Entrevista ao “Truques da Imprensa Portuguesa”

No seguimento do artigo sobre o jornalismo na nova era, convidámos as pessoas responsáveis pela página “Truques da Imprensa Portuguesa” para uma entrevista sobre as suas perspectivas relativamente aos desafios da imprensa e, como não podia deixar de ser, abordámos também o projecto que têm vindo a desenvolver, o crescimento da comunidade de seguidores e as polémicas e quezílias que se criaram com alguma parte da comunicação social portuguesa.

 

Antes de discutirmos mais a fundo os desafios que o jornalismo enfrenta actualmente, gostaria de começar por vos perguntar, estando fora do mundo do jornalismo, o que é um jornalista e qual o papel que este deve desempenhar?

A nossa perspectiva é a perspectiva de leitor, de público, construída de forma relativamente empírica. Nós achamos que o jornalismo, em geral, e o papel do jornalista, em particular, é fundamental, porque é o intermédio entre a realidade e o público, constitui-se como uma charneira entre aquilo que acontece e aquilo que é dado a conhecer sobre uma dada realidade – por isso mesmo é tão importante que seja criticado, reflectido e revisto, e é isso que nós tentamos fazer.

 

De onde surgiu a decisão de criar este projecto? De um juízo de que existe um desvirtuamento do jornalismo português?

Não, nós temos uma visão crítica em relação ao estado do jornalismo, mas não temos uma perspectiva catastrofista sobre o mesmo. É verdade que o mundo do trabalho no jornalismo enfrenta problemas muito grandes, o modelo de negócio de empresas de comunicação social enfrenta desafios enormes, há muita gente a discutir e a reflectir sobre isso, e há problemas muito específicos que estão a ser colocados nesta altura. Nós temos referido, de forma sistemática, quais são esses problemas: o problema das fontes, da pressão, da quantidade de trabalho, da necessidade de publicar cada vez mais rapidamente. Enfim, há um mar de problemas que nós procuramos explicar e demonstrar sempre através de exemplos concretos, essa é a nossa filosofia.

 

Uma crítica que costumam apontar frequentemente nos vossos posts, é o facto de existir um certo consenso entre jornalistas em colocar a responsabilidade da dificuldade em fazer bom jornalismo nas redes sociais e em apontá-las como um antro de notícias falsas…

Não é bem isso que dizemos. Existe a perspectiva por parte de alguns jornalistas, e começa a cultivar-se essa ideia, de que as redes sociais são um problema, são um inimigo do jornalismo. Isso não é necessariamente assim, não acho que exista uma espécie de dicotomia, de guerra, entre o jornalismo que defende a verdade e as redes sociais que defendem a mentira. Ora, se as redes sociais são espaços onde, de facto, prolifera muita mentira e muitas notícias falsas, sendo as eleições norte-americanas um bom exemplo disso, são também um espaço de muita crítica, que permitiram o surgimento de novos protagonistas e onde toda a gente pode dar a sua opinião de forma relativamente igual, não havendo propriamente um exercício de controlo sobre quem pode ou é capaz de o fazer. O intermédio da imprensa muitas vezes estabelece quem tem acesso a esse espaço de visibilidade pública – quem são os opinion makers, quem são os protagonistas – e as redes sociais eliminam isso. Do nosso ponto de vista é bom, é uma vantagem.

 

Mas um jornalista, que há dez ou vinte anos, tinha um monopólio da informação, vê-se agora condicionado pelo facto de qualquer pessoa poder ser um “jornalista” e divulgar as notícias de uma forma muito mais rápida do que um meio de comunicação tradicional…

Mas nós discordamos desse processo. Achamos que aquilo que pertence ao mundo do jornalismo deve continuar a ser exclusivo do mundo do jornalismo, não pretendemos disputar, com a página que temos, o seu universo. Se alguém tenta substituir, isso não faz sentido, é uma profissão que requer instrumentos, seja do ponto de vista formal, seja do ponto de vista intelectual. O jornalismo deve ser respeitado e deixado aos jornalistas. As redes sociais, por si, são uma estrutura, que pode ser utilizada para o bem ou para o mal, aliás como a própria imprensa, que não é inerentemente boa. As redes sociais são uma estrutura onde existe tudo, porque é onde estão todas as pessoas de todos os tipos. Essa correlação directa entre as redes sociais e as notícias falsas, para nós, é errada e desonesta do ponto de vista intelectual.

 

Se grande parte do público recorre às redes sociais para receber notícias, o controlo e a visibilidade que os media têm acaba por se diluir um pouco na amálgama de informação da rede social. Essa descaracterização e omnipresença das redes sociais não se vai reflectir numa transformação do comportamento dos media tradicionais?

Compreendemos que isso é um grande desafio e que deve ser feita uma reflexão urgente, mas esta não deve ser feita por nós. Agora, nós achamos que este desafio não deve levar os jornais ao clickbait, porque isso só funciona a curto prazo. No fundo, o clickbait pode enganar o público nos próximos tempos, dias, meses, anos, e conduzir a mais venda de publicidade, mas lentamente vai desgastando a credibilidade da imprensa tradicional, que é o seu principal capital. Se abdicam deste capital, então é inevitável que mais ou menos lentamente se acabem por destruir enquanto projecto de jornalismo.

 

Mas uma empresa de comunicação social, enquanto negócio, não pode esquecer quais as características do público para quem comunica. Se o público tem mais interesse em notícias sensacionalistas, em notícias que se foquem no futebol ou no mundo das celebridades, existirá uma tentativa de dirigir a sua linha editorial para que seja mais atractiva para essa parte mais significativa do público…

Sim, mas isso é uma questão de ética profissional. Não significa que a comunicação social tenha de capitular perante isso. Não acreditamos que é um mau público que faz uma má imprensa. É uma má imprensa que faz um mau público e um mau público que faz uma má imprensa. É uma situação de circularidade. O Correio da Manhã tem uma grande tiragem não só porque há muitos leitores a comprar, mas também porque há muitos leitores pouco informados para aceitarem algumas coisas do Correio da Manhã, porque existe o Correio da Manhã a fazê-las. É um processo em simultâneo.

 

O que acham da comunidade que se formou à volta da página e do seu crescimento?

Nós achamos que é interessante e que de certo modo veio dar razão às nossas críticas. A página é assumidamente um espaço de crítica e de subjectivação. Não queremos dar informação, não nos queremos substituir ao jornalismo. Se a comunidade cresce, significa que há gente a achar relevante esse espaço de crítica.

 

Relativamente a algumas críticas que têm saído por parte da imprensa em relação à vossa página- sendo o exemplo mais recente o caso com o Ricardo Costa, jornalista do Expresso- o que transparece é uma reacção algo corporativista da comunicação social que não parece ser capaz de encaixar críticas feitas ao meio, e isso é algo que me incomoda, porque numa situação em que a crítica é dirigida à comunicação social, sendo ela própria responsável por informar e servir de plataforma para fomentar a discussão e opinião, pode dar-se o caso de ser parcial em situações que a envolvam…

Sim, quem é o árbitro nessas situações? Não te consigo dizer. Acho que tem de ser o público. Penso que há, de facto, uma reacção corporativista à nossa pagina. Há muita crítica muito pouco fundamentada. O caso do Ricardo Costa é um exemplo… é capaz de ter feito muitos tweets sobre nós, mas o que encontras nos tweets são só críticas ad hominem e intimidação. Não há nada de concreto. Nós estamos totalmente disponíveis para discutir factos concretos sobre os nossos posts e críticas, e isso às vezes acontece. Se fores ver os comentários, há muita gente que dá posições opostas e nós tentamos dar visibilidade a esse debate. Da parte dos jornalistas, pelo menos de alguns, até porque há muitos a elogiar a página e o trabalho feito, há mais dedicação à destruição da credibilidade e simpatia da página junto do público.

 

O que acham da qualidade do jornalismo em Portugal? Pensam que o vosso trabalho tem dado frutos no sentido de a melhorar?

Relativamente à qualidade do jornalismo, pensamos que a maior parte dos jornalistas faz um bom trabalho, diário e silencioso, e podemos vê-lo quando abrimos os jornais. Havendo problemas, é necessário destacá-los e discuti-los. No que toca aos frutos do nosso trabalho, nós preferimos deixar essa questão ao público. Queremos acreditar que sim, até porque isso se traduz numa correcção de notícias em resultado da publicação de posts da página. Isso já nos deixa satisfeitos. Se é uma transformação estrutural ou mais de fundo, isso deixamos para os seguidores e leitores.

 

Consideram que existe um condicionamento do jornalismo português devido a pressões políticas e de grupos económicos? Veja-se o caso angolano, em que boa parte da imprensa portuguesa se manifesta de forma silenciosa sobre acontecimentos que sejam negativos para o actual executivo angolano.

Nós preferimos falar sobre assuntos em concreto. A questão angolana é bastante importante. Nós acompanhámos o caso de Luaty Beirão e verificámos que existia um padrão. Os jornais com capitais angolanos passaram o caso para segundo, terceiro planos, ou às vezes nem isso… quando era um assunto com interesse, do espaço da lusofonia, que tem interesse para o público português. Agora, nós não fazemos esse tipo de acusações, porque não nos cabe a nós nem temos meios para provar essa influência, mas fazemos uma crítica e damos essa informação aos nossos seguidores para reflectirem sobre estas questões da imprensa.

 

Por que razão se preferem manter no anonimato?

A questão do anonimato não é uma questão fechada, mantém-se em aberto. O anonimato tem a ver em primeiro lugar com a protecção da nossa privacidade, temos vidas privadas que nada têm a ver com o jornalismo, nem somos figuras públicas, e isso podia ser colocado em causa. Ao estarmos a aprofundar temas sobre um poder fundamental da democracia, a imprensa, muitas vezes secundarizado ou esquecido, nós sabemos que a nossa posição nos fragiliza imenso, até porque já recebemos várias ameaças. Em segundo lugar, nós acreditamos que o anonimato é uma questão fundamental, porque funcionamos como gestores de conteúdos, uma vez que cerca de 95% dos nossos posts advêm de sugestões dos nossos seguidores. Que sentido faz assumirmos a autoria de uma coisa quando somos apenas coordenadores de um projecto?

 

Porém, a questão do anonimato não permite defender, por exemplo, de acusações sobre afiliações partidárias e pode gerar alguma desconfiança…

Sabemos que traria algumas vantagens não permanecer no anonimato. Permitir-nos-ia destruir essas acusações. Mas repara no seguinte, nós não pedimos a ninguém para confiar em nós. Não fazemos ameaças a jornalistas, nem é frequente referirmos nomes de jornalistas. É muito pontual e sempre de forma justificada. Não é um anonimato que esconda um crime ou vergonha. Mas tem, claro, as suas desvantagens. A nossa identidade, para o valor das nossas opiniões, é absolutamente irrelevante. Se as nossas críticas forem mal fundamentadas ou mal dirigidas, elas podem ser expostas e criticadas na mesma, independentemente de quem somos.

Somos tudo mas não somos nada

É impossível escapar ao turbilhão de informação que nos assola diariamente, repleto de relatos do mundo. Para além dos habituais meios de comunicação como jornais, rádio ou noticiários televisivos, também as redes sociais fazem questão de nos manter bem informados, pelo que nem os mais distraídos escapam. No máximo fazem-se despercebidos, talvez como mecanismo de defesa. De facto, dado o cenário atual, adotar uma posição assumidamente de ignorante ou alheio ao meio que nos rodeia pode parecer atrativo e até apresentar algum encanto, ainda que idílico e inevitavelmente temporário.

Vivemos num mundo revoltado, impaciente e claramente cansado, esgotado. A prova deste estado é frequente, ou melhor, infelizmente diária, e ainda que haja muito por onde escolher, é seguro afirmar que o infortúnio que mais nos afeta e assombra atualmente é a ameaça terrorista na Europa, seguida de forma minuciosa pelos meios de comunicação. É assustador o clima de tensão vivido, principalmente após os recentes atentados em Paris, que concretizaram a ameaça iminente e mergulharam a Europa num estado de alerta e medo. Perante todas as notícias sobre o sucedido e testemunhos reais de quem sobreviveu ou perdeu um seu é-me inevitável colocar na posição de quem, de um modo ou de outro, foi vítima não só desta tragédia, mas de muitas outras: como reagiria num cenário semelhante? Entraria em negação, esperando que tudo fosse um pesadelo que em breve acabaria? Fugiria? Sobreviveria? E se sim, conseguiria ultrapassar o trauma? Processar de forma inteligível o que parecia surreal? Como é sequer possível recuperar? O facto de ter sido divulgado uma espécie de manual sobre “como proceder em caso de atentado”, à semelhança de “como proceder em caso de sismo” é de arrepiar o mais descontraído. O último refere-se a um fenómeno natural imprevisível, enquanto o primeiro é uma bofetada na cara da Natureza.

O acontecido em Paris é infelizmente uma amostra do que diariamente ocorre em países devastados pela guerra que se prolonga, onde estas e outras questões ocupam o pensamento daqueles que já não conhecem outro modo de vida senão o da sobrevivência. Destaca-se a Síria, foco de atenção, porém muitos mais são alvo de violência extrema e palco de uma frieza desumana como o Iraque, Paquistão, Afeganistão, ou Nigéria, países que em conjunto detêm cerca de 78% das mortes registadas por terrorismo.

Novamente, os meios de comunicação não desiludem e fazem questão de nos manter atualizados: um massacre num hotel de luxo no Mali, um bombista suicida que provoca a morte de mais de uma dezena de pessoas durante uma procissão na Nigéria, ou num autocarro da guarda presidencial na Tunísia, o aumento do número de crianças-soldado no Sudão do Sul, já para não referir a crise migratória na Europa, pelo que a lista é extensa. Consequentemente, cresce a intolerância e a discriminação generalizadas contra os muçulmanos que se traduz, a título de exemplo, no aumento exponencial do número de crimes de ódio contra os praticantes do islamismo no Reino Unido.

No meio de tanta desventura como é sequer plausível acreditar que ainda reste alguma esperança para a humanidade? Para manter a nossa sanidade mental talvez seja boa ideia focarmo-nos nas coisas boas. Assim o façamos então! Há sempre uma Black Friday para animar o espírito, mesmo que só uma vez por ano, para satisfazer os nossos caprichos consumistas, isto se não der para o torto e acabarmos literalmente espezinhados pela nossa própria ganância, tal é a ironia! Estamos também em plena época natalícia! Contudo, parece já não existir felicidade, nem que seja nas coisas mais pequenas, que não seja obscurecida pelo véu negro da realidade. Resta a felicidade pura nos olhos de uma criança ingénua, que em breve será elucidada. Oxalá, para seu bem e de todos nós, não cresça com uma arma nas mãos.

Perante tudo isto, e ainda que me acusem de porventura assumir, por momentos, uma posição de ignorante e alheia, tento colocar tudo em perspetiva. A verdade é que somos tudo, mas não somos nada. Falta-nos a perceção da nossa pequenez no universo, a perceção da quão privilegiada e efémera é a nossa existência, quer seja por mero acaso ou por dádiva divina. E se nada somos na face ilimitada do universo, se não é certo que não exista vida para além da nossa em algum outro recanto da sua vastidão, quem nos garante que nesse recanto seres superiores não se divirtam com a nossa primitividade?

Há quem defenda que este período atribulado que testemunhamos é só mais um na nossa história e que o havemos de superar. Não nego, e até encontro algum consolo nessa tese otimista.

As palavras aqui partilhadas são de quem assiste de fora o desenrolar dos eventos e que pouco ou certamente nada sabe sobre estratégia militar ou política, de modo a poder formular uma opinião mais fundamentada, restando apenas o desconforto da incerteza quanto ao futuro. Pesa ainda a questão que, no mínimo, passa esporadicamente pelo nosso pensamento: valerá a pena?

 

Beatriz Silveira

 

*Este artigo foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico