ambiente. Todas estas áreas têm relações com outras como a Engenharia Mecânica, que está a ter grandes desenvolvimentos, um bocado por força da electrónica e da computação.

Este ano lectivo é marcado por uma alteração de paradigma ao nível das médias de entrada. Isto representa uma aposta dos jovens na instituição e a fé de que uma formação nestas Engenharias constitui uma mais-valia. Como vai responder o Técnico a este crescente nível de exigência e expectativa?

Havia já uma tendência, a média dos nossos cursos (Engenharia Aeroespacial e Física Tecnológica) estava a subir e a de Medicina a descer devagar. Há também outros cursos do Técnico, como Matemática e Engenharia Biomédica, que ficaram com médias muito altas. Isso mostra que a Engenharia é uma disciplina atraente neste momento para os jovens e que existe também algum desânimo com a Medicina. É verdade que coloca uma maior responsabilidade, mas temos vindo a crescer e isto já tem muitos anos. Tenho a certeza de que continuaremos a ter cursos com médias muito altas e com alunos muito bons.

Qual é a sua perspectiva relativamente às novas tendências de e-learning face a um ensino mais tradicional?

Acho que relativamente a essas tendências, onde se incluem os MOOCs (Massive Online Open Courses), se tenha exagerado um bocado na velocidade e no impacto com que vão entrar no ensino superior. Nós olhamos à volta para o MIT, CMU, Berkeley, etc., e continua a haver muitas aulas no formato clássico, embora haja já algumas nesse formato. Não é uma coisa que acontece de um momento para o outro, tal como não acontece que toda a gente deixa de vir à universidade e são só MOOCs para todos.

“Não faz muito sentido termos uma aula teórica a ser dada por um professor e gravar a aula inteira, quando os alunos podem ver um vídeo de um professor muito mais interessante e resolver exercícios em casa.”

No entanto, não acontecendo de um momento para o outro, acho que é uma tendência que nós temos de seguir, porque, com tudo o que há na Web e ao nível de aplicações móveis, com as imensas maneiras que há de aprender agora, não faz muito sentido termos uma aula teórica a ser dada por um professor e gravar a aula inteira, quando os alunos podem ver um vídeo de um professor muito mais interessante e resolver exercícios em casa. Acho que nos temos de adaptar progressivamente. Não há justificação para haver más aulas, as aulas deviam ser todas boas, mas se não há condições para que todas sejam boas, se calhar mais vale que estas sejam vistas em casa e que na universidade sejam mais interactivas. Também obriga à alteração dos hábitos dos alunos, que não estão habituados a vir para cá já com o material preparado. Nós vamos agora lançar alguns MOOCs e isto é um passo nessa direcção.

Então esse foi o único passo dado até agora nesse sentido?

Não foi o único, há algumas cadeiras que estão a funcionar em regimes alternativos, mais experimentais, pelo menos no Taguspark.

Uma realidade que afecta grande parte dos estudantes do Técnico é a dificuldade em encontrar um espaço para estudar e trabalhar. É público que há em vista a construção do Técnico Learning Center na antiga gare do Arco do Cego, mas esse é um projecto a longo prazo…

Não é muito a longo prazo, nós queremos iniciar a construção no princípio de 2017 e acabar em menos de dois anos. Neste momento, temos tudo preparado para lançar o concurso este ano. Acho que vai ser um espaço que poderá funcionar em adição a este (Espaço24). Há outros espaços que nós estamos a tentar recuperar para dar melhores condições aos alunos.

Aarlindocores que espaços se refere?

Estamos a pensar qual é a melhor função a dar à piscina, que neste momento está fechada e que provavelmente não vale a pena recuperar.

Existem algumas salas e infraestruturas que apenas podem ser acedidas por alunos de cursos que pertencem a certos departamentos, o que leva a que os alunos tenham uma experiência diferente em termos de qualidade. O que acha desta situação?

A gestão de espaços no Técnico é uma das coisas mais difíceis. Existem de facto alguns cursos mais pequenos que conseguem gerir um pouco melhor os seus espaços e ter algumas salas. Não sei se elas estão completamente reservadas para eles. A nossa ideia é criar boas condições para todos e também pretendemos fazer outra coisa: criar espaços onde os alunos de diferentes cursos estejam juntos para aprenderem uns com os outros, trocarem experiências, fazerem projectos. O Learning Center, além do Espaço24, vai ter espaços para este tipo de colaboração. Aquilo que posso dizer é que também não vale a pena ir piorar as condições de alguns cursos que se calhar têm as condições que todos os cursos deviam ter. A minha esperança é que melhorando as condições globais se elimine um bocado essa assimetria que eu até aceito que haja.

No passado referiu que existia uma disparidade brutal ao nível do salário de um engenheiro no primeiro emprego entre estados da UE. Acha que está a aumentar?

Até pode ser que esteja estável, mas continua a ser grande. Falamos de um factor de 2 ou 3 para a Alemanha e 5 para a Suíça. Os salários em Portugal não têm aumentado e isso causa uma pressão competitiva que é difícil para Portugal, porque há muitos engenheiros que decidem ir para esses países e isso constitui uma preocupação. No entanto, para os engenheiros que não querem sair do país, é um factor competitivo importante. Há muitas empresas a quererem estabelecer-se aqui porque a mão-de-obra de engenharia é mais barata. Ainda agora cheguei de Silicon Valley, onde há várias empresas portuguesas que têm lá o CEO e o departamento de vendas, enquanto toda a equipa de engenharia está em Portugal, nomeadamente em Lisboa e no Porto. Lá, um engenheiro custa à volta de 150 m€ anuais, aqui se for 50 m€ por ano já é um bom salário. Há coisas boas e coisas más.

Tendo em conta o papel das instituições de ensino superior no desenvolvimento da sociedade, o que podem fazer para combater esta realidade e melhorar as perspectivas profissionais dos engenheiros que pretendam trabalhar em Portugal?

Eu tenho andado a pensar bastante nisso. Porque é que em Portugal um engenheiro ganha menos do que na Alemanha ou em Silicon Valley? Porque estas outras sociedades como um todo são mais ricas. Ou seja, um engenheiro lá ganha mais, mas o mesmo é verdade para um professor, por exemplo. Apesar de tudo, o salário de um engenheiro em Portugal não é mau comparado com o salário médio nacional.

“Para aumentar a riqueza geral do país é preciso exportarmos mais e isso implica que tenhamos mais tecnologia (…) O grande valor acrescentado está nas empresas tecnológicas.”

Porque é que este não é mais alto? Não se pode aumentar por decreto como querem os sindicatos. Para aumentar a riqueza geral do país é preciso exportarmos mais e isso implica que tenhamos mais tecnologia, porque neste momento o que se exporta são produtos de metalurgia, biotecnologia, agricultura e pouco mais. O grande valor acrescentado está nas empresas tecnológicas. É necessário criar empresas que exportem mais. Isto é uma coisa que não tem corrido bem, nas últimas décadas não temos crescido quase nada. Penso que neste momento há alguns bons indícios, temos muitas startups, temos empresas de natureza tecnológica já com alguma dimensão. Também temos algumas preocupações, o sistema bancário está muito mal, o sistema industrial também não está como devia estar, mas nós não temos nenhuma mágica.

Passemos à questão da autonomia das universidades. No último orçamento de estado, as universidades ganharam alguma autonomia…

Quase nada, aquilo foi uma coisa muito pequena…

Então diga-me como tem visto a relação entre universidades e o estado.

Nós não temos mais autonomia, o Estado dá-nos um orçamento de 50 M€ e depois não nos deixam fazer nada com esse dinheiro. Não podemos contratar e, quando se compra qualquer coisa, tem de se ir à eSPap (Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública). Dêem o dinheiro que têm, não é muito, o país é pobrezinho, tudo bem. Mas não nos chateiem, deixem-nos gerir esse dinheiro.

“O Estado dá-nos um orçamento um orçamento de 50 M€ e depois não nos deixam fazer nada com esse dinheiro (…) Dêem o dinheiro que têm, não é muito, o país é pobrezinho, tudo bem. Mas não nos chateiem, deixem-nos gerir esse dinheiro.”

Porque existe essa desconfiança?

Porque outros serviços do Estado têm de ser muito bem controlados. Nesses serviços, se se meterem mais pessoas depois tem de se meter lá o dinheiro para pagá-las. As universidades não são assim, não recebem pelas pessoas que têm, recebem pelos alunos que formam. Devem ter total liberdade de fazer o que querem com o dinheiro, naturalmente fazendo concursos públicos para as posições de pessoal, etc. É uma coisa difícil de mudar, porque o Estado continua a olhar para as universidades como repartições públicas. A semana passada estava a ouvir o presidente de Cambridge a dizer que há duas coisas que a universidade precisa: public trust, ou seja, que as pessoas confiem na universidade, e isso já vimos que as universidades e o Técnico, em particular, têm. Depois, de autonomia. O public trust nós conseguimos, a autonomia só quando os legisladores mudarem.

“Há duas coisas que a universidade precisa: public trust, ou seja, que as pessoas confiem na universidade (…) e autonomia. [A primeira] nós conseguimos, a autonomia só quando os legisladores mudarem. “

Qual é a direcção que o Técnico deve tomar nos próximos 10 anos?

Estamos a tentar reforçar as ligações com a sociedade e com as empresas. Temos o programa de Parcerias Empresariais que está agora a ser criado com a comunidade Alumni. Queremos em geral reforçar a transferência de tecnologia e a capacidade de criar empresas e startups. Também queremos internacionalizar mais o corpo docente e os alunos, eventualmente evoluindo para um ensino cada vez mais em inglês ao nível do 2º e 3º ciclos. Há obviamente o desafio orçamental, onde vamos continuar a lutar por outras fontes de financiamento.

Texto – Miguel Martinho

Fotografia – Gonçalo Ferreira

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico

Piscinas encerradas por tempo indeterminado

Este artigo é uma republicação da edição impressa de Novembro de 2015.

“Reabertura é um prejuízo que não podemos suportar até arranjar investimento para renovar as instalações” esclarece Rodrigo Barbosa, presidente da AEIST. O funcionamento e manutenção das piscinas são um prejuízo que a AE afirma não poder suportar neste momento e acrescenta que, sem soluções que viabilizem a abertura da piscina e sem um plano de marketing para atrair pessoas, as coisas não podem rearrancar.

Ao que consta, o mapa de utilização da piscina na posse da AE parece indicar que esta carece de utilização; um argumento adicional para o encerramento das mesmas. Rodrigo Barbosa explica que a concorrência é grande e que, ainda por cima, o comprimento da piscina (24,9 metros) fica 10 centímetros aquém do mandatório para poder albergar provas desportivas oficiais. Ainda assim, convém relembrar que, parte dos utentes, aqueles que tinham comprado entrada nas piscinas e delas não puderam usufruir, ainda não viu reembolsado o dinheiro usado na compra.

O último suspiro do complexo aquático deu-se aquando da visita da Direcção Geral de Saúde, em meados de Fevereiro de 2015. A inspecção acusou a necessidade de obras avultadas num futuro muito próximo, sem as quais a piscina não poderia continuar aberta. Perante a possibilidade de evitar algum do prejuízo que advém do seu funcionamento e antecipando o inevitável encerramento, a direcção da AEIST de 2014/2015 optou por, de forma inesperada para os utentes, encerrar o complexo.

Já no ano lectivo de 2015/2016, a nova direcção da AEIST, após concluir que não dispunha das verbas necessárias para a renovação dos equipamentos da piscina, contactou o Conselho de Gestão (CG) expondo o problema. A possibilidade de encerrar definitivamente as instalações e dar uma nova utilização ao espaço, que chegou a estar em cima da mesa, parece não agradar ao CG. Rogério Colaço, Professor e Vice-Presidente do IST, recorda os tempos em que ainda se faziam praxes na piscina e sublinha o valor histórico e tradicional do complexo aquático do Técnico, um dos poucos no país situado dentro de uma Universidade. Complexo esse que serviu durante muitos anos as necessidades dos seus estudantes e se tornou parte da memória do nosso Instituto. O Vice-Presidente esclarece que “até ao final do ano, o Técnico vai tentar perceber o que se pode fazer da piscina” e, referindo-se à utilização do espaço para outros fins, pediu à associação “que não torne já o processo irreversível”. Até ao final deste ano lectivo, o CG vai explorar alternativas para obter financiamento, entre elas tentar encaixar financeiramente o problema no orçamento da Universidade de Lisboa.

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A piscina passa assim a integrar o lote das instalações que não foram poupadas pela tão infame crise que assolou as universidades do nosso país. A estrutura está velhinha e precisa de obras de remodelação. Não será de admirar, tendo em conta que já lá se nadava na década de 40! Mas atenção, banhos só no Verão. No Inverno os custos do aquecimento eram incomportáveis e as instalações encerravam. Por força da necessidade, ou talvez apenas por agilidade de pensamento, não tardou até que alguém sugerisse utilizar o espaço, sazonalmente desocupado, para outros fins. Foi quando o Técnico adquiriu um estrado de madeira para cobrir a área da piscina, que se transformou numa sala polivalente onde chegaram a decorrer assembleias de alunos, reuniões informais e até mesmo exames! Num trabalho intitulado “Dinâmicas Estudantis, Mónica Maurício, reúne relatos de antigos estudantes que contam como algumas provas, coincidindo com a data de uma importante reunião da NATO realizada no campus, tiveram de decorrer em mesas e cadeiras improvisadas, em cima do dito estrado. Tudo porque simplesmente não havia salas disponíveis.

Entretanto, prevê-se que o hiato se prolongue indefinidamente, uma vez que, ainda que Poseidon decida encher de novo o Grande Tanque do Técnico, e tal pode nunca mais vir a acontecer, ainda é preciso fazer-se as ditas obras.

É caso para olhar para o passado e talvez colocar a questão: onde anda o estrado de madeira?

Old Jerusalem e o “aceitar das coisas como as coisas são”

São quase dez da noite e Francisco Silva (Old Jerusalem) não consegue encontrar o seu carro. Sigo-o, percorrendo em debandada todos os pisos do parque subterrâneo, na esperança de recuperar a viatura estacionada há muitas horas, no começo de um extenuante dia de contacto com a imprensa.

O músico portuense recapitula metodicamente a sua viagem prévia, jornada que só terminará já de madrugada quando regressar à sua cidade natal, e se preparar para mais um dia de trabalho enquanto economista. Quando, finalmente, a nossa procura é lograda, oferece-me simpaticamente um CD. Fica, assim, provado que mesmo para quem se move dentro de um horário e de uma profissão tão constringentes, há espaço mental para gostos paralelos, desvelos e esquecimentos.

 

Largas horas antes, encontramo-nos num café, no Cais do Sodré. Lá dentro, o ambiente luminoso e acolhedor contrasta com o fim de tarde de inverno; as vozes e conversas rechaçam o frio, espantando o doce negrume que se abate sobre Lisboa. Francisco está sentado ao centro, alheio a estas transformações que envolvem a sala, lendo Patti Smith e aguardando estoicamente a enésima (e última) entrevista do dia. Aqui, como na génese do seu projecto artístico, cimentado a passos curtos e ao longo de mais de uma década, parece cómodo e pragmático.

De facto, é a aceitação do rumo natural das coisas – e não a sua imposição – que pautam o seu estabelecimento enquanto músico profissional, como explica: “Não sou uma pessoa movida por ambições desmesuradas, as coisas acabaram por se direcionar neste sentido”. Sentido, este, marcado pela edição de seis álbuns, vários EPs e pela conquista de ampla admiração por parte da crítica.oj foto 2

 

Oriundo do Porto, desde cedo revelou um espírito com tanto de curioso quanto de diletante. Aos catorze anos, e ainda sem saber tocar qualquer instrumento, previu a composição futura de um disco. Essa promessa tinha, como adianta, mais de caricato que de profético, uma vez que só durante o seu décimo segundo ano de escolaridade, aprofundou o estudo de guitarra no Conservatório, ao mesmo tempo que prosseguia a área de Economia. Esta desmultiplicação temática vir-se-ia a revelar uma constante na vida de Francisco.

A Economia, que inicialmente era “um frete e uma rede de segurança financeira” acabou por se revelar um prazer. Por outro lado, “o que escrever canções implica é diametralmente distinto do que o que essa ciência requer, são mundos diferentes e que se desconhecem, mas que redundam numa base humana comum, o que torna a sua exploração tão interessante.”

Após a envolvência em projectos efémeros como o de uma “banda metal rudimentar” e um conjunto pop, decidiu gravar uma demo com material emprestado. O registo chegou aos ouvidos de Rodrigo Cardoso, membro dos Alla Pollaca, que começava a editora independente Bor Land. Dentro em pouco, os dois músicos procederam a uma parceria, bem como ao lançamento do EP dividido, Alla & Old. Alcançava-se, assim, a atenção dos media especializados e um sonho de adolescência.

Seguiu-se, em 2003, o álbum de estreia: April. Tido como um dos melhores álbuns do ano pela Blitz, apresenta um registo intimista com influências folk, uma beleza insustentável aberta em versos bem pensados.

Old Jerusalem, nome escolhido por causa de uma canção de Will Oldham, rapidamente se tornou num songwriter reputado, de qualidade lírica inegável. As palavras, e os que estas aportam, são uma prioridade, como explica entusiasticamente: “Não descanso enquanto não resolvo uma má linha. Há momentos em que comprometo o espaço sonoro para não enlutar a letra.”

Peço-lhe para desvelar o seu método de composição, proposta a que acede sem veleidades: “Dos sons, à palavra, à rima, à estrofe. A história é a ponte entra as rimas descobertas; a música é o mote, acolchoando a lírica que surge de brincadeira.”

Trata-se de um processo criativo pessoal que o músico, cabelos grisalhos e olhos cansados, sob lentes espessas, perscruta absorto: “É impossível distanciar-me de tal forma que ache as músicas muito boas. Não consigo auto convencer-me do impacto que a minha música possa vir a ter. Contudo, o processo justifica-se a si mesmo: a incapacidade da percepção total do seu conteúdo não o torna menos aprazível.”

Mais uma vez o autor encara com naturalidade a sua obra e o retorno que esta suscita: “Já me pacifiquei com a impossibilidade de prever matematicamente a atenção e a resposta do público.” E acrescenta: “O móbil não é o auto convencimento de grandeza! Há que respeitar o público e a forma como este interioriza o meu trabalho.”oj foto

 

A conversa dispersa-se por entre os meandros do elo criador-crítica. Francisco revela-se um interlocutor nato, dinâmico na sua contemplação vigilante do que o rodeia. Por entre golos de chá, perde-se a atenção às horas, mas ganha-se um melhor entendimento sobre um dos mais singulares cantautores portugueses dos últimos tempos: “A interacção entre produtores e consumidores de música deve assentar num respeito mútuo, pesando, contudo, mais as opções do artista. É um jogo onde o público e o padrão vigente não devem ser constrições. Em última instância, apesar de o critério de apreciação ser o do público, o artista é que manda e deve ter liberdade absoluta.”

No seu caso, o livre arbítrio levou-o A Rose is a Rose is a Rose, o seu trabalho mais recente, e que foi baptizado na sequência de uma frase de Gertrude Stein, remetendo para o “princípio da Identidade e o aceitar das coisas como as coisas são.”

Trata-se do sexto LP de Old Jerusalem e dá continuidade ao labor já iniciado, de forma coerente. Efectivamente, a ideia de Old Jerusalem é relativamente fechada e hermética : “Tem margem de manobra, mas contém uma essência que se deve manter.”

Excepção feita para a nova “colaboração âncora” de Filipe Melo que, ao tocar piano e orquestrações, “trouxe cores que não estavam na minha palete”, bem como as participações inauditas de Nelson Cascais, no contrabaixo, Petra Pais, na voz, entre outras.

Cria-se, desta forma, um álbum mais expansivo, percorrendo um vasto espectro sonoro, sempre orgânico e manejado com mestria. Francisco cunhou aqui “um espaço que deve condensar algo maior, com a fé que o ouvinte tenha experiências similares que tapem os buracos.” Respeita-se a natureza das coisas, o seu ritmo e moldes, “abnegando face ao alheio.”oj foto 3

 

Mais que confrontação, contemplação, num registo que pretende ser um olhar resignado sobre o mundo e o que o move. Pergunto-lhe se, face à situação política (à data, Marcelo Rebelo de Sousa assumia a Presidência da República), tem planos para explicitar uma mensagem política em temas futuros. Convicto, nega o intuito, tecendo paralelos com as raízes do folk, influência mais audível em Old Jerusalem: “O folk de outrora ambicionava uma maior intervenção social, a que o crescimento do género e da indústria tiraram congruência e genuinidade. Acho mais benéfico que cada um pense por si. Até porque tentar romantizar problemas políticos pode inibir a sua solução pragmática, colocando-a num patamar abstracto e impessoal. Os chavões de massas costumam ser falsos, prefiro uma comunicação mais íntima.”

Um diálogo pessoal, com um público que lhe é próximo, a retomar já neste mês de Abril (dia 8 no Maus Hábitos, no Porto, e dia 16 no Teatro Gil Vicente, em Barcelos).

 

Findo o nosso tempo, dirigimo-nos para o exterior do café. Por entre o breu, grupos encaminham-se em rebuliço para alguns dos bares e salas de concertos mais badalados da capital. Não posso deixar de me interrogar se Francisco aspira alcançar uma audiência mais abrangente. Seguro, confidencia, passos acelerados sobre a Rua cor de rosa: “Gostava que a minha música chegasse a muita gente, mas não me moldo a esse propósito. Ainda assim, não quero descambar num acto narcísico: edito para que me queiram ouvir e enquanto me quiserem ouvir!”.

Nós cá o esperaremos, ano após ano.

 

Gil Gonçalves

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico

Youthless e a Evasão pela Arte

A pequena sala da galeria Zé dos Bois, em Lisboa, tremia face ao volume sonoro esmagador. Baixo e bateria reverberavam incessantemente, numa actuação que desafiava tanto a audiência, quanto o sistema de som. Estávamos a 19 de Setembro e os Youthless, sob o nome de Flaming Tits, davam um concerto surpresa. Os temas sucediam-se, sôfregos, numa catadupa frenética e desinibida, que obrigava a multidão a dançar. O duo erguia uma muralha sónica densa, não entre o palco e a audiência, mas sim em nosso redor, delimitando um espaço comum, febril e criativo.alex youthless

 

Um mês mais tarde encontro-me com Alex (bateria e voz) e Sab (baixo) no Jardim da Estrela. O Outono já chegou e com ele os dias mais curtos e remelosos. Cheira a chuva e a luz gasta-se, rapidamente, antecipando um fim de tarde sombrio. Os próprios músicos parecem reflectir a mudança do clima, estando visivelmente mais calmos do que quando os conheci no Verão. Esta mudança anímica não é, porém, novidade para quem toca junto desde os tempos da escola.

“Conhecemo-nos no Instituto Espanhol de Lisboa, e aí formámos uma banda chamada Three and a Quarter. Ensaiámos até o Alex ir para a universidade, nos EUA, onde gravámos um álbum e fizemos uma digressão”, explica Sab. As transições geográficas imperaram sempre numa banda cujos membros provêm de países distintos: “Alex veio de Nova Iorque aos 14 anos e eu passava sempre muito tempo com a minha família, em Londres.”

Foi desta amálgama de culturas, bem como de uma busca constante por novas influências, que despertou o projecto Youthless. A mãe de Alex mostrou-lhe música clássica minimalista, o pai jazz e o irmão rock. Num ensaio, por brincadeira, ele foi para a bateria e Sab para o baixo. Rapidamente criaram sete músicas e aperceberam-se que conseguiam compor a dois.

As suas músicas assumem uma estrutura paralela à da maior parte do rock, na medida em que fazem uso apenas da bateria e do baixo. Este último é ligado a dois amplificadores distintos, o que possibilita tocar em quatro oitavas simultaneamente. A sonoridade é, portanto, espessa e ruidosa: “Queríamos soar como se os Sonic Youth tivessem sido produzidos pelo King Tubby [célebre produtor de dub]”, adianta Sab.

Nas primeiras gravações delinearam o molde em que iria assentar o seu som ecléctico: “um manto sonoro de barulho, onde o próprio ruído seja um catalisador psicadélico”. À composição a dois, e sempre num ambiente descontraído, opõem-se os concertos, celebremente caóticos e explosivos. Não obstante, o seu noise rock visa comover e não apenas alienar, porque, como explica Alex: “a música é uma vibração e nós queremos tocar para pessoas que não a racionalizem, mas que a sintam.”

Talvez por isso prefiram tocar em clubes, salas pequenas e com uma identidade forte, onde o público seja receptivo. Intenções que não impediram, todavia, espectáculos anárquicos, em que assistências menos hospitaleiras ficaram pasmadas com a potência fracturante do seu som e das suas performances. Alex recorda que “num concerto organizado pelo Fua [Joaquim Durães, produtor do festival Milhões de Festa], o Sab bebeu demasiado bagaço e vomitou em palco. Já eu saltei de um segundo andar e magoei-me nas costas…”youthless foto11

 

É curioso ouvir todas estas peripécias e excessos numa tarde sonolenta de Outono. O sino da Basílica da Estrela ressoa, imponente, enquanto Alex pede mais um chá. Veio há pouco de uma sessão “duríssima” de fisioterapia porque, após seis semanas intensas e desregradas, contraiu uma grave lesão nas costas, o que obrigou a uma pausa do grupo. Só recentemente regressaram aos palcos, mais revitalizados do que nunca: em Março irão lançar o seu primeiro álbum.

Apesar de ainda pouco poderem revelar acerca do lançamento do This Glorious no Age, a editar em Portugal pela NOS e no Reino Unido pela CLUB.THE.MAMMOTH e Kartel Records, o seu entusiasmo é palpável. “É um disco que retrata as minhas experiências pessoais de uma forma não filtrada”, principia Alex.

Estes temas são já focados no primeiro single, Golden Spoon, que conta com um videoclip do amigo e colaborador Francisco Ferreira (Capitão Fausto e BISPO). A este seguir-se-á Attention, uma faixa que aborda a complacência com a hecatombe do quotidiano.

Pergunto-lhe se vê as suas composições como eminentemente sociais. Diz-me que “não são arte didáctica, porque não tenho nem o direito, nem o conhecimento para apontar uma direcção. Não são um lamento ou uma lição, mas creio que têm uma componente social implícita, como toda a arte.”

É perceptível a sua mudança de postura: o baterista pondera agora com vagar as respostas. Faz-se notar a seriedade com que escreve as letras, cuidadosamente camufladas sob a erupção instrumental. “Estes singles são a minha observação resignada desta montanha russa de eventos babélicos.” Eventos estes que, afirma, “não importa definir como bons ou maus. É mais importante compreender que catalogar ou adjectivar.”

Alex medita e cita alguns dos seus autores de referência, uma e outra vez, revelando a profundidade do seu projecto de escrita. Ao fazê-lo as suas palavras contrastam com o fim de tarde bucólico: “O capitalismo vai fazer a humanidade definhar. Criou um espectáculo onde a experiência directa cessa e se vive através de um show amplificado pelos media. A internet, por exemplo, permite um maior alcance, mas tira valor à música. Se o que chega a mais gente é mais pequeno, então o seu impacto é menor.”

À medida que o nosso tempo se esgota, consome-se também a luz do dia. Muitas questões ficam em aberto acerca do novo trabalho desta banda, que dissimula observações sociais em malhas distorcidas de alta voltagem. Questões estas que apenas os concertos, como o de dia 21 de Novembro, em Évora, podem ajudar a responder. Até lá fica a convicção da banda de que “a arte nos tira de um meio hermético e nos mostra algo de muito real e verdadeiro. É aí que assume uma vertente social e é nisso que reside o seu enorme poder.”

 

Gil Gonçalves

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico

Foto: Jannike Stelling